quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ir à faca


Seis da manhã. Diz o despertador. 
Noite mal dormida. Não dormida. Voltas e mais voltas. Raios me partam. Perna fora da cama para o inchaço não aumentar. Está do tamanho de uma bola de ténis. Dores. Muitas. Tenho um cão agarrado à barriga da perna. A morder. Está danado. Deve ser um pitbull. Já percebi que isto não vai lá com comprimidos, creminhos, mezinhas e festinhas. Foda-se ! Não aguento mais. O coração está na perna. Salta. Quente como infectado. Mas não tenho febre. Então não deve ser pus. Mas é uma bola de ténis. De sangue coagulado. Um trombo. O meu pai vem-me apanhar às oito e meia. Deve levar-me à Clínica. Mas porque é que duas horas são tão lentas ? Passam como lesmas. Moles e inúteis.
A buzina lá fora. Não aguento mais, pai. Isto tem que ser lancetado. Põe-me alguém a tratar disto. Estás a enganar-te no caminho.
Vou distraído, filho. Ando a ler um livro engraçado. Comprei no aeroporto de Hong Kong enquanto esperava o avião.
Era para ali. Para a direita.
Não, agora não era. Chatice, filho, hoje o passeio está todo ocupado. Espera, há ali um sítio à cunha. Ninguém pensa nos outros.
Vá deixa-me sair.
(balcão, nome, data de nascimento, cartões, explicações)
Clínico geral temos.
Qualquer coisa. Preciso é que me vejam a perna já e façam qualquer coisa. Dêem um tiro no cão.
Qual cão ?
O que morde. Tenho que me sentar. Aquela cadeira de rodas é para mim.
Ortopedista já cá está, mas consulta só daqui a uma hora.
Quer que eu caia para o lado. Olhe que ele não me larga a perna.
Faça lá um jeito que o meu filho precisa mesmo de ser visto.
Primeira porta do gabinete do lado direito.
Eh, pá ! Como é que fez isso ?
Já disse noutro lado que não fui eu. Foi um tipo. Dos Alheiras. A outra equipa.
Mas deu-lhe um pontapé na perna ?
Acho que foi canela.
Não, isso foi um biqueiro. Em cheio. Vocês têm de jogar com mais calma. Isso não é de amigo.
Mais calma ? Mas faz-se o quê quando um comboio nos cai em cima ?
... E já não sai daqui. Isso nunca seria absorvido. Vai ser drenado. Já. Vou-lhe abrir isso. E deitar tudo cá para fora. Senhora Enfermeira, prepare essa marquesa. Vamos fazer uma cirurgia. Já. Deite-se ali. E vai a frio. Não tenho anestesia, nem whisky. Como se estivesse na guerra.
Ok. Aguento. 
Senhora Enfermeira, arranje-me aí um canivete e betadine. Não olhe, pá.
Não olho.
Estique-se todo para trás.
Porra !
Desculpe.
Porra.
Desculpe. Tráaa, tráaaa, tráaaaaa.
Nem sabe o que saiu.
Deixe ver. Grande merda. Filho da mãe.

Desta vez lembro-me dos últimos golos.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

On Wall Street


"It's like I always say, money is something you need in case you don't die tomorrow."

sábado, 25 de setembro de 2010

"Estás em linha recta para te aleijares outra vez."

Então, por cá outra vez ?
Como ?
Por cá outra vez ?
O quê, lembra-se de mim ?
Sim, radiografia. Ao joelho, certo ?
Estou impressionado. Se me disser que foi ao joelho direito, fico cá.
Não, isso já não. Mas lembro-me de si. Com esses olhos caídos. Como um cão abandonado. E agora ?
Agora a radiografia. Perna esquerda. Canela.
Levante a calça. Até ao joelho. Uiii. Isto está feio. Porradona valente... E ficou bom ?
Sim, recuperei. Sem menisco e com o tendão rotuliano atarrachado no osso a fazer as vezes do ligamento cruzado. E esta dormência que nunca me vai largar a cicatriz.
E voltou ?
Claro. O que é que um gajo pode fazer ? Não me lembrava do último golo.
Deixe-se disso. Como vê, o desporto só faz mal à saúde.
Também me disse isso da outra vez.
Porque é verdade. Vá, deite-se. Cabeça para trás e estique a perna. Agora de lado, perna dobrada.
Calma. Está a doer.
Que é que quer ? Bem, já está. Agora vai ali para outra sala falar com a médica. Espero que não seja tão grave.

Então Doutora, está partida ?
Não me parece. Não vejo nada. Nem tíbia nem perónio. Mostre-me lá a perna. Caramba! Quando é que foi ?
Ontem à noite.
E como é que fez isto?
Eu ? Não fui eu. Foi um pau. Eu a rematar de um lado e o outro tipo a atacar a canela. A bola já não estava lá.
É sempre uma bola. Não sabem jogar devagar.
O gajo é do Porto. São rijos que se farta.
Você também. Ao menos marcou algum golo ?
Três. Antes do cacete.
Dói ?
Quando ponho o pé no chão. Ou se continuar a carregar como está a fazer.
E está quente. Ficou com a perna num trambolho. Não gosto nada desse negro arroxeado. Porque é que só veio cá hoje ?
Porque ontem já era tarde e elas é que quiseram.
Humpf... Ok. Se aumentar de tamanho ou se o traumatismo ficar mais negro, vem logo para cá. Para já toma estes comprimidos. Doze em doze horas. E passa esta pomada. Continua a fazer gelo. Trata com isto e com isto. Mais do que a canadiana, quero essa perna levantada. A ver se esse coágulo é absorvido. As melhoras. Ah, e durma com a perna de fora que o calor faz inflamar.

Quando era puto não costumava ser assim. Eram só joelhos e cotovelos esfolados. E o álcool depois disso. Ok, também parti um braço, mas não foi a jogar. E fui com o gesso no braço quando os rapazes passaram lá por casa com a bola na mão.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Representar na vida real - um actor do caraças !

Antes (Fev. 2009)



Depois (hoje de madrugada)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

do "Lisbon"

na New York Public Library.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O Tigre da Malásia


Sandokan: Sur qui avez-vous tiré, Marianne ?

Marianne: Comment sur qui ? Mais sur le tigre... Et je l'ai fait pour vous empêcher de faire la bêtise de le poignarder avec votre kriss.

Sandokan: Vous me faites du tort, Milady... Mon kriss est prêt à lui arracher le coeur.

Marianne: Oui, oui... Je sais bien que vous êtes courageux... Mais un tigre reste un tigre.

Sandokan: Qu'importe... Je voudrais qu'il me cause de telles blessures... Que... J'en aurais pour toute une année.

Marianne: Ah... Et pourquoi donc ?

Sandokan: Parce que mon coeur se brise à la pensée que Je devrai un jour vous quitter. Mais si le tigre me mettait en pièces Je serais contraint de rester auprès de vous.

"Ah, que não seja meu O mundo onde o amor morreu"

sábado, 18 de setembro de 2010

"How the fuck is he doing this ?" *

É meia-noite. Passam 40 anos sobre a morte do melhor guitarrista de todos os tempos.

 
Jimi era apaixonado pela guitarra. E um fanático da electricidade.
Ligava o amplificador e com a Fender Stratocaster nas mãos, levou o experimentalismo alucinado e psicadélico dos anos 60 a patamares nunca antes atingidos. Diz quem o viu ao vivo que Jimi Hendrix fazia a guitarra gritar. Eu só tive direito aos discos e aos filmes. Em Monterey, em Woodstock, na Isle of Wight.
Jimi Hendrix era canhoto, mas ao contrário da maioria dos canhotos, não inverteu as cordas da guitarra para tocar (como Paul McCartney). Hendrix tocava com a guitarra do lado contrário ao dos dextros, mas com as cordas na mesma posição. A corda mais aguda em cima e as mais graves em baixo.  


E fez explodir a cena musical dos anos 60 mostrando ao mundo o domínio mais que perfeito de um instrumento eléctrico. Ele que fazia amor com as suas guitarras, a quem queria mais que a qualquer mulher.
Não admira, por isso, que no fim dos seus concertos, Jimi Hendrix se encontrasse completamente exausto e esgotado. Tocava com a guitarra nas costas, tocava com os dentes, no chão, deitado, contra o amplificador, provocando muralhas de contínuo feed-back. Tocava com tudo. Ficou célebre, no concerto de 1967 de Monterey (o primeiro dos grandes concertos ao ar livre), o sacrifício final de Jimi Hendrix. Após um monumental "Wild Thing", Jimi regou a Fender com gasolina e deitou-lhe fogo perante um público atónito. Embora muitos não percebessem o significado deste gesto, Jimi Hendrix estava, no fundo, a oferecer o seu bem mais precioso aos deuses e, de certo modo, a agradecer o dom que lhe fora concedido. Um dom que meio milhão de pessoas pôde beber em Woodstock quando Hendrix fez entoar por aquela multidão adentro o "Star Spangled Banner", numa homenagem aos jovens americanos que naquele momento, bem longe dali, na selva do Vietname, caíam para nunca mais. Nunca um hino terá gritado tanto.

Jimi não sabia ler pautas, o que o frustrava, mas não impediu que criasse e dominasse a palavra música. Tudo o que sabia tinha aprendido de ouvido. De alma. Com dedos e dentes.
Editou apenas três discos de originais em vida e um álbum ao vivo - "Band of Gypsys" - em Filmore East. Até nisso se parece com outro Jim - o Dean - que também só viu estrear três filmes. Mas, ao contrário deste último, continuamos, anos após anos, a assistir aos lançamentos de álbuns póstumos com gravações inéditas num baú longe de ter fundo. Pior que Pessoa.

Jimi Hendrix andava sempre com a guitarra atrás. Até na casa-de- banho aproveitava para tocar. Adorava a amplificação do som. A paixão pelas guitarras era tal que um amigo disse mais tarde ter-lhe preocupado ver Jimi numa festa... sem ela. Estava perto do fim.

Jimi Hendrix morreu no dia 18 de Setembro de 1970. Como todos aqueles que são tocados pela magia genial dos deuses, viveu depressa e morreu mais cedo. Um músico de excepção enfiado no meio da revolução sexual, como na famosa capa do "Electric Ladyland".


* comentário de Miles Davis num concerto de Jimi Hendrix.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

like corners of the mind


"A Memória é uma tarde de setembro
um deus que te visita
a fruta pressentida pelo desejo
um corpo nu de criança
estendido ao sol
sobre a erva a roupa branca o seu incêndio
o equilíbrio difícil da sombra
um olhar bravio que te espia e dentro
da boca poisa

e por fim escorre para dentro de ti
e não podes fazer nada."

Manuel Afonso Costa (1949)
Os Últimos Lugares

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Shiny happy People"

Há gente que vive numa espécie de definitividade mortal. De linha recta. Muito vertical. Um pau. Outros que a aceitam. E obedecem.
E por isso há gente que não dá hipótese à incerteza que, com sorte, às vezes surpreende.
É nesse lugar seguro e radical que se constrói afinal uma definitividade que lhes é vital.

(T-shirt ed. by Huli
in Hong-Kong)

red roads

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Irmãos gémeos

"Certains auteurs deviennent des mythes. À cause de ce qu'ils ont écrit, mais aussi, dans une certaine mesure, indépendamment de ce qu'ils ont écrit.
Parfois, leur oeuvre devient une glose sur leur vie elle-même, tout au moins pour ceux qui leur vouent un culte.
Nous ne parlons pas de Saint-Exupéry: cette histoire de Pratt raconte qu'il est un mythe; il ne s'agit pas d'une reconstruction de son oeuvre, c'est plutôt une glose fantastique sur sa vie. Mais je soupçonne Pratt d'être lui aussi devenu un mythe pour beaucoup de ses lecteurs. J'en ai les preuves."

Umberto Eco


"Je raconte toujours la vérité comme s'il s'agissait d'un faux. À la différence de beaucoup d'autres qui racontent des choses fausses en voulant qu'elles soient vraies, je vous raconte la réalité comme si elle était fausse et c'est là qu'elle devient double, triple, et le lecteur comprend ensuite que quelques-unes des choses que j'ai dites étaient vraies et alors, c'est avec un intérêt plus grand qu'il part à leur recherche."

Hugo Pratt

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Os Melhores Amigos - Parte II

... Até que entramos na Faculdade. E a pressa dá lugar à dúvida, crítica e desconfiada do quem são estes gajos ?, que olha de esguelha. Seguida quase sempre de uma boa discussão. Arrogante do caraças ! Ou não. Dêem-lhe tempo. Deixem-no falar. Afinal, o tipo é dos bons. Meio maluco, mas entra. Encontramo-nos logo à noite para um copo. Na Trindade. Vens passar o fim-de-ano connosco. Vamos para Porto Covo. Ok.
E, como gostamos de fazer amigos, conhecemos malta nova.
Tive sempre a sorte de ter bons amigos. Mas tive ainda mais sorte por ter feito os Melhores Amigos depois dos melhores amigos.
Dois artistas bem apanhados. Dois tipos que são como irmãos. Donos connosco de tantas histórias que já não sabemos de quem são ou quem as começou, e que seria impossível contá-las aqui. Porque é impossível meter 15 anos que parecem 30 numa folha de papel. 
O que é que se conta de bocados sem conta ?
As noitadas de copofonia que nos atiraram para o dia seguinte com o remorso abstémio e juras de nunca mais ressaca ? A acordar debaixo do sol que frita no Alentejo ao meio-dia ?
Ou a Purple Haze de Amesterdão que entorpece, mas menos que os magic mushrooms... que nos quiseram pendurados no suporte onde se põem as malas num comboio que acabava na Gare du Nord com cortinas que mudavam de cor ?
As garotas de quem falámos ? Todas ? Os discos trocados ? Dos Pink Floyd, dos Stones ou do Vinicius ? Da Astrud a cantar "Água de Beber" ? As discussões sobre o top 5 dos melhores guitarristas ?
Não há tempo, porra. É muita coisa.
São os três inter-rails na Europa e as viagens depois disso. Total vagabundagem. No Rio. Istambul. Deserto.
São mil jogatanas e os murros que quase nos demos por uma entrada mais serrada no futebol das dez da noite. Suor e saliva que escorriam no meio de dentes trancados e os peitos arqueados. Foi levarem-me ao Hospital quando estoirei o joelho direito, com a camisola 9 da Argentina vestida, e comentarem com a enfermeira de serviço que o da cadeira de rodas estava a fazer um bom jogo.
E é preciso mandar uma parede da casa abaixo ? Deixa estar que eu trato disso. Quando é que queres que leve a marreta ? Cuidado com as costas, pá.
É muita merda.
Está um dia do caraças e os Red Hot Chili Peppers no "mata-esquilos". Cagamos na Filosofia do Direito e vamos surfar para os pontões da Caparica ? Yep. Sentados na tábua depois da rebentação à espera da nova onda. Então a gaja é que acabou contigo ???... Deixa lá isso e molha a cabeça. 
As gotas salgadas que não saltaram mas encheram os olhos. E não se fala mais sobre isso.
E o amor que há na filosofia de milhares de horas passadas a argumentar. E os putos que agora temos, os que não temos, e a quem vamos encher com tanta história que vamos ser impossíveis de aturar - God damn it ! - e que também irão à Luz.

Mas estes meus dois amigos são dois irmãos. Que me lembram sempre os Jefferson Airplane.
Azeitão. Cinzeiros carregados. Copos já vazios. Planos e mapas em cima da mesa. Este ano vamos para aqui.
Só que a noite é quente e mal dormida. As filhas da puta das melgas não deixam. Madrugada e salta o "Songs of Love and Hate" do Cohen para a aparelhagem. Porra, pá, deixa-me dormir. Queres melhor a esta hora ? Ok, não há, mas cala-me o "Joan of Arc". 
Sete da manhã, não vale mais a pena, e liga-se a televisão. Mira-técnica do canal da Igreja. Dois babacas a olharem para ela. Olhos semicerrados.
'Bora p'rá praia. No Fiat Uno cinzento, aquele que capotou e terminou de patas para o ar. Vou no banco traseiro. À larga.
Oiçam isto. Dou para a frente uma cassete com o "Surrealistic Pillow" (lado A) e o "Volunteers" (lado B). Já conhecia os Airplane por causa do concerto que tinham dado no Monterey Pop Festival de '67 e que tinha gravado numa VHS.
Oiçam isto. A caminho da praia da Ferreirinha.

e uma hippie bem ganzada que introduz: "... we kinda gotta wait for a new wave to come, and then a whole new set of rock 'n' roll bands come along with it, which creates all the other... bullshit."

High Flyin' Bird, Today e Somebody to Love. Oiçam todas.

Manara being Klimt


Hoje
saí do escritório e, não eram ainda oito, o céu estava vermelho fogo.

Sincerely, L. Cohen


"É sempre uma surpresa agradável quando uma mulher nos dá acesso ao seu coração e ao seu ventre. É a mulher que escolhe. São as mulheres que decidem permitir ou não que um homem lhes toque, e tomam essa decisão segundos depois de o conhecerem.
Portanto, todas as técnicas de sedução são bastante irrelevantes."

(BLITZ, Set. '10, entrevista para Serge Simonart)

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Os Melhores Amigos - Parte I

Quando somos putos (com 10 e 12 anos), apressamo-nos a escolher os nossos melhores amigos. Normalmente no primeiro dia de aulas.
Olha-se bem à volta e vemos quem tem pinta de gajo fixe. Porque há condições.
Que joguem bem à bola, não sejam estúpidos nem tenham um penteado ridículo. Que alinhem se é preciso meter um professor na ordem e venham cá abaixo se tocamos à campainha. Que nos ajudem a fazer um caldinho (de ovos, farinha, cuspo e extracto de bomba de mau cheiro) para meter nos estofos do carro do porteiro do 6º andar que está sempre a chatear e é um pulha da pior espécie. Mas primeiro abre lá o vidro, caraças !  Acima de tudo, que nunca (e nunca é nunca) se "chibem" e estejam sempre prontos para enfiar um murro num gajo que se meta à toa connosco. Sem pensar ou perguntar o que foi. Mas que joguem bem à bola. Também ajuda se forem do Benfica.
Com eles trocámos cromos para as cadernetas do Mundial, jogámos Subutteo até doerem os dedos, aprendemos a andar de skate agarrados à traseira duma pickup de caixa aberta, fizemos corridas loucas de BMX (os mais afortunados tinham uma Peugeot cromada) e perdemos horas sem conta a teclar no Spectrum 48K, depois de metido o Load "" e de afinar bem o som para a merda do jogo entrar.
E fumámos os primeiros cigarros, em rodinha, a ver quem é que não deixava cair a cinza. Agora levas. 
Também trocávamos a Playboy (brasileira) que comprávamos à vez na 'Espanhola' e tinha umas páginas centrais desdobráveis nunca vistas. Um dia sentámo-nos todos a ver o "Império dos Sentidos" que alguém tinha conseguido sacar à pelintra no video-clube do bairro. Tudo com a boca aberta.
Depois, vieram as motas, os engates sem jeito e as tampas. Começámos a ouvir música a sério e a gravar cassetes. Nas festas íamos ter com uma miúda gira e aproveitávamos um slow para descer as mãos até abaixo. A seguir piscávamos o olho uns aos outros quando nos cruzávamos.
Metemo-nos no body-board e apanhávamos o cacilheiro para atravessar o rio com as pranchas debaixo do braço. Do outro lado, ainda havia o autocarro da Rodoviária para a praia do Waikiki. Hoje está quebra-coco.
E vimos a primeira amiga (a miúda mais linda do liceu) a fazer topless na Costa da Caparica (sonho do caraças !).  Como estava com o namorado, um pateta dois anos mais velho, acabámos a rodar a Vera entre todos naquela tarde em que as mamas da miúda apareceram, livres e desinibidas, a bater à porta do que tinha os pais divorciados. Partilha.
Eram os melhores amigos. O "Stand by Me", com o puto River Phoenix, termina a dizer que nunca mais se tem amigos assim. Cada um depois segue o seu caminho e passa a ser uma imagem embaciada do passado que não cresce. Que às vezes ainda encontramos, à noite, ou a celebrar um título do Benfica.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Voodoo Jazz

Quando há 40 anos teve lugar aquele que foi o maior festival de música de sempre (pelo menos em assistência), muitos são capazes de ter estranhado um nome no meio de grandes bandas de rock e folk do momento que iam actuar. No cartaz estava Miles Davis.
No Festival de Isle of Wight de 1970 - aquele que superou as 500.000 pessoas de Woodstock do ano anterior - figuravam, entre outros, Jimi Hendrix, os The Who, os Doors, os Emerson, Lake & Palmer, os Moody Blues, Jehtro Tull, e artistas como Joni Mitchell, Richie Havens, John Sebastian e Leonard Cohen (numa mítica actuação pela madrugada fora, arrastado para um palco para acalmar o motim que tinha começado entre o público). O Verão do Amor de '69 tinha terminado, aliás como o Festival de Altamont,  organizado pelos Rolling Stones em Dezembro desse ano, tinha tristemente anunciado, com um tipo esfaqueado a escassos metros de Jagger e Richards.
Mas em Isle of Wight aparecia também  o maior nome do Jazz de todos os tempos: Miles Davis. Ele que já andava a sacudir o jazz (clássico) das costas há algum tempo, especialmente a partir do ano anterior quando começou as gravações do álbum "Bitches Brew". Um álbum que ficou para a história. Uma história que começa logo na magnífica capa do disco com uma pintura encomendada a um amigo e que revela o seu caminho: uma odisseia experimental e emancipatória afro-espacial da era do Aquário.

Chamaram-lhe de tudo: jazz-rock, jazz-fusão, jazz-psicadélico, jazz-avantgarde, tudo-menos-jazz. Para Duke Ellington, Miles era o "Picasso do jazz".
Jack Dejohnette definiu-o de outro modo. Que Miles estava numa crise de meia-idade. Tinha 40 anos e estava farto de tocar em clubes nocturnos para gente de 50 e 60 anos. Tinha namoradas 20 anos mais novas que ele e queria ser relevante outra vez, conta a revista 'Uncut' de Agosto. E estava pronto para criar e revolucionar a música. "Tenho de mudar constantemente. É uma maldição." 
Miles Davis estava na vanguarda da música. Disso não há dúvida. E contava ao seu lado com nomes enormes e que se fizeram maiores ainda: Wayne Shorter, Chick Corea, Keith Jarrett (ao vivo), John McLaughlin (que teve direito a um tema no disco com o seu nome), Dave Holland ou Don Alias, tudo músicos que, sentados num semi-círculo, o veneravam e obedeciam ao trompete mágico e hipnótico que se erguia sobre eles. Sem saber ao que iam.
Chick Corea, um fanático do som límpido e cristalino do piano clássico, e a quem Miles tinha posto a tocar um órgão eléctrico, perguntou-lhe o que devia fazer para lhe retirar o seu som "lamacento". Miles respondeu: "Não toques."
A John McLaughlin disse no início das sessões que tinha que tocar guitarra como se não soubesse tocar guitarra.
As influências psicadélicas e technicolor são notórias.
Miles estava definitvamente apaixonado por Jimi Hendrix, de quem se tornou amigo, e pela forma como este "iletrado" da música extraía sons avançados e inacreditáveis da guitarra eléctrica. "How the fuck is he doing this?". E depois mandava-lhe pautas com ideias novas que Jimi, que também o admirava e respeitava imenso, devolvia por não saber ler.
Miles estava convencido que podia montar a maior banda de rock & roll que alguém já tinha ouvido e recheou o disco com todas as técnicas mais avançadas do estúdio enquanto instrumento musical, criando loops, efeitos e distorções sonoras até chegar à ideia do que queria. Um disco que viria a influenciar gerações e gerações de músicos de jazz, rock ou outros habitats.
E foi assim, num ambiente esfuseante de improviso, que Miles e o seu grupo de pioneiros subiu ao palco em Agosto de 1970. "Se acham o disco estranho, não sabem como era louco ouvirem-nos ao vivo." (Dave Holland). 
Num registo de sonho complexo, mas, acima de tudo, introduzindo-nos a todos num mundo fantástico: "Bitches Brew", agora reeditado, é obrigatório.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Morreu O Torres


Morreu O Torres. O Cavalheiro.
Nunca o vi jogar, nunca o vi furar balizas ao lado do Rei Eusébio e do José Augusto. Nunca o vi meter a bola na baliza com uma cabeçada certeira servido pelo génio do pequeno Simões. Não o vi ajudar a levar o nome do Benfica à Grande Europa do futebol e ficar a milímetros de levantar aquelas choradas Taças dos Campeões Europeus nas finais de '63, '65 e '68. Ele que não foi a tempo de inscrever o nome no Benfica bi-Campeão europeu.
E também não o vi em Inglaterra, com os Magriços, com a camisola das quinas suada. E cumprimentar sempre os adversários com um aperto de mão.

Nunca o vi jogar e só me lembro de ele dizer, como um menino que não admite perder a ilusão, "Deixem-me sonhar!". E sonhou. E Portugal ganhou à poderosa RFA (de Rummenigge, Mathäus ou Rudi Völler) em Estugarda (!) com um golo de antologia marcado fora da área pelo remate-bomba do Carlos Manuel. A um canalha. O canalha do Shumacher. E a Suécia também ajudou, e perdeu, e Portugal qualificou-se no último jogo para o Mundial do México '86.
A RFA que chegaria à final desse mítico campeonato em que brilhou El Pibe Diego Maradona. E a poesia encheu os relvados.
Porque Torres sonhou.

Nunca o vi jogar e, por isso, tudo o que tenho são imagens a preto e branco e os relatos do meu querido Avô (lagarto dos 50 costados). Ele que me contava que naqueles gloriosos anos 60 só ia ao Estádio da Luz, com o meu Tio (outro lagarto inveterado), para (tentar) ver o Benfica perder, mesmo quando não jogava contra o seu clube.
E, embora eu acredite que o fazia numa vontade inconfessável de ver o melhor futebol jogado de que há memória (com a excepção outra vez do Benfica, no ano passado), lembro-me dos seus relatos e de uma pequena história sobre José Torres.
Numa dessas tardes em que foi à Luz para (tentar) ver o Benfica perder, Torres meteu 3 golos numa goleada de 5. O meu Avô comentou então para o meu Tio:
"Gaita ! Um tipo aguenta ver o Eusébio a ferrar nas malhas. Não há maior e até começou no Sporting (de Lourenço Marques). Agora, termos que ser humilhados até por tipos que deviam estar a jogar basket... isto é demais !"

... e começou a retirada do Iraque

Portugal dos pequeninos


O Algarve e os seus zelosos hoteleiros gritaram "Abre Núncio !" por causa deste cartaz da campanha de Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 que mostrava uma praia da região deserta. Tudo estaria a caminho de Guimarães.
Correram logo a exigir a retirada do cartaz, um pedido de desculpas e até falaram em pedir uma indemnização por este "ferir de forma grave os interesses da maior actividade económica nacional e dos seus agentes e trabalhadores, assim como a principal região turística portuguesa sendo, por isso mesmo, penosamente lesiva da nossa economia”.


Após anos e anos de destruição maciça da Costa algarvia o pudor recomendava maior contenção verbal.
O pudor ou algum apreço pela liberdade de expressão e pela liberdade dos outros. Ou uma certa capacidade para saber encarar o humor. Ou apenas saber ler uma metáfora (boa, por sinal). 
Mas é difícil esperar-se isso num país que gosta da piada fácil e continua feliz a viver na moda do "respeitinho".

quinta-feira, 2 de setembro de 2010