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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Ballad of the Living Man

[foto: andré]

Somos um bicho engraçado.
Acho que evoluímos.
Camadas e camadas de novos eus. Como a casca de uma árvore ou uma cama sempre por fazer. Com memória e lençóis velhos a lembrar que ainda aquecem.
Evoluímos. Com erros e contradições. Aos solavancos. Ou quando ganhamos qualquer coisa. Mas aí bastante menos. Embora bom.
E mudamos, na construção incoerente e sobreposta do que fazemos e do que fazem connosco. Escolhendo direcções. E assumindo tudo isso. E como gosto que seja assim. Contaminando-nos com a beleza do que é dos outros e aperfeiçoando todos os dias o nosso bocado de madeira.
Também Josh Tillman.
Foi no que pensei enquanto ouvia Father John Misty a tocar no Coliseu.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Jane II

Vi-te no outro dia. Não tu, mas outra pessoa. Pode acontecer, Jane.
Sentei-me perto e observei-te. Estavas concentrada no teu almoço e na companhia que tinhas à frente.
Depois levantaste-te e pediste um café ao balcão.
Eu saí.
Goodbye Jane.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Jane



Jane Birkin

Nunca mais se tinham visto. Jane. Talvez nunca voltassem. Jane. 
There's no hope, dizia o cartaz ali da rua. 
Nunca mais se tinham visto e, se calhar, até nem reconhecer. 
Mas, Jane, era termos ficado juntos. O filme também é de quem o vê. Naquela película. Nos versos da canção. Num frame cristalizado. Num slide. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Goodfellas



O clã foi reunido. 
Não é todos os dias que nos chamam para cortarmos as goelas a umas bichas.
Fazer parte de um gangue de wiseguys dispostos a tudo por um prato de Lampreia requer um pacto de sangue. Com arroz malandrinho.
É claro que conhecia a lenda de raridade em extinção. Cresci numa família que me contava que só de vez em quando a conseguiam apanhar. Uma vez por ano talvez, e durante o segundo mês do calendário. Que ou se ama, ou se odeia. Que há quem tenha pesadelos com esta cobra do rio, que não admitem ver se não for 25 de Dezembro e estiver coberta de fios de ovos.
Mas foi feita a chamada para o ritual. Também já era tempo de perder a minha virgindade e experimentar o sabor quente e avinagrado do peixe negro e esguio, que faz susto quando abre a boca e mostra a língua raspadora. 
A adrenalina mal me deixou dormir. Cheguei 10 minutos antes da hora marcada ao 'Marquês de Palma'. Ocupei o meu lugar numa mesa previamente reservada. Koba, o big boss, tinha feito o telefonema.
Depois de me sentar, fui logo abordado pelo Sr. António. «Os outros vêm ?», perguntou, olhando-me de lado, enquanto limpava as mãos num pano branco da cozinha. Respondi-lhe que não era costume estarem atrasados, tentando em vão disfarçar o nervosismo com uma fina fatia de presunto que enfiei na boca.
«Vamos lá ver se não falham. É que tivemos que ir hoje à lota e pelo meio ainda tivemos que "despachar" uns gajos da ASAE. Andam doidos para ver se encontram os culpados. Isto vai custar-vos caro.»
Já não parava de olhar para o relógio. Tinha trazido a arma comigo e certificava-me que ninguém se aproximava do Chefe.
Foram chegando. Cada um à vez. Primeiro o Milo "crazy tits". De cabelo bem aparado, quis logo saber se eu estava com medo. Depois o Tommy  "alheira". Sentou-se e não disse nada. Limitou-se a afiar a faca que trazia no casaco. Finalmente, Koba "the bad lizard", de barba ligeiramente por fazer, mandou o tacho vir para a mesa. 
Eram horas. Perguntei-lhes se teríamos sempre o prato quente. «Sim. É sinal que foram lavados depois da última.... bem, tu sabes.»
Não havia mais nada a fazer ou comentar. Tinham-se metido com eles e agora era preciso dar uma resposta à altura. Passaram-me a faca para mão e com um golpe certeiro, que tinha treinado semanas a fio num frango de cabidela, enfiei-a bem no peito da safada. 
Pelo jeito com que todos me olharam a seguir, acho que não fiz má figura.Tinha enfrentado o teste derradeiro.
Levantaram-se, serviram-me uma malga de 'Aliança' e bebemos. Fora admitido.
Deliciei-me, é um facto. Até repeti. Não há mal nenhum em gostar do que se faz, pensei.
A siricaia e a aguardente final serviram apenas para acabar o serviço. E mais um whiskey no bar do Tony logo em frente. Estava com problemas com uma cliente de meia idade que não queria largar a novela. E ele queria fechar a televisão.
Mas o principal tinha conseguido. Percebi-o quando o Sr. António se despediu de mim com uma palmadinha na cara e "dê cumprimentos ao seu paizinho!" 
Passava a pertencer à famiglia e já me podiam tratar na rua por Senhor.
Não é só um orgulho. É uma responsabilidade.
O problema destas coisas é que não há volta atrás. Uma vez provado o gosto do sangue, ficamos agarrados. A próxima agora tem de ser à bordalesa.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Um dia vou falar-te de tudo o que me escreveste

Existíamos sem que existíssemos. Quilómetros de pensamentos ligados sem fios. A tecnologia de todos os versos roubados, e de milhares de imagens e palavras sacadas às canções, filmes ou às páginas de alguém que as escreveu antes, mas só por sorte. Achava mesmo que eram para mim. Do que inventaste e me contaste e do que não vimos em diálogo secreto e mudo. Num quarto escuro, sim, mas não era ? Parecia mesmo. Estava cheio de avisos e recados em silêncio que não é para ti. Literatura e um beijo. Mas o espelho era grande e via bem. Mas o espelho inverte a imagem e agora já nem sei. Desse bendito momento maldito que apareceu tardio e longe de tudo, nascido fora de horas e que era possível, como lapa no meu coração. Eu, sem colete anti-balas. Às vezes queria acreditar que era perfeito e para sempre, que era para mim e eu para ti. E que só a coragem é que não tinhas para dizê-lo mais do que baixinho. É incrível a nossa capacidade de acreditar no que sonhamos. Podemos enlouquecer. Ou acordar a meio da noite. Disseste que me amavas, e não foi só em sonhos. Eu era tua e tu eras meu. Era comigo, seríamos tudo e seria belo. Só que tu eras demasiado honesto para dizeres a verdade.


[andrey dubinin]

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Poem to be


[capa de 'OH, (ohio)', Lambchop]

You were there, my love.
There, you know. I too.
The other side of the road
The train line, see.
There, you know.

With eyes blindfolded
and hands,
and lungs and heart so tied
                        that cried.
Everything's calling.
Sending notes to the stars.
As the river flows [It's the shelter.]
and that tower, oh to climb it like a castle.

domingo, 28 de abril de 2013

Lobotomias

Jack Vettriano

Ele escondia-se na música. Ela revelava-se nela. Era a mesma coisa.
Com os livros era igual.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Uma espécie de fé



Ela primeiro tinha-o convencido para se convencer a ela.
Agora explicava-lhe - era pelo menos o que ele julgava - como tinha conseguido ficar em paz. Como tinha acreditado que era possível viver assim, longe da dor prometida. Como tinha aprendido a escapar ao purgatório. Como podia planar no voo dos sentimentos eternos e sobreviver a um amor morto à nascença.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Porto Song

(foto: andré)

Já amava o Porto.
Não como Lisboa, isso é óbvio. 
Não. Lisboa é como a mulher mais linda do universo. Linda, linda de morrer, tão linda, que só pensamos na sorte que tivemos na puta da vida para vir parar aqui.
Quando falam da luz de Lisboa é isso. O brilho que vem do mar e inunda as ruas. Que reflecte do sol nas pedras das calçadas. O sobe e desce das ruas que tudo alcançam, para tudo mostrarem, em ilimitada generosidade. Que se cruzam permanentemente para dizer que um dia pertenceram ao reino de Al-Andalus. O aperto, enfim, que nos ata e faz reféns. A essa mulher, que só de existir nos faz felizes, que faz tudo para nos ver felizes, somos fiéis eternamente. Porque é um amor que vence tudo.
Não, o Porto é como a mulher feita, a mulher madura. A mulher antiga, honesta. A mulher moral. Aquele tipo de mulher que tem coração de ouro e nunca esquece como receber. A mulher castigada também, que vem da dureza da vida. Que sabe que a vida não é só bela. Não é só arte, nem nunca vai ser. Que tudo guarda no coração. Com recato e também carinho. Os bons e os maus cheiros.
Amava o Porto, não há dúvida. Não como Lisboa, mas porque lá vai há anos e é sempre metido no colo. E como ele gosta disso ! E dos prédios velhos, esguios, dos prédios escuros e húmidos que o sol não cura, nem deita abaixo.
O Porto que era do Avô de Lisboa, que costumava debitar as declinações de latim para o pai professor a caminho do Liceu Alexandre Herculano. Onde começou a advogar e donde partiu para namorar e depois casar, que era um amor muito mais forte. Onde depois regressou só para ver o primogénito nascer em casa.
Depois não quis mais nada com a cidade, nem com a casa de Santos Pousada, por lhe lembrar demasiado a mãe. Vendeu-a como quem queima mobília numa lareira.
E agora ele, que nunca tinha passeado com o Avô no Porto, gostava de imaginá-lo nas esquinas que hoje dobra. E do que podiam conversar.

sábado, 8 de dezembro de 2012

"how high the moon"


Na 'Ler Devagar'
(foto: Matilde)

Com eles não havia remédio.
Tinham emigrado, ou estavam exilados, ou lá o que era. Foragidos, é isso.
Com eles, os meses passavam. Passavam anos.
Envelheciam feitos de meses e feitos de anos, que tinham pernas. Pernas que eram andas. Que passavam porque não podiam deixar de passar. Foragidos do tempo que não era deles.
Com eles não havia remédio. Era assim. Até ao fim de todos os tempos. Demasiado parecidos para ser perfeito.

domingo, 27 de maio de 2012

"Exile on Main Street" *

Podia sempre olhar para ela daquela varanda, ela que parecia feita de Sol, que o consumia completamente, que o espremia para dentro, gota a gota, que o recolhia como se os raios fossem as varetas todas de um jogo de "mikado". Para a seguir os espalhar um por um, com explosiva delicadeza.
E daí, não. Tinha decidido partir. Encaixar-se num desterro prolongado.

Tinha conhecido um antídoto, intravenoso. Ele sim resolveria a questão do infinito.

Iria conduzir-se para o exílio esperado, numa de out, sem falar, fora de tudo e sem palavras, numa de viver ao fundo, o que era bem.
Sem um beijo, sem um adeus e, portanto, num estado sem no fundo estar, mas era bem. 
Não se importava nada com isso. Seria assim.
Não iria espiar uma luz que se fundira. Numa, ou em duas vidas inteiras.


* Em 1972 os Rolling Stones editaram um álbum com o título "Exile on Main St.". Gravado no Sul de França, foi considerado o sétimo melhor disco de rock de todos os tempos pela Rolling Stone:

«There must have been hour upon hour, day upon day, of tedium and despair. But this, apparently, was how they needed to work: by feeling around in the dark for magic. Did the Stones spend too much of their time at NellcÔte stoned and lollygagging? Well, what's too much? And whose time was it? Ultimately, it's never been any of our business, however luridly fascinating the legends may be, and however much the Stones themselves may invite our attention with the noise of publicity. What they actually managed to accomplish — no less than the quintessential rock & roll album — ought to shut everybody up. Of course, it never will.»

quinta-feira, 8 de março de 2012

pequeno conto para uma noite de inverno

"We can not escape from each other.", tinham repetido em voz alta.
Duas mulheres amavam-se. Tinham-se amado e nunca deixaram de amar-se tanto tempo já tinha passado. Duas mulheres verdadeiramente amado. 
Demoraram demais a chegar, e talvez isso explicasse ter sido tudo tão rápido, censuravam numa sombra de tristeza que era a nuvem do amor imperfeito. Talvez por isso não tivessem dado ao tempo o espaço que ele precisava.
Se o encontro não tivesse sido provocado, teriam sido conhecidas quase por acaso.
Escancararam-se. Despreocuparam-se e ficaram escancaradas e sem guarda.
E foi já tarde. Porque não podiam partir e ser uma da outra como estava nas estrelas. Tinham que ficar. Com uma ferida do tamanho do corpo. E como qualquer ferida que não tem cura, de vez em quando voltava a abrir. E doía-lhes outra vez. Embora se convencessem que não. Repetidamente, embora os anos tivessem pernas.
Ou se não abria, era apenas a dor da cicatriz quando lhe tocava. Que doía também quando não lhe tocava.
Viveriam assim, separadas por um imenso território por explorar. Amigas prometidas para a eternidade, a cantarem as saudades de um amor não consumado. Até ao fim de todos os tempos.
Se ao menos não se lembrassem (demasiado bem) da canção d'A Naifa

 "Foi como amor aquilo que fizemos/ou tacto tácito?-os dois carentes/e sem manhã sujeitos ao presente;/foi logro aceite quando nos fodemos",

talvez pudessem ficar em paz. Talvez acreditassem.



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O Separador Central


"Les Deux Magots", P.

Era a melhor coisa do mundo.
Não havia um separador central. Ou se havia, então era imaginário e ele cruzava-o contantemente.
Não havia uma estrada feita, nem universos paralelos. Não havia destino. Não havia é este que. E Deus não escreveu em que paragem é que saio.
O caminho ia trilhando. Navegava num percurso que acordava sempre novo e deserto. Que se ia enchendo. Das árvores que via, de prédios, dos livros que lia, de acordes, de movimento perpétuo. De silêncio também. Do cheiro e dos sons.
Mas de gente. Dela. Das pessoas lindas ou dos rufias que conhecia. De beijos. Dos cabelos brancos que despontam fatais, com o propósito de serem. E, ao fim do dia, ria-se dos putos, mesmo quando era suposto zangar. Do mar todo. Da vista do Pico.
Tudo queria agarrar para sempre.
Era assim que queria fazer a sua estrada. Olhar todos os dias para o dia.
E mesmo que lhe dissessem que o tempo era uma coisa esquisita. Que há sempre um antes e um depois de, que nunca mais podia ser igual, não tinha parado. Porque nunca pára, mesmo que parasse. Para olhar e ter a falta.
Continuou, como continua tudo sempre. Como continua tudo um dia.
Porque não havia destino, não há uma rota própria e única. Nada está decidido. Nada mesmo nada. 

E não há separador central. Como se nalguma linha secreta do horizonte se pudesse abrir outra, que logo se fechasse e voltasse ao que era antes.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Os livros são como pessoas

[by C., Café Havelka, Viena]

E há uns que querem ir debaixo do braço. Logo. Agarrados. 
Outros que dizem nem pensar. Que dizemos também.
Outros que despachamos numa ida à casa de banho. E uns que são frouchos. De meias palavras. Que não falam e não dizem nada. E esses são tristes.
Todos primeiro estranhos, a seguir logo se vê.
Depois há os lindos. Tão bonitos que perguntam onde é que andaste toda a vida.
Mas também há aqueles que queremos ler para sempre. E reler. Para sempre. Que são os nossos livros. Tão nossos que já nem sabemos se não somos nós deles. 
E uns, especiais, difíceis, complicados, que demoram, que colocamos na mesa de cabeceira, que pegamos e poisamos. Se magoamos voltam à mesa de cabeceira, pegamos e deixamos, para um dia. Olhamos e dizemos: "- um dia".

terça-feira, 5 de julho de 2011

Midsummer night's dream

Vi-te quando eras pequena.
Tinhas um vestidinho comprido e às flores. Reconheci-te logo por causa do cabelo. Corrias feliz de um lado para o outro numa praceta e davas saltos. Acho que havia uma igreja.
Não tive coragem de te interromper o momento. Fiquei quieto. Só a ver. Encostado numa pedra fria de granito de uma casa não sei de quem.
Mas tu, sei lá porquê, vieste falar com o estranho. Devo ter olhado de alguma maneira também estranha.
Não quiseste saber o meu nome. Perguntaste-me só se te podia contar uma história. Claro, miúda.
Contei-te uma. Que interrompias fazendo perguntas. Depois pediste outra. Ficaste muito calma, sossegada, quase dormiste.
Depois desapareceste.
Não sabia que se podia viajar no tempo.

domingo, 29 de maio de 2011

A cauda da lagartixa

conheciam-se há anos...


Eu sou a pôrra da lagartixa a quem raparam o rabo. Amputado à bruta. Sem cauda, sem aviso, sem pena (com pena talvez), decepada numa rajada.
A quem disseram não te chegues que envenenas. Não te atrevas, nem sonhes. Vai-te que só trazes olhos com veneno. Quem és ? Quem é esse choque ? Leva-te.
E Zás ! Guilhotinado.
Nem deu para perceber.
Mas sabes o que me lixa mesmo ? É vê-la ali, para um canto. A espichar. A estrebuchar interrompida.
E senti-la como se ainda viesse agarrada a mim.


['Blow-Up']

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Conversa de mudos

- Estás off.
- O quê ?
- Off. Estás off.
- O que é que isso quer dizer ?
- Que ora estás, ora não estás. Agora, estás out.
- Não sei o que é isso.
- Estás out, ou off.
- E de que outra forma podia estar ?
- Não sei.
- Pois. Eu também não. É engraçado.
- O quê ?
- Dizeres que estou off quando finalmente descobri o meu cheiro...
- Como ?
- ... que só descobri quando tu mo revelaste.
- Agora sou eu que não percebo.
- Há outra coisa engraçada. Descobri que tenho pele, e gosto. E tu também estás off. Estás muitas vezes off.
- E de que outra forma podia eu estar ?
- Não sei. Acho-te uma contradição.
- Eh lá ! De onde é que veio isso.
- Do teu off. Achas que dá para continuar assim ?
- Achas ?
- Há quem enterre tudo debaixo de uma árvore e vá-se embora.
- Pois. Olha, o céu hoje está bonito.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A good woman


Ela quis convencê-lo para convencer-se também a si. Era esse o seu segredo.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Fotogramas

[jose valdelomar]

Compreendia agora. A vida era um jardim enorme. Um mundo maravilhoso. Cheio de berlindes. Um local de experiências vividas. Passeava nele. E nele se entregava, ao perfume e cores inevitáveis que recebia sempre que saía. A que se expunha. Completa e totalmente. Feridamente.
Estrelas de oportunidades. Que absorvia e respirava e passavam a ser suas num cardápio que não tinha conta. O oxigénio novo de uma flor, de uma ideia, de uma imagem, de um som, de uma palavra. Sorvia tudo, mas não apanhava. Não colhia.
Dava umas passas profundas, mas não deixava que o cigarro chegasse ao fim. Vivia no travo incompleto e perfeito da saudade. Morria amando antes de acabar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

"Shiny happy People"

Há gente que vive numa espécie de definitividade mortal. De linha recta. Muito vertical. Um pau. Outros que a aceitam. E obedecem.
E por isso há gente que não dá hipótese à incerteza que, com sorte, às vezes surpreende.
É nesse lugar seguro e radical que se constrói afinal uma definitividade que lhes é vital.

(T-shirt ed. by Huli
in Hong-Kong)