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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Almanaque


127 suculentas páginas de celebração à 1ª Emenda. 
Que bonito.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Trumpest


                          “I want answers, people! Who am I working for and why?”
New Yorker, 25.07.2018

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Victor Jara Vive !

Era miúdo e costumava ver numa gaveta lá de casa umas cassetes da BASF que o meu pai tinha gravado, ao lado das do Zeca Afonso, do Zé Mário Branco e do Sérgio Godinho. À mão, com tinta de esferográfica azul, tinha escrito "Victor Jara" e depois, na capa da cassete, uma lista com o nome das canções (lado A e lado B). Não sei se ainda existem, mas durante muito tempo olhei para elas sem saber quem era o nome sublinhado a azul.

Soube mais tarde.
O homem da guitarra, poeta e cantor de intervenção no Chile dos anos 70, activista,
professor e Director da Universidade Técnica do Estado, e um dos primeiros a cair às mãos dos carrascos de Augusto Pinochet, após o golpe de Estado que depôs Allende.
E de como foi levado com outros prisioneiros para o Estádio Chile (hoje Victor Jara), onde foi espancado e lhe esmagaram os braços e os dedos da mão enquanto - conta-se - lhe diziam que tocasse guitarra. E onde foi fuzilado com 23 tiros no corpo, para a seguir o abandonarem numa rua de Santiago do Chile perto de um cemitério.

Soube agora, 45 anos depois, da condenação de oito ex-soldados chilenos a 18 anos de prisão, pela morte de Victor Jara.

domingo, 1 de julho de 2018

sexta-feira, 22 de junho de 2018

explicar o inexplicável



“(...) 
Quão salutar e revigorante foi o contraste com a selecção portuguesa. Eis um conjunto de jogadores com perfeita noção de que a qualidade é um bem escasso e precioso, que deve ser tratado como um recurso finito do planeta. Frugais e poupadinhos com os nossos consumos intermédios (boas ideias, passes certos, remates enquadrados) fazemos apenas o estritamente necessário para conseguir o resultado que desejamos, delegando parte substancial da tarefa à inoperância adversária.
E assim aconteceu no jogo contra Marrocos. Ao minuto 4, Cristiano Ronaldo colocou Portugal na condição que lhe pertence por direito: a inexplicável vantagem no marcador. Daí para a frente foi uma questão de aguardar que os marroquinos percebessem por si próprios - através do método ancestral da tentativa e erro - que nenhum dos seus planos ia resultar, e que a atitude correcta perante as circunstâncias era perderem não só o jogo, mas a alegria de viver.
Uma lição de eficiência. Foi como se toda a empreitada dos Descobrimentos tivesse sido preparada pelo Infante D. Henrique no promontório de Sagres, numa cadeira de baloiço e com uma manta nos joelhos, a desafiar o Atlântico num plácido murmúrio: "Ora então o Cabo das Tormentas que venha cá meter-se com a gente, para vermos se é assim tão tormentoso. Eu aqui o espero".
Esta capacidade recém-adquirida para defrontarmos uma sucessão de equipas que se calhar mereciam ganhar-nos, mas se revelam incapazes de o fazer, levou a comparações com a Itália, comparações que não iluminam o assunto nem favorecem nenhuma das partes envolvidas. A Itália é historicamente exímia a atrapalhar de forma deliberada a manobra ofensiva das outras pessoas. Portugal é contemporaneamente exímio a estar no sítio certo enquanto, por mero acaso, as outras pessoas se atrapalham sozinhas. (O catenaccio tornava o jogo mais previsível e menos excêntrico; nós tornamos tudo incompreensível).
Cada estilo coerente, por ser uma maneira de observar o Mundo e de responder ao que se observa, incorpora uma moral. Aqui estou, proclama o estilo: é esta a maneira como o meu sucesso justifica a qualidade da vossa alegria. O estilo actual da selecção portuguesa, por ser um anti-estilo, não cede ao impulso artístico de olhar para dentro, e limita-se (com a veemência dos predestinados) a apontar para fora. Observamos aquilo de que os outros são capazes, e concluímos que são incapazes. Que não conseguem fazer aquilo que querem, nem sequer têm a sorte necessária para que lhes aconteça o que querem de forma acidental. Um bando de inúteis, no fundo. Pelo que a nossa felicidade consiste em sabermos que, mais uma vez, nos desviámos dois passos para o lado, dois segundos antes de levarmos com um piano nos cornos.
Tendo honrado, desta maneira brilhante, a memória de Figo, Rui Costa, Futre, Chalana e Eusébio, tendo cumprido, em suma, o sonho de D. Sebastião, resta-nos agora perguntar: mas afinal isto serve para quê? Será possível ir ultrapassando todos os obstáculos desta maneira? Um Universo racional permitirá que dois troféus consecutivos sejam conquistados assim?
É pouquíssimo provável, mas o tempo o dirá, e só se deve fazer uma pergunta de cada vez. Antes disso, ainda temos mais esperanças para aniquilar, mais inocências para destruir. Enquanto houver uma criança nas bancadas, sorrindo na expectativa de um grande espectáculo, enquanto sobrar um único circunspecto espectador neutral, convencido de que vai perceber alguma coisa do que se passa dentro de campo, a nossa tarefa não está cumprida. No que depender de nós, ninguém na Rússia se diverte, e ninguém aprende nada. Às armas!

"Uma máquina para matar purismos", por Rogério Casanova, in DN

sexta-feira, 1 de junho de 2018

"What Is Possible", by Mohsin Hamid

«In California, my mom worked an entry-level job at what now might be called a Silicon Valley tech business. It made audiocassettes. My dad made peanut-butter-and-jelly sandwiches and popcorn. He picked me up from preschool, strapping me into the yellow child seat mounted at the back of his bike. He had a mustache and sideburns and not much more hair than that, and on his bike I toured the campus of the university where he was studying and went to swimming class and the grocery store, and at his side on our sofa I watched cartoons on our small black-and-white TV, a TV in which I always saw colors, though I was told by friends that this wasn’t possible.
My dad never told me that it wasn’t possible. He was my buddy, and we made model planes and ant terrariums, and went hiking in the hills and swimming in Lake Lagunita, which in those days was sometimes dry and sometimes not. We fed butterflies sugar water and watched them unfurl what we called their tongues and drink.
My mom drove to work every weekday morning in our secondhand blue Datsun and drove back every evening in time to make us dinner. She brought home the bacon, in my mind. (Of the non-pork variety, I ought to add, given that we were a Muslim family, though I’m not sure I was aware that there was such a thing as religious identity, back then.)
Once, my mother’s younger brother visited from Pakistan. “Where’s your wife?” I probed. “I’m not married,” he told me. “Then who makes the money?” I asked.
My mother told me that my uncle thought it was odd that I called my parents by their first names.
My earliest best friend was a Dutch kid whose dad was a geologist and whose mom was part Indonesian. My subsequent best friend was an American kid whose father was an African-American poet and whose mother was what I suppose should be called European-American and I think was originally from Texas. The thing I remember most about them was that they had almost the same first name, his mother and his father, different by just one letter.
But I guess my real best friend was my dad. It’s funny to think that, as I write this, I’m twice the age he was when I was born. He was a young dad, and it felt as if he had all the time in the world.
When I was nine, he finished his Ph.D. and we moved back to Lahore, and that part of my life came to an end. He got a job as a university professor, so he wasn’t at home anymore, and, after my sister arrived, my mom worked for another year or two, then stopped, and I grew older, and things changed, as things do.
It’s been the better part of four decades since we first moved back to Pakistan, and in that time I’ve lived all over the place and worn a suit to work in Manhattan and ridden the tube to work in London and lost my hair like my dad and married and had two kids, and now I live next door to my parents in Lahore, and when my kids come home from school I’m the one who sits with them and watches cartoons on TV.
My wife works and I write, so my days are spent in the house, and I get to go hunting for butterflies with my kids and watch the kites build and rebuild their nest in a tree on the back lawn and preen on the water-overflow pipe on our roof like the symbols adorning some proud nation’s currency.
On the weekend, my wife joins us on our outings, and so do my parents, or, rather, we all join my dad, because he has the patience to find the nest of a tailorbird or the slyly dancing form of a praying mantis, which takes some doing, for we don’t live in the countryside; we live in a city of eleven million people.
At times, I miss having a regular job and a place to be during the day with people my age. I miss it a lot. I can be resentful of my wife. I can complain, even as she tells me that I’m doing exactly what I told her I always wanted to do.

But then there are times such as when, a few months ago, my five-year-old son looked at me while we were playing and said, “Baba, when I grow up, I be your brother?”
And I looked at him with wonder and said, “Yes. When you grow up, you be my brother.”»

in The New Yorker, 30 de Maio

sábado, 20 de janeiro de 2018

"Eu acredito em Woody Allen", de Alexandra Lucas Coelho


«Imaginem quem começa agora a ver cinema e é apresentado a Woody Allen como molestador: nunca será apresentado a Woody Allen. Boa altura para lhe mostrar os filmes, e explicar duas ou três coisas sobre Hollywood. Sobre as pessoas, em geral.
1. Como incontáveis milhões de pessoas, cresci com Woody Allen. Não há nenhum cineasta, vivo ou morto, de quem tenha visto tantos filmes. E ouvi bandas sonoras, li peças, contos. Woody Allen é, em si, um cinema, uma cidade, uma escrita, um humor. Não sei se existe mais algum judeu nova-iorquino como ele, aliás, de certeza que não, mas todos os judeus nova-iorquinos receberam esse presente genial de passarem a ser ele, tal como o mundo tem muito mais graça por causa dele.
Isto dito, não é por isto que acredito em Woody Allen. É porque os factos que conheço, as investigações e peripécias desta tragédia greco-americana que é a acusação de abuso sexual contra ele, tudo isso ponderado me faz acreditar em Woody Allen, e não acreditar em Mia Farrow.
Acreditar/não acreditar são convicções, falo por mim, por isso o título está na primeira pessoa, e não é “Woody Allen está inocente”. Não posso afirmar que Woody Allen esteja inocente, claro, é possível que não. Mas a minha convicção é a oposta. Não apesar dos factos, como a convicção de outras figuras deste caso. Mas, repito, por causa dos factos.
Quando comecei a ler os relatos do caso para esta crónica não sabia onde iria dar. Não decidi escrevê-la para defender Woody Allen, mas para perceber o que se pudesse perceber com algum tempo de pesquisa online. Não tinha ideia do que concluiria, muito menos de qual seria o título. O que sabia à partida era o que ao longo dos anos fui retendo, sempre que o alegado abuso voltava às notícias, e do que fui retendo havia algo destrambelhado em Mia Farrow. Talvez a diferença entre um neurótico inofensivo (Allen) e alguém eventualmente perigoso (Farrow). Mas eu estava longe de ter a dimensão épica, grega da coisa. E agora, aqui chegada, qualquer outro título seria um rodeio. (...)» 
Continuar a ler

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Belle Toujours


(Patrick Swirc)

« Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle »

Tribune. Le viol est un crime. Mais la drague insistante ou maladroite n’est pas un délit, ni la galanterie une agression machiste.
A la suite de l’affaire Weinstein a eu lieu une légitime prise de conscience des violences sexuelles exercées sur les femmes, notamment dans le cadre professionnel, où certains hommes abusent de leur pouvoir. Elle était nécessaire. Mais cette libération de la parole se retourne aujourd’hui en son contraire : on nous intime de parler comme il faut, de taire ce qui fâche, et celles qui refusent de se plier à de telles injonctions sont regardées comme des traîtresses, des complices !
Or c’est là le propre du puritanisme que d’emprunter, au nom d’un prétendu bien général, les arguments de la protection des femmes et de leur émancipation pour mieux les enchaîner à un statut d’éternelles victimes, de pauvres petites choses sous l’emprise de phallocrates démons, comme au bon vieux temps de la sorcellerie.
Délations et mises en accusation
De fait, #metoo a entraîné dans la presse et sur les réseaux sociaux une campagne de délations et de mises en accusation publiques d’individus qui, sans qu’on leur laisse la possibilité ni de répondre ni de se défendre, ont été mis exactement sur le même plan que des agresseurs sexuels. Cette justice expéditive a déjà ses victimes, des hommes sanctionnés dans l’exercice de leur métier, contraints à la démission, etc., alors qu’ils n’ont eu pour seul tort que d’avoir touché un genou, tenté de voler un baiser, parlé de choses « intimes » lors d’un dîner professionnel ou d’avoir envoyé des messages à connotation sexuelle à une femme chez qui l’attirance n’était pas réciproque.
Cette fièvre à envoyer les « porcs » à l’abattoir, loin d’aider les femmes à s’autonomiser, sert en réalité les intérêts des ennemis de la liberté sexuelle, des extrémistes religieux, des pires réactionnaires et de ceux qui estiment, au nom d’une conception substantielle du bien et de la morale...


"Le Monde", 9.01.2018, por Catherine Deneuve e 100 outras mulheres

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terça-feira, 28 de novembro de 2017

Cold Facts


«Rodriguez has lived in the same modest Detroit house for over 40 years. He has no car, computer or even a television. 
(...)
"He once told me there's three basic needs – food, clothing and shelter."»

Rolling Stone, Março de 2013

terça-feira, 31 de outubro de 2017

"Así, no, Carles"


«Uma declaração de independência que não foi, porque seguiu-se a respetiva suspensão, tem agora uma independência que não o é, porque os independentistas vão a eleições que, afinal, lhe são permitidas pelos colonizadores, que não o são. Nem burlesco de Cervantes nem surrealismo de Dalí, mas, como prova de que o nacionalismo, hoje, está ultrapassado, uma chanchada brasileira. Catalunha merecia melhor. O líder que a atrapalha, Carles Puigdemont, fugiu para o exílio, numa fuga desnecessária para um exílio inexistente. Foi para o exílio em fins de outubro, para um provável regresso a meados de dezembro para votar e ser votado. Exílio é outra coisa, não tem prazo de validade nem a certeza de votos. Exílio viveu-o o socialista madrileno Largo Caballero, presidente do governo da República espanhola, que com a vitória de Franco foi levado para o campo de concentração nazi de Sachsenhausen. E viveu-o o republicano catalão Lluís Companys, presidente da Generalitat da Catalunha, entregue pelos nazis a Franco e fuzilado. O exílio de Carles Puigdemont é coisa para rir, é um insulto aos verdadeiros exilados espanhóis da trágica história recente. É como comparar a livre, democrática, autónoma e progressista Catalunha a países colonizados e ocupados. Nenhuma das hipóteses com que Puigdemont contava aconteceu: nem a independência surtiu nem os tanques vieram... Restava-lhe a fuga para a frente. Partiu, com uma decisão categórica tão rara nele, para um exílio de comédia.»

"É trágico tanta comédia", por Ferreira Fernandes, in DN

sábado, 14 de outubro de 2017

"Sócrates não merece cair sozinho"

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«Não se enganem: aquilo que ficámos a conhecer não foi a acusação de José Sócrates, mas a acusação de um regime inteiro. Um regime composto por um povo alheado e dependente, um poder corrupto, uma justiça amedrontada e um jornalismo manso. Sem esta triste conjugação de pobres qualidades, José Sócrates poderia sempre ter sido eleito em 2005, mas jamais seria reeleito em 2009. É evidente que existe gente indecorosa em qualquer parte do mundo, mas nos países bem frequentados as instituições não falecem todas ao mesmo tempo. Infelizmente, durante a era Sócrates, tudo faliu, até finalmente falir o país. Tirando duas ou três dúzias de teimosos que insistiram obsessivamente que o rei ia nu, demasiadas pessoas em lugares de responsabilidade ou não viram o que se estava a passar, por serem pouco espertas, ou não quiseram ver, por serem pouco honestas.
Neste momento marcante da História de Portugal, em que um ex-primeiro-ministro é acusado de 31 crimes de corrupção, fraude fiscal, branqueamento de capitais e falsificação de documento, convém recordar que José Sócrates não caiu da tripeça por causa dos portugueses, que finalmente perceberam quem ele era. Caiu por causa da crise internacional, da falência do país e da vinda da troika. Sócrates obteve 36,6% dos votos em 2009 (mais de dois milhões de pessoas), já depois da revelação da licenciatura fraudulenta e das manobras para impedir a publicação de notícias; já depois da exibição do DVD do caso Freeport onde Charles Smith declarava que ele era corrupto; já depois de correr com Manuela Moura Guedes do programa de informação mais visto da TVI por não apreciar o estilo e as reportagens. E mesmo após a crise internacional, a falência do país e a vinda da troika, José Sócrates ainda conseguiu obter 28,6% de votos para o PS – 1,57 milhões de portugueses. Em 2015, depois de quatro anos de brutal austeridade, António Costa obteve somente mais 180 mil votos do que José Sócrates em 2011.

Sócrates foi um extraordinário caso de popularidade, não só entre o povo, mas sobretudo entre as elites. E são estas elites que hoje em dia me preocupam, porque os ex-apoiantes de Sócrates continuam por aí como se nada fosse, nos blogues, nos jornais, nas empresas, no PS, no governo. Muitos dos que acham que os portugueses têm o dever moral de pedir desculpa por acontecimentos do século XVII, não vêem qualquer necessidade de pedir desculpa por acontecimentos de 2017. Não há qualquer acto de contrição por terem apoiado incansavelmente um homem que a cada três meses era suspeito de fraude, corrupção e atentado ao Estado de Direito, e que nunca, jamais, apresentou qualquer justificação decente para aquilo de que era acusado.
Dir-me-ão: Sócrates ainda não está condenado. Pois não. Mas reparem como o entusiasmo dos seus defensores esmoreceu desde a noite da detenção (21 de Novembro de 2014) até ao dia da acusação (11 de Outubro de 2017). A verdade é esta: as acusações são demasiado fortes e as explicações demasiado fracas. Daí Sócrates estar cada vez mais isolado. Contudo, o julgamento que se aproxima não pode esgotar-se nele. É sobre Sócrates, sobre Salgado, sobre Vara, sobre Bava, sobre Bataglia, e sobre um regime construído por inúmeros ex-socratistas, que agora saem de cena na esperança de que esqueçamos o papel que desempenharem ao longo dos anos. Eu não esqueço. Aqui estarei para lembrar que Sócrates não ascendeu sozinho, não governou sozinho e, acima de tudo, não merece cair sozinho.»

por João Miguel Tavares, in 'Público'

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Visca Barcelona !


«Si eres de Barcelona la primera vez que vas a Las Ramblas te llevan de la mano. Lo hace tu padre o tu madre. Tu abuelo o tu tío, tus primos o tus hermanos mayores. A veces te despistabas y se la dabas por unos instantes a un extraño y no notabas la diferencia: la mano del otro te era familiar. También su andar, su olor. Curiosamente no distinguías que no era de los tuyos. Eso no pasa en todos los sitios. Sólo en parques de atracciones y en Las Ramblas (así, en plural porque son muchas). Lugares fabulosos ambos como sabe cualquiera por poco que sepa uno. Sitios donde todo el mundo puede ser él mismo y, a la vez, único y extraordinario y que eso no importe a nadie. Lo extraño es cotidiano y se muestra tal cual, ahora y antes, en Las Ramblas, bajándolas, subiéndolas, cruzándolas, a la carrera o al trote, perseguido o ensimismado.
En ese recuerdo, bajar o subir por Las Ramblas siempre era hacerlo de la mano de alguien que te cuidaba, te protegía, evitaba que te perdieras. Escribo esto sabiendo que han asesinado a un niño de tres años que fue a Las Ramblas con su tía —que ayer aún estaba grave— y otros miembros de su familia. Eso —que uno de los tuyos quisiera respirar un poco y se acercara hasta a Las Ramblas y te llevara con él, previamente acicalado y decente— era usual. También ahora. Sobre todo para barceloneses de fuera del centro o de alrededores.
Ramblas desde Plaza Catalunya hasta el monumento a Colón o a la inversa. Pienso en el crío, en la familia, en el asesino, en la familia del asesino y pienso en Barcelona y me percato de que al hacerlo en Barcelona lo hago no como una ciudad sino como una comunidad —herida hoy— y me doy cuenta —por mucho que puedas llevarte mal con la madrastra que puede ser Barcelona— que siempre perteneces al sitio donde estuvo la gente que te dio la mano para que no te perdieras.
Pasaba el tiempo y por Las Ramblas seguías yendo atado a otros. De tu pareja, de un policía o abrazado a tus amigos, bajando a comprar discos de segunda mano o subiendo, eufórico, mientras Las Ramblas eran regadas, ya de madrugada escupidos desde bares como Karma, Glaciar, Jamboree, Les Enfants o Sidecar.
Las Ramblas son la mejor expresión de los barceloneses. De cualquiera de nosotros. Cuando venía gente de fuera, los llevabas a Las Ramblas porque estabas orgulloso de ellas. Sólo era un paseo —hay lugares más bonitos o impresionantes en la ciudad— pero un paseo repleto a todas horas de gente tan bonita e impresionante como horrible e impresentable. Personas distintas embriagadas por el extraño sortilegio de la acumulación y la tolerancia, y que, por lo tanto, hacía que no te encontraras extraño o rechazado mientras pisabas esas olas dibujadas en el suelo de Las Ramblas. Creo que es imposible pisarlas y no sentirte parte de una comunidad al hacerlo. Una comunidad de la que además sentirse orgulloso. Por abierta, por gigante, por luminosa. Es, en cierto modo, terreno sagrado por laico, y es que en Barcelona siempre ha cabido todo el mundo y nunca sobró nadie. Ni antes ni ahora.
En Las Ramblas descubrías muchas cosas y encontrabas otras que no supieras que andabas buscando: drogas, una pulsera, un familiar que no debería estar allí o un paraguas. Bajabas de adolescente porque allí estaba lo que podías y no debías saber. La vida en toda su complejidad y maravilla. Luego volvías a casa y ya no eras el mismo. Nunca regresabas igual enfrentado a la cena recalentada en el comedor familiar, de repente tan gris y vulgar.
Descubrí a Baudelaire en un quiosco en Las Ramblas y el Berlín de Lou Reed en una tienda de segunda mano. Me llevaron a escuchar Verdi al Liceo, me topé muchas veces con la Negra Flor, trataron de que hiciera catequesis en l'Església de Betlem y me enseñaron a beber absenta con cuchara. Músicos en la calle, gente que hacía caricaturas, vendedores de cualquier cosa y a viejas amigas de mis abuelas. Mis familias vivieron ambas en el Chino —antes Distrito V, ahora Raval—, en calles sin luz del sol, que iban a parar a Las Ramblas y éstas al mar, y ninguna de las dos cosas era —retorciendo al clásico— el morir sino —todo lo contrario— el vivir para mis dos abuelas. 
Volvías de ese paseo de la mano de tu padre o tu tía sabiendo que había cientos de vidas distintas por vivir y tipos que vendían pulseras, hacían malabarismos con balones, mujeres que eran hombres, hombres que eran mujeres, marineros negros de blanco y turistas naranjas, contentos y sorprendidos de estar pisando aquel paseo, de ser gente aquí y ahora en tu ciudad, Barcelona. Y también sabías que pisabas territorio de gigantes: pintores —uno de ellos frenó con su dibujo una furgoneta asesina—, poetas y diarios de ladrones, vidas privadas, despachos de detectives que habían matado a Kennedy; Casos savoltas y bailes de watusi; el fracaso del musclaire y un argentino rumbero; y chupas de cuero y ojos como cámaras en noches en las que salía el sol por la avenida de la Luz. Los vivos y los muertos vivos subían y bajaban contigo por Las Ramblas.
Pones hoy la televisión, lees la prensa y las cifras, los comentarios, los políticos, los asesores, las imágenes y la palabra de tu ciudad, Barcelona, y Las Ramblas. Ves zonas, en especial de Las Ramblas que, al estar desiertas, te cuesta reconocer. Pero sobre todo ves a gente de Barcelona. Gente de Barcelona con miedo, gente de Barcelona que no se quiere dejar asustar. Gente de Barcelona de Honduras, de Nueva York, de Madrid, de Santander y de Santiago de Chile. Gente de Barcelona con maletas. Gente de Barcelona en el suelo, muerta o herida, en una figura atrozmente imposible. Gente de Barcelona curiosa y gente impotente de Barcelona. Gente de Barcelona que quiere hablar y otra que quiere olvidar. Gente de Barcelona que ayuda. Gente de Barcelona que espera. Gente de Barcelona que dona sangre y gente que la vierte.
Da igual que esa gente sólo lleve unas horas en Barcelona. Pertenecen a una comunidad porque todos están buscando u ofreciendo una mano que les haga bajar o subir Las Ramblas para que nadie —aunque cruce a cuatro ruedas en furgoneta y en zigzag— se considere mejor que nadie, con más derechos que nadie ni poseedor de ninguna verdad ni ningún dios mejor que cualquiera de nosotros, gente aquí y ahora, de Barcelona.»
"De la Mano", por Carlos Zanón, 'El País', 19.08.2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O cúmulo da metamorfose



Eu bem disse.... que no Brasil o cúmulo da metamorfose era Lula virar polvo.

(foi há 12 anos)

domingo, 25 de junho de 2017

"Luto Nacional", por Vasco Pulido Valente

…hopes expire of a low dishonest decade…





«A primeira obrigação do Estado é garantir a segurança física dos cidadãos. Em Pedrógão Grande o Estado Português não a cumpriu e mostrou assim a sua fraqueza e a sua essencial ilegitimidade. Na sopa de aletria da meia dúzia de agências ou subagências governamentais que intervieram no caso, ninguém se entendia sobre nada. A que horas tinha começado o fogo e porque tinha começado? Porque não se tinha fechado a tempo a chamada “estrada da morte”? Porque não se tinham evacuado as pessoas que deviam ser evacuadas? Tinha caído um avião ali, a uns quilómetros, ou não tinha caído um avião? Existia um jornalista fantasma ou não existia? O que transpirava desta confusão eram informações contraditórias das várias autoridades envolvidas, todas visivelmente preocupadas em sacudir a água do capote para o parceiro do lado. A cena foi deprimente e aterradora. E no meio do caos, para o completar, desembarcaram o primeiro-ministro e o Presidente da República, com fatos de bombeiros, que não iam lá fazer coisa alguma de útil ou louvável, excepto evidentemente exibir a sua alma, exercício que ninguém lhes pedira ou agradecia. 

Este espectáculo, pelo mortos e pelo sofrimento dos que não morreram, comoveu o país. Mas o mesmo país habitualmente assiste em paz de espírito às mais graves demonstrações da incompetência e degradação do Estado: investigações criminais que duram anos e anos (como a de Oliveira e Costa e, a seguir, a de Sócrates, a de Ricardo Salgado e as de várias dezenas de suspeitos menores); julgamentos sem fim; a maior dívida da história, que vai crescendo; políticas que se atenuam, interrompem ou simplesmente se metem na gaveta para não ofender parcelas ínfimas do eleitorado; actos egrégios de nepotismo e compadrio; a corrupção que se manifesta ou descobre em cada recanto da vida corrente e da vida pública nacional. O parlamento, depois de lamentar a infindável sequência de comissões de inquérito para prevenir incêndios, que não chegaram a parte alguma, nomeou outra comissão de inquérito; e as “personalidades” que roubaram milhões continuam a passear tranquilamente pelas ruas.

A grande pergunta é simples: porque havia de aparecer em Pedrógão Grande, por milagre flagrante do Altíssimo, um Estado previdente, eficaz e responsável? Não apareceu; e, como de costume, os mais fracos pagaram a conta. Seria bom que fizéssemos mais três dias de luto. Por nós.»


in 'Observador' (25.06.17)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

o ECOBOL é isto mesmo




in 'Público'

"Carta a um filho após o atentado de Manchester", por JMT

«Ainda há cinco dias estavas no Meo Arena a assistir ao filme-concerto do Harry Potter – tenho pensado nisso nos últimos dias. Aquilo que aconteceu em Manchester poderia ter acontecido em Lisboa. Nós temos a sorte de viver num país pequeno, com uma comunidade muçulmana pacífica e integrada, mas os terroristas islâmicos odeiam da mesma forma ingleses, americanos, franceses, belgas, alemães, suecos ou portugueses – não porque lhes tenhamos feito alguma coisa, mas porque não aceitam a maneira como vivemos. Odeiam-nos por aquilo que somos, e esse é o pior ódio de todos. Para eles, o bem que possas fazer ao longo da tua vida não compensa todo o mal que representas neste momento. É uma ideia horrível, eu sei, mas não desesperes: cada um de nós tem a arma certa para combater essa ideia. O papá, a mamã, os teus manos – e tu também.
Desde logo, perante tanto ódio, a primeira coisa que deves sentir não é medo, mas gratidão. Uma gratidão profunda por teres tido a sorte de nascer em liberdade, num país democrático, onde cada um de nós – e também os partidos, o Governo, os tribunais – acredita que todas as pessoas têm os mesmos direitos, sejam elas velhas ou novas, ricas ou pobres, cultas ou analfabetas, homens ou mulheres, cristãs, muçulmanas ou ateias. Os terroristas islâmicos não aceitam isso. Aliás, eles odeiam tais ideias. Mas foram esses princípios, pelos quais muitos homens bons e corajosos lutaram e morreram ao longo dos séculos, que nos deram tudo o que temos: a paz, a prosperidade, a possibilidade de cada um alcançar os seus sonhos se trabalhar o suficiente e tiver suficiente talento. Eu sei que tu nunca conheceste outra forma de viver, e dás isso por adquirido, mas há muita gente que não tem a tua sorte. Tens o dever de honrar a memória de todos os que lutaram – e ainda lutam – pela liberdade. Outra coisa que tens de fazer, apesar de todo o horror que vês na televisão, é lembrar-te que por cada gesto de ódio há mil gestos de bondade. Por cada terrorista que se faz explodir há mil pessoas que ajudam as outras, que as levam a casa, que lhes dão abrigo, que curam as suas feridas, que as consolam. A esmagadora maioria das pessoas à tua volta é gente boa, que todos os dias dá o seu melhor. Nunca, mas nunca, cedas ao desespero de achar que no mundo a maldade supera a bondade. Se nós hoje vivemos muito melhor do que há mil anos, se hoje em dia o mundo é um lugar muito menos violento, é porque no coração do ser humano a luz ganha às trevas. Pode não ganhar todas as vezes. Pode não ganhar durante muito tempo. Mas a bondade, o amor e a justiça são para nós o que os dentes e as garras são para os predadores – instintos preciosos que preservaram a nossa espécie ao longo de milénios. E nunca te esqueças: apesar do teu tamanho e da tua idade, já tens a arma mais importante de todas para combater estes homens terríveis. Esquece as pistolas e os coletes à prova de bala – a melhor forma de derrotar os terroristas é continuares a fazer o que fazes todos os dias. Não deixares de ir a um concerto porque tens medo. Não deixares de viajar porque tens medo. Não deixares de ser simpática para quem é diferente de ti porque tens medo. Podes sentir medo, claro. Mas a tua coragem deve superar esse medo. Numa guerra onde há quem queira destruir tudo o que amas, continuares a ser quem és e a fazer o que te apetece é a mais bela forma de resistência.»

João Miguel Tavares, in 'Público'

domingo, 26 de março de 2017

'Eurexit', por Miguel Sousa Tavares


(foto: andré)

«Parece que já ninguém gosta da Europa. Uns, porque têm saudades do mítico Estado-nação, das suas queridas fronteiras e polícias, das moedas nacionais e dos câmbios em que se perdia sempre duas vezes, da inflação e das desvalorizações; outros, porque não gostam da ideia de existirem jurisdições acima das nacionais onde os cidadãos se podem queixar dos abusos do seu próprio Estado ou de haver uma lei comum que estabelece as regras em matéria de direitos laborais, empresariais ou ambientais; outros porque não querem mais imigrantes seja de fora da Europa seja da própria Europa, como é o caso dos ingleses; e outros ainda porque não querem uma política de defesa comum, uma política externa comum e, menos ainda, uma política fiscal comum, como é o caso dos irlandeses e dos holandeses. E há os que estão fartos de que a Europa se meta nos seus assuntos internos, impedindo-os de estabelecerem regras mais próprias de ditaduras do que de democracias, como sucede com os húngaros, os polacos ou os aspirantes turcos. Finalmente, temos os países do sul, que se queixam da falta de solidariedade dos do norte, do sufoco das dívidas públicas e bancárias a que estão sujeitos (e que em parte foram contraídas para safar os biliões emprestados sem critério pelos governos e bancos dos países ricos do norte), e temos os países do norte que acusam os do sul de gastarem o dinheiro em copos e mulheres (não, não são só o capataz holandês e o polícia alemão que pensam assim).

Os copos e as mulheres ainda é o lado para que dormimos melhor sobretudo quando a acusação vem de um holandês. O que nos custa é que quem nos quer dar lições de bom comportamento financeiro seja ministro das Finanças de um país que serve de sede fiscal às nossas vinte maiores empresas para lá pagarem parte dos impostos por riqueza criada aqui e que aqui deveria ser cobrada. Porque o Eurogrupo, a que Dijsselbloem preside, exige que todos cumpram regras comuns em matéria de controlo do défice público, mas não quer nem pratica regras comuns em matéria de fiscalidade o que permite que a Irlanda e a Holanda funcionem como oásis fiscais e o Luxemburgo, que durante anos foi governado pelo actual presidente da comissão, Juncker, tenha então funcionado como uma lavandaria de topo para as grandes empresas multinacionais e nacionais.
Mas isso, o direito de pernada sobre coisa alheia, vem na tradição da Holanda: sempre foram um povo com vocação para a pirataria. Mesmo na chamada Golden Age da Holanda (um período que coincide com os sessenta anos de reinado dos Filipes em Portugal), a prosperidade das Sete Províncias Unidas fez-se com base na transformação das matérias-primas que outros, como os portugueses, iam buscar longe e correndo todos os riscos, e a imensa frota que então construíram destinava-se a pilhar as colónias alheias, em lugar de fundar as próprias. Foi assim que os holandeses se lançaram à conquista do Pernambuco português, ()

Mas talvez se devesse ir ainda mais além na instrução histórica básica do presidente do Eurogrupo. Recordar-lhe que foram os países do sul, que ele tanto despreza, que edificaram as fundações da Europa que hoje conhecemos, impondo os seus valores, hoje universais, contra os bárbaros do norte. A Grécia deu à Europa a democracia e a arte; a Itália deu-lhe o Império Romano, uma das mais notáveis criações políticas da Humanidade, fundado na lei e na igualdade das partes, e deu-lhe o Renascimento, contra o obscurantismo então reinante; Portugal e Espanha abriram o mundo à Europa, e a França deu-lhe os valores da Revolução Francesa. O que deu o norte de comparável?

Sim, esta Europa que Dijsselbloem simboliza e representa já não serve ninguém e não interessa a ninguém. Os dez anos de presidência do português Durão Barroso, com a sua política de sempre, em todos os cargos que ocupou ou seja, salvar a pele, nada fazendo foram fatais para a Europa. Mantendo-se sempre à tona, flutuando sem sobressaltos perante cada problema, a Europa foi apanhada impreparada perante as crises que a viriam a assolar e hoje navega à deriva, sem rumo nem praia à vista.

Esta Europa, que daqui a dias celebra 60 anos de vida, foi uma extraordinária criação de uma notável geração de políticos europeus, que agora se arrasta para um fim sem sentido nem glória, conduzida por uma notável geração de medíocres. Talvez o destino dos povos não seja o de saberem ser felizes, mas o de estarem eternamente insatisfeitos. De vez em quando, isso é bom; outras vezes é trágico.»

in "Expresso", 25.03.17