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sábado, 18 de março de 2017
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
'Amadeu', de António Lobo Antunes
"Tomou o pequeno-almoço, uma chávena de café e umas bolachas, três ou
quatro, as últimas da lata, molhou a ponta do indicador na língua a apanhar as
migalhas do fundo, que comeu também e depois arrumou a lata na prateleira e
colocou a chávena no lava-loiças, tudo isto sem pressa, nos gestos do costume.
Limpou as gengivas com a língua até o gosto das migalhas lhe desaparecer da
boca. Encheu a chávena de água para a lavar depois. Era uma chávena branca, com
uma paisagem impressa: árvores, animais que pastavam, uma casa ao longe, e o
contacto dos dedos com a loiça, tão lisa, era-lhe sempre agradável. A seguir
foi para a casa de banho, lavou os dentes, fez a barba
(teve de mudar a lâmina, que já cortava mal)
abriu a torneira da água quente do duche, abriu um bocadinho a torneira da
água fria, experimentou a temperatura com a palma, abriu mais um bocadinho a
torneira da água fria, despiu o pijama e meteu-se no chuveiro depois de vedar
bem a entrada com a cortina de plástico azul, que corria, em argolas
transparentes, ao longo do varão, a fim de não molhar a toalha que servia de
tapete. Lavou a cabeça com cuidado, de forma ao champô não lhe incomodar as
pálpebras, sentindo o cabelo que começava a rarear. Ao princípio detestou estar
a ficar careca
(até comprou umas ampolas que não serviram de nada)
depois foi-se habituando a pouco e pouco
embora não lhe agradasse muito a pele da cabeça nua nas fotografias que, na
sua opinião, o faziam parecer mais velho do que era. A risca do cabelo que
sobrava, agora perto da orelha, já não cobria grande coisa mas as mulheres não
se importavam, ou fingiam não se importar, com isso, o que, apesar de tudo,
sempre lhe dava algum consolo. Fechou as torneiras ao mesmo tempo, afastou a
cortina de plástico, apanhou a toalha da barra cromada em frente e sentou-se no
bidé, a fumar um cigarro, enquanto o corpo ia secando sozinho. Detestava
esfregar-se, lembrava-lhe a mãe, que o magoava com o seu excesso de energia
- A ver se consigo tirar-te como deve ser o sabão das orelhas
voltou ao espelho para se pentear, descobriu um pêlo enorme a sair-lhe do
nariz, apanhou uma tesoura pequena da gaveta e, à terceira tentativa, lá
conseguiu cortá-lo
( - Como é que eu não dei por isto antes?)
e fazê-lo seguir, lavatório abaixo, até às profundezas do inferno.
Aproveitou para verificar, de esguelha, se pêlos nas orelhas, não deu por
nenhum, guardou a tesoura, no género daquela com que lhe cortavam as unhas em
criança
(a mãe, sentada no sofá
- Chega-te aqui à luz e está quieto)
e ele com medo que, por distração, lhe amputassem a ponta do mindinho.
(Os óculos da mãe, enormes, pareciam engoli-lo. Faleceu de repente, um
aneurisma, três anos antes, pelo menos a autópsia garantiu que um aneurisma e certamente
quase não sofreu. Valha-nos isso: não era má pessoa, a mãe.)
De toalha amarrada à cintura e chinelos felpudos passou ao armário da
roupa. Puxou umas cuecas quase ao acaso
(não tinha previsto nenhum encontro galante)
cujo elástico começava a perder força mas ainda aguentava, um par de meias
pretas, que têm a vantagem de dar com tudo, uma camisa branca que teve de
desabotoar para a abotoar de novo, começando pelo colarinho e vindo por aí
adiante até ao fim da barriga, que ia aumentando devagar, mais cuidado com as
sobremesas, rapaz, sentindo-se uma espécie de clarinetista a treinar escalas. A
seguir um do dois fatos azuis, encostando o ombro à parede a fim de não se
desequilibrar ao entrar nas calças, um cinto preto, sapatos pretos, sem
atacadores, que têm a vantagem de poderem calçar-se de pé e lhe pareciam um
número acima do seu dado que às vezes os calcanhares dançavam um bocadinho lá
dentro, voltou ao quarto de banho a fim de aperfeiçoar o nó da gravata, de
colarinhos ao alto, baixou os colarinhos, certificou-se que a gravata na exacta
bissectriz deles, uma gravata de um amarelo discreto que, na sua opinião, lhe
aumentava a dignidade, sobretudo com o casaco já posto, surpreendeu-se com um
pedaço de linha vermelha, incompreensível, na lapela, que enrolou entre o
indicador e o polegar e depositou num cinzeiro de vidro, procedeu a uma
verificação final, acamou as madeixas das têmporas, perfumou um tudo nada o
pescoço
(nunca perfumava mais do que o pescoço)
ainda se mirou, de perfil, no espelho, e achou-se bem, apagou as luzes
atrás de si, espreitou as horas no relógio de pulso
(vinte minutos para chegar ao emprego, não demorava mais do que dez,
sobrava-lhe algum tempo)
e sentou-se, de perna cruzada, tomando cuidado com os vincos, na poltrona
onde costumava ler o jornal à noite, a seguir ao jantar, com a televisão ligada
numa novela qualquer, a fazer-lhe companhia. Trinta e oito segundos depois
levantou-se e foi à janela observar a rua. Um par de homens lá em baixo
consertavam um cano, não estava frio porque as mulheres usavam manga curta, com
excepção de uma velhota de xaile: os ossos dos idosos não aquecem, coitados, a
mãe, por exemplo, mesmo em agosto, dormia de botija e casaquinho de lã,
queixosa da temperatura. Abriu a janela e confirmou que nenhum frio, como
nenhum vento também, as folhas das árvores quietas, pombos a rondarem a
esplanada. No cabeleireiro, quase em frente, começavam a tirar os taipais, duas
raparigas loiras, uma gorda e uma magra, de bata cor-de-rosa, a conversarem
entre si, sem olharem para cima. Se olhassem para cima viam-no, empoleirado num
banco, a colocar uma das pernas fora da janela e a inclinar-se para a frente,
como veriam que, do quinto andar ao passeio, um sujeito de setenta e sete
quilos demora 3,4 segundos a chegar."
in ‘Visão’
quinta-feira, 31 de maio de 2012
O uivo de um lobo
Quando o quarto filho nasceu a mãe tinha completado trinta anos nesse mesmo mês. Como a produção não ficou por aqui passou o melhor tempo da vida dela às voltas com aquela gentinha toda, cinco loiros, de olhos claros, e um moreno, de cabelo preto. O primeiro, com oito ou nove meses, arranjou uma meningite: de repente febre muito alta e horas depois estava em coma. Foi um milagre, na verdadeira acepção da palavra, não ter morrido. Como lhe tomou o gosto iniciou uma tuberculose aos três anos: ainda se lembra da mãe a chorar porque ele não comia. Tornou a não morrer. Ainda antes da meningite, quando nasceu, ia matando a mãe com uma eclampsia. E depois, pelo resto da vida, foi-lhe acumulando os tormentos: apesar de uma precocidade que espantava a família era mau aluno, mal educado, estranho. Quase nada o interessava e não ligava a brinquedos. No liceu a mãe pedia para o sentarem na primeira fila porque passava o tempo, ao que parece, a olhar pela janela. Detestava as lições, os professores, o ensino. Entrou para a faculdade e não ia às aulas: escrevia o tempo inteiro, ou passava tardes estendido na cama a observar o tecto. Continua a escrever o tempo inteiro, continua a observar o tecto. A vida dele foi sempre um rebuliço de cataclismos interiores, angústias, aflições, um sofrimento contido e, com o passar dos anos, foi falando cada vez menos. No meu entender em lugar de coração tinha um sismógrafo que reagia com intensidade desmedida à menor tremura de fora ou de dentro. Que eu saiba não parou de escrever.
Os irmãos, embora muito diferentes e diferentes uns dos outros, eram bastante mais parecidos do que, à primeira vista, se podia imaginar. E existia entre eles uma união muito mais profunda do que, também à primeira vista, se supunha, debaixo do pudor e da cerimónia com que se relacionavam.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que também escrevia.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que lia. Esses amigos chamavam-se José Cardoso Pires e Ernesto Melo Antunes e o primeiro amou-os até ao fim das suas vidas demasiado curtas, e continua a amá-los. A ausência deles é uma chaga aberta, a doer.
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
telefonou-lhe uma vez José Cardoso Pires, que ficou amigo também do segundo irmão, que foi para o Zé de uma delicadeza de alma comovente e esta frase
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
é a maior declaração de amorzade que o primeiro alguma vez recebeu. O segundo amigo, Ernesto Melo Antunes, tornou-se, rapidamente, querido de quase todos os outros. Algumas vezes os irmãos adoeciam colectivamente dessa doença, a amorzade, como, em crianças, de gripe ou papeira mas, claro, não se falava nisso. Para quê? Saint-Ex dizia que se devia gostar das pessoas sem lhes dizer porque elas sabem. De modo que os irmãos sofriam das mesmas chagas sob vários aspectos. E o segundo, que escondia uma bondade de criança sob o que alguns consideravam, injustamente, um temperamento arrogante, auxiliou-o na doença de outros amigos, um que fazia versos, chamado Alexandre O'Neill, outro que pintava, chamado Júlio Pomar, assim de repente lembrava-se desses dois. O primeiro tinha a tendência de partilhar a alma com criaturas que sofriam da mesma sina que ele, e que passavam o tempo a construírem nuvens de papel com coisas escritas ou desenhadas no meio. Os bichos da mesma espécie em regra procuram-se. Os irmãos faziam outras coisas, mais úteis, e o primeiro achava que a actividade de cada um deles complementava a dos outros. Encontravam-se para jantar uma vez por semana, em casa dos pais, onde a capacidade de comunicação, não verbal, o princípio de vasos comunicantes que mantinham, os unia de uma maneira sui generis. Se não estavam de acordo percebia-se na mudança de clima do silêncio, os elogios eram mudos, os acordos sem necessidade de explicação, as diferenças aceites. Penso que lhes agradava que a relação fosse assim e, em caso de necessidade, defendiam-se uns aos outros numa ferocidade de matilha. Os filhos deles repetiam esta relação numa fraternidade endogâmica. Era uma tribu fechada, com as suas regras estritas e a sua Constituição própria, escrupulosamente respeitada. O pai fora um solitário, a mãe não os estragara com mimos. A seu modo, em todos eles havia uma boa parcela de solidão e uma distância que, paradoxalmente, facilitava a proximidade, às vezes mascarada de indiferença. Sequiosos de ternura, quase sempre recusavam recebê-la. Falhas de muito amor em crianças, faziam os possíveis por não o demonstrar e, se o amor aparecia, era de forma oblíqua, disfarçada. No entanto, mal tocava a fogo, uniam-se todos, com o arzinho casual de quem se juntou por acaso. Quando o pai morreu os irmãos pediram ao primeiro que dissesse em voz alta um soneto de Antero, ali, diante do caixão. À medida que os versos se iam sucedendo o primeiro pensava
- Somos uma família, somos uma família, somos uma família
embora a relação com o pai fosse, para alguns, complexa e difícil. Para quase todos complexa e difícil, para quase todos, em certas áreas, dolorosa. Mas eram uma família e o pai, claro, fazia parte dela. Mesmo debaixo da terra fazia parte dela. Eram, realmente, uma família. Isto foi escrito assim, ao correr da esferográfica: algumas notas acerca de criaturas que, por acaso, conheço. Não vou dizer o nome, é lógico. Uma família que não tem nome neste texto mas da qual não me desagradaria completamente fazer parte.
António Lobo Antunes, "Crónica Inventada", na 'Visão'
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Lisboa capital !
9'39''
"I must give the readers not the book they want, but the book they don't want.
I had some problems a few years ago because I talked about the cruelty and things they did. And napalm and everything. Which until now is denied. (...)
Everywhere, the same thing everywhere. In Spain they don't talk about the Civil War."
António Lobo Antunes para Anthony Bourdain
Bourdain não perde o que é bom. O marisco no Ramiro, Carminho a cantar o fado, a apanha do polvo com o Avillez, os Dead Combo explicando os mistérios da sardinha em lata (18'21''). A morcela em sangue com o Tozé Brito, as ruas, a 'Ginginha', o jogo da malha, a ida ao mercado, os eléctricos. Enfim, Lisboa imensa.
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sexta-feira, 12 de novembro de 2010
O "Coronel Kurtz", outra vez
«I
Porque camandro é que não se fala nisto ? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram nunca e lhe estou contando uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de ternura, sabe como é ?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de uma nádega, um perfil de bruços no colchão, os nossos corpos confundidos num torpor sem mistério. Há quanto tempo não consigo dormir ? Entro na noite como um vagabundo furtivo com bilhete de segunda classe numa carruagem de primeira, passageiro clandestino dos meus desânimos encolhido numa inércia que me aproxima dos defuntos e que o vodka anima de um frenesim postiço e caprichoso, e as três da manhã vêem-me chegar aos bares ainda abertos, navegando nas águas paradas de quem não espera a surpresa de nenhum milagre, a equilibrar com dificuldade na boca o peso fingido de um sorriso.
(...)
estamos em 71, no Chiúme, e a minha filha acaba de nascer. Acaba de nascer e a essa hora as senhoras do Movimento Nacional Feminino devem estar pensando em nós sob os capacetes marcianos dos secadores dos cabeleireiros, os patriotas da União Nacional pensam em nós comprando roupa interior preta, transparente, para as secretárias, a Mocidade Portuguesa pensa em nós preparando carinhosamente heróis que nos substituam, os homens de negócios pensam em nós fabricando material de guerra a preço módico, o Governo pensa em nós atribuindo pensões de miséria às mulheres dos soldados, e nós, mal agradecidos, alvos de tanto amor, saímos do arame em que apodrecemos para morrer por perversidade de mina ou emboscada, ou deixamos negligentemente filhos sem pais a quem ensinam a apontar com o dedo o nosso retrato ao lado da televisão, em salas de estar onde tão-pouco estivemos.»
(António Lobo Antunes, "Os Cus de Judas")
sábado, 10 de abril de 2010
O Coronel Kurtz
"Com o meu irmão Pedro, por exemplo, darmos o braço é fazermos chichi juntos, no escuro, junto à cascata do jardim dos meus pais, com um comentário sobre o jacto respectivo. Depois sacudirmos os pingos ao mesmo tempo porque a pila não sabe fungar. Então abotoamo-nos e cada um vai para o seu lado, em silêncio. Deve ser difícil as mulheres entenderem isto mas, para os homens, fazer chichi lado a lado, ao ar livre, é sinal de amizade, a olharmos para baixo, cheios de duplos queixos. Tanto che che che nesta frase. Fazer chichi na rua é um dos meus prazeres, devo ter sido cachorro noutra encarnação. Detesto urinóis, retretes: haverá alguma coisa que se compare à exaltação de mijar contra uma parede? Às vezes, a seguir ao jantar, digo ao Pedro
- Já mijaste?
sabendo que ele estava à minha espera para essa celebração da cumplicidade. Nem que sejam três gotas faz-se um esforço. Vemos as árvores, vemos o muro, não nos vemos um ao outro mas estamos ali. Nem quero pensar na ideia de fazer chichi sozinho. No fim pergunta-se
- Como é que estás?
sabendo que o parceiro se cala. Depois cada um no seu carro, sem mais palavras. Um atrás do outro e, a certa altura, separamo-nos, com um sentimentozito de despedida que custa. Quer dizer não custa assim tanto, custa um bocadinho e passa."
Tenho uma relação difícil com o Coronel Kurtz. Antipática. Azeda. Muitas vezes cheia do ódio que guardamos para os bons amigos. O ódio de quem não compreende o que lhe querem dizer. Ou não quer. Eu sei que tens bichos a morderem-te os dias, mas, pr'ó diabo!. Não consigo ver a amizade sem sangue, sem as vísceras à mostra, sem lhe encostar a testa. Sem lhe dizer na cara aquilo que acho. Excepto quando ele fala do Benfica ou é entrevistado, desde que não seja pelo Mário Crespo, muitas vezes tenho de o mandar à merda. Afinal não é excepto. É complicado. Não é fácil. Porque, se não sou eu, é ele que me manda à merda. Andamos muitas vezes assim. Às turras. Eu a chamá-lo e ele a dizer que se está nas tintas para mim. Ele a querer falar e eu a assobiar para cima. Amuados cada um para o seu lado. Até podia alcatroá-lo, mas nunca lhe deitava as penas. Nem deixava.
É que há sempre um jazz, um cigarro ou um whiskey. Há sempre um texto. Um belo texto. Eu digo-lhe obrigado, pá. E ele vai-se embora.
Aqui. Todo.
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