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quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dia da (Rainha) Mãe

E agora, com as pilhas novas que te puseram nesse enorme coraçãozinho, estás pronta para mais 72 anos !

It's only Rock 'n' Roll.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Blue Stone



Impossível pedir mais.
Música, filme, carro e miúda é jackpot !

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O pirata das Caraíbas




«É uma rotina que te ocupa o tempo todo. Acordava de manhã e a primeira coisa que fazia era dar um chuto na casa de banho. Lavar os dentes ? Esquece. "Foda-se, tenho de ir à cozinha buscar a colher." Rituais estúpidos. "Merda, porque é que ontem à noite não me lembrei de trazer a colher da cozinha ? Lá tenho eu de descer outra vez as escadas." Cada dia se tornava mais difícil largar a droga, ou maior era o desejo de voltar a ela, se o conseguisses fazer. "Só mais uma vez, agora que já estou limpo." É essa vez, em jeito de festejo, que é fatal. Para piorar, tu até podes estar limpo, mas todos os teus amigos são agarrados. Quem se cura sai do círculo. Podem adorar-te ou detestar-te, não importa: a primeira coisa que vão fazer é querer trazer-te de volta. "Tenho aqui uma merda mesmo boa." Se alguém fica limpo e limpo se aguenta, passa a ser visto pela irmandade dos agarrados como um falhado. Falhado em quê, não faço ideia. Quantas crises de privação serás tu capaz de aguentar ? É ridículo, mas quando estás viciado nem te pões essa pergunta. Várias vezes, durante uma ressaca, me convenci de que por detrás da parede havia um cofre cheio de droga, já com colher e tudo o que era preciso. Depois adormecia. Quando acordava, dava com a parede arranhada e cheia de sangue - tinha mesmo tentado chegar ao cofre. Valerá a pena passar por uma coisa destas ? Na altura, decidi que sim.
Por natureza, posso ser tão presunçoso e frívolo como o Mick, mas quando és agarrado isso está fora de questão. Não o podes ser, mesmo que queiras. Há forças em jogo que te mantêm os pés assentes, já nem digo na terra: na sarjeta. Muito mais baixo do que seria preciso. É óbvio que nesse período eu e o Mick seguimos caminhos absolutamente opostos. Ele não tinha paciência para mim, para a minha suposta estupidez. Lembro-me de estar numa discoteca à espera de um dealer, num estado lastimável. À minha volta, as pessoas dançavam como bolinhas cintilantes, e eu debaixo dos bancos, a esconder-me para que não me vissem vomitar, e o cabrão do gajo nunca mais chegava. Quando ao mesmo tempo, me perguntava: "Será que ele, aqui, me vai encontrar ? Ou será que chega, não me vê e baza?" Digamos que me encontrava num estado de grande perturbação mental. Felizmente, deu comigo. Um guitarrista mundialmente famoso a sujeitar-se àquilo - percebias a que ponto tinhas descido. Descer a um ponto destes faz-te sentir nojo de ti mesmo, um sentimento que demora algum tempo a desaparecer. "Meu grande filho-da-puta, és capaz de fazer qualquer coisa por uma dose, não és ?" Ainda assim, continuava a julgar-me senhor de mim mesmo. Ai de quem me dissesse o que devia fazer. Mas chegar ao ponto em que estás totalmente dependente de um dealer é uma coisa nojenta. À espera de um filho-da-mãe daqueles, e pronto a suplicar-lhe ? É aí que entra o nojo de si mesmo. De todos os pontos de vista e mais algum, um agarrado é um tipo à espera do dealer. Todo o teu mundo se reduz à droga.
Quase todos os agarrados se tornam imbecis. Foi isso que realmente me fez abrir os olhos. Só tínhamos uma coisa na cabeça: a droga. Não seria eu um pouco mais inteligente do que isso ? O que é que eu ando a fazer na companhia destes desgraçados ? São simplesmente pessoas chatíssimas. Pior: muitas delas até são brilhantes, e sabemos que, no fundo, nos deixámos enganar, mas também... porque não ? Toda a gente se deixa enganar por alguma coisa; nós ao menos sabemos que nos enganamos a nós próprios. Ninguém é um herói só por se drogar; podes ser um herói é se conseguires deixar a droga. Por mais que eu adorasse aquela merda, tinha chegado o momento de dizer basta. Além disso, o cavalo estreita-te os horizontes e a uma certa altura só conheces agarrados. Eu precisava de horizontes mais largos. Claro que, tudo isto, só o percebes depois de sair do inferno. Tem esse poder, a droga. É a puta mais sedutora do mundo.»

Keith Richards, 'Life', ed. Cavalo de Ferro

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"It's only Rock 'n' Roll"

  
É por estas e por outras que eu acho que a minha grande vocação (frustrada, obviamente) era ter sido um guitarrista de uma banda de rock, adorado por milhares de almas e oferecendo-lhes o melhor de mim. Até fui ver de um estúdio, mas não tinha tipos à altura com excepção de um gajo que lhe dava na bateria, e depois - culpa minha - também não procurei mais.
King Keef Richards.

«Ali estás tu muito bem a tocar com uns tipos, quando te sai um Oh, yeah! Essa sensação vale por tudo. Por um instante, sentes que deixaste o planeta, que ninguém te pode tocar. Estás noutra esfera, com gajos que partilham exactamente o mesmo objectivo. Quando isso acontece, meu amigo, ganhas asas. Depois voltas, mas sabes que estiveste num sítio onde a maioria das pessoas nunca há-de pôr o pé, um sítio único. Só queres voltar a descolar, voltar a aterrar; mas quando aterras, tens a bófia à coca. Andaste a voar sem autorização.
(...)
A oportunidade surgiu, e quem é que seria capaz de as deter? Encharcadas de desejo sexual, apesar de não saberem muito bem o que fazer com ele. Como toiros enraivecidos, e nós o pano vermelho! Foi o delírio. Uma força incrível. Nadar num rio cheio de piranhas era mais seguro. Ganhavam balanço a mais e perdiam o controlo. Miúdas que se vinham, que sangravam, que rasgavam as roupas, se mijavam nas cuecas. Era o pão nosso de cada dia. O concerto era isso. Pouca diferença fazia, quem estivesse a tocar. Estavam-se bem marimbando para o facto de eu querer ser um músico de blues.»

sábado, 4 de julho de 2015

Memory Motel


You're just a memory of a love
That used to be
You're just a memory of a love
That used to mean so much to me

She got a mind of her own
And she use it well
Well she's one of a kind
She's got a mind
She got a mind of her own
And she use it mighty fine
(...)


You're just a memory of a love
That used to mean so much to me
You're just a memory girl
You're just a sweet memory
And it used to mean so much to me



'Black and Blue', 1976, The Rolling Stones

terça-feira, 12 de maio de 2015

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ócio (cap. 5)




[Outubro 2011, 'The Strand', NYC]


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Bodas de Ouro

"On 12 July 1962 the Rolling Stones went on stage at the Marquee Club
in London’s Oxford Street."
(in página oficial dos 'RS')


Mick, Keith e Watts.

Quiçá o casamento fodido mais duradouro de sempre.
Quase tanto como o da rainha de Inglaterra.

domingo, 27 de maio de 2012

"Exile on Main Street" *

Podia sempre olhar para ela daquela varanda, ela que parecia feita de Sol, que o consumia completamente, que o espremia para dentro, gota a gota, que o recolhia como se os raios fossem as varetas todas de um jogo de "mikado". Para a seguir os espalhar um por um, com explosiva delicadeza.
E daí, não. Tinha decidido partir. Encaixar-se num desterro prolongado.

Tinha conhecido um antídoto, intravenoso. Ele sim resolveria a questão do infinito.

Iria conduzir-se para o exílio esperado, numa de out, sem falar, fora de tudo e sem palavras, numa de viver ao fundo, o que era bem.
Sem um beijo, sem um adeus e, portanto, num estado sem no fundo estar, mas era bem. 
Não se importava nada com isso. Seria assim.
Não iria espiar uma luz que se fundira. Numa, ou em duas vidas inteiras.


* Em 1972 os Rolling Stones editaram um álbum com o título "Exile on Main St.". Gravado no Sul de França, foi considerado o sétimo melhor disco de rock de todos os tempos pela Rolling Stone:

«There must have been hour upon hour, day upon day, of tedium and despair. But this, apparently, was how they needed to work: by feeling around in the dark for magic. Did the Stones spend too much of their time at NellcÔte stoned and lollygagging? Well, what's too much? And whose time was it? Ultimately, it's never been any of our business, however luridly fascinating the legends may be, and however much the Stones themselves may invite our attention with the noise of publicity. What they actually managed to accomplish — no less than the quintessential rock & roll album — ought to shut everybody up. Of course, it never will.»

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O original é sempre melhor que a cópia

É o que digo SEMPRE que me falam do "Pequenas Mentiras entre Amigos".



'The Big Chill', aka 'Os Amigos de Alex'

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

self-inflicted pain


Exmos. Senhores,


O que é que leva um gajo, que já vai ter que dormir pouco - porque se deitou (invariavelmente) tarde e tem de estar na estação de comboios (pornograficamente) cedo - a dormir ainda menos ?

.... e depois disto assim, trabalhar ainda ?, e bem ?

Estupor !



Com os melhores cumprimentos,


....


P.S.1 sem poder culpar ninguém do facto. 
P.S. 2 o que vale é que há café e logo o Manchester vem à Luz.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

No expectations



Take me to the station
And put me on a train
I've got no expectations
To pass through here again

domingo, 24 de outubro de 2010

O melhor Exílio de sempre - parte II

Tarde boa. O Sol parece do S. Martinho.
Vamos para a avenida de Roma. O puto às cavalitas, a meter-se com todos e a empinar-se sempre que vê um autocarro, e a miúda aos saltinhos e de mão dada às nossas. Come um scone no Café do Tintim. Livros depois na Barata. O rapaz excitado com um em forma de carro de bombeiros. 
'Bora. Ficam em casa dos avós. É para isso que eles são. Para as dobras. Quase nove e meia.
Croquete, sandes de frango e imperial no Nova Ipanema. Mesmo ao lado do S. Jorge. Que agora só dá filmes quando é para o Indie, o Doc. ou outro festival.
Linda. A sala 1. Segundo balcão, palco e cadeiras acabadinhas de estofar.
Muitos índios, muita rasta. Miúdas freaks de óculos redondos e cabelo vermelho. Tipos que estudam... alguma coisa hão-de estudar.
Começa logo. A abrir com "Rocks Off". As razões do exílio em França. As finanças do grupo num caos. O Fisco à perna. Dívidas. Os Rolling Stones em Nellcote. Uns mais felizes que outros.
Keith. Tudo gira à volta de Keith. A música, a casa, o grupo, os convidados, os amigos, os penduras, a droga, o álcool. Keith é senhor. Do colchão. Também do improviso. Uma espécie de músico de jazz.
Mick casa com Bianca em San Tropez.
Charlie Watts queixa-se das curvas e das estradas. Bill Wyman lamenta a falta de Heinz Baked Beans. Vão, mas contrariados.
Em Nellcote instala-se uma multidão. É uma tribo. Há crianças pela casa, colchões espalhados, garrafas de Jack Daniels, e guitarras.
Arranjam uma cave. É lá que gravam. Uns num corredor, outros nuns quartos, e outros numas salas. O equipamento está espalhado. Os fios e os cabos percorrem a casa.
Keith levanta-se sempre às oito da manhã para estar com a mulher e o filho. À tarde começa a deitar acordes. À noite vão para a cave. O ruído é brutal. O processo criativo, lento e desorganizado. Mas juntam-se as peças em múltiplos takes. Ouvidos até à exaustão.
Mick (Jagger) diz que vale tudo para acabar uma letra, até escreverem várias frases soltas em papelinhos que tiram ao calhas para ver no que dá. E dá. "Loving Cup", "Let it Loose", "Sweet Virginia".
O tempo passa, o álbum esgota-os, há miúdos de oito anos que enrolam charros para os mais velhos e heroína em cima das mesas. Orgia monumental. "O Mick é o rock, e eu sou o roll", chuta Richards.
Setembro de '72. Já passaram 6 meses e recebem avisos de que a polícia os vai prender. Nostalgia de fim de festa. Vão para Los Angeles acabar o disco.
Robert Frank faz as fotografias para a capa. Tudo embrulhadinho e pronto para as Billboards.
É mais um disco dos Stones, mas este já fez história.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O melhor Exílio de sempre

Nenhuma ocasião é demais quando se trata de celebrar os Rolling Stones.
Hoje e dia 23, no Doc.Lisboa (no Cinema S. Jorge) é exibido o filme "Stones In Exile", um documentário que coloca em fita o ano em que a banda fugiu de Inglaterra para a Vila de Keith Richards em busca de melhores inspirações.
É aí, no Sul de França, naquilo que só podia ter de decadente, entre muita ganza e álcool de virar um corpo, que nasce um dos melhores álbuns de sempre dos Stones, e hoje um clássico de qualquer discografia que se preze. O "Exile On Main Street".
Um álbum que, além de temas como Let it Loose (pessoalmente o meu preferido), nos atira canções como Torn and Frayed.
Rock em estado puro que deve sempre ser ouvido.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

MUDE



Sempre gostei de conhecer sítios curiosos. Sítios diferentes e inesperados, que nos põem pontos de interrogação na testa. O MUDE é um sítio assim. Ainda pequeno.
Não é um MoMA. Nunca. Longe disso. Nem pensar. A anos luz. Nem atreve. Mas é um sítio porreirinho. Fica na rua Augusta e não parece ser dali. Num antigo Banco. O capital a ceder lugar à arte e ao lazer. Curioso.
Os tectos continuam picados, com o que sobra dos materiais isolantes a pingar. Sem revestimento e com o betão à pele. Os pilares idem. Cimento. Adivinha que o edifício esteve para ser demolido e desistiu.
Resta o comprido balcão de mármore negro do velho BNU que dá uma volta inteira à sala. E a escadaria.
O espaço é fixe logo por isso e porque não se espera ver cadeiras pop, torradeiras, gira-discos, aspiradores e telefones dos anos 50 e 60 por entre aquele balcão cisudo onde antes se trocou dinheiro, letras e cheques.
Uma Vespa à esquerda. Toco-lhe. Não posso, oiço. Vestidos de noite de estilistas com nome de perfume francês. 
Numa cortina projecta-se o histórico debate televisivo Nixon-Kennedy para as eleições de 1960.
 
Painéis de luz fluorescente branca. Chutam uma frase de um famoso qualquer do design.
Objectos futuristas de formas estranhas e cores concretas desenhados por Frank Gehry ou Corbusier.
De repente, ao canto, ouvem-se os Beach Boys a tocar "God Only Knows" e "Wouldn't it be Nice". Vou logo para lá. Vinis dos Beatles, dos Rolling Stones e do Bob Dylan no chão. Slides a bombarem um Lennon de cabelos e barba comprida em protesto. Enfiado na Bed Peace com Yoko Ono. Mick Jagger e uma mulher. Manifestações estudantis contra a guerra no Vietname. Martin Luther King. Pancada.
Uma espécie de cadeirão do Niemeyer.
Sete ou oito Vespas no meio. A mais antiga é de 1951. Uma com side-car. Todas de matrícula portuguesa. Vejo os conta-kilómetros.
Olho para uma estante controvertida. Dá para os dois lados. Naquele canto já toca o "Satisfaction" e o "Start Me Up". Acho graça às cadeiras longas em formato de onda ou de folha de papel amachucada e apetece-me deitar. Não se toca, oiço à entrada.
No andar de cima, uma espantosa colecção de scooters antigas lançadas para umas rampas. Lambrettas, Bernardettes, Zundaps, e até um modelo da Harley Davidson. Deve ter levantado cabelo. Anúncios e revistas da época. 
À saída um momento sublime. A cena final do "Zabriskie Point". No Buick. Ela sempre linda. Dedos e olhos. Explosões, tudo pelo ar e os Pink Floyd.
"Turn your head feel the breeze."


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Cadernos Marroquinos - 1º Dia

Não me lembro quem é que teve a ideia. Provavelmente foi a meio de um jantar ou depois de uns copos. "E que tal Marrocos ?"
A malta do costume alinhou logo.
Éramos seis, depois sete (o Ordep trouxe a namorada), e havia uma velha carrinha verde petróleo, a maltratada Peugeot 505 do Fuller. De revisão feita e extensão de seguro.
Combinámos tudo à pressa. Eu e o Jack London ainda tínhamos um exame de Processo Penal para fazer. Os outros iam apanhar-nos à Faculdade e partíamos.
Uma da tarde. O Fuller aparece à hora combinada. A buzinar e a fazer piões no meio do parque de estacionamento da Católica. Foi uma entrada em grande. Tudo a olhar.
Largámos Lisboa como se fosse pó, a Páscoa, os códigos e os colegas que ainda dissertavam sobre as perguntas do exame. Era o último ano do curso. Alguma coisa puxava para o Sul. Para o calor. Para a areia. Para os homens de pele escura e bigodes cheios. Para trás ficavam os primeiros meses do ano 2000. Mas depressa soubemos que deixávamos tudo o que conhecíamos.
Pegámos nas mochilas, saltámos para a carrinha e arrancámos. “Vamos lá conhecê-los, rapaziada!”
O Mahgreb.
Ninguém sabia bem o percurso. Nas mochilas, algumas roupas, enlatados, mapas, lanternas, água e cassetes para o rádio da 505. Rolling Stones, Beatles, Ben Harper, Pearl Jam e, claro, Pink Floyd e Leonard Cohen para a noite. Um par de botas, meias quentes, o meu blusão de cabedal para enganar o frio do deserto, uns cadernos para escrever, canetas. O Ordep levava a máquina fotográfica com rolo para slides.
Não perdemos um minuto. Era a primeira vez.
Metemos gasolina e apanhámos o caminho para Beja. Vimos as placas de Aracena e Sevilha. Não parámos. E a 505 só dava 100.
Chegámos a Algeciras às dez da noite. O conta-quilómetros dizia 620. Boa média, pensámos.
Às dez e meia partia um ferry para Tânger. Comprámos logo os bilhetes. Mas não embarcámos. Demasiada pressa. Embora fosse Espanha, já não estávamos na Europa da vertigem. As coisas ali cantam noutro ritmo, com outra calma. Há que negociar, esperar. O dinheiro que sai depressa do bolso não é aceite e quem entra a correr é porque foge.
De maneira que tivémos que encontrar jantar. Uns bocadillos rellenos de qualquer coisa num pardieiro mal amanhado e umas cervejas espanholas.
Só saímos às seis da manhã. Para Ceuta. Até lá dormimos todos (quem conseguisse) nos bancos coçados da 505. Pus-me de cabeça para baixo para arranjar espaço. Claro que não preguei olho.

sábado, 10 de abril de 2010

Hi Fi

Para um tipo como eu, que continua sem querer saber onde se fazem os downloads de músicas, comprar um disco é como comprar um livro. É um rito.

Um gajo tem de ir à loja. Olhar, percorrer os corredores, ver vários. Pegar em vários. Ouvir, finalmente. Experimentar, como se os provássemos. Vários. Ver as capas, capas históricas, míticas, tirar o livrinho para fora, conhecer a história do disco. O ano do disco. Onde é que eu estava (se já estava). O nome do grupo, o nome dos elementos do grupo. De onde vêm, as influências, saber tudo. Ter referências. Saber os nomes das músicas. Perceber as letras. Perceber em que pensam.
Escutamo-los, bem, devagar, connosco, em silêncio. Não é uma coisa qualquer. É uma cerimónia.
Depois, quando já os compreendo, quando já são meus, andam comigo. Nessa altura são eles que me chamam e escolhem quem eu quero ouvir, conforme me vêem. Conforme me sentem.



Para um tipo como eu os discos são como filhos. Sabemos os nomes de todos. Quando os pomos na prateleira, não vão para a prateleira. Ficam ordenados alfabeticamente e por secções: pop para um lado, jazz e blues para outro, e a étnica. A ópera e a sinfónica num quarto canto. E ninguém lhes mexe. Só se pedir. E depois volta a pôr. No sítio. Não se misturam as coisas, nem se diz “onde é que pus? Sei lá !”



E são todos iguais, mas há uns mais iguais que outros. Há uns que se mexem. Sozinhos. Que vão deslizando da prateleira até a lombada ficar ligeiramente de fora, à vista, mais à vista.
Neste momento, neste exacto momento, o disco que deslizou mais do que os outros foi este. Já não era ouvido há algum tempo. Tinha saudades minhas. Sobretudo esta.

"Did you ever wake up to find

A day that broke up your mind
Destroyed your notion of circular time

Its just that demon life has got you in it’s sway
Its just that demon life has got you in it’s sway

Aint flinging tears out on the dusty ground
For all my friends out on the burial ground
Cant stand the feeling getting so brought down

Its just that demon life has got me in it’s sway
Its just that demon life has got me in it’s sway

There must be ways to find out
Love is the way they say is really strutting out

Hey, hey, hey now
One day I woke up to find
Right in the bed next to mine
Someone that broke me up with a corner of her smile, yeah

Its just that demon life has got me in it’s sway
Its just that demon life has got me in it’s sway
Its just that demon life has got me in it’s sway
Its just that demon life has got me…
Its just that demon life has got me"

(Sway, "Sticky Fingers", Abril 1971)