quinta-feira, 28 de junho de 2012
segunda-feira, 25 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
- Trouxeste cromos ?
- Pai, trouxeste cromos ?, inquire o puto, ainda mal pisei a entrada.
- Pai, cromos ?
- Calma, rapaz, deixa-me ao menos largar o casaco.
Regressar ao que já foi, mas só porque a caderneta veio de borla com "A Bola" de domingo e mais seis cromos. Mesmo se é a primeira vez que a colecção é do Europeu.
Nisto há que ser muito rigoroso. Cadernetas, só dos Mundiais, com os astros da Argentina e do Brasil. O resto, não.
Mas agora tenho um puto e o rigor vai inteirinho para as urtigas. O que é que um tipo vai fazer ?
- Pai, tens cromos ?, grita o miúdo ao telefone quando lhe pergunto onde é que anda.
Lá me dirijo à papelaria, não sempre à mesma, porque já saem muitos repetidos. É preciso dar folga às caixas.
Agora já não tenho só 20 paus que era a nota verde do Sacadura que o meu pai me punha nas mãos depois de muito chatear. A nota desgraçada que só dava para uma carteirinha. A mãe dava mais. As mães dão sempre mais.
Agora trago 10 de uma vez, que dão para 3 dias ou quase. E isto é educar.
- Cromos ?, oiço no intercomunicador quando toco à campainha.
Quase treme o miúdo só de pensar que vai abrir o sagrado. Por isso acontece uns mal colados e um bocado tortos, mas eu deixo porque é a primeira caderneta dele e todos temos direito à asneira.
- Este é repetido !, diz o puto com satisfação. E eu de boca aberta por ele reconhecer um ucraniano que se chama Milevskiy.
- Este já temos. É o Nani !
- Dá cá para o molho que o pai vai tentar trocar com os amigos.
Começamos o tráfico.
Direitos dos cromos acima reproduzidos reservados à Editora Abril Morumbi, "Colecção do México '86": primeira caderneta pessoal.
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
Continuamos a jogar à bola
(Luanda, "Lusa")
Não como antes. Não com duas pedras da calçada a fazerem de baliza na rua do bairro. Não sem partir os vidros da porta ao lado da "Espanhola". E ser perseguido depois, sem a bola de "cautchu" debaixo do braço porque a tinham confiscado e o tributo era justo.
Não no campo de terra batida e pedras com dentes, que tinha duas balizas de ferro vermelho, tal a ferrugem, e que era o melhor estádio do mundo. Mesmo quando jogava com um gesso enfiado no braço que tinha partido de véspera. O campo que mataram para construir um colégio privado que consegue as melhores notas de Lisboa. Que não posso perdoar.
Não nas traseiras das "Arcadas", no jardim que era inclinado e tinha dez árvores no meio para a gente fintar. Que era bom só porque tinha relva. Na altura em que queríamos fazer a equipa do Restelo F.C., com emblema feito à mão e equipamentos que nunca vieram.
Não nas farpas de alcatrão da Secundária, inimigo como uma lixa, e que nos rasgava de ponta a ponta. Ténis, joelhos, cotovelos e a alma, se nos mandavam ao chão. E como era fácil acabar no chão. E chegar às aulas mergulhados em suor.
E também não naqueles pavilhões de "gramado" escorregante e gasto com balizas para o andebol, mas que davam bem porque tinham uma rede para segurar os golos. Que celebrávamos, porque éramos rapazes e havia uma bola.
Continuamos a jogar à bola. Nos dias em que o dilúvio não é só uma história das sagradas escrituras. Nos torneios da Agronomia. Com botas e bolas de cabedal. E agora equipamentos. Um senhor árbitro até. E duas idas à faca e este joelho de guerra, marcado e sem menisco, e com tendões remendados de outro lado a fazer de ligamentos. E está muito bem. E ouvimos ao fundo: "Cuidado André, não vás a essa.", e um gajo obedece, e sorri porque ele sabe, e porque temos memória e não gostámos de sofrer.
Continuamos. Porque somos rapazes e há sempre uma bola.
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terça-feira, 19 de junho de 2012
patti smith
«Quando era mais nova toda essa energia física, sexual, política era importante. Agora, nos meus 60 anos, a minha energia pode ser diferente e possa estar focada noutros assuntos, mas continuo a achar que o rock & roll é uma forma muito válida de comunicar, como era nos anos 60.
Hoje talvez existam outras formas de comunicar criativamente, em grande parte por causa dos avanços tecnológicos, mas parece-me importante que todos encontremos princípios de união, de coesão e de partilha, a todos os níveis, porque a verdade é esta: hoje temos toda essa tecnologia mas nem sempre a usamos para estarmos mais próximos e unidos. Pelo contrário, vivemos num mundo cada vez mais fragmentado. O rock pode unir.»
'ípsilon', 15-06-2012
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sábado, 16 de junho de 2012
A Selecção: Round One
Entra em palco e não fala a ninguém. Um breve olhar e é só.
Não se embaraça com as palavras, nem perde tempo com elas. A sua língua é do piano, que começa a tocar assim que senta.
Dizer que Brad Mehldau é o herdeiro de um Bill Evans ou que tem dedos como o Keith Jarrett, mas é mais novo, é não dizer nada. É fazer um embrulho com papel emprestado.
Brad Mehldau debruça-se no piano, mergulha nele, mas não se afunda porque as teclas amparam-no sempre. E é aí que tudo acontece.
A franqueza com que passa das suas próprias composições (todas excepcionais) para variações de clássicos do song-book americano como "When I fall'in love" e "My favourite things", ou adaptações de "Smells like teen spirit", "Bitter sweet simphony" e o mais que inevitável "Blackbird", dos monstros de Liverpool, faz-nos pensar que este é um jazz que não se troca.
Sai do palco, ao fim de uma hora e meia e três encores, e não diz uma palavra. Agradece, sempre com a cabeça, mas não se embaraça com as palavras, nem lhes sente a voz. A sua língua é o piano.
quinta-feira, 14 de junho de 2012
domingo, 10 de junho de 2012
O tempo e o modo: Suad Amiry
Quando a casa finalmente se cala, é meia-noite e já passa, olho para o mundo para ver-lhe como estamos.
É quando a casa se cala que se descobrem pessoas que só à noite mesmo noite podemos ouvir. Porque só no silêncio as podemos compreender.
Quinta-feira já era meia-noite e no canal 2, conheci Suad Amiry.
Free Palestine !
É quando a casa se cala que se descobrem pessoas que só à noite mesmo noite podemos ouvir. Porque só no silêncio as podemos compreender.
Quinta-feira já era meia-noite e no canal 2, conheci Suad Amiry.
Free Palestine !
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
Bodas de Ouro
"On 12 July 1962 the Rolling Stones went on stage at the Marquee Club
in London’s Oxford Street."
(in página oficial dos 'RS')
Mick, Keith e Watts.
Quiçá o casamento fodido mais duradouro de sempre.
Quase tanto como o da rainha de Inglaterra.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Aleluia !, grita o macho Alfa
Quando se tem filhos, no plural, a segunda-feira pode conseguir ser uma verdadeira benção.
domingo, 3 de junho de 2012
Dizem que a GULA é pecado
Morrissey, 24 de Julho de 2012, 21h00m (Cascais)
vs
Bon Iver, 24 de Julho de 2012, 21h00m (Lisboa)
E agora ?, com bilhetes para os dois, onde é que fica a ubiquidade ?
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sábado, 2 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
O uivo de um lobo
Quando o quarto filho nasceu a mãe tinha completado trinta anos nesse mesmo mês. Como a produção não ficou por aqui passou o melhor tempo da vida dela às voltas com aquela gentinha toda, cinco loiros, de olhos claros, e um moreno, de cabelo preto. O primeiro, com oito ou nove meses, arranjou uma meningite: de repente febre muito alta e horas depois estava em coma. Foi um milagre, na verdadeira acepção da palavra, não ter morrido. Como lhe tomou o gosto iniciou uma tuberculose aos três anos: ainda se lembra da mãe a chorar porque ele não comia. Tornou a não morrer. Ainda antes da meningite, quando nasceu, ia matando a mãe com uma eclampsia. E depois, pelo resto da vida, foi-lhe acumulando os tormentos: apesar de uma precocidade que espantava a família era mau aluno, mal educado, estranho. Quase nada o interessava e não ligava a brinquedos. No liceu a mãe pedia para o sentarem na primeira fila porque passava o tempo, ao que parece, a olhar pela janela. Detestava as lições, os professores, o ensino. Entrou para a faculdade e não ia às aulas: escrevia o tempo inteiro, ou passava tardes estendido na cama a observar o tecto. Continua a escrever o tempo inteiro, continua a observar o tecto. A vida dele foi sempre um rebuliço de cataclismos interiores, angústias, aflições, um sofrimento contido e, com o passar dos anos, foi falando cada vez menos. No meu entender em lugar de coração tinha um sismógrafo que reagia com intensidade desmedida à menor tremura de fora ou de dentro. Que eu saiba não parou de escrever.
Os irmãos, embora muito diferentes e diferentes uns dos outros, eram bastante mais parecidos do que, à primeira vista, se podia imaginar. E existia entre eles uma união muito mais profunda do que, também à primeira vista, se supunha, debaixo do pudor e da cerimónia com que se relacionavam.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que também escrevia.
- Vocês têm uma ligação fortíssima
dizia, ao primeiro, um amigo dele que lia. Esses amigos chamavam-se José Cardoso Pires e Ernesto Melo Antunes e o primeiro amou-os até ao fim das suas vidas demasiado curtas, e continua a amá-los. A ausência deles é uma chaga aberta, a doer.
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
telefonou-lhe uma vez José Cardoso Pires, que ficou amigo também do segundo irmão, que foi para o Zé de uma delicadeza de alma comovente e esta frase
- É para te dar os parabéns porque ganhei um prémio
é a maior declaração de amorzade que o primeiro alguma vez recebeu. O segundo amigo, Ernesto Melo Antunes, tornou-se, rapidamente, querido de quase todos os outros. Algumas vezes os irmãos adoeciam colectivamente dessa doença, a amorzade, como, em crianças, de gripe ou papeira mas, claro, não se falava nisso. Para quê? Saint-Ex dizia que se devia gostar das pessoas sem lhes dizer porque elas sabem. De modo que os irmãos sofriam das mesmas chagas sob vários aspectos. E o segundo, que escondia uma bondade de criança sob o que alguns consideravam, injustamente, um temperamento arrogante, auxiliou-o na doença de outros amigos, um que fazia versos, chamado Alexandre O'Neill, outro que pintava, chamado Júlio Pomar, assim de repente lembrava-se desses dois. O primeiro tinha a tendência de partilhar a alma com criaturas que sofriam da mesma sina que ele, e que passavam o tempo a construírem nuvens de papel com coisas escritas ou desenhadas no meio. Os bichos da mesma espécie em regra procuram-se. Os irmãos faziam outras coisas, mais úteis, e o primeiro achava que a actividade de cada um deles complementava a dos outros. Encontravam-se para jantar uma vez por semana, em casa dos pais, onde a capacidade de comunicação, não verbal, o princípio de vasos comunicantes que mantinham, os unia de uma maneira sui generis. Se não estavam de acordo percebia-se na mudança de clima do silêncio, os elogios eram mudos, os acordos sem necessidade de explicação, as diferenças aceites. Penso que lhes agradava que a relação fosse assim e, em caso de necessidade, defendiam-se uns aos outros numa ferocidade de matilha. Os filhos deles repetiam esta relação numa fraternidade endogâmica. Era uma tribu fechada, com as suas regras estritas e a sua Constituição própria, escrupulosamente respeitada. O pai fora um solitário, a mãe não os estragara com mimos. A seu modo, em todos eles havia uma boa parcela de solidão e uma distância que, paradoxalmente, facilitava a proximidade, às vezes mascarada de indiferença. Sequiosos de ternura, quase sempre recusavam recebê-la. Falhas de muito amor em crianças, faziam os possíveis por não o demonstrar e, se o amor aparecia, era de forma oblíqua, disfarçada. No entanto, mal tocava a fogo, uniam-se todos, com o arzinho casual de quem se juntou por acaso. Quando o pai morreu os irmãos pediram ao primeiro que dissesse em voz alta um soneto de Antero, ali, diante do caixão. À medida que os versos se iam sucedendo o primeiro pensava
- Somos uma família, somos uma família, somos uma família
embora a relação com o pai fosse, para alguns, complexa e difícil. Para quase todos complexa e difícil, para quase todos, em certas áreas, dolorosa. Mas eram uma família e o pai, claro, fazia parte dela. Mesmo debaixo da terra fazia parte dela. Eram, realmente, uma família. Isto foi escrito assim, ao correr da esferográfica: algumas notas acerca de criaturas que, por acaso, conheço. Não vou dizer o nome, é lógico. Uma família que não tem nome neste texto mas da qual não me desagradaria completamente fazer parte.
António Lobo Antunes, "Crónica Inventada", na 'Visão'
domingo, 27 de maio de 2012
"Exile on Main Street" *
Podia sempre olhar para ela daquela varanda, ela que parecia feita de Sol, que o consumia completamente, que o espremia para dentro, gota a gota, que o recolhia como se os raios fossem as varetas todas de um jogo de "mikado". Para a seguir os espalhar um por um, com explosiva delicadeza.
E daí, não. Tinha decidido partir. Encaixar-se num desterro prolongado.
Tinha conhecido um antídoto, intravenoso. Ele sim resolveria a questão do infinito.
Iria conduzir-se para o exílio esperado, numa de out, sem falar, fora de tudo e sem palavras, numa de viver ao fundo, o que era bem.
Sem um beijo, sem um adeus e, portanto, num estado sem no fundo estar, mas era bem.
Não se importava nada com isso. Seria assim.
Não iria espiar uma luz que se fundira. Numa, ou em duas vidas inteiras.
* Em 1972 os Rolling Stones editaram um álbum com o título "Exile on Main St.". Gravado no Sul de França, foi considerado o sétimo melhor disco de rock de todos os tempos pela Rolling Stone:
«There must have been hour upon hour, day upon day, of tedium and despair. But this, apparently, was how they needed to work: by feeling around in the dark for magic. Did the Stones spend too much of their time at NellcÔte stoned and lollygagging? Well, what's too much? And whose time was it? Ultimately, it's never been any of our business, however luridly fascinating the legends may be, and however much the Stones themselves may invite our attention with the noise of publicity. What they actually managed to accomplish — no less than the quintessential rock & roll album — ought to shut everybody up. Of course, it never will.»
quinta-feira, 24 de maio de 2012
terça-feira, 22 de maio de 2012
A música do Avô - XXXIV (to be continued)
'Ummagumma', 1969
'Atom Heart Mother', 1970
Há coisas que se herdam ainda antes de sabermos quem somos, antes de olharmos para nós. Que vêm no sangue como um código de barras. Que dizem "tu és nosso." E nós somos.
Tu, Avô de Lisboa que eras do Porto e morreste há 14 anos. A quem nunca falei por tu.
Só agora, um ano depois de te seguir a mulher que te adorou, se começou a desmanchar o Lego da casa que já não é vossa, e reclama herança e partilhas.
Tinhas uma Biblioteca. E não era só de livros.
Uma fabulosa e impressionante colecção de discos de vinil enchia estantes e estantes da casa da Defensores de Chaves. Local sagrado. Quase puro, não fosse proibido.
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domingo, 20 de maio de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
MAUS: 11 murros no estômago
11 inteiros murros no estômago. Tantos quantos os capítulos. Onde os antigos dois volumes se reúnem agora numa edição completa da 'Penguin books'.
Impossível tragar tudo de uma vez como se comêssemos um bife do lombo ou saboreássemos um sumo fresquinho e catita. As imagens do Holocausto nazi que se formam na nossa cabeça - e vêm das memórias do velho pai de Spiegelman - não o permitem. Aqui tudo é seco e doloroso. Só temos os ossos e um resto de pele para segurar tudo e continuar a viver. A preto e branco. A carvão.
Por isso, temos que parar a cada capítulo novo e respirar. Para recuperar. Pegar a seguir. E ler mais um pouco. Tem que ser. Parar outra vez. Respirar. Recuperar o fôlego. Agarrar novamente.
Demasiado duro para se engolir a correr. E continuar. Devagar.
Como se tivessemos que escalar os 296 degraus das suas páginas com o pensamento, com a memória, carregando a vertigem da tortura e do horror de todas aquelas almas que se contam aos milhões.
Sublime. Ninguém sai incólume.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
O beija-mão
15 de Maio de 2012 -
Programa:
Paris, 11.00 a.m. - Tomada de Posse no Eliseu
Berlim, 8.00 p.m. - Merkel
NB: A capital da Europa fica em Bruxelas, mas o sinal está dado. Para já, o grande Lampedusa mostra uma vez mais que tinha razão: é preciso que algo mude, para que tudo fique na mesma.
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Zooropa
terça-feira, 15 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
domingo, 13 de maio de 2012
Foda-se...
[contracapa de 'Alice', banda-sonora para o filme]
Bernardo Sassetti, 2005
sábado, 12 de maio de 2012
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