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sexta-feira, 1 de março de 2019

Dolce Vita

[Osteria Lisboa]

Uma tasca que é Osteria. Na Madragoa mas diz que é de Turim. Sol na janela, sopa de tomate e lasagna carasau muito fina com café e bolo a terminar. Comidinha assim e até as pausinis e os zuccheros que tocam no rádio caem bem.

Plus: João Paulo II pop abençoa a casa. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

14



e mal sabiam eles que o '1972' do Josh Rouse gravado num cd pelo outro mano amigo, que agora vive longe, e que o deixou na prateleira com beijos escritos para antes de partirem, iria ficar para sempre.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

"cuando yo te vuelva a ver no habrá más pena ni olvido"


"Na minha infância, o grito «Ao Colón ! Ao Colón !» ressoava, insolitamente, nos estádios de futebol e nos salões populares onde se dançava o tango ao som das orquestras chamadas típicas. Era o espontâneo reconhecimento popular das virtudes de um goleador insigne ou de um cantor tanguero como manda a lei merecedor de levar a sua arte para o maior cenário do país e da América do Sul. Era também, e sobretudo, o reconhecimento do Teatro Colón como cenário ilustre, orgulho dos argentinos, que acolhia os artistas mais importantes do mundo. Por mais de uma vez, ao passar casualmente pelo Colón numa gélida manhã invernal, ou numa pesada tarde do penoso verão portenho, e ao ver a multidão que faz fila para adquirir ingresso, formada por todas as classes sociais, todas as idades, todos os ofícios, pensei - opondo-me aos detractores que continuam a falar do Colón como um antro de elitistas - quão afortunado é um país que pode contar com uma elite assim." 

E lembraram-se então da noite em que entraram no Teatro Colón, da rua Cerrito encaixada na 9 de Julho.
O cartaz anunciava o espectáculo: Gerardo Gandini, do sexteto Piazolla (piano), temporada 2003, às 20h30. Eram 20h30. E era Setembro.

sábado, 15 de julho de 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

domingo, 1 de maio de 2016

sexta-feira, 18 de março de 2016

O Café de Lisboa


Depois dos discos que já coleccionava, por fim o concerto. A vida nem sempre é fácil e nem sempre se tem o que se quer.  E agora até pareço o Keith Richards e o Mick Jagger a escreverem canções.
Finalmente live A prova dos nove. Partilharmos as ruelas escuras e decadentes com os clientes da noite, enquanto dois gatos vadios destilam as suas guitarras durante quase duas horas sobre um telhado de Lisboa, é tudo o que o amante da cidade e do som pode ambicionar.
Acompanhados a partir de certa altura pelas "Cordas da Má Fama" (viola, violino e violoncelo acabadinhos de cair de Buenos Aires ou do Kusturica) os Dead Combo apresentaram-se no São Luiz como se fosse casa, que é dizer como se tivessem ido tocar uns fados sujos à tasca do João, onde um copo de vinho e um cigarro esperam ao balcão.
Para te agradecer como mereces só com alguma das minhas guitarras, mas ia ser pobre e não tenho Luas. Melhor calar e deixar um beijo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Buenos Aires - último dia

[desenho de Eduardo Salavisa, roubado daqui]


(…) Faltava, porém, fazer uma última coisa em Buenos Aires.


É o nosso último dia na cidade porteña. O sol está lindo, mas do rio de La Plata vem aquele fresco de início de Primavera. Como adoro. Sair logo de manhã e sentir esse friozinho que lava duas vezes.
Os minutos começam a fugir como areia numa ampulheta. Não queremos deixar Buenos Aires. Queremo-la para sempre. Como à mulher amada.
Apanhamos a calle de S. Martin e paramos numa sapataria onde compro um par de sapatos de camurça por 200 pesos que estavam na montra. De uma loja em frente a Cristina traz um par de jeans argentinos.

Faltava fazer uma última coisa em Buenos Aires. Há vários dias que pensava nisso. Quase desde o princípio da viagem. Mas só agora a adrenalina é que mandava. Agora quando o tempo escasseava.

Numa espécie de última prova de fogo, resolvo tomar o caminho mais longo que era possível para chegar ao sítio premeditado. É uma volta enorme pela cidade, das maiores. A maior pelo menos que iríamos dar em toda a viagem. Estamos na calle Florida e eu quero é ir para Rivadavia, onde mora o que vi num livro. De táxi teria feito sentido. Talvez demorássemos meia-hora. Nem tanto. As avenidas de B.A. têm mil números. São eternas. Mas talvez fosse o meu sub-consciente a pedir a última prova. De sangue.
É uma volta enorme, para lhe guardar o gosto. É sábado e as ruas estão cheias de gente.

A Cristina está farta de andar e começa a implorar um café. Digo-lhe que falta pouco, que é já na próxima esquina, que está quase. Tanta premeditação não podia morrer pelo caminho.
Com os pés já em dor, depois de quase três horas a andar, chegamos.

“Las Violetas”, lemos. Em Rivadavia.

A Cristina está furiosa comigo. Nem olha bem à volta. Diz-me para lhe pedir uma água gelada e vai à casa de banho. E eu fico na mesa. A ganhar coragem. Não há forma menos fatela de o dizer. Olha, que se foda ! Quando regressar, pergunto-lhe se casa comigo. Assim, como se a convidasse.
Recebi uma gargalhada monumental. É mesmo fatela pedir alguém em casamento. Mas já está e não se volta atrás. Ainda pensei que tinha feito merda. Que talvez me tivesse atirado do alto do Obelisco da 9 de Julho sem pára-quedas. Ou então era por não estar de joelhos, como nos filmes, ou por não ter anel, nem nada para lhe pôr no dedo, na orelha ou no pescoço. Mas não tinha, e não ia inventar ou comprar qualquer coisa a correr. A correr só o que tinha para lhe dizer e que já queimava na língua. Estava feito, estávamos num Café e havia gente perto, e ela não parava de rir. “Fazes-me andar meia cidade para me dizer isto ?” E eu com cara de parvo, provavelmente. Talvez para o ano, continuei. Não há pressa nenhuma. É só para pensarmos nisso. Deu-me um longo beijo, e, finalmente, disse o sim que eu já duvidava.
Apanhámos um táxi (era importante agora não abusar) para a Recoleta, onde almoçámos e fizemos pela última vez a Arenales. No “Richmond” o último café e adeus Buenos Aires !, cidade linda, perfumada por Gardel e Perón, trágica como Piazolla e suja de tanto sonhar como Maradona, cheia de luz e da melhor gente que já encontrei, dos Cafés antigos e das livrarias com sabor ao antes.

Sou teu e tu és minha.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Buenos Aires - 13° dia

"Los lanzallamas".
Continuámos a correria de ontem, quase louca, obsessiva (pelo menos para mim), pelas livrarias de B. A.. Continuávamos sem o livro. Estávamos quase a regressar a Lisboa e não podíamos voltar sem ele. Engraçado como tudo o que é raro, só por isso, ganha logo outro valor.
Meio dia já tinha voado e nada.
Recuperámos o fôlego no 'La Confiteria Ideal' com mais um café. Na porta de entrada, um empregado areava os metais.
Prosseguimos. Quando já estava pronto a desistir - caramba ! também não era a morte do artista ! - demos com uma pequena, e quase imperceptível, livraria. Daquelas que não se faz ouvir e anunciar. Que não tem grandes placas e que só fala em silêncio. Que é porta para quem procura. Mas só para quem é família ou quem tem fé.
Lá dentro, nas prateleiras, uma boa milena de livros. Deixa perguntar.
No balcão, uma senhora já com uma certa idade. Estranhava aquele par de malucos que entraram ávidos, aos tropeções, como se viessem atrás de água ou fugissem de alguém.
Deixa perguntar. Com esforço, em sussurro, quase em segredo, quase descrentes, prontos para mais um Não.
"Los lanzallamas", de Roberto Arlt ?
Sim, tenho.
Não podia acreditar. Pela expressão da sua cara, talvez a tenha ferido com um brilho inédito dos meus olhos. Talvez se tenha sentido como Santa num altar, o que, vendo bem, não deve ser agradável. 
Subiu uma escadinhas de madeira, meio tortas, que obviamente rangiam, desceu, e eis-nos finalmente com o "Graal" na mão.
Pasmei um bom bocado, demorando-me a ler as letras da capa. Para ter a certeza de autor e título. Era verdade. A busca terminara. Pagámos 60 pesos e viemos com o troféu debaixo do braço.
Faltava, porém, fazer uma última coisa em Buenos Aires.


terça-feira, 30 de junho de 2015

Buenos Aires - 11º e 12º dias

Por alguma razão que não consigo explicar, interrompi a história desta viagem.
Retomo agora onde tinha ficado.



Regressámos hoje a Buenos Aires. Os 3.040 kms que se contabilizam desde Ushuaia fazem-se em cerca de três horas e meia, by Aerolineas Argentinas.
Fomos ao hotel largar as mochilas, um duche, e de novo para o coração da cidade pasión. A cidade por que me enamorei e de que ficarei devoto até ao fim da vida.
Chamámos um táxi para a Plaza de Italia, no bairro de Palermo Viejo.
Tinha-nos ficado a saudade das suas lojas coloridas e cheias de alma, em ruas recuperadas arty, jazzy, trendy, que vendem coisas que apetece trazer. Dos restaurantes bem decorados e dos cafés acolhedores, um 'SoHo', dizem eles, um 'Le Marais'. Palermo Viejo.
Subimos a Avenida Jorge Luis Borges e demos um salto na "Babel" para comprar uns presentes. À noite ficámos. Deixámo-nos ficar. Estava bom. Estava a pedir. De modo que ficámos. Por ali. Mais um pouco. Sem pressa.

No dia seguinte acordámos com vontade de percorrer as livrarias e todos os cafés de B.A., em puro deleite cultural. O Miguel tinha-nos recomendado uns livros de autores andinos e por isso fizemos disto uma demanda.
A Cristina comprou os "Cuentos Completos" de Abelardo Castillo e eu "El Libro de los Abrazos", do Eduardo Galleano. 
Também trouxe "Los Siete Locos" de Roberto Arlt. O problema foi que nos tinham dito que este livro era a primeira parte de uma obra que só se concluía com outro livro dele: "Los Lanzallamas". E encontrá-lo ?
Corremos talvez umas trinta livrarias da Av. Corrientes e da Av. Santa Fé. Livrarias pequenas, escondidas, uma porta e umas estantes, perguntamos pelo livro, para o outro não ficar desirmanado, a meio. Pendurado. Livrarias grandes, célebres, como a 'Ateneo', o velho teatro adaptado, que tem livros nos camarotes e no primeiro balcão e que também vende discos, e aí eu distraio-me e já estou a ver outras coisas.
Mas foram muitas, muitas mesmo. Nada. Não tinham.
Pelo meio, a Cristina ainda conseguiu arranjar outro a que tinha deitado olho na primeira passagem por B.A. e que agora parecia bastante esgotado: "Los Cafés de Buenos Aires", uma edição da Secretaria da Cultura com fotografias e textos dos Cafés, bares, billares e confeitarias mais emblemáticos da cidade, verdadeiras instituições neste país. Sagrados.
Enfim, não encontrávamos "Los Lanzallamas", mas vimos uma edição do "Ensaio sobre a Cegueira" do Saramago e lembrámo-nos que o Miguel nos disse que nunca tinha lido nada do Nobel. Comprámos o livro, pedimos que fizessem um embrulho e fomos à estação de correios onde o enviámos para ele de lembrança. Com dedicatória e muita amizade.
Por fim, frustrados e exaustos, parámos no Café Tortoni, na Av. de Mayo, para um café e um chá.
Há fumo no ar, as pessoas conversam sobre as eleições de domingo (Ibarra vs Macri) e os empregados, frenéticos, anotam os pedidos.
À noite, fomos ver tangos ao 'El Querendí'. A banda tocava bem e a Cristina diz que gostava de aprender.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

"como hojas muertas que el viento arrastra allá o aquí"

Serrat no Coliseu foi coisa d'Ela. Todos temos as nossas coisas.
Mas há sempre tempo para descobrir pequenas coisas como esta:



como hojas muertas
que el viento arrastra allá o aquí,

que te sonríen tristes y
nos hacen que
lloremos cuando
nadie nos ve.

domingo, 22 de março de 2015

Eire land

Acabo de ler no on-line da BBC que a Irlanda venceu o torneio das 6 nações em rugby. Por 6 pontos de diferença para a Inglaterra. Ah, insurrectos !

E é agora que me lembro de ti. Há 10 anos. De ver do ar só campos e campos verde trevo, quando o avião chegava.

Não foi preciso chover, nem trouxe comigo o cd dos "Pogues" a tocarem 'A Pair of Brown Eyes'.
Depois começam-me a chegar estas imagens. Alugar o carro em Cork a um homem chamado Finbar e de coisa nova, conduzir do lado esquerdo. Inverter o cérebro e distorcer hábitos instalados. Estradas e estradas. Que coisa boa !, quando nos trocam tudo à volta e ficamos como virgens a ver tudo como num espelho. E isso é viajar.
Chovia, quando chegámos. Choveu quase sempre e é por isso que és desse verde impossível.
Lembrei-me da interminável estrada até Killarney e das livrarias. Podia sempre interminar-me numa livraria !
E parar naquele pub do fim do mundo, depois de subir uma colina, andar, andar e andar, e de receber mais uma pint de Guinness que me trouxeram para a mesa de madeira «... for the way, man», enquanto escutávamos canções de velhos celtas a tocarem num rádio velho e roufenho.
Lembrei-me das setas para Tipperary e de escolher o ferry para o Burden.
De chegar a Galway, das corridas, onde um velho de bengala esperava sentado. Ou talvez descansasse apenas.
De nos encostarmos de barriga para baixo nos 'Cliffs of Moher', esses penhascos gigantescos que se esmagam contra o mar, e sentir a enorme vertigem de abismo que só experimenta quem tem coragem. Que tu esbanjavas, Cristina. Porque já levavas a Matilde na barriga.
Lembrei-me de Belfast, de entrar numa rua em contramão, e dos murais, do Bobby Sands e da Loyalist Zone. De saber que ainda há pouco tinha sido chacina. E de como ainda continuou depois de nós. E do fumo nos pubs, que aqui a lei nova não entrava, porque estávamos no UK. De repente as bandeiras mudam de cor e os táxis e os autocarros são de Londres. Fico logo contra ti mas porque sonho com a independência. E porque adoro os irlandeses.
Ainda enterrar-me no trânsito da autoestrada que vai para Dublin por causa da final de futebol gaélico que se jogava no domingo.
De andar contigo nas ruas da capital, de ler sobre o Easter Rising e de procurarmos velhas fotografias do Michael Collins a comandar o IRA.
De comer um bife num pub de Kilkenny e assistir aos malvados franceses porem-te para fora do Mundial de 2006 com uma obra de arte chamada Thierry Henry. E este nem foi com ajuda da mão.
No dia seguinte o Irish Independent ainda chorava a tristeza da véspera, como eu chorei a lotação do estádio e de não ter conseguido bilhetes para o jogo.
  

domingo, 11 de janeiro de 2015

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Oslo (último dia)

No último dia o despertador não toca. Não o liguei, apesar de querer. O sub-consciente trabalha de uma forma curiosa. Como se fosse para ficarmos cá.
Com pouco tempo, vamos directos a uma "travel bookshop" que tinha visto na véspera, a 'Nomaden'. Têm os guias todos do mundo, mapas pendurados, globos terrestres de vários tipos e tamanhos, equipamentos de viagem, tudo para todo o lado. Dá vontade de partir já para outro sítio. Compro um livro sobre a Noruega e vêm também um par de binóculos para o Rodrigo, uma bússola para a Matilde, e para a Carmo um ursinho polar.
Olho para tudo pela última vez. Olho. Oslo. Olho. Oslo. Olho.
Está.


Pois estes noruegueses têm qualidades. Ainda o Estado Social. A organização da sociedade. O civismo e o zelo pelo bem comum, pelo interesse colectivo, pela propriedade. O respeito máximo pela igualdade. A calma e naturalidade desse assunto, nos direitos e em tudo.
O design. O traço claro, o pragmatismo das linhas e do raciocínio. A competência e seriedade no trabalho. Um povo que horroriza com ilógicas perdas de tempo, com o desperdício e com a corrupção, que nem compreendem bem. Para quê ter mais para mim se todos ganhamos mais somando tudo?
A ordem para eles é segurança, e, por isso, é quem os faz rígidos e inflexíveis ao que sai da regra e do hábito. Por medo até. Que é onde entra a frieza, uma certa reserva no trato ao estrangeiro. Porque olham para o sol dos latinos como horizonte.
Esse lado, afinal humano, para mim muito interessante, quando os notei procurando compreender-nos. Onde nós entramos. Explicando-lhes o barroco, o tempero da linha arredondada, que não acaba o mundo se adaptarmos a norma ao dia, e que a vida não é uma ciência exacta. Que há virtude e graça no improviso e muito mais para além do lado certo da estrada. Que ser sanguíneo não é ódio. Apenas impulso. E excesso. E como dá saúde ter até momentos de perdão inesperados. Que é o que a boa moral oferece à lei.
Mas sem que nada substitua o gosto olfactivo das coisas. O perfume que invade tudo o que é Sul, e que aqui jaz longe, enterrado, levado entre o ar frio e seco, que espanca mesmo uma pessoa com mau nariz como eu. 
E no meio disto tudo, a Noruega é um país tremendo de talento natural a que só um morto pode ficar indiferente. Escandaloso de contrastes e bruto de força. Esmagador de belo. Só que admirando (de uma certa maneira) a forma como vivem e vêem o mundo, regresso não norueguês. Como voltei não islandês. Porque não me raptaram como Irlanda ou Argentina, ainda hoje duas pátrias no meu coração.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

de Trondheim a Oslo (6º dia)

Chegamos ao carro e temos aquilo que parece ser uma multa no pára-brisas. What the... ?!
Lembro-me perfeitamente de ter colocado moedas no parquímetro suficientes para o dia seguinte e ainda dei uma ou duas voltas à procura do lugar certo, mas aparentemente fiz merda. E a Cristina até tinha avisado. E agora tenho um bicho de 500 Coroas nas mãos.
Levo o papel à recepcionista do hotel para o decifrar. Estacionei fora do lugar demarcado. E agora ? pago ou reclamo ? Não pagar não é obviamente hipótese. O carro é alugado e depois a AVIS manda-nos a conta que, nessa altura, conhecendo bem estes nórdicos, será já o triplo ou quádruplo do valor. E agora ? Pago ou reclamo ?
Reclamo, claro. Como não ? Vou perder tempo, certo, e se estivesse com o meu amigo Sérgio, ele até se oferecia para pagar só para não se ter que chatear mais com o assunto.
Mas como, se até tinha posto moedas ? É injusto, mesmo que (reconheço agora) o carro tenha ficado "ligeiramente" fora das marquinhas. Ok,talvez não tenha sido só ligeiramente.
Dirigimo-nos à rua da entidade autuante onde chamo o superior.
É uma superiora, com cara de icebergue. Traz com ela uma pasta com o processo, com fotografias de vários ângulos, tudo rematado e indiscutível. A organização destes gajos é espectacular.
Explico uma primeira vez o que aconteceu. Responde, imperturbável, que não pode fazer nada. Dou-lhe uma visão lógica e inocente do problema, que se pensasse que pudesse ser multado não teria inserido moedas na caixinha. Que o carro não chateava ninguém, nem estava em cima da passadeira. Que achava (no meu curto entendimento) que o sinal indicava a zona e não o início do local do estacionamento. Glaciar. A superiora não cede.
Volto à carga, embora começando já a duvidar da minha capacidade de a derreter. Diz agora que compreende. Boa !, já não me foge.
Aproveito o balanço e ataco ao coração: "No meu país o valor da multa dá para uma refeição excelente para uma família inteira !", ataco à boa moral: "Não acredito que queiram ficar com o dinheiro dos turistas !", Bingo ! Pede-me o papel de volta e diz-nos para esquecermos o assunto. Agradeço quase tão luterano como ela, mas por dentro exulto. Hoje ensinei a estes nórdicos a palavra tolerância.
[foto: andré]

Saímos então de Trondheim e apanhamos a estrada para Roros, uma antiga cidade mineira, património da Unesco, e onde paramos para beber café e passear na rua principal.
De volta à estrada, já longe das montanhas, reparo no rio e numa igreja com uma cerca branca. Está sol e é um prazer conduzir num dia assim.
Seguimos para Oslo. Estamos a concluir o círculo que iniciámos. Faltam ainda 400 kms e só 100 é que são em auto-estrada. E depois ainda há os limites de velocidade, aqui sagrados e cumpridos como quem reza o terço. Vai demorar. 
Regressamos a Oslo e é noite assente.

Total da viagem de carro: 1.250 kms.
Total da viagem com os 464 kms de comboio para Bergen: 1.700 kms.

Temos de entregar o carro, mas perdemos o corte certo. Depois perdemo-nos um pouco mais dentro da cidade. É sexta-feira e devemos ter dado sinais evidentes de má condução, porque um carro de polícias à paisana manda-nos encostar. Queres ver que hoje é dia de multas ? 

Explicamos. Sacudimos os mapas. Fazemos um ar aflito e baralhado. Pioramos o nosso inglês. 
Perguntam-nos de onde somos e acabam a escoltar-nos eles próprios à AVIS. Agora sim, ensinam-me eles o significado de tolerância.
Jantamos numa cervejaria perto do Hotel Saga, onde nos instalamos. Este fica mais longe do Centro-centro. Na zona alta, de prédios com fachada arte-nova. O tipo de hotel em que ficaríamos sempre que viéssemos a Oslo.
[foto: andré]

domingo, 21 de setembro de 2014

de Geiranger a Trondheim (5º dia)



[foto:andré]

A vista do hotel em que ficámos era perfeita, simplesmente deslumbrante. Difícil até de descrever. Daquelas capazes de fazer parar as horas. No alto da colina que dá para o Geirangerfjord, que tem dois penhascos como guarda-costas. Uma orquestra de luz e cor. E o nosso quarto espreitando privilegiado lá para baixo, na bancada central.
A Noruega não é só um dos países mais ricos da Europa e auto-suficiente em termos energéticos, graças aos poços de petróleo descobertos nos anos 70 no mar do Norte. É infinitamente milionário no seu estado bruto, no que a mãe Natureza garantiu a quem não pode ter Lisboa, Paris ou Roma.
Não podíamos era demorar. Tínhamos 330 kms pela frente em estradas que iam continuar complicadas de belas. O dia do avião perdido começava a fazer falta.
Acordámos cedo e bem dormidos. Tomámos o pequeno-almoço, atirámos as mochilas para o porta-bagagens e arrancámos. À mesma hora que o casal que estava a fazer uma road-trip nas suas BMW's, estacionadas debaixo do alpendre. É o tempo dos que querem conhecer tudo e absorver mais.
Descemos lá do alto e fomos desembocar na vila onde tomámos um glorioso café ! e mandámos uns postais. Metemo-nos no carro estrada acima outra vez, com a companhia do espelho de água que vive em baixo e de uma música imperceptível que tocava no rádio.
Li no Lonely Planet que devíamos fazer o cruzeiro nesta parte do fjord que vai até Hellesylt. Sempre sem pachorra para excursões, mando o guia dar uma curva. Não é preciso cruzeiro nenhum quando se está de carro e temos que navegar três partes do percurso no mar de ferry, para chegar, primeiro a Molde, depois a Trondheim. Basta ter olhos. De modo que fazemos à nossa maneira, ainda que quase perdêssemos o primeiro ferry Linge - Valldal, que só vemos porque paramos em Linge para abastecer, acontecendo depois um daqueles raros momentos de sorte e lucidez. Absorvidos outra vez pela beleza extrema do local, reparo que estamos no sítio certo e seguimos viagem.
Sempre extasiados, como quando saímos da estrada de sopetão e fomos encontrar uma mesa de madeira, das que têm bancos incorporados de cada lado, mesmo à beirinha do mar e a implorar para almoçarmos. Ali deixada, com uma pequena lanterna de latão e um vasinho com flores já secas. Mudámos as flores que a Cristina apanhou por ali e respirámos, enquanto eu provava o mar, para ter a certeza que era mesmo mar e não rio. Comemos ali mesmo e despedimo-nos, deixando um bilhete escrito em inglês: 
"Thank You, Lisbon - Portugal"
A maravilha sempre continuando, mesmo se atravessávamos os longuíssemos túneis com que cortam as montanhas.
Os dias ainda são grandes pelo que chegamos a Trondheim com a luz das quatro da tarde, embora fossem sete. 
Cidade tenrinha e verdadeira. Já noite, circulámos pelas ruelas para vermos as casas de madeira sobre estacas, com grandes janelas, luzes acesas, permitindo observar tudo de fora, e bicicletas à porta, à escandinava. Também a Catedral e o cemitério.
De volta ao hotel, estaco em frente de Heléne, a lindíssima recepcionista. Podia facilmente apaixonar-me por cá.
[foto: andré]

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

de Bergen a Geiranger (4º dia)

Queríamos sair cedo e, embora tentando, não deu. Por causa da AVIS onde estivemos a negociar o Suzuki 4x4 que iríamos fazer à estrada a partir de agora. Acho que só realmente aqui começou a nossa viagem. É quando nos conduzimos que somos donos e nossos. Aspiro sempre a este tipo de inteira liberdade. 
Oslo e Bergen ficavam para trás. Duas cidades baixas. Duas cidades de porto.
Vamos trilhar os Fjords, as centenas de serpenteantes línguas do mar do Norte que rasgam a costa Oeste da Noruega e penetram em terra por entre picos e montanhas como se fossem rios a desaguar ao contrário, abrindo caminho para o interior e criando quase pequenas ilhas.
Objectivo: o Geirangerfjord, o ceptro e a Coroa.
Após os primeiros 111 kms na E39, em direcção a Forde, chegamos a Oppedal onde fazemos a primeira travessia de ferry, para Levik. Percebemos rapidamente que só de ferry se atravessam grande parte dos fjords. São tantas estas línguas de mar que se espetam para terra que não haveria tempo ou dinheiro para construir todas as pontes que seriam necessárias para passar para o outro lado. Esta parte do país está também repleta de túneis (alguns com 4 kms de comprimento), a forma mais rápida e recente de atravessar as montanhas. Mas quando não há túneis, nem ferrys, nem pontes, resta-nos pentear o sopé das montanhas,  bem na bordinha e rentinho ao mar, em slaloms gigantes que supomos intermináveis.
Ao fim de meia hora damos por nós inebriados dos"esses" e "esses" e parece que já só sabemos curvar. Também começamos a perceber porque os nórdicos apreciam tanto os ralis.
[foto: cristina]

Parámos, então, a meio caminho para comer umas sandes numa mesa de madeira à beira da estrada, que tinha um baloiço pendurado numa árvore mesmo ao lado e me fez lembrar dos miúdos.
Até que chegámos aos grandes maciços despenhados neste mar azul-esmeralda, que é assim por causa da água pura que escorre dos glaciares.
É isto que perseguimos. Foi por estes contrastes brutais que a natureza concedeu aos frios povos do Norte que percorremos a longa e ziguezagueante estrada nº 60 que liga Byrkjelo a Geiranger, e que subiu e desceu e subiu e perfurou e serpenteou.
E quando já batiam as 7 horas de caminho e já estava exausto da parte final de curvas e contra-curvas sucessivas enquanto subíamos a cadeia montanhosa de Dalsnibba, e onde vislumbrámos algumas das neves eternas, eis que chegamos à terra prometida: Sua Majestade o alto de Geiranger, senhor da única panorâmica capaz de curar-nos de tanta volta e guinada. Tão impressionantemente assombrosa que por pouco nos fazia perder o hotelzinho junto à estrada que tínhamos marcado e por onde passávamos já absortos no esplendor.
Compreendemos então o tamanho da recompensa para o viajante que suporta a tortura do (quase) inacessível.
Saímos do carro e olhámos à volta. Sentimos o ar fresco, enchemos os pulmões e deixámos que os olhos brilhassem agora.
Para desentorpecer fizemos depois uma hora de trekking até uma das cascatas da zona para concluir o processo curativo.
E para desentorpecer ainda, fomos jantar um cabritozinho numa espécie de cabana de madeira. Até desentorpecermos completamente no colchão do nosso quarto.


[foto: andré]

10 anos. Não parece que já são. Parecem ontem.

domingo, 14 de setembro de 2014

Bergen (3º dia)




(foto: andré)

O homem saído do "Matou" foi só assombração. O que não foi assombração foi o colchão que tínhamos na cama e que era mole e não nos deixou recuperar do cansaço do dia anterior. E, portanto, a vontade foi sair rápido e apanhar depressa o ar fresco da rua.
Volta enorme pela cidade. Bryggen primeiro, os velhos wharehouses, o labirinto de armazéns onde durante séculos se guardaram peixe e cereais e que agora adaptaram a galerias, estúdios de pintores e escultores, onde se trabalha joalharia, e que convivem com bares, comércio tradicional e lojas de souvenirs.
Depois, a outra margem, que é mais alta e onde os turistas chegam menos. A escola já começou e podemos ver as coisas como elas são. Pais a deixarem os filhos, que levaram de bicicleta em atrelados ou cadeirinhas, uma banda rock a ensaiar num andar baixo de uma casa, camionetas a descarregarem os barris de cerveja, estado puro.
Ao almoço, conhecemos Onna, uma rapariga de Barcelona que nos conquistou com um mix de mexilhões, salmão e caranguejo real. Foi numas barraquinhas simpáticas estacionadas na praça central, e onde se reúnem "os latinos". 
Os italianos têm a coutada dos enchidos, de baleia, alce ou veado. Os espanhóis ficam com o marisco. E os portugueses - sim, não falham - é com o bacalhau, o salmão fumado, recomendado com um "tempero especial", e os caviares. Jorge, dono de uma forte bigodaça, veio de Viana do Castelo e passa 4 meses por ano na Noruega, para equilibrar as contas. Já estava em contagem decrescente para o regresso a 27 de Setembro que "uma vez passei cá um inverno e é de morte".
Foi o momento mais animado do dia. O momento em que reencontrámos o barulho do Sul, cada barraca apregoando o seu negócio e a chamar clientes, porque o resto das ruas continua clean. E continua a calma e o silêncio, mesmo sob a forma de jogging.
Encontramos uma loja de discos bem traçada. Nunca resisto.
À noite, ainda a barriga a lembrar a brutalidade do mix ao almoço, jantamos uma tábua de queijos (franceses) e um copo de vinho (italiano), num restaurante com tijolos à vista. Explicamos a Morgan, um cruzamento louco da Suécia com o Egipto, que têm que aprender a conhecer os vinhos e queijos portugueses. Que têm de se abrir a este pobre país do Sul. Ele diz que ainda é cedo. Que ainda lhe doem os golos do Ronaldo na eliminatória contra a Suécia, mas daí a conversa parte para tudo o resto e a noite termina num ambiente dialético que não envergonharia uma tertúlia em Lisboa do Cardoso Pires.

(foto: andré)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

de Oslo a Bergen (2º dia)

Os dias para já ainda são compridos. Já não há sol à meia noite, mas até às dez há luz, o que é simpático.
As temperaturas rondam os 10 e os 18º C. Há algumas nuvens, mas não chove.
De manhã saímos do nosso hotel, o Folketeateret, bem no centro, e fomos para a zona de Grüner Lokka, um bairro certinho, arrumadinho, familiar, onde vemos os direitos parentais em acção, com mães e muitos pais a passearem sozinhos os filhos pendurados em marsúpios, e onde há lojas que vendem tralha, antiguidades, coisas para casa, outras que vendem  roupa em segunda mão pendurada em cabides originais, cafés gourmets, enfim um bairro estilo SoHo ou Portobello, trendy e acolhedor, como todas as cidades gostam de ter agora.
E é no Grüner Lokka que encontro uma velha loja de discos e livros de BD, locais sempre de visitação, de onde trazemos o 'Abattoir Blues' do Nick Cave e um CD sem título dos Sigur Ros (banda islandesa), ambos em segunda mão, o que só por si vale uma estrela para o bairro.

(foto: Cristina)

À tarde apanhamos o comboio para Bergen, uma cidade que fica a 460 kms de Oslo, na outra ponta sul do país para Oeste. 
Os bilhetes foram comprados de véspera, o que compensa porque são 'mini-pris', ou seja, metade do preço, mas mesmo assim brutalmente caros. 798 coroas que é como quem diz 96 euros, mas trata-se da linha mais alta da Europa, que nalguns períodos chega a atingir os 1.220 metros de altitude. Parte às 16h01m e chega às 22h59m. Tudo funciona e tudo funciona a horas. 
Como adoro viajar em comboios ! Os anos de inter-rail consecutivos foram uma tatuagem. E com a Cristina mais ainda. Entendermo-nos com alguém numa viagem é difícil e um bem raro que devemos guardar em cofre de ouro.
Pela janela vêem-se algumas casas de madeira, todas arrumadas e organizadas, pinheiros, cedros e freixos. E neve quando chegamos lá acima. Nas estações onde pára vejo pessoas a dizerem adeus.
A viagem é longa e entretemo-nos a jogar dados, a ler e a ver o que as outras pessoas fazem. Ao nosso lado há um tipo que vê filmes atrás filmes no portátil. Ninguém conversa na nossa carruagem, na tal lógica da reserva, encharcada de silêncio. Aqui vive-se longe da explosão dos sentidos. A anos-luz da emoção sonora e movimentos escandalosos do Sul latino, que aqui tomam por zanga. Não se fala alto, dizem-nos, porque isso só quando estamos zangados. Agora sou eu que tenho vontade de instalar um motim.
E por isso fugimos para a carruagem-bar, onde se escutam algumas vozes e gargalhadas e onde se servem vinho e umas cervejas. Perguntam-nos duas vezes porquê a Noruega. "Porque não conhecemos." E como já fomos à Islândia, acho que faz sentido.
Viemos à Noruega atrás das grandes belezas naturais, das enormes montanhas que se despenham no mar do Norte, dos lagos de quilómetros, dos Fjords eternos que recortam e rendilham a costa.
Sim, confesso !, viemos procurar o olhar em êxtase de Nicola no 'La Meglio Gioventú' quando cá chegou.
A fiscal dos bilhetes só aparece ao fim de uma hora. A Cristina tira os pés de cima do banco da frente, por via das dúvidas.
Chegamos noite feita a Bergen e subimos a ruazinha esconsa que vai dar a Bryggen, o velho porto da cidade, onde ainda se descarregam os bacalhaus e o salmão, mas mais importante, onde nos esperam agora as nossas camas. O homem do front-desk fala para dentro e tem os olhos esbugalhados do assassino no filme "Matou", do Fritz Lang.

(foto: andré)