sexta-feira, 30 de agosto de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Ashes to Ashes
Quando o Chiado ardeu, tive medo, claro que tive medo.
Da sala dos avós na Defensores de Chaves onde seguia o directo naquele fim de férias, parecia que podia queimar a cidade toda e chegar a nossa casa. Aos 10 anos é difícil não temermos o absoluto e acharmos que tudo é assim.
A notícia era que o incêndio tinha começado no Grandella, e aí comecei a perceber que ia perder o enorme armazém, de uma cidade sem centros comerciais, que tinha o primeiro andar só para brinquedos. Um andar revestido de paredes inteiras de brinquedos todos empilhados de cima a baixo. Na altura, a boca escancarava de espanto e maravilha quando vinha o Natal. Achei que ia ficar para sempre sem isso.
Também já se sabia que a loja da Valentim de Carvalho, onde às vezes acompanhava o Avô, ia à vida (depois mudou-se para a grande loja do Rossio, depois acabou).
Lembro-me das acusações ao Abecassis, das enormes divisórias de pedra encrustadas ao longo da Rua Garrett e que, enfiadas no meio, pareciam feitas para rejeitar a entrada dos bombeiros com os carros. Apagar, portanto, só à mangueirada, em cima dos telhados e em mangas de camisa. E ninguém a sossegar ou a contar o suor que escorria no pavor do rosto dos heróis que deviam salvar. Aos 10 anos achei que a cidade podia ir-se toda.
Lembro-me depois de chamarem o Siza Vieira, espécie de Messias salvador e de todos acreditarmos em Deus-Sol. Siza profeta da reconstrução e da nossa paixão.
Também não esquece nunca terem descoberto os responsáveis. De o Chiado ter ficado na penumbra da cidade, cinzento e frio, soterrado nas cinzas durante oito ou dez anos, e de nos ter feito falta.
Em Portugal, até parece milagre !, mas ressuscitou e foi devolvido. E agora está belo e é de todos outra vez.
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quarta-feira, 28 de agosto de 2013
"Não me esqueço de António Borges", por Pedro Tadeu
Ao dar, no entanto, uma opinião sobre António Borges tenho de focar-me noutro aspeto: naquilo que acredito, talvez erradamente mas com convicção, ter sido uma influência negativa para a sociedade decorrente da passagem deste homem notável pela política e por lugares cimeiros da economia mundial.
Não me esqueço quando António Borges disse que "a diminuição de salários não é uma política, é uma urgência". Não me esqueço quando defendeu que os trabalhadores deveriam pagar mais taxa social única e os patrões menos. Não me esqueço quando advogou a destruição da RTP. Não me esqueço que instituições como a Goldman Sachs e o FMI foram responsáveis, no tempo em que ele lá esteve, pela distorção de equilíbrios na economia mundial que nos levaram a uma crise gigantesca empobrecedora de milhões de pessoas. Não me esqueço que aquelas instituições onde ele pontificou foram cúmplices (e até autoras) de autênticos crimes económicos que, tirando um ou outro bode expiatório mais desprotegido, ninguém pagou, a não ser as suas vítimas, diretas ou indiretas.
António Borges seria pessoalmente admirável mas a sua visão do mundo, para mim, era detestável. Para um homem que sempre odiou a hipocrisia, penso que o que escrevo é o verdadeiro sinal de respeito que, sem dúvida, lhe é devido.»
no DN, 27.08.13
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segunda-feira, 26 de agosto de 2013
sexta-feira, 23 de agosto de 2013
Mensagem
Em Dezembro de 1968, Vinicius de Moraes, a caminho de Roma para passar o Natal, encontrou-se em Lisboa com Amália para uma noite de poesia e canto. Também estavam Ary dos Santos, Natália Correia, David Mourão Ferreira e Alain Oulman. Esse encontro ficou gravado e foi editado em disco.
No final deste serão em casa de Amália, foi-lhe pedido que deixasse uma mensagem sobre a sua passagem por Portugal.
"Bom, me pedem para dizer as impressões que eu levo de Portugal.
As impressões são as mais carinhosas possíveis. Um povo do qual eu descendo e no qual tenho as minhas raízes mergulhadas e que eu queria conhecer um dia. Porque eu sou um homem meio sem pátria. Não tenho pátria. Minha pátria é a Humanidade, mas de toda a maneira eu queria conhecer o povo português, queria entrar em contacto com ele. Um povo com um tremendo anseio de viver, e de aparecer e de reaparecer na História, né ?, esse povo heróico, que deu tantas coisas lindas, né ?, um povo que deu um poeta como Luiz de Camões, todo o cancioneiro português antigo que eu conheço tão bem e no qual eu embebi, do qual eu sofri uma grande influência.
Então, a impressão que eu levo deste povo, do meu contacto com... com ele e com os intelectuais, com os poetas, com as pessoas, é uma impressão assim de... ao mesmo tempo de beleza e de tristeza, né ?... engraçado !
Porque o contacto foi o mais amoroso possível - e esse é o único contacto que me interessa - mas ao mesmo tempo uma impressão de tristeza, de ver este povo tão formalizado ainda, né ?
Eu tenho a impressão de que o povo português precisava de se desengravatar, né ? perder assim... uma série de formalismos que ele conserva, né ?, de maneira que o que eu posso dizer ao povo português neste momento, a meus amigos portugueses que me trataram com tanto carinho, que tiveram tanta atenção comigo - inclusive uma atenção de que eu não me acho merecedor, porque eu acho que ainda também não descobri o meu caminho - é esta: despir-se do seu formalismo !
Esse é o grande problema do povo português, para mim, do que eu pude verificar aqui. Integrar-se na Grande Vida, né ? num negócio que eu também não sei como explicar, mas que eu acho que é fundamental para o ser humano. Comunicar-se cada vez mais. Amar-se, amar-se, sem problemas, sofrendo muito (o sofrimento faz parte do jogo, não tem importância).
Nós somos praticamente 100 milhões de seres humanos falando uma língua comum e a nossa poesia é comum de uma certa maneira. Nós temos os mesmos problemas, a mesma tristeza de conhecer o nosso semelhante de uma maneira que outros povos não conhecem, temos assim a... mesma doçura para viver, uma certa necessidade de se comunicar que outros povos não têm. Nós somos os últimos povos que amam e que cantam, né ? e que escrevem uma poesia direita, que tenta dizer qualquer coisa.
A minha única mensagem que eu deixo aqui a vocês, hoje, na casa de minha querida amiga Amália Rodrigues - essa tremenda cantora, né ? que eu amo, cuja voz eu amo e que realmente transmite, para mim transmite assim o que seria, digamos assim, um Portugal verdadeiro - a única coisa que eu queria dizer a vocês é o seguinte: ROMPAM AS CADEIAS ! VIVAM ! AMEM ! AMEM-SE ! ROMPAM AS TRADIÇÕES ! ROMPAM OS PRECONCEITOS ! e aí eu tenho a impressão que cada um vai ser... pode, pode se tornar mais feliz, porque eu acho que o grande problema do ser humano é a felicidade. Cada um deve procurar a sua felicidade e ao procurar a sua felicidade procura, normalmente, a felicidade do seu semelhante, né ?
Não sei se eu disse muita bobagem, hem ?, mas eu disse isso aqui que disse para vocês com o maior espírito de verdade, de amizade e de compreensão.
... e agora eu quero ir para minha casa."
(em 'Amália / Vinicius', 1970, Edições Valentim de Carvalho SA)
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Rentrée III
"Uma Família Respeitável", de Masoud Bakhshi. Às seis e trinta, no Nimas, uma das últimas salas de Cinema de Lisboa.
O Irão. Para quando o Irão ?
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
terça-feira, 20 de agosto de 2013
sábado, 10 de agosto de 2013
Urbano Tavares Rodrigues (1923 - 2013)
"Só me custa morrer por causa do meu filho."
Urbano Tavares Rodrigues tinha 89 anos e um filho de 6.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
domingo, 4 de agosto de 2013
Sinal Fechado
- Olá! Como vai?
- Eu vou indo. E você, tudo bem?
- Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E
você?
você?
- Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é, quanto tempo!
- Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
- Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!
- Quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí!
- Pra semana, prometo, talvez nos vejamos… Quem sabe?
- Quanto tempo!
- Pois é… Quanto tempo!
- Tanta coisa que eu tinha a dizer, mas eu sumi na poeira das
ruas...
ruas...
- Eu também tenho algo a dizer, mas me foge à lembrança!
- Por favor, telefone! Eu preciso beber alguma coisa,
rapidamente…
rapidamente…
- Pra semana…
- O sinal…
- Eu procuro você…
- Vai abrir, vai abrir…
- Eu prometo, não esqueço, não esqueço…
- Por favor, não esqueça, não esqueça…
- Adeus!
- Adeus!
- Adeus!
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quarta-feira, 31 de julho de 2013
Poem to be
[capa de 'OH, (ohio)', Lambchop]
There, you know. I too.
The other side of the road
The train line, see.
There, you know.
With eyes blindfolded
and hands,
and lungs and heart so tied
that cried.
Everything's calling.
Sending notes to the stars.
As the river flows [It's the shelter.]
and that tower, oh to climb it like a castle.
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"Say Hello To The Angels"
óleo em linho, 2010
Nem tudo o que parece (sabemo-lo bem), é. Mas Damian Loeb explica isso com um pincel.
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sexta-feira, 26 de julho de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
A hell of a place to make a country *
Lisboa. Já passa um bocado da meia noite e a Vespa talvez ziguezagueie um pouco mais do que devia. E não é só para fugir aos carris dos eléctricos ou não tropeçar nos vestidos que passam na rua.
Descemos a Madalena para aterrar no Martim Moniz onde os pirilampos da polícia já mandam encostar.
- Boa noite, Senhor Condutor.
(enquanto bate a Continência)
(enquanto bate a Continência)
O Condutor não fica sem voz, não perde a calma e também faz a Continência. Será louco ?!?
- Venho a cumprir a lei, Sr. Agente.
- Isso é o que vamos ver. Documentos, por favor.
- Tome.
- Está-me a dar só o registo. Carta e Seguro ?
- Certo, aqui os tem.
- Bebeu ?
- Sim, acabámos de jantar. Bebi um vinho, claro.- Já alguma vez soprou no balão ?
- Sim.
- Então já sabe como é. Sopre aqui até eu dizer para parar.
- (...)
À primeira não sopra bem. O instinto funciona assim.
À segunda.
- Ui. 0,87.
A degustação dos vinhos, bem acamadinhos, tinha feito os primeiros estragos. As papilas estavam todas acordadas e não davam mostras de cansaço ou timidez.
O Pedro tinha-nos dito que a prova podia ser muito boa ou excelente. 6 vinhos para acompanhar cada prato. E cada prato decide o dono da cozinha. Gosto. Cada vez com menos paciência para escolher o que comer. Devia ser sempre assim.
"O objectivo não é embriagar-vos, embora possam."
Um Bruto para limpar, depois os brancos. Para começar um Casal Santa Maria, de Lisboa, os Douros, um verde Alvarinho, um tinto para a carne. Acabamos com um Madeira doce, quando já nos entregámos completamente à nossa sorte. Toda a noite os vinhos a tentarem bater o prato que vinha para a mesa. A conseguirem.
Um Bruto para limpar, depois os brancos. Para começar um Casal Santa Maria, de Lisboa, os Douros, um verde Alvarinho, um tinto para a carne. Acabamos com um Madeira doce, quando já nos entregámos completamente à nossa sorte. Toda a noite os vinhos a tentarem bater o prato que vinha para a mesa. A conseguirem.
Do São Pedro de Alcântara adora-se Lisboa.
- Ui. 0,87.
Mas é aí que o homem salva o homem, e nos são dadas provas da compaixão de que os portugueses são felizmente vítimas abençoadas. Porque esta merda não é a puta da Alemanha, diz o irmão de sangue.
A verdade é que ainda estou para perceber, mas...
A verdade é que ainda estou para perceber, mas...
- Ó Sr. Condutor, porque é que não vai ali dar uma volta, beber um café, e depois regressa para soprar novamente ?
O Sr. Condutor vai. E a compaixão humana também o segue. Hoje deve ter saído com alguma espécie de auréola e ainda não percebeu. Ou então são os olhos de cordeiro manso. Ou a continência que fez quando chegou ao polícia. Ou a mamma atrás a pedir clemência, que tem 3 filhos.
Num dos botecos da praça (que matam a sede com o que for preciso), aparece-nos um tipo que estava a olhar para a cena. Parece berbére e só lhe falta o turbante. De calções e dois brincos a reluzir, pergunta-nos: "Então, quanto é que acusou ?", e logo a seguir: "Eh, pá ! Venham cá. Sou dono disto. Bebe esta limãozada e um café e esta água."
Quero pagar e ele não aceita. "Ouve, já me apanharam várias vezes. E tenho a mota toda quitada, por isso não posso sair agora, senão estou fodido. Ficamos agora aqui. Não sou português." E põe-me o braço por cima.Confirmo que a mota dele está toda a cair e com fita gomada a segurar os bocados. Confirmo que só diz que não é português porque agora ninguém quer ser deste país. Como o tipo que nos prepara o remédio. Filho de pai suiço, mas nascido em Loures de mãe portuguesa.
"Também não sou português. Da última vez que me apanharam, tinha 2,21, e já tinha ido a casa e dormido !"
Afinal, não é um boteco. É um clube.
Acabo as zurrapas miseráveis que me arruinam o jantar e assassinam as papilas. Mas salvam a humanidade e regresso à fiel. Olhei para ela com pena. Parecia só. A Vespa esperou 5 anos pelo nome mas sai daqui baptizada: a Fiel.
- Vá-se lá embora, Sr. Condutor. Esta polícia nunca o mandou parar. Vão para onde ?
- É já para ali.
Ele acredita. Todos merecemos uma oportunidade.
Olhamos à volta. A massa de turistas já percorre o Rossio e todas as avenidas.
* também se podia chamar as minhas aventuras na república portuguesa, mas depois era plágio.
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quarta-feira, 24 de julho de 2013
segunda-feira, 22 de julho de 2013
sexta-feira, 19 de julho de 2013
Saem de todos os lados
Tenho a certeza que o Chiado no Verão só existe para nos atormentar.
E quem diz Chiado, diz o resto.
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
Este país não é para meninos
Death Valley.
Temperaturas que ultrapassam os 50º C. (!)Uma Ultra-Maratona que se chama "Badwater" (!). Que começa abaixo do nível do mar e termina aos 4.421 metros de altitude (!)
Mais de 24 horas a correr (!) para fazer 217 quilómetros (!)
E é logo um português que chega em primeiro !
Este homem deve ter um coração (e pulmão, e pernas, e pés) do outro mundo ! E deve ser completamente louco.
E à chegada ainda nos dá outra lição:
"Nós portugueses vivemos num clima quase depressivo. Temos de ter objetivos muito fortes no nosso dia a dia. É esta mensagem que quero deixar aos portugueses, que acreditem, que lutem, porque sem trabalho, sem sacrifício, nunca vamos conseguir mudar este país".
Assina Carlos Sá.
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terça-feira, 16 de julho de 2013
Cadastrados
Depois do caso Snowden, a palavra que o Facebook (em português) usa para convidar as pessoas a pertencerem a esse maravilhoso mundo virtual de amigos e desamigos, ganha todo um novo e admirável significado.
De uma coisa pelo menos não o podem acusar: falta de transparência.
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segunda-feira, 15 de julho de 2013
terça-feira, 9 de julho de 2013
O nº 9 do FutSábado
O Advogado levanta-se cedo. Culpa do calor africano que arrasa a cidade.
O Advogado responde ao calor nas noitadas que faz à varanda e que o obrigam a dormir ainda menos. Mas é justo. A vida é chupar os melhores bocados.
Levanta-se cedo e despe a toga. Entrega os filhos mais velhos à mãe para a natação e a mais novinha à Avó, que hoje é dia de bola.
Agora é de novo puto. Bebe um copo de água e vai com a fome toda para o jogo. Hoje é dia para ganhar. Sai cedinho e pega na Vespa para ir mais fresco e leve. Leva uma garrafa de meio litro de água da torneira para o "brasileirão" que é como fica o campo do Rainha Dª. Amélia no pico do Verão.
O jogo começa. Raspa, como é tratado pelos amigos (em homenagem às histórias do Pratt), olha para a equipa e só vê avançados. E do outro lado é só vedetas. Isto hoje vai ser complicado. Olha para o céu: "Onde estás João Tiago ? Onde estás Captain Mir. ?"
Humilde como nunca, decide que hoje irá jogar a defesa direito, com sorte subirá no terreno para médio direito, mas avançado, hoje não. Deixo para os outros.
Raspa cruza-se com o miúdo de 20 anos que é a nova coqueluche da equipa, e que entra vagarosamente em campo e com as meias em baixo. Lembra-se então das palavras sábias de JT. "Tens de os acarinhar. Não grites com eles." Nunca é tarde para mudarmos e seguir os bons conselhos que nos dão.
“Aqui está o melhor jogador do torneio !”, digo. E os lábios do puto rasgam-se de lado a lado. 1-0. Raspa promete também que hoje não se vai chatear com o outro avançado que nunca dá a bola.
E vai logo para o seu lugar. Jogar atrás é coisa nova, vamos ver é no que dá. O importante é o joelho aguentar.
A bola começa a rodar. Do outro lado, o atraso de 15 minutos do Calhas (encarregue de levar a mais velha ao ballet !), permite que a equipa de Raspa comece o jogo a vencer por 4-1. Culpa do Hortelão, da coqueluche e do avançado que só vê baliza. Calhas entra e começa a acontecer futebol. O jogo entra num ritmo louco de parada-resposta. Raspa faz o que pode e até faz razoavelmente bem, numa de não comprometer. Com o Manuel velho a comandar, centralão e homem experiente, a pôr-lhe sempre a bola nos pés, Raspa já manda no corredor direito. Raspa agradece e coloca a bola em profundidade para um golo fácil de Hortelão. Mas a equipa das vedetas começa a bailar. Calhas atrás, Gil "Iniesta" no meio, combinações perfeitas com o Tiago Tom Cruise. Todos que é só classe. Na baliza vamos rodando. É a vez de Raspa. Ui. De repente, só ouve à sua frente Calhas a berrar: “TIAGO, PASSA A BOLA !” Completamente isolado, Calhas fuzila Raspa, e mete a bola lá onde a coruja faz o ninho. Raspa cumprimenta Calhas. Logo a seguir é Gil a fazer o golo do jogo. Parece o Gaitán no jogo com o Estoril. Entra ao primeiro poste e de calcanhar todo no ar, mete o esférico nas redes, bem rentinho.
O jogo está empatado. 6-6. O calor é dos demónios. Raspa já refrescou a cabeça duas vezes (com a bendita garrafa).
A boa moral diz que não devemos alegrar-nos com o mal dos outros, mas é depois de uma arrancada descompensada do avançado que não dá a bola, e que acaba lesionado, que a equipa de Raspa começa finalmente a brilhar. Raspa compadece-se do parceiro e diz-lhe para ir para a baliza, que obedece agradecido. Raspa vai para médio ala direito, onde se vai sentir dramaticamente confortável, e sacode para Calhas: “Podes começar a tirar notas !” Raspa surpreendentemente fresco, começa a trocar a bola com um Miguel que se ajeita com Raspa. Raspa faz uma assistência digna de Pablo Aimar e Miguel marca. A seguir, a bola já está em Raspa, que cavalga toda a linha direita, e remata cruzado para a baliza, mas vai ao poste. Logo depois, Raspa produz mais uma assistência, depois de tirar a bola da defesa, que vai para a coqueluche e que termina a jogada com um golo do outro mundo, de fora da área. Vem agradecer a Raspa duplamente os votos de confiança. Já vai em 8-6.
Do lado direito, continua o show Raspa. Desta vez remate brutal após passe do puto mais novo, e defesa impossível do Redes dos outros. Para a próxima entra, pensa Raspa. Calhas também percebe. Começa a dar pau sem bola em Raspa quando se vai chutar de canto. Não lhe consegue arrancar o sorriso. A bola sobra para o médio centro. Raspa percebe onde ele vai colocar a bola, levanta a mão, e o cruzamento sai belo e largo ao segundo poste, onde aparece Raspa, bem atrás das costas do Bruno Gigante, a cabecear para o fundo da baliza !!!!!! Estava feito o primeiro da conta de Raspa, o nº 9 do FutSábado. Tarde mas a tempo. E 9-6 no marcador.
Do outro lado, o sol faz mossa. Raspa molha mais a cabeça e continua a jogar em ritmo samba. Manuel velho mete-lhe a bola, sempre para a direita. Raspa tira um da frente, faz tabelinha com o Miguel, sempre ele, recebe e devolve. E golo. 10-6. Raspa atira para a geral: “Aqui há já dois tipos que estão a jogar de olhos fechados.”
Ainda tempo para mais um. O avançado centro toca de calcanhar para Raspa, que lhe devolve à entrada da área. Tem três defesa mais o Redes à sua frente, recebe a bola com jeitinho e pára. Sente o mundo. Todos param também para ver como Raspa vai resolver. Raspa olha para a baliza e coloca a bola, pelo meio das pernas do primeiro, para se encaixar bem no cantinho. 11-6.
Com o resultado feito, Calhas ainda reduz para o 11-7 final, num remate bem colocado. Acaba o jogo quando o calor é quase sobre-humano. De joelho remendado, Raspa volta a ser pretendido pelos colossos do bairro.
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sexta-feira, 5 de julho de 2013
Alegações Finais
Together
"Não serão muitos, mas haverá certamente alguns bons motivos para acordarmos com alegria no Inverno de Janeiro às oito horas da manhã. Um julgamento, sobretudo se nele formos arguidos, não é um deles. Mas é esse o motivo que nos fará acordar amanhã. Daqui a umas horas estaremos a entrar num tribunal para perdermos a nossa virgindade jurídica. E, de alguma forma, a nossa ingenuidade. Somos acusados de difamação, processo crime. Se não conseguirmos provar a nossa inocência lá teremos que puxar os cordões à bolsa: 25 mil euros de indemnização. Podia ser pior? Temos dúvidas.
Um sujeito acorda um dia de manhã com os pés de fora, desconhece-se se às oito horas, se a hora mais lúcida, e decide criar um canal de televisão. Malta do Norte, ciosa do seu território, cidade Invicta, os sonhos todos postos no sotaque que, acreditam, um dia há-de fazer ver a Lisboa quem é que afinal trabalha e cria neste país. Dá-lhe nome, dá-lhe forma, compra material, aluga espaço, contrata equipas, técnicos, jornalistas, comentadores da praça. Tudo em grande. Mas esquece-se que um dia, cedo ou tarde, haveria de pagar o sonho. Óooooo....
Chegam os primeiros cheques sem cobertura, as reclamações dos fornecedores, a suspensão do material, a equipa toda a debandar dali para fora. Investigamos o assunto, narramos os factos e damos-lhe um nome: Burla. [Dicionário: ludíbrio, dolo, trapaça, intrujice, trampolinice, logro, tratantada, fraude, tratantice.] O sujeito do canal burlou as pessoas que contratou porque as enganou. Porque lhes passou cheques sem ter dinheiro, porque protelou ad nauseum o pagamento e as explicações, porque desapareceu do telemóvel, porque já ganhou dinheiro com o material que entretanto vendeu a terceiros sem nunca o ter chegado a pagar. Porque assegurou aos funcionários que seriam ressarcidos pelo seu trabalho e até hoje nunca o fez. Porque os fez acreditar que aquele projecto teria sustentabilidade financeira, o que não era verdade. Sequer em sonhos.
Parece tão fácil provar a nossa inocência, a nossa boa fé, a nossa isenção e rigor, que o assunto parece ser feio e feito de favas contadas. E, no entanto, não é. A lei diz que dever dinheiro - cem euros ou cem milhões - não é crime. Cheques sem cobertura também não. E, aparentemente, falhar à palavra dada, e em alguns casos dada por escrito, muito menos. Crime é dizer que alguém deve dinheiro. E à dívida colar um rótulo: Burla. Claro que nem toda a gente que deve dinheiro é criminosa, sequer desonesta ou pessoa má. Mas que raio se chama afinal a um sujeito que há mais de dez anos anda a criar e a afundar projectos sem ter um tostão furado, arrastando para o seu lamaçal quem quer e precisa trabalhar e ser pago por isso?"
Parece tão fácil provar a nossa inocência, a nossa boa fé, a nossa isenção e rigor, que o assunto parece ser feio e feito de favas contadas. E, no entanto, não é. A lei diz que dever dinheiro - cem euros ou cem milhões - não é crime. Cheques sem cobertura também não. E, aparentemente, falhar à palavra dada, e em alguns casos dada por escrito, muito menos. Crime é dizer que alguém deve dinheiro. E à dívida colar um rótulo: Burla. Claro que nem toda a gente que deve dinheiro é criminosa, sequer desonesta ou pessoa má. Mas que raio se chama afinal a um sujeito que há mais de dez anos anda a criar e a afundar projectos sem ter um tostão furado, arrastando para o seu lamaçal quem quer e precisa trabalhar e ser pago por isso?"
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quinta-feira, 4 de julho de 2013
Os Silly Guys
Nada de novo.
Geração Morangos no poder só podia dar nisto.
O espectáculo é quase cómico, não fosse demasiado triste, e, hoje, tremendamente comentado. No Parlamento, nos jornais, nas televisões, nos cafés, nas estações de comboio, nos tribunais. Em casa. Tudo de boca aberta. Mas quem é esta gente ?
Previsível.
Previsível porque todos conhecíamos quem era Passos (um Jotinha nunca deixa de o ser apenas porque lhe põem um fato e anda de Mercedes), quem era Portas (a natureza do escorpião é muito mais forte do que ele) e, finalmente, o inenarrável Presidente da República que temos (alguém que veio atrás da reforma tranquila das suas pantufas e de recato pelos seus anos de BPN, e que a única atitude que teve em 7 anos de mandato foi a de, sem jeito sequer, tentar sabotar um governo legítimo em pleno exercício de funções).
O que é grave é que, de pirraça em pirraça, chegámos ao ponto em que um diz que se demite e o outro não aceita. Realmente, a dignidade é uma coisa muito bonita e não se compra na loja.
O país ficou de boca aberta. Ninguém, ninguém mesmo, queria acreditar. Mas o resultado está à mostra. E é deplorável.
Mas o pior no meio disto tudo é que se olha para o lado e vemos mais do mesmo. Não nos iludamos. E assim iremos viver em ciclos de dois anos, que é o máximo que estas crianças aguentam.
A Geração Morangos é assim. Vive como se não houvesse amanhã. Sem consequências. Entretiveram-se durante dois anos a brincar aos políticos e a brincar com o país.
O problema é que há sempre amanhã e, na vida, os actos têm consequências. E como são da Geração Morangos, vão agora a correr para os papás para pagarmos a factura, quando já se estamparam com o carro.
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terça-feira, 2 de julho de 2013
Surrealistic Pill
[Magritte]
«O surrealismo assentou hoje arraiais em Belém e São Bento.
Em Belém, o Presidente da República fez de conta que deu posse a uma ministra das Finanças e aos seus secretários de Estado de um Governo que, na prática, já não existe.
Em São Bento, o primeiro-ministro, que tinha escolhido a tal ministra das Finanças sem nada dizer ao líder do seu parceiro de coligação, recebeu uma carta desse mesmo líder antes da ministra tomar posse a apresentar-lhe também a sua demissão.
Portanto, eles fazem que tomam posse dos cargos, eles fazem que governam, eles fazem que estão a trabalhar para o bem do país, eles fazem que estão coligados e nós fazemos que acreditamos. Mas entretanto vamos já preparar-nos para eleições.
E assim de faz de conta em faz de conta, estamos a caminho de ser uma nova Grécia. Uma coisa que jurámos e trejurámos que nunca seríamos.»
"Surrealismo em Belém e São Bento", por Nicolau Santos no 'Expresso'
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