quarta-feira, 24 de setembro de 2014

de Trondheim a Oslo (6º dia)

Chegamos ao carro e temos aquilo que parece ser uma multa no pára-brisas. What the... ?!
Lembro-me perfeitamente de ter colocado moedas no parquímetro suficientes para o dia seguinte e ainda dei uma ou duas voltas à procura do lugar certo, mas aparentemente fiz merda. E a Cristina até tinha avisado. E agora tenho um bicho de 500 Coroas nas mãos.
Levo o papel à recepcionista do hotel para o decifrar. Estacionei fora do lugar demarcado. E agora ? pago ou reclamo ? Não pagar não é obviamente hipótese. O carro é alugado e depois a AVIS manda-nos a conta que, nessa altura, conhecendo bem estes nórdicos, será já o triplo ou quádruplo do valor. E agora ? Pago ou reclamo ?
Reclamo, claro. Como não ? Vou perder tempo, certo, e se estivesse com o meu amigo Sérgio, ele até se oferecia para pagar só para não se ter que chatear mais com o assunto.
Mas como, se até tinha posto moedas ? É injusto, mesmo que (reconheço agora) o carro tenha ficado "ligeiramente" fora das marquinhas. Ok,talvez não tenha sido só ligeiramente.
Dirigimo-nos à rua da entidade autuante onde chamo o superior.
É uma superiora, com cara de icebergue. Traz com ela uma pasta com o processo, com fotografias de vários ângulos, tudo rematado e indiscutível. A organização destes gajos é espectacular.
Explico uma primeira vez o que aconteceu. Responde, imperturbável, que não pode fazer nada. Dou-lhe uma visão lógica e inocente do problema, que se pensasse que pudesse ser multado não teria inserido moedas na caixinha. Que o carro não chateava ninguém, nem estava em cima da passadeira. Que achava (no meu curto entendimento) que o sinal indicava a zona e não o início do local do estacionamento. Glaciar. A superiora não cede.
Volto à carga, embora começando já a duvidar da minha capacidade de a derreter. Diz agora que compreende. Boa !, já não me foge.
Aproveito o balanço e ataco ao coração: "No meu país o valor da multa dá para uma refeição excelente para uma família inteira !", ataco à boa moral: "Não acredito que queiram ficar com o dinheiro dos turistas !", Bingo ! Pede-me o papel de volta e diz-nos para esquecermos o assunto. Agradeço quase tão luterano como ela, mas por dentro exulto. Hoje ensinei a estes nórdicos a palavra tolerância.

[foto: andré]

Saímos então de Trondheim e apanhamos a estrada para Roros, uma antiga cidade mineira, património da Unesco, e onde paramos para beber café e passear na rua principal.
De volta à estrada, já longe das montanhas, reparo no rio e numa igreja com uma cerca branca. Está sol e é um prazer conduzir num dia assim.
Seguimos para Oslo. Estamos a concluir o círculo que iniciámos. Faltam ainda 400 kms e só 100 é que são em auto-estrada. E depois ainda há os limites de velocidade, aqui sagrados e cumpridos como quem reza o terço. Vai demorar. 
Regressamos a Oslo e é noite assente.

Total da viagem de carro: 1.250 kms.
Total da viagem com os 464 kms de comboio para Bergen: 1.700 kms.

Temos de entregar o carro, mas perdemos o corte certo. Depois perdemo-nos um pouco mais dentro da cidade. É sexta-feira e devemos ter dado sinais evidentes de má condução, porque um carro de polícias à paisana manda-nos encostar. Queres ver que hoje é dia de multas ? 

Explicamos. Sacudimos os mapas. Fazemos um ar aflito e baralhado. Pioramos o nosso inglês. 
Perguntam-nos de onde somos e acabam a escoltar-nos eles próprios à AVIS. Agora sim, ensinam-me eles o significado de tolerância.
Jantamos numa cervejaria perto do Hotel Saga, onde nos instalamos. Este fica mais longe do Centro-centro. Na zona alta, de prédios com fachada arte-nova. O tipo de hotel em que ficaríamos sempre que viéssemos a Oslo.
[foto: andré]

domingo, 21 de setembro de 2014

de Geiranger a Trondheim (5º dia)



[foto:andré]

A vista do hotel em que ficámos era perfeita, simplesmente deslumbrante. Difícil até de descrever. Daquelas capazes de fazer parar as horas. No alto da colina que dá para o Geirangerfjord, que tem dois penhascos como guarda-costas. Uma orquestra de luz e cor. E o nosso quarto espreitando privilegiado lá para baixo, na bancada central.
A Noruega não é só um dos países mais ricos da Europa e auto-suficiente em termos energéticos, graças aos poços de petróleo descobertos nos anos 70 no mar do Norte. É infinitamente milionário no seu estado bruto, no que a mãe Natureza garantiu a quem não pode ter Lisboa, Paris ou Roma.
Não podíamos era demorar. Tínhamos 330 kms pela frente em estradas que iam continuar complicadas de belas. O dia do avião perdido começava a fazer falta.
Acordámos cedo e bem dormidos. Tomámos o pequeno-almoço, atirámos as mochilas para o porta-bagagens e arrancámos. À mesma hora que o casal que estava a fazer uma road-trip nas suas BMW's, estacionadas debaixo do alpendre. É o tempo dos que querem conhecer tudo e absorver mais.
Descemos lá do alto e fomos desembocar na vila onde tomámos um glorioso café ! e mandámos uns postais. Metemo-nos no carro estrada acima outra vez, com a companhia do espelho de água que vive em baixo e de uma música imperceptível que tocava no rádio.
Li no Lonely Planet que devíamos fazer o cruzeiro nesta parte do fjord que vai até Hellesylt. Sempre sem pachorra para excursões, mando o guia dar uma curva. Não é preciso cruzeiro nenhum quando se está de carro e temos que navegar três partes do percurso no mar de ferry, para chegar, primeiro a Molde, depois a Trondheim. Basta ter olhos. De modo que fazemos à nossa maneira, ainda que quase perdêssemos o primeiro ferry Linge - Valldal, que só vemos porque paramos em Linge para abastecer, acontecendo depois um daqueles raros momentos de sorte e lucidez. Absorvidos outra vez pela beleza extrema do local, reparo que estamos no sítio certo e seguimos viagem.
Sempre extasiados, como quando saímos da estrada de sopetão e fomos encontrar uma mesa de madeira, das que têm bancos incorporados de cada lado, mesmo à beirinha do mar e a implorar para almoçarmos. Ali deixada, com uma pequena lanterna de latão e um vasinho com flores já secas. Mudámos as flores que a Cristina apanhou por ali e respirámos, enquanto eu provava o mar, para ter a certeza que era mesmo mar e não rio. Comemos ali mesmo e despedimo-nos, deixando um bilhete escrito em inglês: 
"Thank You, Lisbon - Portugal"
A maravilha sempre continuando, mesmo se atravessávamos os longuíssemos túneis com que cortam as montanhas.
Os dias ainda são grandes pelo que chegamos a Trondheim com a luz das quatro da tarde, embora fossem sete. 
Cidade tenrinha e verdadeira. Já noite, circulámos pelas ruelas para vermos as casas de madeira sobre estacas, com grandes janelas, luzes acesas, permitindo observar tudo de fora, e bicicletas à porta, à escandinava. Também a Catedral e o cemitério.
De volta ao hotel, estaco em frente de Heléne, a lindíssima recepcionista. Podia facilmente apaixonar-me por cá.
[foto: andré]

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

de Bergen a Geiranger (4º dia)

Queríamos sair cedo e, embora tentando, não deu. Por causa da AVIS onde estivemos a negociar o Suzuki 4x4 que iríamos fazer à estrada a partir de agora. Acho que só realmente aqui começou a nossa viagem. É quando nos conduzimos que somos donos e nossos. Aspiro sempre a este tipo de inteira liberdade. 
Oslo e Bergen ficavam para trás. Duas cidades baixas. Duas cidades de porto.
Vamos trilhar os Fjords, as centenas de serpenteantes línguas do mar do Norte que rasgam a costa Oeste da Noruega e penetram em terra por entre picos e montanhas como se fossem rios a desaguar ao contrário, abrindo caminho para o interior e criando quase pequenas ilhas.
Objectivo: o Geirangerfjord, o ceptro e a Coroa.
Após os primeiros 111 kms na E39, em direcção a Forde, chegamos a Oppedal onde fazemos a primeira travessia de ferry, para Levik. Percebemos rapidamente que só de ferry se atravessam grande parte dos fjords. São tantas estas línguas de mar que se espetam para terra que não haveria tempo ou dinheiro para construir todas as pontes que seriam necessárias para passar para o outro lado. Esta parte do país está também repleta de túneis (alguns com 4 kms de comprimento), a forma mais rápida e recente de atravessar as montanhas. Mas quando não há túneis, nem ferrys, nem pontes, resta-nos pentear o sopé das montanhas,  bem na bordinha e rentinho ao mar, em slaloms gigantes que supomos intermináveis.
Ao fim de meia hora damos por nós inebriados dos"esses" e "esses" e parece que já só sabemos curvar. Também começamos a perceber porque os nórdicos apreciam tanto os ralis.
[foto: cristina]

Parámos, então, a meio caminho para comer umas sandes numa mesa de madeira à beira da estrada, que tinha um baloiço pendurado numa árvore mesmo ao lado e me fez lembrar dos miúdos.
Até que chegámos aos grandes maciços despenhados neste mar azul-esmeralda, que é assim por causa da água pura que escorre dos glaciares.
É isto que perseguimos. Foi por estes contrastes brutais que a natureza concedeu aos frios povos do Norte que percorremos a longa e ziguezagueante estrada nº 60 que liga Byrkjelo a Geiranger, e que subiu e desceu e subiu e perfurou e serpenteou.
E quando já batiam as 7 horas de caminho e já estava exausto da parte final de curvas e contra-curvas sucessivas enquanto subíamos a cadeia montanhosa de Dalsnibba, e onde vislumbrámos algumas das neves eternas, eis que chegamos à terra prometida: Sua Majestade o alto de Geiranger, senhor da única panorâmica capaz de curar-nos de tanta volta e guinada. Tão impressionantemente assombrosa que por pouco nos fazia perder o hotelzinho junto à estrada que tínhamos marcado e por onde passávamos já absortos no esplendor.
Compreendemos então o tamanho da recompensa para o viajante que suporta a tortura do (quase) inacessível.
Saímos do carro e olhámos à volta. Sentimos o ar fresco, enchemos os pulmões e deixámos que os olhos brilhassem agora.
Para desentorpecer fizemos depois uma hora de trekking até uma das cascatas da zona para concluir o processo curativo.
E para desentorpecer ainda, fomos jantar um cabritozinho numa espécie de cabana de madeira. Até desentorpecermos completamente no colchão do nosso quarto.


[foto: andré]

10 anos. Não parece que já são. Parecem ontem.

domingo, 14 de setembro de 2014

Bergen (3º dia)




(foto: andré)

O homem saído do "Matou" foi só assombração. O que não foi assombração foi o colchão que tínhamos na cama e que era mole e não nos deixou recuperar do cansaço do dia anterior. E, portanto, a vontade foi sair rápido e apanhar depressa o ar fresco da rua.
Volta enorme pela cidade. Bryggen primeiro, os velhos wharehouses, o labirinto de armazéns onde durante séculos se guardaram peixe e cereais e que agora adaptaram a galerias, estúdios de pintores e escultores, onde se trabalha joalharia, e que convivem com bares, comércio tradicional e lojas de souvenirs.
Depois, a outra margem, que é mais alta e onde os turistas chegam menos. A escola já começou e podemos ver as coisas como elas são. Pais a deixarem os filhos, que levaram de bicicleta em atrelados ou cadeirinhas, uma banda rock a ensaiar num andar baixo de uma casa, camionetas a descarregarem os barris de cerveja, estado puro.
Ao almoço, conhecemos Onna, uma rapariga de Barcelona que nos conquistou com um mix de mexilhões, salmão e caranguejo real. Foi numas barraquinhas simpáticas estacionadas na praça central, e onde se reúnem "os latinos". 
Os italianos têm a coutada dos enchidos, de baleia, alce ou veado. Os espanhóis ficam com o marisco. E os portugueses - sim, não falham - é com o bacalhau, o salmão fumado, recomendado com um "tempero especial", e os caviares. Jorge, dono de uma forte bigodaça, veio de Viana do Castelo e passa 4 meses por ano na Noruega, para equilibrar as contas. Já estava em contagem decrescente para o regresso a 27 de Setembro que "uma vez passei cá um inverno e é de morte".
Foi o momento mais animado do dia. O momento em que reencontrámos o barulho do Sul, cada barraca apregoando o seu negócio e a chamar clientes, porque o resto das ruas continua clean. E continua a calma e o silêncio, mesmo sob a forma de jogging.
Encontramos uma loja de discos bem traçada. Nunca resisto.
À noite, ainda a barriga a lembrar a brutalidade do mix ao almoço, jantamos uma tábua de queijos (franceses) e um copo de vinho (italiano), num restaurante com tijolos à vista. Explicamos a Morgan, um cruzamento louco da Suécia com o Egipto, que têm que aprender a conhecer os vinhos e queijos portugueses. Que têm de se abrir a este pobre país do Sul. Ele diz que ainda é cedo. Que ainda lhe doem os golos do Ronaldo na eliminatória contra a Suécia, mas daí a conversa parte para tudo o resto e a noite termina num ambiente dialético que não envergonharia uma tertúlia em Lisboa do Cardoso Pires.

(foto: andré)

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

de Oslo a Bergen (2º dia)

Os dias para já ainda são compridos. Já não há sol à meia noite, mas até às dez há luz, o que é simpático.
As temperaturas rondam os 10 e os 18º C. Há algumas nuvens, mas não chove.
De manhã saímos do nosso hotel, o Folketeateret, bem no centro, e fomos para a zona de Grüner Lokka, um bairro certinho, arrumadinho, familiar, onde vemos os direitos parentais em acção, com mães e muitos pais a passearem sozinhos os filhos pendurados em marsúpios, e onde há lojas que vendem tralha, antiguidades, coisas para casa, outras que vendem  roupa em segunda mão pendurada em cabides originais, cafés gourmets, enfim um bairro estilo SoHo ou Portobello, trendy e acolhedor, como todas as cidades gostam de ter agora.
E é no Grüner Lokka que encontro uma velha loja de discos e livros de BD, locais sempre de visitação, de onde trazemos o 'Abattoir Blues' do Nick Cave e um CD sem título dos Sigur Ros (banda islandesa), ambos em segunda mão, o que só por si vale uma estrela para o bairro.

(foto: Cristina)

À tarde apanhamos o comboio para Bergen, uma cidade que fica a 460 kms de Oslo, na outra ponta sul do país para Oeste. 
Os bilhetes foram comprados de véspera, o que compensa porque são 'mini-pris', ou seja, metade do preço, mas mesmo assim brutalmente caros. 798 coroas que é como quem diz 96 euros, mas trata-se da linha mais alta da Europa, que nalguns períodos chega a atingir os 1.220 metros de altitude. Parte às 16h01m e chega às 22h59m. Tudo funciona e tudo funciona a horas. 
Como adoro viajar em comboios ! Os anos de inter-rail consecutivos foram uma tatuagem. E com a Cristina mais ainda. Entendermo-nos com alguém numa viagem é difícil e um bem raro que devemos guardar em cofre de ouro.
Pela janela vêem-se algumas casas de madeira, todas arrumadas e organizadas, pinheiros, cedros e freixos. E neve quando chegamos lá acima. Nas estações onde pára vejo pessoas a dizerem adeus.
A viagem é longa e entretemo-nos a jogar dados, a ler e a ver o que as outras pessoas fazem. Ao nosso lado há um tipo que vê filmes atrás filmes no portátil. Ninguém conversa na nossa carruagem, na tal lógica da reserva, encharcada de silêncio. Aqui vive-se longe da explosão dos sentidos. A anos-luz da emoção sonora e movimentos escandalosos do Sul latino, que aqui tomam por zanga. Não se fala alto, dizem-nos, porque isso só quando estamos zangados. Agora sou eu que tenho vontade de instalar um motim.
E por isso fugimos para a carruagem-bar, onde se escutam algumas vozes e gargalhadas e onde se servem vinho e umas cervejas. Perguntam-nos duas vezes porquê a Noruega. "Porque não conhecemos." E como já fomos à Islândia, acho que faz sentido.
Viemos à Noruega atrás das grandes belezas naturais, das enormes montanhas que se despenham no mar do Norte, dos lagos de quilómetros, dos Fjords eternos que recortam e rendilham a costa.
Sim, confesso !, viemos procurar o olhar em êxtase de Nicola no 'La Meglio Gioventú' quando cá chegou.
A fiscal dos bilhetes só aparece ao fim de uma hora. A Cristina tira os pés de cima do banco da frente, por via das dúvidas.
Chegamos noite feita a Bergen e subimos a ruazinha esconsa que vai dar a Bryggen, o velho porto da cidade, onde ainda se descarregam os bacalhaus e o salmão, mas mais importante, onde nos esperam agora as nossas camas. O homem do front-desk fala para dentro e tem os olhos esbugalhados do assassino no filme "Matou", do Fritz Lang.

(foto: andré)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Oslo (1º dia)


Chegámos a Oslo depois de um dia a aparvalhar os 139 euros a mais que cada um teve de pagar para resgatar a viagem. Só mesmo o Chiado conseguiu arejar.
Também não acreditava que recuperassem as mochilas e as fizessem chegar connosco no vôo do dia seguinte, mas conseguiram. Bem, era o mínimo. Perder o avião e depois ficar sem malas era castigo.
O coração vem feito dois. Uma parte ficou com os miúdos, lá onde eles ficaram. Fica sempre. Quem é pai vive nesse limbo eternamente.
No avião temos a companhia de Sílvia, uma chilena de 50 e tal anos, mulher do Sr. Dias, português de Elvas. Ela vem triste, mas conformada. Ele, emigrado há 40 anos, primeiro na Suécia, depois na Noruega, traz a revolta toda consigo que tantos anos fora do país não conseguem curar. Diz que até chorou no aeroporto. "Porque o maior problema de viver na Noruega é viver na Noruega." Tudo é mau, portanto, mas aguarda os últimos 4 anos para chegar à pré-reforma.... a preços nórdicos. Não hesito em pensar se vale a pena: tanta amargura e sabe lá ele se chega aos 62 !
Depois do discurso mais infeliz que ouvi de alguém antes de entrar no seu país, lá me pede desculpa. Digo-lhe que não faz mal. Que vamos como turistas e os turistas olham sempre de outra maneira. Que só não percebo porque é que não regressou a Portugal. Cala-se.
De maneira que lá chegamos finalmente a Oslo, depois da falsa partida da véspera e de ainda vir a remoer como é que isso pôde acontecer. O Sr. Dias aconselha-nos a ir para o centro de autocarro, porque é caro "mas sempre é metade do preço do comboio e só demora mais 20 minutos".
Atirámos as mochilas para o hotel e aterrámos no porto, depois de contornar a catedral e de uma boa volta pela parte nova da cidade. A princípio reajo mal a Oslo. O Benfica joga com o Sporting na Luz e, apesar de vir com a camisola vestida, tenho a cabeça longe. Olho e vejo semelhanças com Helsínquia ou Reikjavic. Fria, silenciosa, luterana. Sem cor. Na rua escuta-se apenas o chiar discreto dos eléctricos e um ou outro bebé que chora ignorando por instinto o civismo dos pais. A Cristina horroriza com a falta de barulho. Parece pronta a instalar um motim. 
Olho melhor e já vejo uma cidade que gosto, as fachadas dos edifícios arte nova, as varandas e janelas povoadas de flores ou girassóis, vemos a parte moderna, alguma arte na rua, o novo edifício da 'Opera House', e ruas traçadas a régua e esquadro, na lógica austera e matemática que os organiza.
A cerveja é cara, assim como tudo o resto. Amarga, mas boa, por causa da água. Provei-a num bar excelente da rua Storgata que a fabrica e de onde pinga para várias torneiras, 18 tipos diferentes de cerveja. As cadeiras não jogam umas com as outras e as raparigas são bonitas.
Já nos perguntaram várias vezes se somos italianos. Quando os esclareço revelam espanto e a admiração que se dedica normalmente aos aliens: "Ahh, Pôrtügaaal !"
Quando termina o dia olho outra vez para Oslo e no meu ranking pessoal da Escandinávia coloco-a, afinal, entre Estocolmo e Copenhaga. A cidade é gira.


(foto: andré)

domingo, 7 de setembro de 2014

Lisboa - Oslo (dia zero)

Na TAP, que nada !, em qualquer aeroporto um minuto é muito tempo. É todo o tempo do mundo.
Por um minuto, trinta segundos talvez, se perde um avião. 
Mas... Mas nada ! Não tenho autocarros para vocês. Sim, mas.... Mas nada. Todo o aeroporto ouviu os vossos nomes e não apareceram. Mas a gente corre. Não. Impossível, já disse. Não há desculpas, não há conversa e o avião já voa.
Ok. Fiquem lá com os vossos minutos contados ao segundo. A gente volta amanhã e não desiste. Vamos na mesma.
10 anos casados não se perdem num minuto. 


(Trondheim, Noruega)

sábado, 30 de agosto de 2014

"There's no point, unless you beat the best !"


[Brian Clough morreu há 10 anos.]

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Quando a cadeira cansa

É o filme que cansa.
Uma boa fotografia, cenários razoáveis da Nova Iorque dos anos 20 e um par de actores - Marion Cotillard e Joaquin Phoenix - que não sabem fazer mal feito, não chegam para o tornar numa história memorável. E podia até ter sido. Deviam erguer o desperdício a pecado capital. 
E não tem a ver com a duração. O "Era uma vez na América" tem quase quatro horas e nunca perde o balanço.
'A Emigrante' até começa bem, mas para o meio perde-se num conjunto de momentos já vistos e que não dão para surpreender, excepto quando se precipitam, e aí são uma desfeita. Sempre sem abandonar verdadeiramente o signo da morte lenta, assente no cliché mais velho do mundo: ela, a mulher infeliz e desgraçada a quem a vida só diz não; ele, o explorador pecaminoso que acaba em redenção.
Sobra-nos, de facto, a beleza e desempenho de Marion e uma grande cena final de Phoenix.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Um Actor que era um filme


'A Most Wanted Man', de Anton Corbijn

Foi isto que perdemos com a morte de Philip Seymour Hoffman. Porque, como aqui escrevi, este Ulisses da representação tinha o condão de explicar a verdade ao mundo.

domingo, 24 de agosto de 2014

This Charming Man


Era um regalo assistir a Paul Gasgoigne dentro de campo.
E, no entanto, só me lembro dele no Itália 90, nalguns jogos internacionais, com a Lazio, e, claro, no Europeu de 96 em Inglaterra, onde executou um dos golos mais celebrados da competição: o golo contra a Escócia.
Esta lenda dos anos 80 e 90, não tinha só uma técnica e habilidade invejaveis, normalmente ausentes do típico jogador bife. Não tinha só um talento incomum que mostrava jogo após jogo na forma com que tratava a redondinha. 
Era uma personalidade. Divertia-se até ao fim. Como quando mostrou o cartão amarelo ao árbitro que o tinha deixado cair, só para este lho exibir logo de seguida.
Para ele um jogo não era só um jogo. Era uma inspiração. Uma partida de poker, um jogo de snooker, um espectáculo de prestidigitação.
Gazza tinha um dom. E nunca saía de campo sem que tivesse tido oportunidade de provocar uma, duas, três vezes a equipa contrária. Com fintas, golos ou mostrando-lhe bem a língua ou os dentes.
Era excessivo. Gostava de festas e demasiado de álcool. 
E como acontece a muitos que vivem da vertigem, "who never knew his place". Quando perdeu a "casa", os domingos a levantar os estádios, virou-se para as outras drogas. O álcool levou-o à ruína e, ao que dizem, aos problemas mentais e com a família. Com 47 anos está irreconhecível. Um destroço.  Um sem abrigo.
Hoje é capa de jornais por ter sido encontrado na rua e, mais uma vez, levado para o hospital. Qualquer dia - e não faltará muito - a notícia será outra.
Mas em St. James Park ou em White Hart Lane ainda há quem jure que se escutam os Smiths a cantar 'This Charming Man' sempre que se fala deste fantástico número 8.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

domingo, 17 de agosto de 2014

Época 14-15: Shipping Up

Este ano, mais que nunca, temos de encarar todos os jogos do campeonato desta forma.



* Da banda sonora de "Entre Inimigos" (título original: "The Departed").

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

To Have



Lauren Bacall (1924 - 2014)

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

terça-feira, 12 de agosto de 2014

20 anos à frente doo bop dos outros


Tacuara

Foram 172. Os golos.
Mas não aguardes a recompensa de um jogo final. Aliás, já foste. 
Olha, o teu prémio é outro. Como ao Pablito. Vem da família. E da família recebe-se tudo.
Sim, Benfiquista, do empurrão e dedo em riste ao treinador na final perdida do Jamor. Do impulso vermelho de indignação que te ergueu do banco quando ele já sacudia o velho Shéu no jogo com o Tottenham. Por momentos achei que acabava ali a tua carreira.
Aí já não eras jogador. Eras metamorfose. Aí já eras adepto. O mais avançado. Pronto para defenderes um dos nossos. É sempre importante termos um de nós na equipa.
Deste bronca ? Sim, talvez. Às vezes. Mas quem não dá quando sente assim ?
Por isso é que custa ver partir a família. Nada lhe negamos. Como tu quando nos devolveste o nosso lugar: 2 golos e final europeia. E como quando tratavas o rival. De como ainda o puto lá de casa te pôde ver meter mais aqueles 3 seguidos para a Taça.
Ias triste. Deixa lá. És do Benfica.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

de volta ao.... Cotidiano



Chico e Caetano, os parceiros.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

"Senna", de Asif Kapadia

No tempo em que a gente seguia a Fórmula 1, no tempo em que trocávamos cromos de calendário com os amigos (e que ainda conservamos numa caixa de sapatos), daqueles carros espantosos, do Niki Lauda, do Nélson Piquet, do Nigel Mansell, do Ricardo Patrese e do Michele Alboretto, havia um entre todos: Ayrton Senna da Silva, o herói do povo brasileiro.
O louco da velocidade. O rebelde do primeiro lugar. Um piloto que adorava correr à chuva e que tinha o Estoril como prova-fetiche, naquela que foi a primeira vitória da carreira, ao volante do Lotus, o carro preto do capacete amarelo. Patrocínio 'John Player Special'.
Depois, no vermelho e branco da McLaren houve a rivalidade com Alain Prost, das corridas imortais em que ganhava quem arrumasse o outro primeiro para um canto, num ódio que encheu páginas e páginas de jornais e que fez galopar a F1 para níveis hollywoodescos.
Até à curva assassina de Tamburello, no circuito de Imola, quando Senna já se queixava do seu Williams-Renault, uma pista que já tinha colhido Ratzenberger no dia anterior, e que o tornou ainda mais apreensivo. Chorou e leu a Bíblia. A partir desse dia, a inocência era perdida. Nada mais seria igual.
Costumamos lembrar-nos onde estávamos nos grandes acontecimentos. Sei que estava em Santa Cruz a ver a corrida pela televisão. Vi aquele embate brutal e arrepiante de força.
Os peritos ainda hoje falam de mistério. O fim da sorte de Senna ou o braço da suspensão que acertou no capacete. Não há mistério nenhum. Como se fosse possível alguém escapar com vida depois de se esborrachar contra uma parede a 320 kms/h.
Seja como for, era fatal. A vertigem da velocidade teria que acabar desfeita em pó e deixando em choque o mundo inteiro que, como eu, acompanhou as exéquias nos dias seguintes.
Depois disto nunca mais vi corridas de F1.

A Fox Movies lembrou-me ontem os 20 anos sobre o último capítulo de Senna.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

"Tonight You Belong to Me"


para a Susana
(das guaridas)

I. É realmente interessante ter o privilégio de assistir ao harmonioso processo de amadurecimento de um homem, na sua longa caminhada moral. A solo, sem se poder esconder. É a segunda vez para tanta gente, diz ele. Mas para o sujeito que vive de partilha em partilha não há salvação.
Eddie Vedder vem progredindo honesta e solidamente como músico e poeta no trilho do Great American song-book, numa curiosa peregrinação de busca eterna do Eu, com os outros.
Quatro anos depois de o termos visto acompanhado da sua tribo pessoal que transformou os Pearl Jam em mais do que uma simples banda, talvez uma família de primos da América, este wrestler da sociedade apresenta-se em palco sem rede, bem ciente de que há certas coisas que os outros não podem fazer por nós. Tão longínquo já da primeira vez em Cascais onde o público gritava "Portugal ! Portugal ! Portugal !"
Aqueles que acham que já o viram uma vez e portanto... chega, ou que presumiram que vinha tocar cavaquinho e ganhar uns trocos extra, perderam perto de três horas do compromisso e entrega desmesurada do indivíduo em construção.
Cercado por uns milhares de almas e pela fogueira que foi alimentando, sempre entre a fronteira de se poder limpar ou imolar, fez-nos compreender que os saltos ao longo de todo o concerto das suas Gibson acústicas para a Fender Stratocaster - branca imaculada como a de Hendrix (a quem lembrou como Cobain, outro grande canhoto das guitarras) -, e para o inevitável ukulele, e deste para as primeiras, são o oxigénio fundamental de quem conhece bem os perigos da paixão e a vertigem de mergulhar nas profundezas de um só instrumento até ao fim, até à loucura. E, por isso, nessa comunhão total de cordas, letras e acordes, salva-se constantemente quando se transfere de uma guitarra para outra.
Eram duas da manhã quando começou, depois da chuva do princípio da noite assim como para anestesiar a ansiedade, e foi-se prolongando até ao momento - já a meio deste exorcismo pessoal - em que alguém da organização lhe veio dizer que podia tocar "as long as I will". Às 4 e meia achámos mesmo que queria ver o Sol acender-se entre nós. O sofrimento de tanta violência interior arrancada à bruta não permitiu.
Para trás ficava "Into the Wild", em prece pelo tio John, dez anos mais velho e falecido há poucos dias. "Não estava ainda preparado para me despedir. Daí esta camisola que trago vestida, a mesma que usava quando o vi pela última vez no hospital."
Ficavam também algumas canções salteadas para ukulele, além dos temas maiores do cancioneiro PJ. Mas foi com os tributos ao parceiro Neil Young, a Dylan, aos Beatles e até aos Pink Floyd, que a mensagem do peregrino se encarniçou e começou a espalhar.
Com "Masters of War" incitou aquele pequeno mundo à reflexão: "Being anti-war doesn't mean you're pro-one side. It means you're pro many things. Pro-peace, pro-understanding, pro-diplomacy, pro-Love, pro-soldiers because you don't want them to die for no reason.", altura em que pediu licença para desapertar as notas de 'Imagine', "the most powerful song I've ever heard.", colocando aquela comunidade a ranger os dentes com ele. Por Gaza e Israel, num certo tipo de oração. Peace.
Recordou depois o lado terrivelmente efémero e dramático da vida num avião de civis que é abatido noutro conflito, acabando com a vida de mais 300 inocentes, pessoas que se calhar o tinham visto dias antes em Amesterdão. Foi quando escutámos "The needle and the damage done".
Enfim, o sacrifício feito no altar deste hooligan que arranca o escalpe às vísceras justificava cada verso entoado pela multidão, de quem se despediu ao som de "Rockin' in the free World". Sagrado.
Eram quase quase 5 da manhã e só faltava uma hora para o Sol dar à luz.



II. Uma chuva, apenas inesperada para uma Organização demasiado ingénua ou optimista em relação ao tempo que se avisava para o Meco, fez atrasar o concerto que a apaixonada Cat Power tinha preparado. Também o fez abreviar.
Deixou 5, talvez 6 canções ao todo, roucas, belas e poderosas, que a voz da Cat apressadamente mandou para nos penetrarem. E a declaração de amor eterno no dueto com Vedder. "Tonight you belong to me".
E será sempre assim.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

terça-feira, 15 de julho de 2014

Regresso a Casa

[foto: Pilar Olivares, Reuters]