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terça-feira, 5 de setembro de 2017

Mad Dog

Vou ao cinema para assistir a uma história bem contada. Como o miúdo que a pede ao pai: "Contas-me uma história ?" Para entrar nela e passar a ser minha, que é ser dela. 
Às vezes, quando gosto muito de um actor ou actriz, ou de um realizador, para ver o que andam a fazer. Se ainda inspiram. Ou se perderam qualidades. Se evoluíram, ou se foram tiros de sorte.
Também para me tirarem o tapete, para me porem a cabeça a trabalhar, para me revolverem as entranhas. Para tsunamis interiores. Para levar um soco no queixo. Os melhores são os que duram vários dias, a que vou regressando depois quando já nem espero. Para aprender. Para saber mais. Para ficar parvo. Mas sempre em busca da tal história bem contada. Não me façam de parvo.
Durante o tédio de Agosto, a gente procura um título, "Como cães selvagens", vê o trailer, gosta (há gajos especialistas nisto), quem entra (Willem Dafoe e Nicolas Cage), tipos com traquejo, o nome do realizador (argumentista de 'Taxi Driver', 'Touro Enraivecido', 'American Gigolo' e da 'Última Tentação de Cristo'), currículo da pesada, e vai ler o texto que alguém que respeitamos escreveu sobre o filme: recomenda. Aliás, foi «um dos grandes acontecimentos da Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes de 2016  'Tá feito, 'bora.
O drama é se apanhamos uma brutal xaropada, que não é carne, nem é peixe, e não nos leva a lado nenhum. Apelamos aos deuses. Ó meu querido Tarantino ! Ó uncle Marty ! Ó brothers Coen !, mas nada. Se o humor é cliché, a ironia bufa e a violência vulgar, saímos da sala sem o dinheiro do preço e com uma história a menos. E o tempo todo escarrado. 

Ocorre-me então o Nanni Moretti e se quem escreve uma crítica assim, à noite, não terá um momento de remorso.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

segunda-feira, 21 de março de 2011

"Não te deixarei morrer David Crokett" II

Há mitos que são sagrados. E não se destroem os mitos de qualquer maneira. Que levaram séculos a ganhar raízes. Que estão tão metidos cá dentro que são a verdade. E a herança merece cuidado.
Do Lucky Luke, que fumava cigarros de enrolar, perseguia os irmãos Dalton e afastava-se ao pôr-do-sol.
Do Tenente Blueberry, que jogava póquer, dormia com muitas mulheres e respeitava as tribos dos índios.
Dos outlaws Billy "The Kid", Jesse James, Sundance Kid e Butch Cassidy, que emboscavam diligências, bancos e comboios. 
Mesmo que chamem Brokeback às Montanhas e já tudo se possa fazer.

E dói. Dói onde não podia doer mais.
Dói assistir ao testemunho de John Wayne, Jimmy Stewart, Henry Fonda, Charles Bronson (o "Harmonica Man"), Jean Maria Volonté ou Clint Eastwood assim atirado para uma escarradeira.
Todos cowboys ou simples desperados. Que montavam a cavalo, tinham um nome para a rifle, e bebiam whiskey ou bourbon. Com esporas que não eram um adorno e que entravam no saloon onde tudo calava. Terminavam, normalmente, o dia com um duelo e sacavam mais rápido o seu colt. Partiam à noite, deixando para trás com um beijo eterno a mulher amada.
E era bem. Era assim. Era do faroeste.

Era preciso repôr a calma.
Agora, está tudo em paz. Obrigado Senhor Jeff.


('True Grit', dos irmãos Coen)