Mostrar mensagens com a etiqueta Pluma Caprichosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pluma Caprichosa. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 8 de dezembro de 2025
quarta-feira, 4 de dezembro de 2024
A Referência
"O Caminho faz-se Caminhando.", uma entrevista de 2007/2008 em reposição na RTP 3.
Que força e lucidez. E que saudades de ouvir este homem !
Etiquetas:
Ai Portugal Portugal,
Pluma Caprichosa,
Soares,
TV
sábado, 9 de maio de 2020
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
"Ópera Bufa", por Clara Ferreira Alves
«(...) Pior do que a crueldade, sempre gratuita, é esta indiferença perante a crueldade. As pessoas que resolvem olhar para o lado, fugir com o rabo à seringa, pretendendo não ver. As pessoas que têm horror da resistência. Os facilitadores. Os cúmplices. Os assalariados. Os corrompidos. Os cobardes. Os amorais. Os neutros.
O que assusta em Trump não são as políticas de Trump. O que assusta é a crueldade, traço evidente para quem viu os episódios de “O Aprendiz” ou os primeiros debates contra os republicanos, quando ele não esperava ganhar. Quando descobriu uma aberta em Jeb Bush nunca mais o largou, como um mastim esfomeado a quem atiraram um bife. Vemos a crueldade dentro da auréola branca dos olhos pequeninos, no fungar enervado, na crispação furiosa do desapontamento. E vemo-la no triunfo, quando ela se torna corrupção e prepotência, vingança e soberba. Vemo-la quando ele sai do carro e avança para Obama deixando para trás a mulher, sem lhe abrir a porta ou esperar por ela. Caminha sempre na frente da família, a filha favorita ao lado, o filho pequeno na cauda. Vemo-la nas entrevistas e nas poses. Nos filmes e nos livros sobre ele, pagos ou não por ele. Vemo-la no dedinho autocrático, o bracinho biónico deste Dr. Strangelove. Vemo-la agora, perigosíssima, nestas ordens executivas feitas por medida. E vemo-la, suprema, no olhar maléfico do seu mentor, Steve Bannon, o novo senhor da Segurança Nacional americana. Bannon, o “leninista”, o “Darth Vader” (palavras dele) que gosta de soluções finais para os problemas nacionais e internacionais. O amante da força bruta e da guerra total, o homem que quer destruir o sistema. O ditador dos media. O Goebbels desta ópera bufa. Vemos a crueldade claramente vista. Podemos escolher não ver, como fazem Paul Ryan e Theresa May com olhos murchos. Podemos sempre não ver, mas custa-nos a alma.»
in 'Expresso', 4.02.17
Etiquetas:
Imprensa,
Pluma Caprichosa,
Respect,
The Real World,
the truth is ?,
Trumpa,
USA
sábado, 19 de março de 2016
"Alegria de Viver", por Clara Ferreira Alves
Roma, Outubro de 2010
(foto: andré raposo)
"Há uma razão para não deixar a Alemanha tomar conta da Europa. Chama-se alegria de viver.
Já estiveram dentro de uma estação de caminho de
ferro na Alemanha? A famosa Hauptbahnhof? Olharam para a comida? Desceram às
catacumbas e encontraram os despojos do brigadismo alemão e os despojos do
movimento punk cobertos de piercings, tachas e botas com esporas? Despojos a
que se juntam os junkies e os bêbados e vagabundos crepusculares? Ou o nazi
errático com a suástica a sair do músculo? Uma hauptbahnhof só é bem apreciada
ao anoitecer e nos recantos subterrâneos. Nunca se viu gente mais infeliz do
que esta. E basta olhar para a cara da pobre senhora Merkel, acossada pela
extrema-direita, para perceber que a felicidade não reina ali. Agora, olhem
para a bem mais modesta estação de caminho de ferro de Bolonha. A Stagione
Centrale. Nada a assinalar, pessoas com ar decente, viajantes velhos e novos.
Gente composta. No modesto bar da estação, Santa Margherita, encontramos uma
variedade gastronómica digna do Fauchon em Paris ou do Dean and DeLuca em Nova
Iorque. Sem exagero. E muito mais barata. Numa mesa com cadeiras de plástico de
design italiano, uma velhota beberica um copo de vinho tinto, um pequeno copo
de vinho tinto, com uma sanduíche de presunto de Parma cor de rosa e
transparente. Isto é o cúmulo da civilização. O expresso é perfeito, fazendo
morrer o Nespresso num segundo. Não se vê um bêbado. Aliás, com tantos vinhos e
tão generosamente bons, é raro encontrar-se um bêbado italiano aos uivos nas
ruas. Em compensação, sobram os bêbados da Europa do Norte. Uma viagem em
Itália chega para perceber que deviam ser os italianos a mandar na Europa. Eu
sei, a trapalhada, as berlusconices e tudo mais, mas não são cínicos como os
franceses, nem snobs, têm da melhor paisagem e cultura disponíveis, do mais
apurado sentido estético, e uma infinita alegria de viver. Têm livrarias e
bibliotecas maravilhosas. E a herança do Umberto Eco, o último intelectual
europeu bem encarado. Os italianos são um povo feliz. Na Emilia Romagna, de que
Bolonha é a capital, os habitantes têm índices de felicidade comparáveis aos do
Butão. Agora, experimentem passar um tempinho em Essen ou em Frankfurt e digam
se gostaram. A Itália e a Grécia têm apanhado com a crise dos refugiados em
cima e têm tido um comportamento exemplar. Não existe uma rua de Florença,
Nápoles, Roma, Bolonha, Milão ou Veneza sem a suprema abundância de africanos a
vender malas Prada chinesas. Não existe um beco mal-afamado onde não vagueiem
migrantes e refugiados das guerras do Médio Oriente, do Afeganistão e
Paquistão, do Norte de África. Nos esconsos da estação central de Roma, a
Termini, as máfias de contrabandistas resolveram apadrinhar o tráfico humano e
usar os refugiados menores como correios de droga e prostitutos. Existe um
grupo constituído apenas por egípcios, quase crianças, que os pais enfiaram nas
galeras do Mediterrâneo depois de terem gasto todas as poupanças para os
entregar aos contrabandistas. Acham que a Europa os salvará.
E nem vale a pena falar dos líbios e dos sírios.
A Polícia italiana vai desbandando mas no dia
seguinte eles reaparecem, e o tráfico continua. Dentro da estação, no bar,
calmamente, o cidadão italiano bebe o seu expresso ou o seu Chianti e come o
seu tramezzino ou cornetto, lê o seu jornal sem um sobressalto. Lá fora, desde
os atentados de Paris, carros militares e soldados com metralhadoras vigiam as
estações e os monumentos, as praças e as catedrais, e nem por isso a paisagem
se deprime. Existem manifestações pela abertura das fronteiras dos Balcãs aos
refugiados. Não existem manifestações noturnas de nazis, não existe uma Aurora
Dourada ou uma Marine Le Pen. Existe uma extrema-direita sem expressão
eleitoral perigosa. A Itália, que não é rica como a Alemanha, tinha todas as
razões para ter a sua Frauke Petra. Os seus “patrióticos” Pegidas. Que não se
dariam bem com os seus Corleones.
A alegria de viver ajuda muito. Num país onde a
beleza é uma coisa natural, a comida é gostosa, o sol brilha, as pessoas têm
menos tendência para o azedume. E ninguém, em Itália, acompanha carne com um
litro de cerveja ou bebe uma malga de café com leite por cima do peixe. Há que
dizê-lo com frontalidade: os alemães são uns tristes. E já que estamos na
sociologia de bolso e no empirismo filosófico, com quem preferia beber um belo
Barolo? Comer uma massa tartufata? Com a Frau Merkel, ou com a Frau Frauke, ou
com Renzi? Um país que deu à luz a Monica Vitti e o Antonioni não se pode
comparar com o país que deu à luz o Rainer Werner Fassbinder e a Dietrich.
Olhem para as caras.
A Europa está condenada. A tristeza da Alemanha
vai continuar a mandar em todos nós e só pode acabar mal. Estamos tristes e
acabaremos tristes. E, quem sabe, nas mãos de gente que não gosta de gente
estranha. Nem de viver."
in 'Expresso', 19.03.2016
Etiquetas:
Imprensa,
Itália,
Pluma Caprichosa,
Respect,
Roma
quarta-feira, 29 de maio de 2013
"A cena de ódio a Mourinho", por Clara Ferreira Alves
«Não sei o que fez Mourinho ao Real Madrid. Nada justifica o ácido que os jornalistas espanhóis lançaram sobre a pessoa do treinador. Envelhecido, gasto, fracassado, banido, detestável, arruinado, arrumado, odioso, etc. Tanto rancor justificou uma peça na BBC, e o correspondente da estação confessava a surpresa da violência. Este género de ataque ad hominem tornou-se habitual não apenas no futebol, um terreno favorável aos humanos rancores. Também na política. É um ataque que se distancia do comportamento, decisão ou processo a noticiar, para analisar, para cair com força e apenas sobre a pessoa que vemos, os atributos físicos. O olhar, o jeito, o rosto, o penteado, o traje, a voz, a idade, tudo é motivo de ódio. Em Portugal, aconteceu no caso de José Sócrates, cujas decisões políticas eram logo transformadas em pecados dilatados por questões de "carácter" ou de física aparência. E aí, cresce a pilha de adjetivos. E acontece muito com mulheres em posições de poder, de que foi exemplo o ódio a Mrs. Thatcher na morte, um ódio altamente personalizado e maldoso. A bruxa, claro, foi um dos insultos mais usados, como no tempo de Salem. O antissemitismo e a caça às bruxas nunca desfalecem. Na era da internet, o solo primordial de ressentimentos e vinganças por justiceiros e psicólogos de trazer por casa, que visam repor a "verdadeira cara" de personagens que desconhecem através do exercício do comentário sulfúrico, a linguagem do ódio tornou-se moeda corrente. Ao contrário da ironia, que solicita a inteligência e o humor, o ódio é fácil de digerir, repetir, e apela ao baixo denominador comum, que satisfaz o ressentimento no anonimato. Satisfaz o racista incipiente, o ditador inconsequente, o burocrata infeliz, o cabotino invisível. O inferno são sempre os outros.
Enquanto estamos consumidos pelo ódio simplificado a pessoas, as corporações vão destruindo vidas, vão perpetrando crimes e fugas, vão passando ilesas no crivo da censura social. Odiar Mourinho é fácil, odiar a Apple é impossível. A Apple trata-nos como clientes, consumidores, amigos. A Apple acaba de ser apanhada em fuga aos impostos. E não é um pequeno delito. Através de um esquema complexo mas legal de empresas que vão desaguar noutras empresas, de sociedades que vão desaguar noutras sociedades, de labirintos de subsidiárias virtuais com sedes fiscais espalhadas pelo mundo, a Apple vai responder ao Congresso e à lei americana por quase 80 mil milhões de dólares de impostos em falta. Quase o montante do resgate de Portugal. A Apple vale mais, economicamente, do que um país. A Apple tinha um sistema tão inteligentemente concebido que até o fisco americano, o mais bem oleado do mundo, o mais difícil de iludir, foi iludido. A Apple não tem de ter, ao contrário de Mark Zuckerberg e de Bill Gates, consciência social. E Steve Jobs nunca deu um tostão ao próximo, nem praticou a filantropia. Deixou no porto de Amesterdão um superiate, desenhado por Philippe Starck, que foi apreendido no processo de herança por causa de uma dívida ao designer de vários milhões de dólares. O barco, começado a construir quando Jobs já estava muito doente, foi o derradeiro egoísmo. Na morte, Jobs foi celebrado como um deus, construindo-se uma nova teologia. E um culto da personalidade como não se via desde o falecido Mao. Como clientes desta corporação, nem sequer como acionistas visto as ações da Apple estarem tão valorizadas que só os ricos as podem comprar, comportamo-nos sem pensamento crítico. Em Portugal, um país empobrecido, a venda de smartphones aumentou 46%. Muitos serão da Apple.
A Apple, como a Starbucks, como a Amazon, praticam esquemas internacionais de fuga fiscal que faz com que escapem a todas as leis de todos os países e celebrem com as autoridades políticas e fiscais pactos específicos que os impedem de ser devidamente taxados. Na Europa, a Irlanda é o paraíso fiscal da Apple. A Irlanda, perpetuamente apontada como um exemplo da eficaz austeridade, autoriza acordos fiscais com multinacionais que transformam o país num verdadeiro offshore dentro da União Europeia. Estes pactos fiscais não produzem riqueza nem criam muito emprego, servem de quadro referencial de sucesso do investimento estrangeiro. Bruxelas poderia e deveria acabar com este estado de coisas, legislando e aplicando regras unitárias. Preferiu dedicar-se ao tamanho dos pepinos, à fermentação de queijos não pasteurizados e às garrafas de azeite das mesas dos restaurantes. Os regulamentos europeus são isto. E nós, legiões de consumidores, legiões de cidadãos informados e informatizados, preferimos dedicar-nos aos Mourinhos como atentados à nossa consciência, deixando escapar os feitores e malfeitores do capitalismo transnacional. O ódio é a felicidade dos brutos.
'Expresso', 25 de Maio de 2013
Etiquetas:
Imprensa,
Mulheres,
Pluma Caprichosa,
Respect
segunda-feira, 4 de março de 2013
A origem das espécies (continuação)
«(...)
Os alemães simplesmente, não têm jeito para viver. A dolce vita dá cabo deles. Não troco a noite de Nápoles por um serão em Munique. Não troco um penne por um bratwurst. Nem os telhados de Siena pelo castelo de Würzburg.
Entra-se numa igreja alemã (a Baviera é católica, terra do pobre Bento XVI, um alemão vencido pela decadência romana), e percebe-se o sofrimento, a expiação, o sacrifício como templo de vida. Os apóstolos andam armados. Entra-se numa igreja italiana e vê-se o deboche como suprema representação de vida na arte.
Os alemães pensam que a dolce vita é um nome de um cocktail esquisito. O pior é que temos de viver todos juntos na Europa.
Ou a Alemanha se habitua ao sul onde tanto gosta de se banhar ou desiste. Nunca seremos alemães. Somos uns trapalhões.
Uns palhaços (pobres). Uns ladrões.
Scientifico, no ?
Clara Ferreira Alves
'Expresso', 2.03.13
Os alemães simplesmente, não têm jeito para viver. A dolce vita dá cabo deles. Não troco a noite de Nápoles por um serão em Munique. Não troco um penne por um bratwurst. Nem os telhados de Siena pelo castelo de Würzburg.
Entra-se numa igreja alemã (a Baviera é católica, terra do pobre Bento XVI, um alemão vencido pela decadência romana), e percebe-se o sofrimento, a expiação, o sacrifício como templo de vida. Os apóstolos andam armados. Entra-se numa igreja italiana e vê-se o deboche como suprema representação de vida na arte.
Os alemães pensam que a dolce vita é um nome de um cocktail esquisito. O pior é que temos de viver todos juntos na Europa.
Ou a Alemanha se habitua ao sul onde tanto gosta de se banhar ou desiste. Nunca seremos alemães. Somos uns trapalhões.
Uns palhaços (pobres). Uns ladrões.
Scientifico, no ?
Clara Ferreira Alves
'Expresso', 2.03.13
- Roma, Outubro de 2010 -
(foto andré)
Etiquetas:
Fellini,
Imprensa,
Itália,
Pluma Caprichosa,
Respect,
Roma,
The Real World
Subscrever:
Mensagens (Atom)





