Mostrar mensagens com a etiqueta Nelsadas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nelsadas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Nelsadas

«Durante toda a minha vida musical, busquei a diversidade e a tolerância, explorei à exaustão as possibilidades de harmonizar contrastes, sempre me orgulhei de não ter preconceitos e de ser capaz de gostar de música de qualquer género, de qualquer lugar, de qualquer época. Mas a onda sertaneja era demais, não havia ali nada de que gostasse. Nem no Brasil em que estávamos vivendo.
(...)
Não era só  a música: o Brasil estava insuportável, muitos amigos estavam debandando. Comecei a planejar minha retirada, a imaginar uma pequena gravadora na Europa ou nos Estados Unidos, para produzir, promover e distribuir internacionalmente a música brasileira de que eu gostava - e que, naquele momento, parecia mais admirada e querida no exterior do que no Brasil.

Acompanhei apaixonadamente o processo de impeachment de Collor e as descobertas diárias da rede de corrupção no seu governo. Quando, nos estertores finais, ele pediu ao povo que o apoiasse vestindo verde e amarelo no domingo, 16 de agosto, comprei a passagem. De manhã, todo de preto, saí para o calçadão de Ipanema e me integrei a um mar rumoroso de gente vestida de preto da cabeça aos pés, carregando bandeiras pretas e cartazes e gritando pela saída de Collor. Até os cachorros estavam de preto naquele dia luminoso. À noite embarquei para Nova York. Para começar tudo de novo.»

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Nelsinho da gema


«"O Nelsinho nasceu com o cu pra lua", dizia sempre o tio Vito, maior cabeça e talento da família. Catedrático de História da Arte na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo, o professor Flávio Motta era adorado pelos alunos por seus conhecimentos de arte, sua verve e seu humor, além das eventuais doideiras. Numa ocasião, se empolgou no fim da aula, disse que tinha já transmitido aos alunos tudo o que sabia e, exaltado, esvaziou os bolsos na mesa, tirou o terno, a camisa, a gravata e ficou só de cuecão. Foi ovacionado pelos alunos. E, pouco depois, aposentado.

Pintor de imenso talento e muito culto, Flávio Motta, o tio Vito, também teve que enfrentar uma internação psiquiátrica depois de jogar fora seu dinheiro e todos os documentos e sumir no meio de uma plantação no interior de São Paulo. Nelsinho achou até poético e libertário, mas sua avó dizia que era maluquice mesmo e explicava que o organismo dele secretava alguma substância alucinógena que o deixava viajandão.»