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sábado, 31 de outubro de 2026

primeira fornada


Monstro era a Biblioteca de família. Ou Monstra. 
Herdada como testemunho do que havia de ser. Com a força da afirmação das palavras que nascem para ficar. E, nalguns casos, renascer. E com a responsabilidade que um legado assim traz e obriga.
Monstra, ou Monstro, podia ser a tarefa ou o trabalho que se vai ter, e quer, pela frente. De noites sem dormir e problemas para resolver. E o coração a bater. E uma ideia mais, para acordar a sonhar já com o próximo. Mas importante é começar a obra. Colocando a planta em terra húmida e boa e deixando-a germinar em ares suaves, até crescer um pouco. Ou muito. Ou, então, metendo mesmo a travessa toda dentro do forno e ver se está pronto. Para ver se está bom.
Está.
Ontem foi o lançamento. Gosto tanto desta palavra. Tem tanto movimento um lançamento. Como se fosse um mergulho no espaço. Como se o atirassem para a mão da rua e agora faz-te à vida. E é de quem o apanhar. 
E então foi o lançamento. O mergulho atirado para a vida. Do "Acrobata", livro de poemas da
Alice Sant'Anna
, que nos leu (e deu, porque é disso que se trata) um "Sabiá", tão lindo. Tão simples. Como devem sempre ser as coisas. E também da "Monstro", a editora da Teresa e do Ricardo, com tanto cuidado e jeitinho que até comove. E que delícia, assistir ainda ao nascimento do seu segundo filho, erhh ... livro.  
Na Sala dos Fornos do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. 
Que bonito que tudo isto é. E que sorte a minha. Nossa. 


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

terça-feira, 20 de outubro de 2026

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

cabo verde de lava

 

«Toda a encosta que descia suavemente até ao mar parecia ter sido escanhoada com uma enxada. A mais pequena mancha verde se via no chão ressequido com tantos anos de falta de chuva. As ribeiras eram bocas escancaradas para o céu. Como tudo se modificava quando chovia abundantemente! Nascia o milho que cobria a terra inteira. As freiras nos barrancos floriam com garridice. A touça rebentava com pujança. Os animais fartavam-se com a palha verde. Sem as-águas, era uma monotonia de lava e pedregulhos, de ravinas e achadas, que nem dava vontade de olhar em redor. Quando a ilha emergia nas primeiras erupções, era isso mesmo, menos as ribeiras que as enxurradas depois sulcaram.»

* adquirido no Café "Nos Caminho" (Ribeira Grande, Santo Antão).

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jim

«Somos escravos. Não estamos em lado nenhum. Uma pessoa livre pode estar onde ela quiser. A escravatura é o único lugar onde alguma vez poderemos estar.»

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Le Professeur

Há livros que nos mandam para um filme.
Outra vezes, são os filmes que nos ordenam um livro.
Os meus agradecimentos ao Professeur. E a ti.

terça-feira, 21 de julho de 2026

"Las madres de Plaza de Mayo"

 «1977. Buenos Aires

Las madres de Plaza de Mayo, mujeres paridas por sus hijos, son el coro griego de esta tragedia. Enarbolando las fotos de sus desaparecidos, dan vueltas y vueltas a la pirámide, ante la rosada casa de gobierno, con la misma obstinación com que peregrinan por cuarteles y comisarías y sacritías, secas de tanto llorar, desesperadas de tanto esperar a los que estaban y ya no están, o quizás sigen estando, o quién sabe:
- Me despierto y siento que está vivo - dice una, dicen todas -, 
Me voy desinflando mientras pasa la mañana, Se me muere al mediodía. Resucita en la tarde. Entonces vuelvo a creer que llegará y pongo un plato para él en la mesa, pero se vuelve a morir y a la noche me caigo dormida sin esperanza. Me despierto y siento que está vivo...»

Eu vi estas mulheres. De lenço branco atado à cabeça. 26 anos depois. Mulheres (já) na terceira idade num domingo de 2003.
Continuavam lá. Dando voltas e voltas na Praça de Maio. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

como um ristretto

"Também a Itália é incrível, e é preciso ir à Sicília para se ver como a Itália é incrível.

- Talvez toda a Itália se venha a tornar uma Sicília... Veio-me à cabeça uma fantasia, ao ler nos jornais os escândalos desse Governo Regional. Os cientistas dizem que a zona da palmeira, isto é, o clima propício à vegetação do coqueiro, está a subir quinhentos metros para norte, por ano, acho eu... 
A zona da palmeira... Mas eu digo, em vez disso: a zona do café curto, do ristretto... Essa está a subir como a marca do mercúrio num termómetro, esta zona da palmeira, do café fortíssimo, dos escândalos: a subir, a subir sempre em toda a Itália, e já está para norte de Roma... 
Parou repentinamente e disse a uma jovem risonha que vinha ao encontro deles: 
- Também tu és incrível, belíssima... 
- Também eu... como ? Então quem é a outra ?
- A Sicília... Também é uma mulher: misteriosa, implacável, vingativa; e muito bela... Como tu."

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Pronto para o Mundial.

«Football is never just football, and that's especially true of World Cups. In fact, many people love the World Cup despite the football. What gives the tournament its impact ? What do we all get of it ? And what does the World Cup tell us about our changing world ?

Each new World Cup becomes the biggest media event in history, judged by numbers of TV hours consumed and clicks generated. The tournament is a global carnival that dramatises the role of luck in human affairs, teaches us the psychology of biting, and offers us a peek into the collective Uruguayan soul, all while giving glimpses of undying genius and inspiring  a worldwide conversation. For the host country, the World Cup is usually a voyage of self-discovery. Autocrats from Mussolini to Putin have tried to get in on the action.»

terça-feira, 9 de junho de 2026

Mulher Vida e Liberdade


Marjane Satrapi
(1969 - 2026)

segunda-feira, 1 de junho de 2026

sábado, 9 de maio de 2026

o super-continente


Gondwana, o super-continente. Quer dizer, a livraria. 
Uma antiga pastelaria lisboeta com azulejos que ficaram. Ali ao pé do Campo Pequeno, agora já não é. Agora é outra. Desde Outubro do ano passado. Walter, argentino, e o sócio, sul-africano, vieram trazer bolinhos em forma de literatura do hemisfério sul. África e América do Sul em palavras. Livros com cheirinho a café e yerba mate. Um da Clarice e um Galeano. 
Suerte.

foto: Matilde

quinta-feira, 30 de abril de 2026

"Tudo foi estranho"

 

«(...) sentado na minha sala de estar aqui em Sund, em Sartor, na casa da minha infância, a olhar para o Sjarken Eline, bem amarrado ao cais ali em baixo e apesar de agora estar no meu septuagésimo quinto ano de vida, e ainda que tenha pensado na Eline e em mim ao longo de todos estes anos, nunca me ocorreu nenhuma outra explicação a não ser que tudo foi estranho, e até pensei que isso deveria ficar escrito na minha lápide tumular - Tudo foi estranho -, mas depois decidi que deveria ser suficiente uma simples cruz, decidi que quero apenas uma cruz na minha lápide tumular, e como não tenho herdeiros, estive a pensar em legar tudo o que possuo à Casa de Oração de Sund, nunca fui particularmente religioso, mas quando se vive toda uma vida no mar, bem, então uma pessoa torna-se como que religiosa de uma certa forma (...)»

terça-feira, 14 de abril de 2026

Era Showa



"Não se trata apenas de ficar com a barriga vazia, mas da sensação de desespero que surge lentamente com a fome. (...) os sonhos e a esperança também desaparecem com a fome."

terça-feira, 31 de março de 2026

As faces de Allen

"«No pouco tempo em que o conheço, Asher, comecei a gostar muito de si», esperava não a ouvir, embora desejasse ouvir precisamente essas palavras. Um caminho conduzia à felicidade e outro ao Inferno. O problema era que o caminho para a felicidade era, na verdade, o caminho mais longo para o Inferno.

Na realidade, ele não sabia verdadeiramente o que queria. Só sabia que, outrora, fora ao Inferno e que não queria voltar a visitá-lo. Ainda assim, já estava a cheirar o enxofre a arder. Pensou que deveria esperar até ela acabar de falar e depois observar o seu próprio corpo para ver o que este faria. Observar-se-ia a si mesmo à distância e, enquanto mero espectador, não poderia ser responsável por qualquer acto que a sua personagem tentasse realizar. Perguntou-se se cairia na armadilha do Asher Mau ou se o Asher Bom derrotaria essa versão carrancuda de si próprio, fazendo-o regressar ao mundo do bom senso. O que é que Kant faria se ela lhe pegasse na mão ? Argumentaria: o que é que aconteceria se as pessoas agissem assim, como o Asher Mau ? Ou será que Kant, se ela lhe pegasse na mão, a levaria para um quarto de hotel onde pudessem estar sozinhos, e depois escreveria duas mil páginas pouco claras e impossíveis de compreender a justificar esse facto ? "

domingo, 15 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

António Lobo Antunes (1942 - 2026)

 


"Ter coragem não é não ter medo. É não ter medo de ter medo."
                                                                                        ALA

(e de repente as lágrimas vieram-me aos olhos quando o ouvi na Antena 2 dizer isto)

sábado, 17 de janeiro de 2026

"Coração das Trevas", de Joseph Conrad


 by Luc Brahy e Cyril Saint-Blancat

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

os primos da américa


«Natural do Pico, João Filipe era um pesquisador de ouro dos muitos que acorreram à Califórnia em meados do século passado. Sem sorte, foi obrigado a recorrer aos militares e trabalhar como aguadeiro num canto perdido da fronteira índia, Fort Kearney, no Nebrasca.
Numa manhã, dois mil índios Sioux comandados pelo chefe Nuvem Vermelha emboscaram uma patrulha saída do forte e massacraram os soldados. Em Fort Kearney foi o pânico, as armas e a pólvora que restavam eram poucas. O aguadeiro português fez-se voluntário para uma tarefa impossível: ir buscar reforços a Fort Laramie, trezentos e oitenta quilómetros a oeste. Tal como os filmes ensinam, homem e cavalo que se aproveitem da noite e da névoa da madrugada podem enganar índios. Quatro dias depois - Dia de Natal, o que sempre ajuda para fazer perdurar lendas - John Philips estava a bater ao portão de Fort Laramie. Um esquadrão de cavalaria chegou a tempo de salvar os sitiados. Os Sioux esperaram dez anos para saborear a vingança.»

*

«Mas o homem ainda jovem que me levou ao jardim secreto de Valim quis-me contar uma história sua, de asfalto.
No mês anterior, ia para o trabalho pela "Freeway 5" quando viu, do lado de lá do separador, um carro indo no mesmo sentido. Os infelizes dos automobilistas da outra faixa guinavam, capotavam, chocavam entre si. O automobilista suicida prosseguia pela auto-estrada urbana em contramão.
- Pus-me a persegui-lo, lado a lado - disse-me George Fernandes.
Buzinou, gritou-lhe, mas do lado de lá do separador o outro continuava com o olhar vidrado, fixo na direcção indevida. Fernandes acelerou, travou mais à frente, saltou do carro e pôs-se na outra faixa agitando os braços como um pegador desesperado. O doido parou o carro, submisso. Já se ouviam as sirenes da polícia. Em Agosto de 1990, George Fernandes tornou-se o "cidadão do mês" de Sacramento, com foto em jornais e nome no telejornal.
- Mas o que eu gostei mais foi ouvir o polícia dizer-me: "Você tem uns tomates do caraças!"»