Quando saímos do restaurante, numa grande avenida vazia, com quatro faixas separadas por um passeio ajardinado (ou mal ajardinado), dois guanacos que se encontravam do outro lado começaram, sem qualquer motivo, a disparar contra nós, cegando-nos momentaneamente, quebrando a tépida monotonia de início de tarde e a lassidão pós-almoço. O ataque injustificado tomou-nos de surpresa, e hesitámos em que sentido seguir, sem saber se deveríamos voltar para trás ou continuar em frente. Com os olhos e a cara a arderem, optámos por correr na direcção oposta à que seguíamos, o que se revelou uma péssima escolha, pois era precisamente onde estavam virados os guanacos. Os carabineros inverteram o sentido da marcha para a faixa mais próxima de nós, num espaço em que a avenida permitia a manobra, e aproximaram-se, parando a escassos dois ou três metros - havia apenas, entre nós e eles, a distância que o passeio permitia -, e os jactos de gás atingiram-nos directamente na cara, queimando-a. Sem conseguirmos ver quase nada, corremos para trás dum quiosque e depois para uma rua perpendicular à avenida, por onde conseguimos cambalear. (...) Quando recuperámos um pouco da visão, os blindados tinham dado a volta ao quarteirão, numa perseguição evidente, e estavam agora à nossa frente, avançando para nós. Olhámos para todos os lados. Não havia outra rua, nem maneira de escapar.»
sexta-feira, 24 de janeiro de 2025
"O que a Chama iluminou"
Quando saímos do restaurante, numa grande avenida vazia, com quatro faixas separadas por um passeio ajardinado (ou mal ajardinado), dois guanacos que se encontravam do outro lado começaram, sem qualquer motivo, a disparar contra nós, cegando-nos momentaneamente, quebrando a tépida monotonia de início de tarde e a lassidão pós-almoço. O ataque injustificado tomou-nos de surpresa, e hesitámos em que sentido seguir, sem saber se deveríamos voltar para trás ou continuar em frente. Com os olhos e a cara a arderem, optámos por correr na direcção oposta à que seguíamos, o que se revelou uma péssima escolha, pois era precisamente onde estavam virados os guanacos. Os carabineros inverteram o sentido da marcha para a faixa mais próxima de nós, num espaço em que a avenida permitia a manobra, e aproximaram-se, parando a escassos dois ou três metros - havia apenas, entre nós e eles, a distância que o passeio permitia -, e os jactos de gás atingiram-nos directamente na cara, queimando-a. Sem conseguirmos ver quase nada, corremos para trás dum quiosque e depois para uma rua perpendicular à avenida, por onde conseguimos cambalear. (...) Quando recuperámos um pouco da visão, os blindados tinham dado a volta ao quarteirão, numa perseguição evidente, e estavam agora à nossa frente, avançando para nós. Olhámos para todos os lados. Não havia outra rua, nem maneira de escapar.»
sábado, 24 de fevereiro de 2024
'Uma Herança', de Miguel Bonnefoy
«O guarda teve uma explosão de cólera:
- Vai-se já ver se não sabes cantar, comunista de merda.
Abriu a porta, toda a gente se pôs de pé. O guarda agarrou Ilario Da pelo braço. Puxava-o para o corredor quando se ouviu da cela uma voz que subia. Era um tango. Era o Volver de Carlos Gardel. Aquela voz solitária era de Carmelo Divino Rojas que, apesar da fraqueza do seu estado, tinha aproximado a cara das grades para que o seu canto inundasse as celas. Outras vozes se juntaram à sua e a Villa Grimaldi, pelo espaço de um instante, mergulhou num recolhimento profundo para escutar aquela música, e pareceu a Ilario Da que não os tinham ainda completamente matado, que eram capazes ainda de elevar por cima das paredes, por cima dos arames farpados, por cima das ligaduras, o mesmo sonho que fala de um regresso e de uma testa envelhecida. Ilario Da endireitou-se quando lhe chegou, no meio da barulheira, no brusco grito de uma outra rixa, uma outra voz, a de um velho que era levado. Um guarda insistia em conhecer o esconderijo do filho dele, mas ele resistia, negava tudo. Caíram-lhe em cima vários polícias com as suas matracas. Toda a gente percebeu que era o pai de Julián, alto dirigente do MIR, procurado em todo o país desde o 11 de Setembro. Ao cabo de uma meia hora o velho foi atirado para a cabana e fecharam o cadeado com violência. Tranquilamente, sentou-se na cadeira mais próxima da porta.
- De qualquer maneira - disse ele -, não tinha previsto sair hoje.»
domingo, 22 de setembro de 2019
quinta-feira, 5 de julho de 2018
Victor Jara Vive !
Soube mais tarde.
O homem da guitarra, poeta e cantor de intervenção no Chile dos anos 70, activista,
professor e Director da Universidade Técnica do Estado, e um dos primeiros a cair às mãos dos carrascos de Augusto Pinochet, após o golpe de Estado que depôs Allende.
E de como foi levado com outros prisioneiros para o Estádio Chile (hoje Victor Jara), onde foi espancado e lhe esmagaram os braços e os dedos da mão e enquanto - conta-se - lhe diziam que tocasse guitarra. E onde foi fuzilado com 44 tiros no corpo, para a seguir o abandonarem numa rua de Santiago do Chile perto de um cemitério.
Soube agora, 45 anos depois, da condenação de oito ex-soldados chilenos a 18 anos de prisão, pela morte de Victor Jara.
terça-feira, 31 de março de 2015
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
11 de Setembro (de 1973)
9.10 a.m
"Seguramente ésta será la última oportunidad en que pueda dirigirme a ustedes. La Fuerza Aérea ha bombardeado las torres de Radio Postales y Radio Corporación. Mis palabras no tienen amargura sino decepción Que sean ellas el castigo moral para los que han traicionado el juramento que hicieron: soldados de Chile, comandantes en jefe titulares, el almirante Merino, que se ha autodesignado comandante de la Armada, más el señor Mendoza, general rastrero que sólo ayer manifestara su fidelidad y lealtad al Gobierno, y que también se ha autodenominado Director General de carabineros. Ante estos hechos sólo me cabe decir a los trabajadores: ¡Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo. Y les digo que tengo la certeza de que la semilla que hemos entregado a la conciencia digna de miles y miles de chilenos, no podrá ser segada definitivamente. Tienen la fuerza, podrán avasallarnos, pero no se detienen los procesos sociales ni con el crimen ni con la fuerza. La historia es nuestra y la hacen los pueblos.
Trabajadores de mi Patria: quiero agradecerles la lealtad que siempre tuvieron, la confianza que depositaron en un hombre que sólo fue intérprete de grandes anhelos de justicia, que empeñó su palabra en que respetaría la Constitución y la ley, y así lo hizo. En este momento definitivo, el último en que yo pueda dirigirme a ustedes, quiero que aprovechen la lección: el capital foráneo, el imperialismo, unidos a la reacción, creó el clima para que las Fuerzas Armadas rompieran su tradición, la que les enseñara el general Schneider y reafirmara el comandante Araya, víctimas del mismo sector social que hoy estará en sus casas esperando con mano ajena reconquistar el poder para seguir defendiendo sus granjerías y sus privilegios.
Me dirijo, sobre todo, a la modesta mujer de nuestra tierra, a la campesina que creyó en nosotros, a la abuela que trabajó más, a la madre que supo de nuestra preocupación por los niños. Me dirijo a los profesionales de la Patria, a los profesionales patriotas que siguieron trabajando contra la sedición auspiciada por los colegios profesionales, colegios de clases para defender también las ventajas de una sociedad capitalista de unos pocos.
Me dirijo a la juventud, a aquellos que cantaron y entregaron su alegría y su espíritu de lucha. Me dirijo al hombre de Chile, al obrero, al campesino, al intelectual, a aquellos que serán perseguidos, porque en nuestro país el fascismo ya estuvo hace muchas horas presente; en los atentados terroristas, volando los puentes, cortando las vías férreas, destruyendo lo oleoductos y los gaseoductos, frente al silencio de quienes tenían la obligación de proceder. Estaban comprometidos. La historia los juzgará.
Seguramente Radio Magallanes será acallada y el metal tranquilo de mi voz ya no llegará a ustedes. No importa. La seguirán oyendo. Siempre estaré junto a ustedes. Por lo menos mi recuerdo será el de un hombre digno que fue leal con la Patria.
El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.
Trabajadores de mi Patria, tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo en el que la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo se abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.
¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!
Estas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano, tengo la certeza de que, por lo menos, será una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición."
(último discurso de Salvador Allende, Radio Magallanes, 11.09.1973)Há mais onzes de Setembro para além do 11 de Setembro.


