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terça-feira, 23 de março de 2021

Sobrevivente(s)

O original faz 50 anos.

O Fachada revisitou-o há 10.

E eu fui (re)buscá-lo hoje à estante.

 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fuck moody's. We are Meco.

Ao fim de dez minutos no Cabeço da Flauta, já temos a pele curtida pelo pó. Mas pó só há mesmo para quem não o consegue engolir e continuar de ouvidos abertos.
A primeira estação é no fazedor de canções: B Fachada.


Já tinha começado.
Fala do Sérgio Godinho e do Chico Buarque, dos amigos da Flor Caveira, de colecções do Vinicius, e de artes de prestidigitação.
P-R-E-S-T-I-D-I-G-I-T-A-Ç-Ã-O. Um gajo que canta uma palavra destas e não se engasga, tem de ser especial.
Com ar descontraído, B Fachada salta de olhos fechados da guitarra para as teclas. E das teclas para a guitarra.
A certa altura fica irritado com o som. Queixa-se para alguém da muralha de feed-back dos baixos. Alguém lhe diga que era tão forte que nos electrificou completamente o corpo quase nos empurrando para trás.
O concerto termina ao lusco-fusco.
A cerimónia está perto de acontecer. Religião.


Uma Lua já por cima de nós. Enorme, redonda e perfeita. A pedir para cantarem para ela. Para irem para o espaço com ela.
Inspiradíssimos, os Portishead mostram-nos porque tratam a música com pinças. Com o carinho reservado aos amantes. Porque entramos numa liturgia. Sagrada. Não é para estoirar de repente, nem ouvir-se a correr. Temos que a deixar penetrar. Começa quase sussurro. E quando nos entregamos ao som que produzem, é já tarde. Reféns para sempre da noite. Do lado negro da Lua.
No palco, Beth Gibbons, a feiticeira, desfia-se. Canta tudo o que tem de tocar. Em choro. Em prece. Despe-se, fímbria por fímbria. Despe-nos da alma. Arrancada com doçura. E isto é The Rip. Que não é só sublime. É monumental. De mergulhar para sempre na escuridão de um mar nunca estado e querer ir mais ao fundo. Até onde as profundezas nunca terminem. Mergulhar, mergulhar, mergulhar. A partir desse momento, já somos dela. Não queremos mais nada.


E quando nos julgávamos musicalmente dormentes. Noutra dimensão, impossíveis de tocar, quase prontos para pedir o fim, eis que aparecem 8 tipos malucos no mesmo palco onde 30 minutos antes imergíamos  para nunca mais.
Quando se falar do ano da crise em Portugal, do ano Troika, quando se falar do Meco '11, vai querer dizer-se: "Eu estive lá."
Acto 1: Portishead. 
Acto 2: Arcade Fire.
Os AF são um grupo janado de oito músicos. Multi-instrumentistas todos. Todos tocam mais que um instrumento durante o concerto, o que eu acho lindo. Tão depressa na guitarra, como no baixo, e depois na percursão, nos violinos ou num órgão. De tudo saltam e se decompõem em permanência, em estado de euforia musical.
Quando não era possível pedirem-nos mais nada, estes malucos rebentam com tudo.
Obrigado NATO. Cancelarem o concerto de Novembro foi melhor que a encomenda. A energia orgásmica do vulcão só aguentou o tempo necessário para explodir a rolha forçada.
E embora o joelho direito gritasse há tempo, temos de ir para o palco com eles.
Porque isto é o Meco. E podemos encontrar no meio da multidão escura de cem mil caras sem nome, um grande amigo que não víamos há mais de 15 anos. Quais são as probabilidades de isto acontecer?
"Uma para 30 mil.", diz o gajo. Não. Mais. Muito mais.

São 3h30m.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fuck moody's, We got Meco !

Lisboa, sexta-feira

7h45 - O próprio a desencarcerar-se para fora da cama. Véspera a jogar ao futebol da meia-noite. Derrota por 2-1. Eliminados e para o ano há mais. Cama, só a das duas da manhã. Por isso, sexta, o próprio a desencarcerar-se para fora da cama.

8h00 - O pai toma um duche, prepara os pequenos-almoços e leva a miúda à escola que é o último dia. Bagunça geral e beijo. Molhadíssimo.

9h00 - O advogado chega ao escritório. Pensa nos problemas do dia. Arregaça as mangas, começa a bulir. Lembra-se de fazer um último articulado para entregar na audiência das 13h30m. Arguir uma nulidade. Discute-o com o colega dos cabelos brancos. Vou levar sopa. Tudo bem. A gente só recua para tomar balanço. 

13h30 - O advogado (togado) entra no Tribunal. O cabelo não disfarça o stress antecipado. Audiência. Pega monumental com a Juíza. Ai, Senhora Juíza, semi-deus a quem Deus não perdoa ! Sentença condenatória. Vai ter recurso. Vai doer. E não vai ser bonito.

17h30 - O advogado (com a toga revoltada e amarfanhada) regressa ao escritório. Já não faz nada - só pensa no caso - mas despacha umas coisas.

19h00 - Freedom ! Mete a roupa num armário do escritório e veste uma t-shirt. Calça uns ténis e fica com os pés subitamente mais calmos. Arranca na Vespa e vai buscar a garota. Que lhe dá seca.

19h45 - Não pára. Filas logo à saída, mas a Vespa nunca pára. Alguns buzinam. Não sabe se para si, se uns com os outros. Buzina também como resposta. Vê risos naquelas cadeias com rodas. Outra vez o Fernão Ferro dos cães de loiça à beira da estrada, mas repara também nas casotas e nas lareiras. Tudo à beira da estrada a assistir ao desfile para o Meco.

19h55 - Chegam ao Meco. Primeiro à casinha. Aquela é a casinha. Do ano passado. Da Susaninha. Amiga boa. "Tomem a chave. O cão não morde." Nem assusta. Dorme refastelado à soleira da porta. Nem os sente entrar. Ou se sente já se está a cagar. Sacana na reforma ! A mochila chutada para o canto.

20h05 - Alfarim, uma miúda que implora: "Leva-me !", imensa gente no meio da Nacional. Vêm da praia. Do campismo. Alguns até trazem geleiras. Vão para o Cabeço da Flauta. Tudo louco. Enchem a berma, saem da berma, enchem a estrada, contornamos tudo, sempre com um olho 100 metros à frente para não chocar com ninguém, e outro feito radar para todo o lado como o camaleão. GNR's. E nós sempre a passar. A assobiar.

20h15 - Parque das motas, mesmo em frente à entrada. Ahhhh... Entrada. Desculpa, onde é que é o Palco EDP ? "O Senhor vai por ali..." Merda ! Devo estar mesmo velho. "Não me podes tratar por outra coisa ?" Um gajo chega aqui depois de um dia de morte e é logo ofendido. Devo estar mesmo velho. "O menino vai por ali..." Nada a fazer. Geração morangos, betosa ! Onde é que fica o "TU" no meio disto ?

Bem, sai da frente, que agora vai tocar o B Fachada.