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quinta-feira, 8 de julho de 2021

Disco Voador

"Tenho saudades da minha família da música e de toda aquela família que se conhece da estrada, que monta os palcos, produz os festivais", diz a Gisela João.
Nós também.
Das gentes todas. Das molhadas. Dos concertos. Do suadouro colectivo. De espectáculos e cinemas apinhados. Dos Santos. Das ruas apertadas. Dos empurrões. De cafés barulhentos e de bares a abarrotar. De clubes de jazz abafados. Do ar viciado. Até do fumo. De jantares cheios e sem espaço, e de cadeiras a brigarem umas com as outras. Das casas dos amigos. De festas improvisadas. Das pessoas inesperadas. De conversas improváveis. Do brilhozinho dos lábios e de sorrisos estranhos. De rugas e marcas na cara. De tiques. E toques. Da malta nos estádios e nas roulottes antes de um jogo. De uma boa algaraviada. De andar de um lado para o outro. Da vida descomplicada. Da magia dos novos lugares. De avenidas de pessoas. Com rostos. 

Temos falta disso. Sim, temos falta disso. E de um disco voador. 
Este mundo não é para máscaras.

Niterói

sexta-feira, 15 de maio de 2015

'A vida é um Sopro'

Enorme documentário que passou hoje na RTP 2. Uma lição de vida, arte e de uma boémia livre, revolucionária e apaixonada por Oscar Niemeyer, "porque a mediocridade activa é uma merda".


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Porque a vida só se dá pra quem se deu, Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu" *

"Não é o ângulo recto que me atrai, nem a linha recta, dura e inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual - a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos rios, no corpo da mulher amada."



Oscar Niemeyer

15.12.1907 - 5.12.2012

Oscar Niemeyer, Vinicius de Moraes, a mulher Lila e Tom Jobim


Tirado daqui. Gracias Joaninha !


* Vinicius de Moraes, 'Como dizia o Poeta'

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

MUDE



Sempre gostei de conhecer sítios curiosos. Sítios diferentes e inesperados, que nos põem pontos de interrogação na testa. O MUDE é um sítio assim. Ainda pequeno.
Não é um MoMA. Nunca. Longe disso. Nem pensar. A anos luz. Nem atreve. Mas é um sítio porreirinho. Fica na rua Augusta e não parece ser dali. Num antigo Banco. O capital a ceder lugar à arte e ao lazer. Curioso.
Os tectos continuam picados, com o que sobra dos materiais isolantes a pingar. Sem revestimento e com o betão à pele. Os pilares idem. Cimento. Adivinha que o edifício esteve para ser demolido e desistiu.
Resta o comprido balcão de mármore negro do velho BNU que dá uma volta inteira à sala. E a escadaria.
O espaço é fixe logo por isso e porque não se espera ver cadeiras pop, torradeiras, gira-discos, aspiradores e telefones dos anos 50 e 60 por entre aquele balcão cisudo onde antes se trocou dinheiro, letras e cheques.
Uma Vespa à esquerda. Toco-lhe. Não posso, oiço. Vestidos de noite de estilistas com nome de perfume francês. 
Numa cortina projecta-se o histórico debate televisivo Nixon-Kennedy para as eleições de 1960.
 
Painéis de luz fluorescente branca. Chutam uma frase de um famoso qualquer do design.
Objectos futuristas de formas estranhas e cores concretas desenhados por Frank Gehry ou Corbusier.
De repente, ao canto, ouvem-se os Beach Boys a tocar "God Only Knows" e "Wouldn't it be Nice". Vou logo para lá. Vinis dos Beatles, dos Rolling Stones e do Bob Dylan no chão. Slides a bombarem um Lennon de cabelos e barba comprida em protesto. Enfiado na Bed Peace com Yoko Ono. Mick Jagger e uma mulher. Manifestações estudantis contra a guerra no Vietname. Martin Luther King. Pancada.
Uma espécie de cadeirão do Niemeyer.
Sete ou oito Vespas no meio. A mais antiga é de 1951. Uma com side-car. Todas de matrícula portuguesa. Vejo os conta-kilómetros.
Olho para uma estante controvertida. Dá para os dois lados. Naquele canto já toca o "Satisfaction" e o "Start Me Up". Acho graça às cadeiras longas em formato de onda ou de folha de papel amachucada e apetece-me deitar. Não se toca, oiço à entrada.
No andar de cima, uma espantosa colecção de scooters antigas lançadas para umas rampas. Lambrettas, Bernardettes, Zundaps, e até um modelo da Harley Davidson. Deve ter levantado cabelo. Anúncios e revistas da época. 
À saída um momento sublime. A cena final do "Zabriskie Point". No Buick. Ela sempre linda. Dedos e olhos. Explosões, tudo pelo ar e os Pink Floyd.
"Turn your head feel the breeze."