Um dos maiores de sempre, com Domingo (que assisti em concerto como "lanterninha" no Estádio do Belenenses) e Carreras. Mas aquele de quem me lembro primeiro e há mais tempo. Um grande que a geração pop dos anos 80 viu glorioso em todo o seu tamanho. Com a riqueza, não só da voz, não só da música, mas daquilo que quis fazer fora de palcos e teatros. Tocante.
O maestro Ezio Bosso é a sobrevivência da vontade sobre tudo, até sobre um corpo melhor e que se quer desligar. De que a esclerose lateral amiotrófica que lhe dá cabo dos músculos e de se exprimir verbalmente, e de que o tumor cerebral que ainda lhe tirou mais 40 quilos, não lhe roubam a força de se sentar a um piano e a habilidade de tudo esquecer: dor e movimentos desarticulados e descoordenados de um corpo a acabar. Ficando só a Alma. A Música. Toda.
Escutar o "Fevro" do Gismonti, depois os clássicos Bach (by Grieg) e WA Mozart, e de um salto Pichinguinha, Heitor Villa-Lobos e Zeca Afonso, todos saídos das mãos deste trio, mata-nos a fome. Obrigado também Laginha pelo teu "Choro Feliz" e Sassetti pelo gigante "3+1".
Dia 25 reúnem-se outra vez. Mas quem não foi a tempo, já não vai a tempo. "O primeiro concerto era dia 25, mas esgotou. Queríamos fazer outro, mas nenhum podia depois. É a primeira vez que o segundo concerto vem antes do primeiro!", Laginha dixit.
Já ninguém ouve rádio. Já ninguém ouve rádio ?!? Claro que ouve. Eu ouço. Entro no carro e há sempre música. Rodo de estação como rodo o volante. A realidade impossível de conduzir um carro enfiado no trânsito no meio da chuva infernal só assim é tolerável. E então vivo. Fracções de segundo. Micro-segundos. Milésimos. Fragmentos. Instantes, instantâneos. Bocados. Segmentos de realidade. Que é ficção. Mas é realidade porque toca e vive. Rodo de estação como rodo o volante. E a chuva toda lá fora. E do nada do espaço surge a coisa mais bela. Num instante milagre real. Tosca.
O Bolero é de Ravel, peça de música magistral . Que enfeitiça. Que me fez entrar em Havana mais feliz. Por estar vivo e ter direito a essa benção que brotava do rádio de um carro alugado à saída de São Francisco de Paula.
Mas o bocado do filme não é menos sublime. "Les uns et les autres" neste bocado mostra um bailarino que é uma serpente. Que dança que hipnotiza: Nureyev. E isto para um homem não é fácil reconhecer. Mas é o que é. Um tipo que se detenha a ver este bocado de filme, não pode dizer menos que isso. Que o bailarino nos prega os olhos ao ecrã e nos embala com a música como se fossemos pequenos outra vez.