Tive um amigo do 10º ao 12º ano com quem me pisgava das aulas para ir ouvir discos para a Baixa.
Apanhávamos o 28 ou o 32 e, em meia-hora, desembarcávamos no maravilhoso mundo da Valentim de Carvalho. Também percorríamos a BiMotor e, mais tarde, embora por pouco tempo, a Virgin, no edifício onde era o Éden. Mas a rainha do paraíso era a Valentim, do Rossio. Dois andares, escadas rolantes, filas e filas com vários lados de CD's, com tudo no sítio e devidamente catalogado. No andar de cima era o ponto de escuta, com um sofá de pele e aparelho de estereofonia, e a livraria. Era para lá que nos raspávamos quando já não aguentávamos a Secundária. E, aos poucos, lá fui começando a minha colecção de música. Lambendo primeiro todos os Pink Floyd, depois tudo o que havia de relevante dos anos 60: os Jimi Hendrix, os Zeppelin, os Doors, The Who, os Claptons todos (antes e depois dos Cream), os Jefferson Airplane, os Velvet, os Creedence e os CSN&Y, porque Beatles e Stones já eram do domínio caseiro. Com esse amigo passei horas intermináveis à procura de raridades, e a ensaiar na minha guitarra eléctrica os temas dos Floyd que aprendia de ouvido ou nos livros de pautas, também comprados na Valentim e que não se vendiam em mais lado nenhum. E ele, que só queria bateria, acompanhando, fazendo o ritmo com baquetas imaginárias ou com lápis e canetas. Às vezes uma pandeireta. Chegámos a prometer que iríamos alugar uma hora num estúdio, com outros dois marmanjos, para tocar umas coisas e ver o que dava. Depois fui para a Faculdade e nunca mais o vi. Encontrei-o anos e anos mais tarde, uma ou duas filas atrás de mim no concerto dos Portishead + Arcade Fire no Meco. Where else ? Prometemos que nos voltaríamos a encontrar. Combinámos que seria no lançamento do último disco dos Pink Floyd, para o comentar. Não aparecemos.
Otis Redding morreu brutalmente cedo, despenhado num avião aos 26 anos. Mas muito a tempo de entregar a alma toda ao soul e de encharcar a música popular americana com a explosão de um maremoto. Gravou seis discos em vida e, três dias antes do eclipse total, o tantas vezes celebrado "Sittin' on the Dock of the Bay". Ainda actuou no Monterey Pop Festival, a meca do rock psicadélico de '67, junto a nomes como Hendrix, Janis Joplin e a Big Brother, Simon & Garfunkel, Canned Heat, Jefferson Airplane, The Animals, The Who, os Mamas & Papas ou Ravi Shankar, abrindo caminho à nova onda que estava para vir. Foi aí que se se pôde escutar um homem que só podia estar de rastos.
Na vida as coisas nunca são só como a gente quer. Foda-se, de repente pareço o Mick Jagger a escrever canções.
A madrugada tinha escorrido quase inteirinha a ver o "Woodstock". E não só o "Director's cut", mas o filme completo. Era Agosto e havia praia. Duas horinhas de sono apenas não seriam de menos. Recuperava na areia do dia seguinte. De regresso ao ritmo dos dias, só pensava em tê-lo na mão. Tinham lançado o filme completo em DVD. Em Portugal numa edição limitada que rapidamente esgotou. Porque há filhos e enteados. Sobrava o mundo imaterial e detestável da internet: a Amazon. Tau ! Tinham, claro. Encomendou. Pagou. Quando chegou… não dava. Foi ver. Era um “Blue Ray”. Como não pesca um chaveto destas coisas, tinha comprado um DVD incompatível com o aparelho que tinha em casa. Fuck. Como tem sangue de judeu, e o sangue não perdoa, não ia agora comprar um aparelho “Blue Ray” só por causa do filme. O que temos usamos até ao fim. Passaram mais 4 longos anos, até que finalmente o bicho deu o berro. Arre que era bom ! Meteu-se no carro e pimba, 79 euros num “Blue Ray” em promoção. Não volto a gastar mais do que 100 numa porra destas. Até que finalmente. Ontem à noite repetiu a madrugada, quando as vozes do mundo se calam e o inferno sossega. Woodstock não era só (?) Jimi Hendrix, Jefferson Airplane, Santana, Richie Havens, os The Who, Joe Cocker e os Crosby. Era agora 3 days of peace and music. Eram 40 minutos de Grateful Dead, e os Creedence.
Há coisas que se herdam ainda antes de sabermos quem somos, antes de olharmos para nós. Que vêm no sangue como um código de barras. Que dizem "tu és nosso." E nós somos.
Tu, Avô de Lisboa que eras do Porto e morreste há 14 anos. A quem nunca falei por tu.
Só agora, um ano depois de te seguir a mulher que te adorou, se começou a desmanchar o Lego da casa que já não é vossa, e reclama herança e partilhas.
Tinhas uma Biblioteca. E não era só de livros.
Uma fabulosa e impressionante colecção de discos de vinil enchia estantes e estantes da casa da Defensores de Chaves. Local sagrado. Quase puro, não fosse proibido.
Como eu era miúdo, todas as tentações de ali entrar deviam morrer assim. Mandavam.
Todos os filhos e netos respeitavam essa ditosa lei, mas o meu atrevimento de nunca aceitar o não de uma vedação sem espreitar primeiro, punha-me a entrar às escondidas naquela sala.
Transido de medo. Da voz que mandava. De uma voz qualquer desde que fosse adulto. Do puxão de orelhas que as dobrava. E doía como nada. Pior. Da vergonha do ralhete. Do crime imputado em família.
Era inútil. Não conseguia resistir. Olhava maravilhado e absorto para o que escondiam aquelas proibidas prateleiras. Por miseráveis e desesperados segundos.
E como a tentação me corroía, não evitava tirar um ou outro disco para fora, e um ou outro livro. Só para os morder.
Com a consciência a grelhar-me o cérebro, punha-os logo no sítio (acho) e pisgava-me com o shot de adrenalina e o coração bombado para fora do peito.
Acho que nunca enganei ninguém.
Quando se começou a mexer nas tuas coisas, foi preciso saber o que fazer aos milhares de livros e discos que a vida das estantes carregava. Fez-se uma selecção, por áreas, estilos e autores.
E fomos descobrindo diamantes. Raridades, impecáveis, sem riscos ou nódoas. Sem pó.
Como este disco que me parou nas mãos: "The Jimi Hendrix Concerts".
Se alguém pode ser aquilo que faz, Avô Professor, Advogado, Juiz e Conservador, tu foste o Avô sábio e conversador do "10 a Comunitário ?? Deixa lá que quando trabalhares nunca ninguém te vai perguntar quanto tiraste nessa Cadeira." E é o que foste.
Ao vivo em Winterland, no Royal Albert Hall, em Nova Iorque, Berkeley e San Diego. Inclui versões de "Fire," "Voodoo Chile", "Hey Joe", e um estonteante solo que cobre o ar que respira quem escuta o "Little Wing".
É meia-noite. Passam 40 anos sobre a morte do melhor guitarrista de todos os tempos.
Jimi era apaixonado pela guitarra. E um fanático da electricidade.
Ligava o amplificador e com a Fender Stratocaster nas mãos, levou o experimentalismo alucinado e psicadélico dos anos 60 a patamares nunca antes atingidos. Diz quem o viu ao vivo que Jimi Hendrix fazia a guitarra gritar. Eu só tive direito aos discos e aos filmes. Em Monterey, em Woodstock, na Isle of Wight.
Jimi Hendrix era canhoto, mas ao contrário da maioria dos canhotos, não inverteu as cordas da guitarra para tocar (como Paul McCartney). Hendrix tocava com a guitarra do lado contrário ao dos dextros, mas com as cordas na mesma posição. A corda mais aguda em cima e as mais graves em baixo.
E fez explodir a cena musical dos anos 60 mostrando ao mundo o domínio mais que perfeito de um instrumento eléctrico. Ele que fazia amor com as suas guitarras, a quem queria mais que a qualquer mulher.
Não admira, por isso, que no fim dos seus concertos, Jimi Hendrix se encontrasse completamente exausto e esgotado. Tocava com a guitarra nas costas, tocava com os dentes, no chão, deitado, contra o amplificador, provocando muralhas de contínuo feed-back. Tocava com tudo. Ficou célebre, no concerto de 1967 de Monterey (o primeiro dos grandes concertos ao ar livre), o sacrifício final de Jimi Hendrix. Após um monumental "Wild Thing", Jimi regou a Fender com gasolina e deitou-lhe fogo perante um público atónito. Embora muitos não percebessem o significado deste gesto, Jimi Hendrix estava, no fundo, a oferecer o seu bem mais precioso aos deuses e, de certo modo, a agradecer o dom que lhe fora concedido. Um dom que meio milhão de pessoas pôde beber em Woodstock quando Hendrix fez entoar por aquela multidão adentro o "Star Spangled Banner", numa homenagem aos jovens americanos que naquele momento, bem longe dali, na selva do Vietname, caíam para nunca mais. Nunca um hino terá gritado tanto.
Jimi não sabia ler pautas, o que o frustrava, mas não impediu que criasse e dominasse a palavra música. Tudo o que sabia tinha aprendido de ouvido. De alma. Com dedos e dentes.
Editou apenas três discos de originais em vida e um álbum ao vivo - "Band of Gypsys" - em Filmore East. Até nisso se parece com outro Jim - o Dean - que também só viu estrear três filmes. Mas, ao contrário deste último, continuamos, anos após anos, a assistir aos lançamentos de álbuns póstumos com gravações inéditas num baú longe de ter fundo. Pior que Pessoa.
Jimi Hendrix andava sempre com a guitarra atrás. Até na casa-de- banho aproveitava para tocar. Adorava a amplificação do som. A paixão pelas guitarras era tal que um amigo disse mais tarde ter-lhe preocupado ver Jimi numa festa... sem ela. Estava perto do fim.
Jimi Hendrix morreu no dia 18 de Setembro de 1970. Como todos aqueles que são tocados pela magia genial dos deuses, viveu depressa e morreu mais cedo. Um músico de excepção enfiado no meio da revolução sexual, como na famosa capa do "Electric Ladyland".
* comentário de Miles Davis num concerto de Jimi Hendrix.
Quando há 40 anos teve lugar aquele que foi o maior festival de música de sempre (pelo menos em assistência), muitos são capazes de ter estranhado um nome no meio de grandes bandas de rock e folk do momento que iam actuar. No cartaz estava Miles Davis.
No Festival de Isle of Wight de 1970 - aquele que superou as 500.000 pessoas de Woodstock do ano anterior - figuravam, entre outros, Jimi Hendrix, os The Who, os Doors, os Emerson, Lake & Palmer, os Moody Blues, Jehtro Tull, e artistas como Joni Mitchell, Richie Havens, John Sebastian e Leonard Cohen (numa mítica actuação pela madrugada fora, arrastado para um palco para acalmar o motim que tinha começado entre o público). O Verão do Amor de '69 tinha terminado, aliás como o Festival de Altamont, organizado pelos Rolling Stones em Dezembro desse ano, tinha tristemente anunciado, com um tipo esfaqueado a escassos metros de Jagger e Richards.
Mas em Isle of Wight aparecia também o maior nome do Jazz de todos os tempos: Miles Davis. Ele que já andava a sacudir o jazz (clássico) das costas há algum tempo, especialmente a partir do ano anterior quando começou as gravações do álbum "Bitches Brew". Um álbum que ficou para a história. Uma história que começa logo na magnífica capa do disco com uma pintura encomendada a um amigo e que revela o seu caminho: uma odisseia experimental e emancipatória afro-espacial da era do Aquário.
Chamaram-lhe de tudo: jazz-rock, jazz-fusão, jazz-psicadélico, jazz-avantgarde, tudo-menos-jazz. Para Duke Ellington, Miles era o "Picasso do jazz".
Jack Dejohnette definiu-o de outro modo. Que Miles estava numa crise de meia-idade. Tinha 40 anos e estava farto de tocar em clubes nocturnos para gente de 50 e 60 anos. Tinha namoradas 20 anos mais novas que ele e queria ser relevante outra vez, conta a revista 'Uncut' de Agosto. E estava pronto para criar e revolucionar a música. "Tenho de mudar constantemente. É uma maldição."
Miles Davis estava na vanguarda da música. Disso não há dúvida. E contava ao seu lado com nomes enormes e que se fizeram maiores ainda: Wayne Shorter, Chick Corea, Keith Jarrett (ao vivo), John McLaughlin (que teve direito a um tema no disco com o seu nome), Dave Holland ou Don Alias, tudo músicos que, sentados num semi-círculo, o veneravam e obedeciam ao trompete mágico e hipnótico que se erguia sobre eles. Sem saber ao que iam. Chick Corea, um fanático do som límpido e cristalino do piano clássico, e a quem Miles tinha posto a tocar um órgão eléctrico, perguntou-lhe o que devia fazer para lhe retirar o seu som "lamacento". Miles respondeu: "Não toques."
A John McLaughlin disse no início das sessões que tinha que tocar guitarra como se não soubesse tocar guitarra.
As influências psicadélicas e technicolor são notórias. Miles estava definitvamente apaixonado por Jimi Hendrix, de quem se tornou amigo, e pela forma como este "iletrado" da música extraía sons avançados e inacreditáveis da guitarra eléctrica. "How the fuck is he doing this?". E depois mandava-lhe pautas com ideias novas que Jimi, que também o admirava e respeitava imenso, devolvia por não saber ler.
Miles estava convencido que podia montar a maior banda de rock & roll que alguém já tinha ouvido e recheou o disco com todas as técnicas mais avançadas do estúdio enquanto instrumento musical, criando loops, efeitos e distorções sonoras até chegar à ideia do que queria. Um disco que viria a influenciar gerações e gerações de músicos de jazz, rock ou outros habitats.
E foi assim, num ambiente esfuseante de improviso, que Miles e o seu grupo de pioneiros subiu ao palco em Agosto de 1970. "Se acham o disco estranho, não sabem como era louco ouvirem-nos ao vivo." (Dave Holland). Num registo de sonho complexo, mas, acima de tudo, introduzindo-nos a todos num mundo fantástico: "Bitches Brew", agora reeditado, é obrigatório.