"Y ser flamenco es cosa: es tener otra carne alma, pasiones, piel, instintos y deseos; (...) la música en los nervios, fiereza independiente, alegría con lágrimas, y la pena, la vida y el amor ensombreciendo".
«(...) el sentido que tiene es que es un acercamiento a otra tierra a través de la música y es un abrazo entre dos culturas a través de dos expresiones como son la música celta y el flamenco.»
Que sangue dos demónios ! Espanhola, de Maiorca, já que todos temos que ter um sítio para nascer, porque esta mulher vem de uma África bem funda. De espanta-espíritos. De uma raça muito antiga. Mesmo que depois traga sensualidade nas saias e o charme todo do Caribe no corpo. É assim como uma mistura de rum despejado num caldeirão onde se preparam já galinhas pretas para o candomblé. Tudo abençoado com a água que vai entornando em palco e projectado na voz, com as tripas bem de fora. De pé descalço com ligação ao centro da terra. Concha Buika merecia era outra sala. O CCB não é homem para ela. Cabrón !
Para mim, Paco de Lucía eram tardes brutais de calor quase demente no Alentejo quando o pai colocava o jovem Paco (de 1965) a interpretar as 12 canções de Garcia Lorca para guitarra com Ricardo Modrego. Ou o disco que dedicou à mãe Luzia, filha portuguesa de Castro Marim. Era chegar a Madrid e enfiar-me com Ela na feira del Rastro, e comprar logo o CD que o Pepe, atrás da sua banqueta, punha nos altifalantes com o 'Entre Dos Aguas' em repeat para todos ouvirem, e invejarmos essa vida. Era escutar bem aquele dedilhar sagrado e feroz nas noites em Espanha, na varanda da casa da praia. Era o caminho para Sevilha e lá chegar com o rádio a chorar o concerto de Aranjuez. Era toda essa imensa Andaluzia que adoramos palmilhar e que também é nossa. Era, enfim, o 'Mediterranean Sundance', executado pelo melhor trio do mundo. Acho que foi quando ouvi pela primeira vez o "Friday Night in San Francisco" (com Di Meola e McLaughlin) que me apaixonei pela guitarra clássica. Acho que foi sentir-me perfurado por aqueles três virtuosos da guitarra que iam dando a vez entre si para o seguinte brilhar mais. Acho que foi isso que me fez querer aprender a tocar guitarra e perceber que nunca podia chegar a esse Olimpo. Já lá vão mais de 20 anos. Mas podia amar. Ao ponto de em Granada comprar um conjunto de cordas só porque eram recomendadas pelo maior. Paco de Lucía era um Deus. Um Deus incarnado nos dedos e feito homem que brotou da terra, para se tornar o monstro gitano que se mesclava com outros géneros e instrumentos suando o som limite das suas cordas, enquanto sentava numa cadeira de verga. Obrigado mestre, pois é hora de agradecer, pelas duas horas de paixão flamenca que me ancoraste no coração quando vieste à nossa praça de touros do Campo Pequeno. Tu que, como dizias, sofrias para dares à luz o som da tua música, mas que era mesmo assim e só podia ser assim. Vão-se os heróis. E eu só pergunto se estão à espera que a gente avance para os seus lugares.
Mas não é só. Diego Fusão é flamenco mas não só. Tango que bolera. Tango que jazza. E tudo flamenca novamente. De uma garganta - El Cigala - que canta, de quando isto era uma província do mundo árabe, do reino de Al-Andalus. E nós calamos e escutamos. Para entrar bem. Ayer. No Cascais Cool Jazz Fest.
Em 1980 três dos maiores virtuosos da guitarra ainda vivos juntaram-se num concerto, mais tarde editado em disco e que é hoje um clássico. Ficou conhecido como Friday Night in San Francisco e é uma fusão explosiva de estilos que nem são flamenco e jazz. São outra coisa, nos dedos. Com Al Di Meola, John McLaughlin e Paco de Lucía abençoamos os sentidos. Com "Mediterranean Sundance" pedimos que nunca acabem os minutos mais curtos das nossas vidas.
Anos depois - o ano é 1996 - voltaram a reunir-se para as guitarras conversarem mais um pouco.
Duas terras espanholas. Uma andaluza. A segunda de Castilla e La Mancha. Ambas a deitarem calor. Ambas que salvam a pele.
Écija fica a caminho de Córdoba e depois de Sevilha. É uma cidade posta ao sol. Um sol que rebenta demónios. Mata. Que ferve, queima e fulmina quem se atreve a espreitar para fora. 45º. Duas da tarde. Na Pz. Mayor aguento talvez dois minutos. Apenas o tempo necessário para ir de um lado ao outro e entrar no 'Emílio'. Apenas o tempo necessário para reparar num grupo de rapazes que acalmam a pele nuns jactos de água que brotam do chão. Brincam com um cão que se molha também. Peço ao Emílio um tomate aliñado e umas ameijoas. Antes uma cerveja gelada. Écija é nesta altura uma cidade posta ao sol.
A Almagro chegámos mais tarde. Noutro dia. Para Toledo. Quase às quatro. Calor insuportável que nada apazigua. Tudo fechado. Tudo siesta. As pressianas corridas. Não se vê ninguém.
Almagro é quase um vilarejo. As casas são brancas, tão brancas que se percebe que protejem. Reflectem as doses maciças do sol que recebem. Inclemente. Febril. Fugimos. O único sítio aberto é do 'El Gordo', um homem de 50 anos. Marcado. Que anda como respira. Tão devagar e bronquítico que apetece sermos nós a levar-lhe uma água ou a cerveja que me traz.
Almagro é uma praça. Bonita. E já recebeu Almodóvar.
Que sobre ela escreveu:
"It is one in the afternoon and all the shots we have to do today take place in the street and it’s impossible to shoot until at least four because the sun multiplies on the white walls, the light is blinding and far to flat. We have to wait. The team has disbanded, at this point I like to stay at one of the lifeless interior sets and enjoy the solitude, the clutter of objects and the silence.
(...)
Women from this land know well what it is like to clean a tombstone, to pray at a wake, greet the neighbours, etc. And the faces of the men, slowly weathered by the sun and the wind, have a weight and an expressiveness that would be impossible to improvise."
O filme rodou em Almagro. Onde encontrou Penélope.