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quarta-feira, 19 de outubro de 2022

10 é 10

 

sábado, 28 de novembro de 2020

Requiem

 

de Asif Kapadia.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020


Diego Armando Maradona (1960 -      )

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O Camisola 10



É sempre lindo regressar à Argentina.
De Buenos Aires guardávamos as empanadas de El Sanjuanino, lugar eterno na barriga.
Mas em Lisboa, o drible é no El Pibe, num cantinho da Travessa de Santa Marta, fazendo a bola chegar com apelido: as Pablo Neruda, as Carlos Gardel, as Pablo Escobar e as Pinochet.

e o mano viejo no WhatsApp

Raspa sou gajo para ir aí ter.
Vais ficar por aí?
Ou vais cinema?
                          
                         Vem cá ter

Também vieram várias Quilmes para a mesinha. E noites assim são as melhores.

P.S: Para ser perfeito é colocar a fotografia do Pablito Aimar.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

La pelota no se mancha


«Se dependesse dos argentinos, tínhamos de entrar em campo com uma metralhadora cada um e matar Shilton, Stevens, Butcher, Fenwick, Sansom, Steven, Hodge, Reid, Hoddle, Beardsley, Lineker. Mas nós até nos tentámos alhear de tudo isso. Eles eram, simplesmente, os nossos adversários. O que eu queria, apenas, era fazer-lhes umas chapeladas, meter-lhes umas cuecas, fintá-los, marcar-lhes um golo com a mão e mais outro, o segundo, que fosse o maior golo da história.
Lembro-me bem. Quando os jornalistas se inteiraram de que íamos jogar contra a Inglaterra nos quartos-de-final nós até evitámos falar, porque sabíamos bem quais iriam ser as perguntas: como íamos gritar os golos que lhes marcássemos, se íamos fazer fuck you à Thatcher, se íamos dar um murro ao Shilton. Sabíamos o que aí vinha, por isso decidimos manter-nos serenos e alheados disso. Em todo o caso, por dentro, era uma questão que mexia connosco. Asseguro-vos que, por dentro, eu estava a arder. Explodia-me o coração e era preciso jogar com ele.
Na nossa preparação para o jogo, porém, o tema da guerra não passou desapercebido. Nem podia passar ! A verdade é que os ingleses nos tinham morto muitos rapazes, ainda que se os ingleses tiveram culpa, culpa tiveram também os argentinos que mandaram os nossos rapazes enfrentar a terceira potência mundial em sapatilhas de pano.
(...)
Desse golo com a mão não me arrependo, de todo. Não me arrependo! Com todo o respeito que me merecem os adeptos, os jogadores, os dirigentes, não me arrependo nem um bocadinho. Porque eu cresci com isso, porque em Fiorito eu fazia isso permanentemente. E acabei por fazer o mesmo diante de 100 mil pessoas que nem se aperceberam... Porque toda a gente ficou a gritar golo. E, se gritaram, é porque não tinham qualquer dúvida. Por isso, como podemos atribuir a culpa ao coitado do tunisino?
Ganhei um processo a um diário inglês que, mais tarde, escreveu num título "Maradona, o arrependido", coisa que jamais me passou pela cabeça. Nem aí, imediatamente, nem passados 30 anos... Nem até ao meu último suspiro, antes de morrer. Como respondi a um jornalista inglês, da BBC, um ano depois: "Foi um golo totalmente legítimo, porque o árbitro validou-o. E quem sou eu para duvidar da honestidade do árbitro, certo?" O mesmo disse a Lineker, quando ele esteve em minha casa, em Buenos Aires, para me fazer uma entrevista , também para um canal inglês.
(...)
Voltou a perguntar-me se não me sentia mesmo mal por ter marcado aquele golo com a mão e eu disse-lhe que era um jogo, que se o árbitro não tinha percebido, isso era parte do jogo. E Lineker conformou-se, não disse absolutamente mais nada. Ou disse: "São coisas do futebol." Enorme, o Lineker. Acabamos sempre a falar assim quando nos vemos.
Shilton, esse sim, ficou e vai ficar para sempre com raiva de mim. Disse: "Não vou convidar Maradona para o meu jogo de despedida." Também, quem é que quer ir ao jogo de despedida de um guarda-redes ? E de Shilton ?!
(...)
Para mim, foi como roubar um ladrão: acredito que tenho cem anos de perdão. Na conferência de imprensa, não sabia como sair daquela enrascada. (...) E a alguém respondi, de passagem, que tinha sido com "a cabeça de Maradona e com a mão de Deus". Disse-o a pensar em todos os rapazes que tinham morrido, em todos eles - e aí sim, sensibilizei-me. Disse que tinha sido "a mão de Deus" que me tinha ajudado a fazer aquele golo. Não que eu acreditasse ser Deus, nem que a minha mão fosse a mão de Deus: acreditava, simplesmente, que tinha sido Deus, com a sua mão, a pensar em todos os rapazes cujas vidas foram destruídas nas Malvinas, a fazer aquele golo. E é isso que sinto ainda hoje, 30 anos depois.
(...) Messi pode ser maior do que eu. Pode ser, ou pode não ser. Agora, eu marquei dois golos à Inglaterra que valeram pelos rapazes caídos nas Malvinas e pelos familiares dos rapazes caídos nas Malvinas. Dei-lhes um consolo, e isso mais ninguém vai poder fazer. Mais ninguém ! Porque não vai haver outra guerra, porque não pode haver outra guerra, porque isso queria dizer que tínhamos voltado a ter um Galtieri e ninguém quer um Galtieri de volta.»

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"La pelota no se mancha !" *



* A lenda continua. E hoje, canchas do mundo inteiro !, é dia de aniversário. Celebremos.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Futebol Cultura



Disclaimer: continuo a achar ridícula a comparação com Messi.
Será algo como falar de um bebé feito no sexo e de um bebé proveta. É verdade que ambos são (sobre)humanos, mas não foram gerados da mesma maneira.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O lado lindo do futebol




(foto: andré, Casa Branca, Alentejo)


A História do Campeonato do Mundo está cheia de momentos de glória, exultação e euforia.
Continua a interessar-me mais o outro lado da rua, o lado dramático da bola. O lado trágico. A beleza eterna das vítimas do cruel.
As lágrimas-revolta de Eusébio porque a Inglaterra, que já jogava em casa, mudou o jogo de Liverpool para Londres para não ter que se mudar. 
A bola que vai à trave, não entra, mas o árbitro diz que sim na final de Wembley de 66 e a Inglaterra a ganhar o título à Alemanha. A vingança da Alemanha tirada a papel químico mas ao contrário no mundial de 2010. Lampard chuta, a bola está dentro e era empate, mas o árbitro vê tudo mal e diz que é não.
A máquina nova e incrível do futebol total, mais bonito, mais espectáculo, da "Laranja Mecânica" e que em duas finais consecutivas, perdeu ambas. Ou como Cruyff nunca ganhou a copa.
O Brasil de sonho, de Sócrates, Zico, Falcão, Junior, Toninho Cerezo, a ser eliminado em 82 pelos 3 golos do Paolo Rossi, sempre com mais um tiro cínico na culatra, ele que vinha de um escândalo de apostas ilegais. 
A incredulidade inglesa quando o árbitro apitou o golo com a mão do Deus Maradona em 86. As lágrimas amargas e tristes de toda a Argentina que escorriam na cara do mesmo Diego na final de 90, ele que até tinha "traído" Nápoles no seu San Paolo, vencendo a Itália de Baresi e Donadoni, lágrimas que agora não conseguia segurar apenas porque a Alemanha marcou um penalty que não existiu. Ou simplesmente porque perdeu.
O génio Roberto Baggio de 94 (nesse ano talvez o melhor do Mundo) que atira por cima da barra e falha o seu penalty na final, depois de ter transportado o país inteiro para essa final. 
O fenómeno Ronaldo que se deixou tragar pela ansiedade e já não jogou na final de 98. Zidane a fechar a carreira, expulso na final de 2006, por enfiar uma cabeçada no peito de Materazzi depois de ele ter dito duas coisas ou três da mãe ou da irmã de Zizou.
O momento mágico e louco de Luis Suaréz no último minuto do Uruguay - Gana de 2010, o avançado que faz de desesperado guarda-redes e sacrifica a pele para safar o remate que era golo certo. Chorou porque viu o vermelho e é penalty e isso é golo certo. O jogador do Gana chuta mas logo falha o castigo máximo e tudo, afinal, a valer a pena porque no desempate a penalties tudo muda e está nas meias-finais a equipa que tinha quase tudo perdido. Isto não é futebol, não é milagre. É Deus a rir-se da gente. E muito mau para o coração.
Em suma, o lado inumano ou horrivelmente humano do futebol.

Mas nunca, como no último campeonato do mundo realizado em solo brasileiro, houve maior e tão terrível fatalismo. 1950. No Maracanã jogavam Brasil e Uruguay. 200.000 almas nas bancadas. O resto de ouvido colado à rádio. Um país inteiro a respirar para ser campeão.
Começou o Brasil na frente do marcador, mas na segunda parte o Uruguay troca as voltas, mete dois golos e enterra aquele betão armado num silêncio sepulcral.
Os relatos da época contam que logo ali houve quem se despedisse da vida, lançando-se do alto das arquibancadas do maior estádio do Mundo.
Um trauma que só oito longos anos depois os brasileiros conseguiram ultrapassar, levados pelos pézinhos de génio de um menino chamado Pelé e pelos joelhos trocados de Mané Garrincha. Que poema !

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

"Para que serve o futebol ?", por Carlos Daniel

«Jogar bem é ganhar, que futebol é bola na rede, dizem uns pragmáticos infectados pelo "bacilo da eficácia", como lhe chamou Valdano. No ano em que este foi campeão do mundo pela mão de Maradona, morreu um argentino imortal, Jorge Luís Borges, que assim respondeu a quem lhe perguntou para que serve a poesia: "Para que serve um amanhecer? Para que servem as carícias? Para que serve o cheiro do café?" Prazer. Emoção. Vida. O futebol também se conjuga noutro infinitivo que não ganhar: é preciso gostar.

Há equipas que ganharam e não me levam a rever um único jogo, como os soporíferos Grécia de 2004 ou Chelsea campeão da Europa em título, enquanto não me canso de esgravatar na gaveta dos dvd"s o talento derrotado da Holanda de 74 ou do Brasil de 82. E ainda gosto, ou não gosto, de voltar ver Portugal perder com a França em 84 ou em 2000. É de emoções que falo, num jogo de encantos que só se revelam totalmente se o adversário entra na dança. "Defrontar um rival que não se interessa por atacar? É como fazer amor com uma árvore", Valdano de novo.»

No DN.

É isto. Mas também a tragédia.
Por isso é que ficarei eternamente agradecido ao Zidane pela cabeçada que deu ao Materazzi na final do campeonato do mundo de 2006, uma das mais chatas da História do futebol.




[Centro George Pompidou, Paris]

quinta-feira, 28 de junho de 2012

sexta-feira, 22 de junho de 2012

- Trouxeste cromos ?

- Pai, trouxeste cromos ?, inquire o puto, ainda mal pisei a entrada.
- Pai, cromos ?
- Calma, rapaz, deixa-me ao menos largar o casaco.
Regressar ao que já foi, mas só porque a caderneta veio de borla com "A Bola" de domingo e mais seis cromos. Mesmo se é a primeira vez que a colecção é do Europeu.
Nisto há que ser muito rigoroso. Cadernetas, só dos Mundiais, com os astros da Argentina e do Brasil. O resto, não.
Mas agora tenho um puto e o rigor vai inteirinho para as urtigas. O que é que um tipo vai fazer ?
- Pai, tens cromos ?, grita o miúdo ao telefone quando lhe pergunto onde é que anda.
Lá me dirijo à papelaria, não sempre à mesma, porque já saem muitos repetidos. É preciso dar folga às caixas.
Agora já não tenho só 20 paus que era a nota verde do Sacadura que o meu pai me punha nas mãos depois de muito chatear. A nota desgraçada que só dava para uma carteirinha. A mãe dava mais. As mães dão sempre mais.
Agora trago 10 de uma vez, que dão para 3 dias ou quase. E isto é educar.
- Cromos ?, oiço no intercomunicador quando toco à campainha. 
Quase treme o miúdo só de pensar que vai abrir o sagrado. Por isso acontece uns mal colados e um bocado tortos, mas eu deixo porque é a primeira caderneta dele e todos temos direito à asneira.
- Este é repetido !, diz o puto com satisfação. E eu de boca aberta por ele reconhecer um ucraniano que se chama Milevskiy.
- Este já temos. É o Nani !
- Dá cá para o molho que o pai vai tentar trocar com os amigos.
Começamos o tráfico.

Direitos dos cromos acima reproduzidos reservados à Editora Abril Morumbi, "Colecção do México '86": primeira caderneta pessoal.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

E ainda há quem não acredite na Santíssima Trindade

da esquerda para a direita: El Mago, El Pibe, El Balón de Oro

sábado, 10 de setembro de 2011

Copos e cigarros

A casa dos bons amigos. Do João Tiago e da Cláudia.
Recolhemo-nos nela. Quando é preciso voltar ao que somos. Regressar. Gosto sempre de regressar. Provoca o amor.
Gin Tónico, cigarradas. Jantarada. Cigarros e mais uns uísques. Escuta-se a vida. Falamos de amigos. Do futuro, do que nos preocupa. De filmes. Das desgraças deste verão. Comparamos cidades. As melhores da Europa.
Oiço, com pena e orgulho, que o nosso grande amigo vai emigrar: Moçambique, terra de oportunidades. Eu digo que não saio de Lisboa. Troika, troika, troika.
O Sérgio Godinho reclama "paz, pão, habitação, saúde..." na aparelhagem da sala. E isso é engraçado.
A porta bate porque há uns que saem mais cedo. No dia seguinte ainda se trabalha.
É então que entra Dylan e Leonard Cohen (ao vivo in the Isle of Wight).
Os Amigos.

Na vida não há só poesia. Discutimos. Não há só romance. A vida é dura.
Também há justiça, também há revolta. Também há violência, querer bater, vingar. Mostrar o orgulho. Não aceitar o que nos fizeram. Não é bonito, nem feio. É o que é.
E por isso discutimos Maradona no Barcelona, antes do Nápoles e do Mundial.
Já 10, mas nem por isso menos verdadeiro.
E se um basco - Goikoetxea - lhe parte uma perna que o obriga a parar muito tempo e a doer tanto para recuperar, depois também há orgulho. E mesmo meses depois, há voltar. Há voltar, e não esquecer.



quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Privilégio



El Mago. O único jogador que Diego 'El Pibe' Maradona disse que pagaria para ver jogar.
É por meninos como ele que vamos à Luz. Para assistir aos encantamentos com que trata a bola feitos de pezinhos que não pisam a relva. Para não estragar. Deslizam como se o chão fosse de gelo e o jogo fosse outro.
E o Estádio é rubro. Está cheio e a ilusão faz-nos brilhar os olhos. Vemos entrar a equipa, a única no mundo que nos faz uma vénia. Ouvimos o Luis Piçarra e batem-se palmas.
Aimar povoa a "cancha", como as lendas de Antonio Ordoñez ou Luis Miguel Domínguin numa arena, quando se enfrentavam num mano-a-mano, em Madrid, Sevilha ou Córdoba. O jogo parece realmente outro.
Pablito Aimar trata a bola com o carinho com que se fala à Mãe. Porque se lembra de El Pibe, de quando lhe dizia que "la pelota no se mancha".
Pega no capote, na muleta, e então começa a faena.
Pablo Aimar procura o touro. Cita o bicho. Fá-lo correr. Primeiro uma chicuelina. Cansa-o um bocado. Depois umas veronicas. O bicho não compreende. Pase de pecho e, para terminar, um passe de letra. O touro de língua de fora.

Dois amigos vindos da Argentina, de cachecol vermelho ao pescoço vieram ver o jogo. Estão à minha frente, na fila a seguir. Têm talvez 50 anos. Não me intrometo na conversa. Quero só ouvi-los. Ver o que dizem. Reconheço imediatamente aquele sotaque do espanhol açucarado. Italianado, abrasileirado, até. Que adoro.
Pablo Aimar vai marcar um canto. A bola debaixo do braço. É dele. Todo o Estádio se levanta. Gratidão como esta.
À minha frente, os dois amigos comentam: "Mira, la alegria del pueblo !"
Pablito chuta de canto, Luisão entra ao primeiro poste e... Golo !
Tudo rebenta. Os dois amigos também se abraçam. Um diz para o outro: "Assí, si."

La alegria del pueblo. Que vem dos campinhos de Buenos Aires.
Aimar sabe fazer sonhar, que foi esquecer o drama dos dias tristes, sombrios e sem dinheiro. E o povo sonha e agradece o milagre daquelas horinhas em que este menino pega na bola com pezinhos que são colheres e diz "Deixem a crise", e se entretém a regalar-nos magia. E a gente canta ao nosso 10 ...
Aimar (ontem) não marcou. Podia. Duas ou três vezes. Mas quis sempre tratar a bola com um bocadinho mais de amor. Ninguém empacienta. El Mago pode sempre fazer-lhe o que quiser. É o lado belo. Poético. Romântico do futebol. Em Portugal só aqui se joga assim.

E é sempre por isto que, depois, há uma menina de 4 aninhos, às cavalitas do seu pai que responde "É o Pablito !", quando queriam saber-lhe o jogador preferido. E quase fez três homens chorar, que um homem não é de ferro. Linda. E o Benfica enche Lisboa e tudo avermelha.
Há qualquer coisa de muito badocha no Porto.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

gente pequenina

Em Buenos Aires, Martín Palermo, símbolo máximo do Boca Juniors, despediu-se do clube más lindo da cidade (que tem o bairro mais colorido do mundo) como as imagens documentam (favor escutar o hino) e Maradona nas bancadas.
É assim que se tratam os filhos.



Nuno Gomes, um dos 10 melhores marcadores de sempre do Benfica, exemplo de lealdade, dedicação e respeito, teve direito a um telefonema.
E eu tenho direito a um pedido de desculpas.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

MaraMessi

Messi maravilha é mesmo uma maravilha.
Mas não é Maradona. Nunca será.
Porque, apesar de golos obras-primas como ontem, será sempre um perfeitinho. Demasiado perfeito. Bonitinho, com o cabelinho penteadinho e todo engravatadinho. Sem lesões de acabar-carreira. Sem vícios, sem drogas. Um brinquinho sem um brinco.
Menino do coro, se calhar nunca mentiu. Provavelmente lava sempre os dentes antes de ir para a cama e atravessa a rua sempre na passadeira. É casa-treino e treino-casa. Pelo meio ginásio, cerimónias e prémios e nunca manda ninguém para o caralho. Ele que é argentino. Mas que, em vez de crescer nos bairros pobres e nos campos pelados de Buenos Aires, ou sentir o milagre de jogar numa cancha do Boca ou do River Plate, veio cedinho para a limpinha Europa e acabou moldado mutante. Perfeitinho. Quase inumano.
E é o lado trágico das imperfeições humanas (como já aqui disse) que é belo, que encanta no futebol, como na arte e na vida.
Porque, como cantava Vinicius, no "Samba da Benção",

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor
E pra ser só perdão.

Messi continua a fazer golos de génio, é verdade, como o segundo ontem contra o Real. Não é trágico nem belo. 




Mas agora concentremo-nos no Benfica e em ganhar aos jagunços de Domingos logo à noite.