《'Cause people let it happen !》
Relevantíssimo. Sobretudo numa altura como a de hoje. E Russel Crowe é imenso. Enche a tela toda.
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domingo, 21 de dezembro de 2025
sábado, 16 de março de 2024
quinta-feira, 18 de março de 2021
Uma Vida Alemã
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
Dia de Memória às Vítimas do Holocausto
Agora e aqui, a nossa finalidade é chegar à Primavera. Neste momento, nada mais nos preocupa. Por detrás desta meta, neste momento, não há outra meta. De manhã, quando, em fila na Praça da Chamada, esperamos durante um tempo interminável a hora de partir para o trabalho, e cada sopro de vento penetra por debaixo das nossas roupas e corre em arrepios violentos pelos nossos corpos sem defesa, e tudo em volta está cinzento, e nós próprios estamos cinzentos; de manhã, ainda antes de o dia chegar, todos observamos o céu do lado do Oriente para espiar os primeiros indícios da estação amena, e o nascer do Sol é todos os dias comentado: hoje foi um pouco mais cedo do que ontem; hoje está um pouco mais de calor do que ontem; dentro de dois meses, dentro de um mês, o frio dar-nos-á tréguas e teremos um inimigo a menos.
Hoje, pela primeira vez, o Sol nasceu vivo e nítido por cima do horizonte lamacento. É um sol polaco, frio, branco e longínquo , e não consegue aquecer para além da epiderme; mas, quando se libertou das últimas neblinas, um murmúrio percorreu a massa descorada que somos e, quando eu também senti a tepidez atarvés da roupa, compreendi como se pode adorar o Sol.»
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quinta-feira, 10 de outubro de 2019
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Night
"Auschwitz."
Nobody had ever heard that name.
(...)
Never shall I forget that night, the first night in camp, that turned my life into one long night seven times sealed.
Never shall I forget that smoke.
Never shall I forget the small faces of the children whose bodies I saw transformed into smoke under a silent sky.
Never shall I forget those flames that consumed my faith for ever.
Never shall I forget the nocturnal silence that deprived me for all eternity of the desire to live.
Never shall I forget those moments that murdered my God and my soul and turned my dreams to ashes.
Never shall I forget those things, even were I condemned to live as long as God Himself.
Never.
(...)
They came back shattered. They had difficulty opening their mouths. All they could utter was one word: "Evacuation." The camp was going to be emptied and we would be sent to the rear. Where to? Somewhere in the deepest Germany. To other camps; there was no shortage of them.
(...)
At six o'clock the bell rang. The death knell. The funeral. The procession was beginning its march.
(...)
Beneath our feet there lay men, crushed, trampled underfoot, dying. Nobody paid attention to them.
We were outside. The icy wind whipped my face. I was constantly biting my lips so that they wouldn’t freeze. All around me, what appeared to be a dance of death. My head was reeling. I was walking through a cemetery. Among the stiffened corpses, there were logs of wood. Not a sound of distress, not a plaintive cry, nothing but mass agony and silence. Nobody asked anyone for help. One died because one had to. No point in making trouble.
I saw myself in every stiffened corpse. Soon I wouldn’t even be seeing them anymore; I would be one of them. A matter of hours.
(...)
The night was growing longer, neverending.
(...)
The last day had been the most lethal. We had been a hundred or so in this wagon. Twelve of us left it. Among them, my father and myself.
We had arrived in Buchenwald.
(...)
All around me, there was silence now, broken only by moaning. In front of the block, the SS were giving orders. An officer passed between the bunks. My father was pleading:
"My son, water … I’m burning up … My insides …"
"Silence over there !" barked the officer.
"Eliezer," continued my father, "water ..."
The officer came closer and shouted to him to be silent. But my father did not hear. He continued to call me. The officer wielded his club and dealt him a violent blow to the head.
I didn’t move. I was afraid, my body was afraid of another blow, this time to my head.
My father groaned once more. I heard:
"Eliezer ..."
I could see that he was still breathing—in gasps. I didn’t move.
When I came down from my bunk after roll call, I could see his lips trembling; he was murmuring something. I remained more than an hour leaning over him, looking at him, etching his bloody, broken face into my mind.
Then I had to go to sleep. I climbed into my bunk, above my father, who was still alive. The date was January 28, 1945.
I woke up at dawn on January 29. On my father’s cot there lay another sick person. They must have taken him to the crematorium. Perhaps he was still breathing...
No prayers were said over his tomb. No candle lit in his memory. His last word had been my name. He had called out to me and I had not answered.
I did not weep, and it pained me that I could not weep. But I was out of tears. And deep inside me, if I could have searched the recesses of my feeble conscience, I might have found something like: Free at last !...
(...)
Three days after the liberation of Buchenwald, I became very ill: some form of poisoning. I was transferred to a hospital and spent two weeks between life and death.
One day when I was able to get up, I decided to look at myself in the mirror on the opposite wall. I had not seen myself since the ghetto.
From the depths of the mirror, a corpse was contemplating me.
The look in his eyes as he gazed at me has never left me.»
Elie Wiesel
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terça-feira, 14 de junho de 2016
Feira da Filha
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
viagem a preto e branco
O caminho para Oswiecim é bonito.
A expectativa indizível. Num quase-medo.
1999. Estamos no 14º dia do inter-rail. É Setembro e daqui a um mês começam as aulas. Se tudo correr bem será o último ano na Faculdade. Como sempre juntamo-nos em Santa Apolónia.
Para trás ficam os pais, irmãos e namoradas. Também já deixámos a Itália, Dubrovnik, Sarajevo (!), Zagreb e Budapeste.
Quando começámos a preparar o trajecto da viagem, desenhada para se enfiar nos Balcãs, serpentear nos países de Leste e longificar nos Bálticos, marcámos logo Auschwitz, o nome alemão da cidade de Oswiecim. A nossa jovem consciência da História mandava que Cracóvia (onde íamos pernoitar) passasse também pelo conhecimento do mal.
De Cracóvia a Auschwitz é uma hora e quarenta de comboio.
O caminho é bonito. Atravessamos uma paisagem de álamos, pinheiros e campos de bétulas que cercam alguns lagos. Aprendo que "Birkenau" quer dizer floresta de bétulas. As aves migratórias já se dirigem para o Sul e reparo nas minas de carvão.
Escolhi fazer os últimos dois quilómetros que separam a estação e o maior campo de extermínio nazi, trilhando o percurso marcado pelos velhos e enferrujados carris da antiga linha que transportava os prisioneiros rumo a Birkenau. Quis seguir no meio, como os vagões. Procurar o derradeiro sentido. Onde agora nascem ervas e flores.
Há alguns turistas. Sobretudo malta nova. Mas só se ouve o ambiente. O vento que sopra entre as folhas das árvores e os nossos passos.
Toda a gente sabe onde é que vai. A simples aproximação é impossível com ruído.
Ao fim de vinte, trinta minutos: "Arbeit Macht Frei", que ainda sobrevive no portão. Ninguém se prepara para um impacto assim. A esperança defunta de ironia.
Caminhamos um bocado. Olhando para o espaço e para inúmeros barracões em tijolo. Todos metodicamente organizados. Em blocos. E ruas.
Não falamos uns com os outros, mas todos pensamos no mesmo. No insuportável peso deste lugar. Ali a morte ainda respira. Está calor, mas não parece. Vemos a cores, mas cheira a cinza.
Passado algum tempo, o Alberty e o Renato decidem voltar para Cracóvia. Eu, o João Tiago e o Ordep continuamos.
Precisávamos de mais tempo. Acho que esperávamos que o silêncio falasse.
Não percebíamos. Porque as perguntas, por muito que já se tenha lido e escrito, acabam sempre sem resposta.
Entramos nalguns dos barracões. Reuniram todo o tipo de objectos pessoais que os guardas retiravam logo a quem chegava. Milhares de malas, sapatos, óculos, escovas de dentes, armações dentárias, pentes, o cabelo. O cabelo, meu Deus, com que estofavam colchões.
Percorremos as listas de prisioneiros. Os retratos. Tantos, tantos não-anónimos. As datas de entrada e do decesso. Tudo meticulosamente registado. Leio alguns nomes. De crianças sobretudo. Cristo !
Noutro lado, os gabinetes de Mengele. Frascos de vidro com fetos conservados em formol. Catalogados. Crânios serrados ao meio para experimentação. Catalogados. Explicações sobre o que fazia aos que eram gémeos. Solução final. Zyklon B. Prateleiras e prateleiras.
Saímos para respirar um pouco.
Depois andamos um bocado mais e sentamo-nos não me lembro bem aonde. Temos de parar.
É quando reparamos numa chaminé. Como de uma fábrica. Entramos noutros barracões. Os fornos crematórios.
Mordemos os lábios. Calamos ainda pior. Não desviamos os olhos. Parece que se lembram.
A película a preto e branco que o Ordep trouxe de Lisboa faz o resto. Peço-lhe a máquina para as mãos e faço uma fotografia.
Leio o que um sobrevivente, Tadeusz Sobolewicz, diz sobre a arbitrariedade da vida no campo. Qualquer um dos que morreram podia ter sobrevivido, assim como ele podia estar entre os que morreram.
A noite começa a cair e decidimos voltar à vida. Apanhamos o comboio de regresso para virmos ter com os outros. Estão à nossa espera num bar qualquer com umas cervejas na mesa. Precisávamos. Acho que nunca tanto.
Não me recordo se alguém pronunciou palavra no caminho de volta.
Nunca tinha escrito sobre este dia, e foi difícil. Os 70 anos da libertação do horror têm obviamente a ver com isto.
A expectativa indizível. Num quase-medo.
1999. Estamos no 14º dia do inter-rail. É Setembro e daqui a um mês começam as aulas. Se tudo correr bem será o último ano na Faculdade. Como sempre juntamo-nos em Santa Apolónia.
Para trás ficam os pais, irmãos e namoradas. Também já deixámos a Itália, Dubrovnik, Sarajevo (!), Zagreb e Budapeste.
Quando começámos a preparar o trajecto da viagem, desenhada para se enfiar nos Balcãs, serpentear nos países de Leste e longificar nos Bálticos, marcámos logo Auschwitz, o nome alemão da cidade de Oswiecim. A nossa jovem consciência da História mandava que Cracóvia (onde íamos pernoitar) passasse também pelo conhecimento do mal.
De Cracóvia a Auschwitz é uma hora e quarenta de comboio.
O caminho é bonito. Atravessamos uma paisagem de álamos, pinheiros e campos de bétulas que cercam alguns lagos. Aprendo que "Birkenau" quer dizer floresta de bétulas. As aves migratórias já se dirigem para o Sul e reparo nas minas de carvão.
Escolhi fazer os últimos dois quilómetros que separam a estação e o maior campo de extermínio nazi, trilhando o percurso marcado pelos velhos e enferrujados carris da antiga linha que transportava os prisioneiros rumo a Birkenau. Quis seguir no meio, como os vagões. Procurar o derradeiro sentido. Onde agora nascem ervas e flores.
Há alguns turistas. Sobretudo malta nova. Mas só se ouve o ambiente. O vento que sopra entre as folhas das árvores e os nossos passos.
Toda a gente sabe onde é que vai. A simples aproximação é impossível com ruído.
Ao fim de vinte, trinta minutos: "Arbeit Macht Frei", que ainda sobrevive no portão. Ninguém se prepara para um impacto assim. A esperança defunta de ironia.
Caminhamos um bocado. Olhando para o espaço e para inúmeros barracões em tijolo. Todos metodicamente organizados. Em blocos. E ruas.
Não falamos uns com os outros, mas todos pensamos no mesmo. No insuportável peso deste lugar. Ali a morte ainda respira. Está calor, mas não parece. Vemos a cores, mas cheira a cinza.
Passado algum tempo, o Alberty e o Renato decidem voltar para Cracóvia. Eu, o João Tiago e o Ordep continuamos.
Precisávamos de mais tempo. Acho que esperávamos que o silêncio falasse.
Não percebíamos. Porque as perguntas, por muito que já se tenha lido e escrito, acabam sempre sem resposta.
Entramos nalguns dos barracões. Reuniram todo o tipo de objectos pessoais que os guardas retiravam logo a quem chegava. Milhares de malas, sapatos, óculos, escovas de dentes, armações dentárias, pentes, o cabelo. O cabelo, meu Deus, com que estofavam colchões.
Percorremos as listas de prisioneiros. Os retratos. Tantos, tantos não-anónimos. As datas de entrada e do decesso. Tudo meticulosamente registado. Leio alguns nomes. De crianças sobretudo. Cristo !
Noutro lado, os gabinetes de Mengele. Frascos de vidro com fetos conservados em formol. Catalogados. Crânios serrados ao meio para experimentação. Catalogados. Explicações sobre o que fazia aos que eram gémeos. Solução final. Zyklon B. Prateleiras e prateleiras.
Saímos para respirar um pouco.
Depois andamos um bocado mais e sentamo-nos não me lembro bem aonde. Temos de parar.
É quando reparamos numa chaminé. Como de uma fábrica. Entramos noutros barracões. Os fornos crematórios.
Mordemos os lábios. Calamos ainda pior. Não desviamos os olhos. Parece que se lembram.
A película a preto e branco que o Ordep trouxe de Lisboa faz o resto. Peço-lhe a máquina para as mãos e faço uma fotografia.
Leio o que um sobrevivente, Tadeusz Sobolewicz, diz sobre a arbitrariedade da vida no campo. Qualquer um dos que morreram podia ter sobrevivido, assim como ele podia estar entre os que morreram.
A noite começa a cair e decidimos voltar à vida. Apanhamos o comboio de regresso para virmos ter com os outros. Estão à nossa espera num bar qualquer com umas cervejas na mesa. Precisávamos. Acho que nunca tanto.
Não me recordo se alguém pronunciou palavra no caminho de volta.
[foto: andré]
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
Le Boxeur
"1939. Hertzko, jeune Juif polonais est deporté à Auschwitz. Là, anime d'une rage devorante et du souvenir de sa fiancée Leah, il survit à la force de ses poings, et devient «la bête de Jawoezno», un boxeur qui combat d'autres prisionniers pour distraire les nazis.
À la Libération, tous ses proches ayant disparu, il immigre aux États-Unis où il continue à boxer, mais avec cette fois une seule idée en tête: devenir assez célèbre pour que Leah, où qu'elle soit, entende parler de lui."
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sexta-feira, 18 de maio de 2012
MAUS: 11 murros no estômago
11 inteiros murros no estômago. Tantos quantos os capítulos. Onde os antigos dois volumes se reúnem agora numa edição completa da 'Penguin books'.
Impossível tragar tudo de uma vez como se comêssemos um bife do lombo ou saboreássemos um sumo fresquinho e catita. As imagens do Holocausto nazi que se formam na nossa cabeça - e vêm das memórias do velho pai de Spiegelman - não o permitem. Aqui tudo é seco e doloroso. Só temos os ossos e um resto de pele para segurar tudo e continuar a viver. A preto e branco. A carvão.
Por isso, temos que parar a cada capítulo novo e respirar. Para recuperar. Pegar a seguir. E ler mais um pouco. Tem que ser. Parar outra vez. Respirar. Recuperar o fôlego. Agarrar novamente.
Demasiado duro para se engolir a correr. E continuar. Devagar.
Como se tivessemos que escalar os 296 degraus das suas páginas com o pensamento, com a memória, carregando a vertigem da tortura e do horror de todas aquelas almas que se contam aos milhões.
Sublime. Ninguém sai incólume.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Quando é que vamos apanhar uma onda ?
O 5º ano da Faculdade foi o melhor ano. É o que digo quando me perguntam.
Tinhamos acabado de regressar com a rapaziada de mais um inter-rail que cercou o continente. E se há um com que se deve terminar uma aventura era este, mesmo que houvesse promessas de um dia voltar ou, depois, ainda tivesse ido de comboio com uma namorada por uma europa mais Europa.
Um mês inteirinho e chupadinho. Como um albergue espanhol do princípio ao fim de entra e sai tudo. De Croácia e dos dias que começavam cedo nos bares de Dubrovnik.
De Sarajevo e da "sarajevsko pivo" e uma viagem tenebrosa de autocarro até Zagreb que não foi traição, apenas a única maneira, que os comboios estavam desactivados. O Leste, os muros de Auschwitz e o rolo a preto e branco que quase chorava, os países do Norte, Tallin do outro lado do mar, e Amesterdão claro que Amesterdão, até Paris, sem dormir, que não havia tempo para isso, pendurados nos suportes que são para as malas a ouvir sabe-se lá que música em sabe-se lá que mundo.
Tínhamos acabado de regressar do melhor inter-rail daquelas vidas e era preciso acabar o que se tinha começado: o curso, já na posição de seniores que não tinham tempo para mais aulas, nem se assustavam com a ameaça dos exames finais. Preciso aproveitar o fim. O fim. Que nos fugia como areia por entre os dedos. E, portanto, ir para o Bairro. E, portanto, uma viagem ao Rio de Janeiro, outra a Marrocos (contada aqui há tempos), a seguir ao exame de Processo Penal com os códigos no banco de trás, e piões da velha 505 a chiar no parque da Católica. E muito mais do que isso.
Sacudirmos do corpo as aulas teóricas para ir para os pontões da Caparica apanhar umas ondas, umas vezes no meu Nissan que era o vosso "mata-esquilos", outras no Fiat Uno cinzento que acabou espatifado e de patas para o ar.
E chorar as nossas mágoas só porque uma miúda já não quer nada connosco, enquanto o bico das pranchas tocava leve na cama do mar. Gostar para sempre desse som.
Nessa altura, brothers, mesmo com o mar gelado, era quase sempre esta a banda-sonora que nos levava para lá.
Foda-se, estou certo ou errado ?
Tinhamos acabado de regressar com a rapaziada de mais um inter-rail que cercou o continente. E se há um com que se deve terminar uma aventura era este, mesmo que houvesse promessas de um dia voltar ou, depois, ainda tivesse ido de comboio com uma namorada por uma europa mais Europa.
Um mês inteirinho e chupadinho. Como um albergue espanhol do princípio ao fim de entra e sai tudo. De Croácia e dos dias que começavam cedo nos bares de Dubrovnik.
De Sarajevo e da "sarajevsko pivo" e uma viagem tenebrosa de autocarro até Zagreb que não foi traição, apenas a única maneira, que os comboios estavam desactivados. O Leste, os muros de Auschwitz e o rolo a preto e branco que quase chorava, os países do Norte, Tallin do outro lado do mar, e Amesterdão claro que Amesterdão, até Paris, sem dormir, que não havia tempo para isso, pendurados nos suportes que são para as malas a ouvir sabe-se lá que música em sabe-se lá que mundo.
Tínhamos acabado de regressar do melhor inter-rail daquelas vidas e era preciso acabar o que se tinha começado: o curso, já na posição de seniores que não tinham tempo para mais aulas, nem se assustavam com a ameaça dos exames finais. Preciso aproveitar o fim. O fim. Que nos fugia como areia por entre os dedos. E, portanto, ir para o Bairro. E, portanto, uma viagem ao Rio de Janeiro, outra a Marrocos (contada aqui há tempos), a seguir ao exame de Processo Penal com os códigos no banco de trás, e piões da velha 505 a chiar no parque da Católica. E muito mais do que isso.
Sacudirmos do corpo as aulas teóricas para ir para os pontões da Caparica apanhar umas ondas, umas vezes no meu Nissan que era o vosso "mata-esquilos", outras no Fiat Uno cinzento que acabou espatifado e de patas para o ar.
E chorar as nossas mágoas só porque uma miúda já não quer nada connosco, enquanto o bico das pranchas tocava leve na cama do mar. Gostar para sempre desse som.
Nessa altura, brothers, mesmo com o mar gelado, era quase sempre esta a banda-sonora que nos levava para lá.
Foda-se, estou certo ou errado ?
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