sexta-feira, 1 de maio de 2026
um Verão Berlinense '42 *
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
domingo, 21 de dezembro de 2025
O Julgamento
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
a ilha da Utopia
Vi muita gente criticar a Flotilha. Aqui no nosso paízito. Tudo certo. Todos temos liberdade de opinião.
Mas vi sobretudo pessoas que criticavam a Flotilha por levar quem levava na Flotilha. E não era a Sofia Aparício.
Perante o genocídio em curso, o mais grave momento da história da humanidade neste século XXI, houve pessoas (não poucas) que partiram em direcção a Gaza tentando furar o cerco, levando alimentos, medicamentos e o bem mais precioso que possuem: a sua própria pessoa. Enfim, levavam ajuda humanitária. É o que isto era. Porque sabemos que Israel não deixa entrar qualquer camião das Nações Unidas em Gaza. E não deixa ninguém entrar e sair. E porque sabemos (sabemos bem demais) que, a pretexto do atentado de 7 de Outubro, quer aniquilar um povo. E limpá-lo dali para fora. E fazer um resort, a riviera do Médio Oriente (com o padrinho Sam). E não quer testemunhas.
E perante tudo isto, há pessoas que criticam outras porque foram. Porque foram, e porque - aqui é que reside o ponto - são de determinada facção partidária e/ou ideológica. Não interessa se iam em paz, se eram imensas e de tantas nacionalidades, credos e convicções diferentes, se (até) arriscaram a vida, nem se foram atingidos, nem se foram presos e mal tratados. Ou se Israel violou o direito internacional (porque as deteve em águas internacionais). O que importa, para tais pessoas, é quem lá ia, porque, afinal de contas, seria "propaganda". É pena. É pequeno. E é triste que tenham passado ao lado do lugar certo da História.
Para mim, que não pertenço a partidos, as pessoas da Flotilha foram sobretudo corajosas. E foram solidárias. E demonstraram que "nunca mais" é "nunca mais para toda a gente", deixando claro, again and again, que o governo de Israel faz, e pode, tudo aquilo que quer. Foi esse o legado da Flotilha. Confrontar novamente (nunca será demais) o todo poderoso governo de Netanyahu.
Por isso, ainda bem que tivemos portugueses a navegar o Mediterrâneo. Fico satisfeito, não pelo desfecho (previamente anunciado), mas porque ainda há pessoas, e civis !, que se interessam e mobilizam pelos outros. E arriscam o que têm e saem do conforto da sua liberdade. Para estender uma mão, para mostrarem a outros que não estão sozinhos. Porque num tempo de indiferença e omissão geral, ainda acreditam em Utopias. E isso, hoje mais do que nunca, é fundamental.
terça-feira, 8 de abril de 2025
O anjo da morte
"- Se alguns excessos foram cometidos, não são da minha responsabilidade.
domingo, 24 de novembro de 2024
Lee Miller
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.
Paul Eluard
sábado, 16 de março de 2024
terça-feira, 13 de fevereiro de 2024
O Cais da Europa
Alcântara (à Rocha de Conde de Óbidos)
Roger Kahan by Vhils
A história toda está aqui contada. E bem contada !
terça-feira, 22 de fevereiro de 2022
Yuri Dojc
" No foreign sky protected me,
no stranger's wing shielded my face.
I stand as witness to the common lot,
survivor of that time, that place. "
Anna Akhmatova
terça-feira, 19 de outubro de 2021
"O Cônsul Desobediente" *
quinta-feira, 18 de março de 2021
Uma Vida Alemã
quarta-feira, 27 de janeiro de 2021
Dia de Memória às Vítimas do Holocausto
quinta-feira, 10 de outubro de 2019
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Night
"Auschwitz."
Nobody had ever heard that name.
(...)
Never shall I forget that night, the first night in camp, that turned my life into one long night seven times sealed.
Never shall I forget that smoke.
Never shall I forget the small faces of the children whose bodies I saw transformed into smoke under a silent sky.
Never shall I forget those flames that consumed my faith for ever.
Never shall I forget the nocturnal silence that deprived me for all eternity of the desire to live.
Never shall I forget those moments that murdered my God and my soul and turned my dreams to ashes.
Never shall I forget those things, even were I condemned to live as long as God Himself.
Never.
(...)
They came back shattered. They had difficulty opening their mouths. All they could utter was one word: "Evacuation." The camp was going to be emptied and we would be sent to the rear. Where to? Somewhere in the deepest Germany. To other camps; there was no shortage of them.
(...)
At six o'clock the bell rang. The death knell. The funeral. The procession was beginning its march.
(...)
Beneath our feet there lay men, crushed, trampled underfoot, dying. Nobody paid attention to them.
We were outside. The icy wind whipped my face. I was constantly biting my lips so that they wouldn’t freeze. All around me, what appeared to be a dance of death. My head was reeling. I was walking through a cemetery. Among the stiffened corpses, there were logs of wood. Not a sound of distress, not a plaintive cry, nothing but mass agony and silence. Nobody asked anyone for help. One died because one had to. No point in making trouble.
I saw myself in every stiffened corpse. Soon I wouldn’t even be seeing them anymore; I would be one of them. A matter of hours.
(...)
The night was growing longer, neverending.
(...)
The last day had been the most lethal. We had been a hundred or so in this wagon. Twelve of us left it. Among them, my father and myself.
We had arrived in Buchenwald.
(...)
All around me, there was silence now, broken only by moaning. In front of the block, the SS were giving orders. An officer passed between the bunks. My father was pleading:
"My son, water … I’m burning up … My insides …"
"Silence over there !" barked the officer.
"Eliezer," continued my father, "water ..."
The officer came closer and shouted to him to be silent. But my father did not hear. He continued to call me. The officer wielded his club and dealt him a violent blow to the head.
I didn’t move. I was afraid, my body was afraid of another blow, this time to my head.
My father groaned once more. I heard:
"Eliezer ..."
I could see that he was still breathing—in gasps. I didn’t move.
When I came down from my bunk after roll call, I could see his lips trembling; he was murmuring something. I remained more than an hour leaning over him, looking at him, etching his bloody, broken face into my mind.
Then I had to go to sleep. I climbed into my bunk, above my father, who was still alive. The date was January 28, 1945.
I woke up at dawn on January 29. On my father’s cot there lay another sick person. They must have taken him to the crematorium. Perhaps he was still breathing...
No prayers were said over his tomb. No candle lit in his memory. His last word had been my name. He had called out to me and I had not answered.
I did not weep, and it pained me that I could not weep. But I was out of tears. And deep inside me, if I could have searched the recesses of my feeble conscience, I might have found something like: Free at last !...
(...)
Three days after the liberation of Buchenwald, I became very ill: some form of poisoning. I was transferred to a hospital and spent two weeks between life and death.
One day when I was able to get up, I decided to look at myself in the mirror on the opposite wall. I had not seen myself since the ghetto.
From the depths of the mirror, a corpse was contemplating me.
The look in his eyes as he gazed at me has never left me.»
Elie Wiesel
terça-feira, 14 de junho de 2016
Feira da Filha
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
viagem a preto e branco
A expectativa indizível. Num quase-medo.
1999. Estamos no 14º dia do inter-rail. É Setembro e daqui a um mês começam as aulas. Se tudo correr bem será o último ano na Faculdade. Como sempre juntamo-nos em Santa Apolónia.
Para trás ficam os pais, irmãos e namoradas. Também já deixámos a Itália, Dubrovnik, Sarajevo (!), Zagreb e Budapeste.
Quando começámos a preparar o trajecto da viagem, desenhada para se enfiar nos Balcãs, serpentear nos países de Leste e longificar nos Bálticos, marcámos logo Auschwitz, o nome alemão da cidade de Oswiecim. A nossa jovem consciência da História mandava que Cracóvia (onde íamos pernoitar) passasse também pelo conhecimento do mal.
De Cracóvia a Auschwitz é uma hora e quarenta de comboio.
O caminho é bonito. Atravessamos uma paisagem de álamos, pinheiros e campos de bétulas que cercam alguns lagos. Aprendo que "Birkenau" quer dizer floresta de bétulas. As aves migratórias já se dirigem para o Sul e reparo nas minas de carvão.
Escolhi fazer os últimos dois quilómetros que separam a estação e o maior campo de extermínio nazi, trilhando o percurso marcado pelos velhos e enferrujados carris da antiga linha que transportava os prisioneiros rumo a Birkenau. Quis seguir no meio, como os vagões. Procurar o derradeiro sentido. Onde agora nascem ervas e flores.
Há alguns turistas. Sobretudo malta nova. Mas só se ouve o ambiente. O vento que sopra entre as folhas das árvores e os nossos passos.
Toda a gente sabe onde é que vai. A simples aproximação é impossível com ruído.
Ao fim de vinte, trinta minutos: "Arbeit Macht Frei", que ainda sobrevive no portão. Ninguém se prepara para um impacto assim. A esperança defunta de ironia.
Caminhamos um bocado. Olhando para o espaço e para inúmeros barracões em tijolo. Todos metodicamente organizados. Em blocos. E ruas.
Não falamos uns com os outros, mas todos pensamos no mesmo. No insuportável peso deste lugar. Ali a morte ainda respira. Está calor, mas não parece. Vemos a cores, mas cheira a cinza.
Passado algum tempo, o Alberty e o Renato decidem voltar para Cracóvia. Eu, o João Tiago e o Ordep continuamos.
Precisávamos de mais tempo. Acho que esperávamos que o silêncio falasse.
Não percebíamos. Porque as perguntas, por muito que já se tenha lido e escrito, acabam sempre sem resposta.
Entramos nalguns dos barracões. Reuniram todo o tipo de objectos pessoais que os guardas retiravam logo a quem chegava. Milhares de malas, sapatos, óculos, escovas de dentes, armações dentárias, pentes, o cabelo. O cabelo, meu Deus, com que estofavam colchões.
Percorremos as listas de prisioneiros. Os retratos. Tantos, tantos não-anónimos. As datas de entrada e do decesso. Tudo meticulosamente registado. Leio alguns nomes. De crianças sobretudo. Cristo !
Noutro lado, os gabinetes de Mengele. Frascos de vidro com fetos conservados em formol. Catalogados. Crânios serrados ao meio para experimentação. Catalogados. Explicações sobre o que fazia aos que eram gémeos. Solução final. Zyklon B. Prateleiras e prateleiras.
Saímos para respirar um pouco.
Depois andamos um bocado mais e sentamo-nos não me lembro bem aonde. Temos de parar.
É quando reparamos numa chaminé. Como de uma fábrica. Entramos noutros barracões. Os fornos crematórios.
Mordemos os lábios. Calamos ainda pior. Não desviamos os olhos. Parece que se lembram.
A película a preto e branco que o Ordep trouxe de Lisboa faz o resto. Peço-lhe a máquina para as mãos e faço uma fotografia.
Leio o que um sobrevivente, Tadeusz Sobolewicz, diz sobre a arbitrariedade da vida no campo. Qualquer um dos que morreram podia ter sobrevivido, assim como ele podia estar entre os que morreram.
A noite começa a cair e decidimos voltar à vida. Apanhamos o comboio de regresso para virmos ter com os outros. Estão à nossa espera num bar qualquer com umas cervejas na mesa. Precisávamos. Acho que nunca tanto.
Não me recordo se alguém pronunciou palavra no caminho de volta.













