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quarta-feira, 15 de maio de 2019
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
'A Livraria', de Isabel Coixet
Quem ama os livros ama as livrarias. As casas deles. Guaridas a que não escapo ou resisto. Cá ou lá fora. Todas se possível. Para mim igual a catedrais. Ou lojas de brinquedos quando a gente era pequena. Tenho mau nariz mas é um cheiro que injecto. Papel encadernado como droga, colocado sobre móveis encerados. Depois vem o prazer de olhar para lombadas e lombadas. Entreter-me no meio das estantes. Pegar em volumes grossos ou folhear os de capa mole. Sentir-lhes o peso. Ler frases ao acaso ou na contra-capa. Procurar as que são flechas. Envenenadas de preferência. Descobrir nomes novos. Imagens novas. Lugares que nunca vi. Biografias. Cabeças com ideias em formato de letras. Ou em desenhos. Templos de corredores e corredores que contam histórias e segredos. Vidas ali inteirinhas que venceram a morte e onde às vezes só chegamos de escadote. Com os ponteiros a passar e os livros empilhados debaixo do braço. E depois ficar. Numa espécie de ressaca. Até que acordamos e dizemos "Bem, vamos embora".
Em Portugal há uma que já não é. Passou a museu de livros. E aos museus vai muita gente, que faz filas à porta e compra tickets e fala muito e se chama alto. Estão excitados e vêm jactantes, e trazem máquinas, vouchers e mochilas, e dão-nos toques e empurram que estão com pressa. E querem ver. E os livros são tudo o que está a mais, ou são brindes que agarram para a selfie que precisam no insta ou no facebook daquele dia. Falam muito e muito alto. E eu já não consigo ler as frases ou ver as capas. Porque só oiço "maman, ici" ou qualquer coisa em japonês. E um sorriso é postado, enquanto compram canetinhas e postalinhos de recordação e nem percebem que com tanto flash nos furtam o silêncio que o livro quer para calar dentro de nós.
A 'Lello', no Porto. Nunca mais lá tinha ido. Até diziam que ia falir. Mas voltei para a ver agora. Depois dos lonely planets e dos prémios todos e da febre das cidades de hoje. Que ordenam que se conheça a escadaria do Harry Potter, ou lá o que é.
Fugi. Ninguém merece sufocar na claustrofobia de um espaço aberto.
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sábado, 27 de maio de 2017
Resgate
(Miró, pela Carmo)
Salvaram os Miró. Do naufrágio que Portugal era. Recuperados do desespero para um país que nem sempre entende a sorte que também ocorre na desgraça.
Em Abril, Serralves - que também é casa - ofereceu-nos o pecúlio do resgate.
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terça-feira, 2 de junho de 2015
sexta-feira, 14 de março de 2014
A tournée
O Advogado levanta-se cedo. De madrugada. Hoje é Porto, cidade colo, alma gémea, do Carteiro e do Candelabro, rojões, o berço do avô querido que ele deixou para nunca mais.
Despacha o serviço. O resto é entregar-se de bandeja ao turismo gratuito de ver tudo e olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Ao prazer hedonista que não evita. Que busca. Vivia assim. Vivendo. Entregue ao mundo. Sempre a chupar tudo. A querer tudo. E uma senhora velhota de lindos olhos azuis e sotaque apertado interrompe a conversa para vender uns fumeiros de Lamego que não há melhor !
- Sra. Juíza, não posso demorar que amanhã tenho que estar nas ilhas, em Ponta Delgada.
E lá, como ontem, acaba a apanhar o Sol que cura o inverno e sara as feridas, vai ao mercado, infiltra-se do ar cristal das ilhas desconhecidas do Raúl Brandão, virado pró mar que bate nos pontões, enquanto fecha os olhos e deixa uma Melo Abreu deslizar na boca.
É sempre assim. Ah, dolce vita !
Lá vem o queijo de S. Miguel e as queijadas de Vila Franca do Campo, e o chá preto da Gorreana (que estava a acabar) e na origem sabe melhor porque fala como a gente do sotaque insular.
Nunca se repete, porque é tudo sempre diferente e os olhos nunca vêem duas vezes. Na outra semana foi o Funchal, 30 anos depois !
- Sr. Juiz, não chegámos a acordo e tenho um avião para apanhar.
Mas antes há um café que espera na praça central. O Advogado sente-se mandatado para um verão húmido e colonial. Trópicos.
Na varanda do Café Central que dá para a praça, lê as gordas do jornal (e só ! porque o resto aborrece) e fuma um cigarro demorado, para a espetada do almoço (que pingava o sangue da vaca) não acordar mal disposta. E traz coisas para os miúdos que nunca vieram. E um Madeira para beber com o Pai quando puder.
Em Janeiro foi a Chaves, quando o Marão está nevado, e traz-me lá uns pastéis. Sim, mas primeiro esta costoleta barrosã (por Deus !).
Ou Braga, Mangualde e Arganil. Ou Guarda, Castelo Branco e Covilhã. Mirandela é no fim do mês. Mas tem que ser rápido se há jogo europeu na Luz.
Na volta a Portugal, o Advogado dá tudo de si, transpira palavras e argumentos que brotam às vezes nem ele sabe bem de onde e que são tudo o que ele tem e acredita. Tenta fazer a diferença, deixar a sua marca, mas oferece também o peito todo despido para voltar ferrado. Amor com amor se paga, é o que pensa.
O Advogado em tournée sofre porque vive sozinho. No Alentejo ou mais a Sul, fica molhado do suor ainda antes de chegar à barra.
E mói o corpo e as costas com tantos milhares de quilómetros de estrada ou de comboio ou quando perde o chão e vai a voar e isso é que é pior.
E, por isso, é que busca a companhia de todos com quem se cruza. E ama isso e chupa tudo o que consegue. Todo o tutano para ganhar o dia, que é aquilo que leva deste mundo quando partir de vez.
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sexta-feira, 5 de julho de 2013
Alegações Finais
Together
"Não serão muitos, mas haverá certamente alguns bons motivos para acordarmos com alegria no Inverno de Janeiro às oito horas da manhã. Um julgamento, sobretudo se nele formos arguidos, não é um deles. Mas é esse o motivo que nos fará acordar amanhã. Daqui a umas horas estaremos a entrar num tribunal para perdermos a nossa virgindade jurídica. E, de alguma forma, a nossa ingenuidade. Somos acusados de difamação, processo crime. Se não conseguirmos provar a nossa inocência lá teremos que puxar os cordões à bolsa: 25 mil euros de indemnização. Podia ser pior? Temos dúvidas.
Um sujeito acorda um dia de manhã com os pés de fora, desconhece-se se às oito horas, se a hora mais lúcida, e decide criar um canal de televisão. Malta do Norte, ciosa do seu território, cidade Invicta, os sonhos todos postos no sotaque que, acreditam, um dia há-de fazer ver a Lisboa quem é que afinal trabalha e cria neste país. Dá-lhe nome, dá-lhe forma, compra material, aluga espaço, contrata equipas, técnicos, jornalistas, comentadores da praça. Tudo em grande. Mas esquece-se que um dia, cedo ou tarde, haveria de pagar o sonho. Óooooo....
Chegam os primeiros cheques sem cobertura, as reclamações dos fornecedores, a suspensão do material, a equipa toda a debandar dali para fora. Investigamos o assunto, narramos os factos e damos-lhe um nome: Burla. [Dicionário: ludíbrio, dolo, trapaça, intrujice, trampolinice, logro, tratantada, fraude, tratantice.] O sujeito do canal burlou as pessoas que contratou porque as enganou. Porque lhes passou cheques sem ter dinheiro, porque protelou ad nauseum o pagamento e as explicações, porque desapareceu do telemóvel, porque já ganhou dinheiro com o material que entretanto vendeu a terceiros sem nunca o ter chegado a pagar. Porque assegurou aos funcionários que seriam ressarcidos pelo seu trabalho e até hoje nunca o fez. Porque os fez acreditar que aquele projecto teria sustentabilidade financeira, o que não era verdade. Sequer em sonhos.
Parece tão fácil provar a nossa inocência, a nossa boa fé, a nossa isenção e rigor, que o assunto parece ser feio e feito de favas contadas. E, no entanto, não é. A lei diz que dever dinheiro - cem euros ou cem milhões - não é crime. Cheques sem cobertura também não. E, aparentemente, falhar à palavra dada, e em alguns casos dada por escrito, muito menos. Crime é dizer que alguém deve dinheiro. E à dívida colar um rótulo: Burla. Claro que nem toda a gente que deve dinheiro é criminosa, sequer desonesta ou pessoa má. Mas que raio se chama afinal a um sujeito que há mais de dez anos anda a criar e a afundar projectos sem ter um tostão furado, arrastando para o seu lamaçal quem quer e precisa trabalhar e ser pago por isso?"
Parece tão fácil provar a nossa inocência, a nossa boa fé, a nossa isenção e rigor, que o assunto parece ser feio e feito de favas contadas. E, no entanto, não é. A lei diz que dever dinheiro - cem euros ou cem milhões - não é crime. Cheques sem cobertura também não. E, aparentemente, falhar à palavra dada, e em alguns casos dada por escrito, muito menos. Crime é dizer que alguém deve dinheiro. E à dívida colar um rótulo: Burla. Claro que nem toda a gente que deve dinheiro é criminosa, sequer desonesta ou pessoa má. Mas que raio se chama afinal a um sujeito que há mais de dez anos anda a criar e a afundar projectos sem ter um tostão furado, arrastando para o seu lamaçal quem quer e precisa trabalhar e ser pago por isso?"
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terça-feira, 25 de junho de 2013
La vie était belle
"Les indiens attendaient en silence. Le fils du Chef Cornstalk, Ellinipsico, était avec eux... Il essayait de se souvenir si le soldat qui s'approchait ressemblait à quelqu'un... à quelqu'un qui mériterait d'ètre mort...
Ce soldat c'était Zapaniah Lee. Sa fiancée l'avait quitté, Il voulait mourir et depuis longtemps il attendait la balle qui mettrait fin à la vie qu'il n'avait plus le courage de supporter.
CRACK !
Cette balle, Zapaniah la reçut en plein front et en l'espace d'un éclair il pensa à la bière au rhum qu'il ne boirait plus... à sa fiancée... et il comprit que c'était stupide de mourir... mais oui... La vie était belle !
Quand il voulut crier... Zapaniah avait fini de penser..."
O tomo 2 esperava. Olhava para ele como a um órfão. Não se pode ler um volume 2, sem ler primeiro o primeiro tomo. Não se faz isso a Pratt. Seria imperdoável !
"Mas acha que lhe vendia esta edição, capa dura, por 3 euros !, se também tivesse o volume 1 ?!?", respondeu a senhora italiana da 'Ler Devagar'. "Esgotadíssimo !", continuou com um sotaque trocista e final.
Não acredito. Arrisco e compro na mesma o vol. 2. Hei-de encontrar-lhe o irmão. Afinal, sou duro de teimoso. E um livro nunca acaba. Não é como o dinheiro. Não sai da circulação.
Meses à espera. Quilómetros de procura obsessiva. Sempre a sentir o martelo na cabeça. Nas prateleiras das livrarias, na Feira, na net - horror ! -, e sempre "indisponível". Que palavra horrível para se referir a um livro. Devia ser proibido. Como se tivessem o livro com eles, mas não o quisessem dispor.
Quase cheguei a acreditar que o futuro era mesmo trair o Pratt e perder o primeiro comboio.
Mas não. A vida é bela. Foi preciso ir ao Porto. E depois de passar naquele alfarrabista da rua do 'Candelabro', dobrar a esquina da José Falcão, onde, por acaso ou atracção, entrei e o descobri, logo à primeira rusga, por causa da lombada, exemplar único, por uns simbólicos 20 euros (ed. da 'Casterman').
Ce soldat c'était Zapaniah Lee. Sa fiancée l'avait quitté, Il voulait mourir et depuis longtemps il attendait la balle qui mettrait fin à la vie qu'il n'avait plus le courage de supporter.
CRACK !
Cette balle, Zapaniah la reçut en plein front et en l'espace d'un éclair il pensa à la bière au rhum qu'il ne boirait plus... à sa fiancée... et il comprit que c'était stupide de mourir... mais oui... La vie était belle !
Quand il voulut crier... Zapaniah avait fini de penser..."
O tomo 2 esperava. Olhava para ele como a um órfão. Não se pode ler um volume 2, sem ler primeiro o primeiro tomo. Não se faz isso a Pratt. Seria imperdoável !
"Mas acha que lhe vendia esta edição, capa dura, por 3 euros !, se também tivesse o volume 1 ?!?", respondeu a senhora italiana da 'Ler Devagar'. "Esgotadíssimo !", continuou com um sotaque trocista e final.
Não acredito. Arrisco e compro na mesma o vol. 2. Hei-de encontrar-lhe o irmão. Afinal, sou duro de teimoso. E um livro nunca acaba. Não é como o dinheiro. Não sai da circulação.
Meses à espera. Quilómetros de procura obsessiva. Sempre a sentir o martelo na cabeça. Nas prateleiras das livrarias, na Feira, na net - horror ! -, e sempre "indisponível". Que palavra horrível para se referir a um livro. Devia ser proibido. Como se tivessem o livro com eles, mas não o quisessem dispor.
Quase cheguei a acreditar que o futuro era mesmo trair o Pratt e perder o primeiro comboio.
Mas não. A vida é bela. Foi preciso ir ao Porto. E depois de passar naquele alfarrabista da rua do 'Candelabro', dobrar a esquina da José Falcão, onde, por acaso ou atracção, entrei e o descobri, logo à primeira rusga, por causa da lombada, exemplar único, por uns simbólicos 20 euros (ed. da 'Casterman').
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domingo, 17 de fevereiro de 2013
Porto Song
(foto: andré)
Já amava o Porto.
Não como Lisboa, isso é óbvio.
Não. Lisboa é como a mulher mais linda do universo. Linda, linda de morrer, tão linda, que só pensamos na sorte que tivemos na puta da vida para vir parar aqui.
Quando falam da luz de Lisboa é isso. O brilho que vem do mar e inunda as ruas. Que reflecte do sol nas pedras das calçadas. O sobe e desce das ruas que tudo alcançam, para tudo mostrarem, em ilimitada generosidade. Que se cruzam permanentemente para dizer que um dia pertenceram ao reino de Al-Andalus. O aperto, enfim, que nos ata e faz reféns. A essa mulher, que só de existir nos faz felizes, que faz tudo para nos ver felizes, somos fiéis eternamente. Porque é um amor que vence tudo.
Não, o Porto é como a mulher feita, a mulher madura. A mulher antiga, honesta. A mulher moral. Aquele tipo de mulher que tem coração de ouro e nunca esquece como receber. A mulher castigada também, que vem da dureza da vida. Que sabe que a vida não é só bela. Não é só arte, nem nunca vai ser. Que tudo guarda no coração. Com recato e também carinho. Os bons e os maus cheiros.
Amava o Porto, não há dúvida. Não como Lisboa, mas porque lá vai há anos e é sempre metido no colo. E como ele gosta disso ! E dos prédios velhos, esguios, dos prédios escuros e húmidos que o sol não cura, nem deita abaixo.
O Porto que era do Avô de Lisboa, que costumava debitar as declinações de latim para o pai professor a caminho do Liceu Alexandre Herculano. Onde começou a advogar e donde partiu para namorar e depois casar, que era um amor muito mais forte. Onde depois regressou só para ver o primogénito nascer em casa.
Depois não quis mais nada com a cidade, nem com a casa de Santos Pousada, por lhe lembrar demasiado a mãe. Vendeu-a como quem queima mobília numa lareira.
E agora ele, que nunca tinha passeado com o Avô no Porto, gostava de imaginá-lo nas esquinas que hoje dobra. E do que podiam conversar.
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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
Vhils em Aveiro
A viagem tinha escrito Porto no bilhete.
Dentro da carruagem o passageiro pára.
Pára porque pára o comboio. Pára porque param os olhos.
Lá fora, a placa escreve "Aveiro".
Do outro lado da janela, uma assinatura que ele reconhece.
Dentro da carruagem o passageiro pára.
Pára porque pára o comboio. Pára porque param os olhos.
Lá fora, a placa escreve "Aveiro".
Do outro lado da janela, uma assinatura que ele reconhece.
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terça-feira, 6 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
O regresso das Palavras
Do Bisavô. Presidente da Câmara de Viana do Castelo e deputado pelo Partido Republicano à Constituinte. Mas acima de tudo, Professor do Liceu, em Viana e no Porto. O Bisavô das letras. Que adorava ensinar, que um professor ensina sempre e para sempre. Mesmo depois do seu passamento.
Lá em casa era neste cofre que buscávamos o segredo e, sobretudo, a origem de todas as palavras. A ciência toda que o mistério das palavras carrega. Tudo o que a vida e a arte lhes esculpiram. Nas letras fiéis do Bisavô que lhe tinham brotado da pena, do estudo e de um trabalho meticuloso e insano. Que vinham, afinal, do amor profundo às palavras.
Mas um documento tão raro, que na família só havia quatro, distribuídos pelo filho e pelos filhos do filho. E eu, embora filho, já era neto.
Quis a sorte - porque não há destino - que o descobrisse num alfarrabista. Do Porto (como é evidente). Em óptimo estado. Perfeito. Feito para mim. Não foi sorte. Foi vontade. Arqueologia.
Depois, o encontro. Em Sintra. Tipo clandestino. Vários contactos. O alfarrabista que vem ao Sul. E mo passa com zelo para as mãos, numa mesa do "Piriquita", em jeito de travesseiro. Uma hora em que se conversa sobre o significado que estas infinitas palavras têm para a família. Ali fui eu o Dicionário. Fui eu que transmiti o significado. Depois, paguei o preço, que foi nada, só de pensar em meter as mãos na Obra. A seguir, mostrá-lo bem à pequena que foi com o pai assistir à transacção. Para viver a história. E um dia também poder contar.
Uma relíquia que os pais quiseram-me legar. Com uma dedicatória que há-de acompanhar o resto da minha vida e viver para além de mim.
Onde agora posso voltar a procurar todas as palavras. E ensinar a procurar o segredo que elas revelam. E o velho professor continuará a ensinar. E nós a aprender.
O Bisavô. Sobre quem o filho escreveu um maravilhoso posfácio.
«Labor Omnia Vincit
(...)
Por fim realizou esta magnífica e gigantesca Obra, o presente Dicionário da Língua Portuguesa.
Não é a mim que me compete apreciá-lo por falta de recursos apropriados. Mas pude avaliar bem o esforço ingente por ele empregado, na sua execução. Quantas preocupações, quantas arrelias, quantas insónias por amor da sua Obra !
Por motivos inevitáveis, cuja explanação não é oportuno abordar, morreu sem a ver publicada. Foi esta, sem dúvida, a sua maior dor, na hora da morte.
Vou terminar, fazendo a declaração expressa que a modéstia destas toscas palavras não são mais que a homenagem simples dum filho que sempre adorou, admirou e venerou seu Pai. Elas são apenas um ramo de pobres flores que deponho na sua campa. É assim, e só assim, que devem interpretar-se.»
Obrigado pelo tesouro de receber esta sagrada herança.
Rodrigo Fontinha
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Os Homens
Numa mesa de quatro estavam quatro. A bater uma cartada.
À volta destes quatro, daquela mesa de quatro, conto doze ou treze. À espera de vez.
"Foda-se!, caralho!... foda-se!, caralho!", e começam dois na mesa a discutir. Por causa de uma mão.
"Foda-se... caralho!"
Não acrescentam mais nada, como se pelo tom simples destas duas palavras tudo chegasse, como se argumentassem tudo o que era preciso.
Roda-bota-fora, sai um e entra outro para o lugar no carrossel de quatro.
Do outro lado da rua, um tipo conduz uma carrinha. Vai espetar o cimo do tejadilho no toldo de um boteco de má fama.
Todos deixam o jogo. Viram-se para o grande acontecimento da rua.
De dentro do boteco já explode quem parece dono. É pequeno mas vem com a força dos demónios.
"Filhooo da puuutaa! Anda cá que eu já te mostro!"
Quer arrancar o condutor da carrinha, que se agarra já ao volante como ao casco de um barco que naufragou.
"Fiiilhooo da puuutaaa!"
Gritos histéricos de mulher. Há uma que provoca: "Já foi de mal..."
"Anda ver o que fizeste, meu filho da puta. Mulher, chama a polícia!", continua o que parece dono. Espuma por todos os cantos e está com os dentes cerrados. As mãos parecem garras.
Arranca o homem para fora com violência, a quem enche de murros. Tem a barba mal feita e para aí uns cinquenta anos.
"Chamem a polícia! Chamem a polícia! Mulher, chama a polícia." Alguém os afasta. O homem da carrinha ajeita o colarinho.
Mas agora o dono do boteco já está com um varapau nas mãos. Estilhaça o vidro à carrinha. Aparece gente para o segurar.
"Já foi de mal...", repete outra vez a outra.
Num intervalo de chuva em frente ao Douro.
À volta destes quatro, daquela mesa de quatro, conto doze ou treze. À espera de vez.
"Foda-se!, caralho!... foda-se!, caralho!", e começam dois na mesa a discutir. Por causa de uma mão.
"Foda-se... caralho!"
Não acrescentam mais nada, como se pelo tom simples destas duas palavras tudo chegasse, como se argumentassem tudo o que era preciso.
Roda-bota-fora, sai um e entra outro para o lugar no carrossel de quatro.
Do outro lado da rua, um tipo conduz uma carrinha. Vai espetar o cimo do tejadilho no toldo de um boteco de má fama.
Todos deixam o jogo. Viram-se para o grande acontecimento da rua.
De dentro do boteco já explode quem parece dono. É pequeno mas vem com a força dos demónios.
"Filhooo da puuutaa! Anda cá que eu já te mostro!"
Quer arrancar o condutor da carrinha, que se agarra já ao volante como ao casco de um barco que naufragou.
"Fiiilhooo da puuutaaa!"
Gritos histéricos de mulher. Há uma que provoca: "Já foi de mal..."
"Anda ver o que fizeste, meu filho da puta. Mulher, chama a polícia!", continua o que parece dono. Espuma por todos os cantos e está com os dentes cerrados. As mãos parecem garras.
Arranca o homem para fora com violência, a quem enche de murros. Tem a barba mal feita e para aí uns cinquenta anos.
"Chamem a polícia! Chamem a polícia! Mulher, chama a polícia." Alguém os afasta. O homem da carrinha ajeita o colarinho.
Mas agora o dono do boteco já está com um varapau nas mãos. Estilhaça o vidro à carrinha. Aparece gente para o segurar.
"Já foi de mal...", repete outra vez a outra.
Num intervalo de chuva em frente ao Douro.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
4º Juízo Cível, 3ª Secção
(Aguiar Armando)
No 4º Juízo Cível, 3ª secção, do Tribunal da Comarca do Porto aguardo a chamada para a audiência.
Sentado no único lugar disponível, entretenho-me a folhear um jornal que comprei numa tabacaria da Gonçalo Cristóvão antes dali.
Espero o funcionário.
Começo a pensar no dia até aqui. Como é bonita a Estação de São Bento. Como nem reparam nela os passos apressados da gente que a vê todos os dias. Lembro-me dos pormenores. De passar no túnel. Da mãe que ia com as filhas e lhes diz que ordena:
- Vejam, olhem para o rio. Vai aparecer outra vez. Viram ?
E as miúdas sorriem. O comboio chega e há um mergulho geral para a plataforma. Eu saio, mas páro. E olho. E vejo sapatos apressados. Não olham para a Estação. Não olham à volta. Para as lajes, para os bancos, para a estrutura. Para o fumo. Não escutam. Não cheiram.
Não sei onde é que vou comer desta vez. Faço os Aliados e reparo numa porta moderna, desses locais muito "fashion" que agora há, tipo lounge, tipo cool, de vasos altos cá fora. Ok. Os empregados recebem-me com cerimónia e vestidos de preto. Trazem-me logo a lista. Digo que estou com pressa e que tem de ser rápido. Frango à braz ? Pode ser. Nunca comi. Não deve ser pior do que o bacalhau.
A raçãozinha cabe na toca de um dente. Não protesto. É da nova cozinha. É lounge, ou lá o que é, ou lá o que eles querem que seja. Não protesto. E o café veio quente.
Lembro-me que estou no Tribunal.
Chega o funcionário. Demora um século a dizer os nomes. Gagueja. Se gagueja ! Fecha os olhos para as palavras brotarem. Fica vermelho. Praticamente roxo. Transpira. As vísceras quase que rebentam pela boca. Caso brutal. Gagueja tanto que tenho que o ajudar a acabar o que quer dizer. Aquilo não é um funcionário. É uma tortura. Coitado do tipo que o puseram a chamar pessoas e a atender telefones na secretaria. Foi castigo.
Ao meu lado, duas testemunhas convencem-se do caso que as leva ali. Duas mulheres da Ribeira que falam em voz alta e com sotaque pronunciado. Divirto-me. Também ouviram a chamada. Comentam o funcionário (depois de ele sair):
- Que gago ! Deve ser bonito na cama. Primeiro que a gente perceba o que ele quer...
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
Never dream awake
(Dennis Stock)
Never dream awake
Foi o que ela lhe disse. E ela sabia. É um inferno. Vais-te tramar. Mas como? Quem é que está a sonhar ? Acordado sim porque é preciso para ver. Mas sonho, não. O sonho não existe. Não sente. É sonho. Não vive. Não acorda. É névoa. Não mexe. Sonha.
Mas foi o que ela lhe disse.
Naquela altura podia ser Nova Iorque, Paris ou Roma, mas era o Porto. Estranho para um sonho.
Para ele o Porto, naquela altura, não era uma cidade-sombra. Nem névoa. Não era a espuma das ondas a desaparecer na areia. Era o Norte. Tinha que lá chegar, que é duro, mas meiga. Tinha um Sol. Muito sol. Estranho para um sonho.
Ou Lua. E um frio, dor de quem ama. Frio, não. Ou sim. Já não percebia nada.
Tinha sotaque. E um trejeito do lado esquerdo. Era fogo! Era longe perto. Linda. Aquele Porto gosta. E para ele o Porto envolvia, agarrava. Entrava, entrava.
Naquela altura o Porto era a Foz. Era o mar. Enorme, enorme. Envolvia e agarrava. Mas despedia.
Para ele o Porto tinha mãos, e lábios, e olhos, de mel. Torrado.
Era um peito. Uma menina. Para ele o Porto brilhava. Era um poema que pegava nele. O Porto era um corpo que beijava. Um pescoço. Lindo. Que dava o jeito.
O Porto beijava. Era língua.
Aquele Porto seduz, feliz. Chama, chama. Mas também cala. Um silêncio que fala, pensava ele. É música. É Cure ou “Green is the colour”. Um candelabro. É muito.
Estranho para um sonho.
Estranho para um sonho.
Protegia-o e abraçava-o. Abrigava-o.
Era noite, madrugada. O Porto escrevia saudades. Dizia estamos juntos. Tocava.
O Porto estava lá e… ele cá.
Era magia. Incrível ! Cinema. Mistério. Sombra. Tinha frio, e ele um casaco. Estranho para um sonho. O Porto é bonita.
Mas ele calava. Também. Não queria ser coincidência. Impulso. Fantasia. Delírio. Mas achava que lhe lembrava dor, insuportável. Queria pegar-lhe na mão. Ouvi-la muito. E acreditar. Para não morrer na expectativa do que poderia ter sido e não foi. Acreditar que podiam ganhar ao tempo e à distância, que podiam ganhar ao terror de perder tudo o que tinham até ali, para ganhar ainda mais.
Mas ela dizia-lhe Never dream awake. Só quero ser salva.
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terça-feira, 11 de maio de 2010
"O que pode correr mal se um dia ficares feliz ?"
Qual é a probabilidade de, entre tantos milhares de livros que eu podia ter pegado naquele dia, trazer um que nesse instante causa tanta perplexidade 500 miles away ?
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sábado, 8 de maio de 2010
PUB.
A cidade está coberta de cartazes: gigantes, médios, pequenos, mais pequenos. Vem aí o Papa. Para que ninguém se esqueça, até o Cristo Rei tem um enorme lençol com a cara de Sua Eminência de cima abaixo. Talvez para os que vêm de avião, entrando pelo Sul.
Mas não é só Lisboa. Hoje, quando chegava ao Porto, depois de passar a ponte da Arrábida, acabadinho de sair da auto-estrada, no Campoalegre, pimba!, lá estava a mensagem: "o Porto saúda o Papa" ou qualquer coisa do género.
Não sei se é para dar trabalho aos RP da Santa Igreja, se têm medo que não o (re)conheçamos, que nos cruzássemos com o Reverendíssimo e não lhe beijássemos a mão, se é só um enorme ego.
Suponho que, à falta de eleições, é necessário ocupar os outdoors com novos clientes.
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terça-feira, 27 de abril de 2010
No Porto
O dia começou cedo. Tinha de estar no Porto às 11h. Saí de Lisboa às oito, mas apanhei um engarrafamento tramado na entrada da A8 que me rebentou as expectativas da pontualidade.
Perdendo quase uma hora em pára-arranca, tive que acelerar. É possível fazer Lisboa-Porto em duas horas. E parar nas portagens...
Quando cheguei, estava tudo à minha espera. Levei logo uma rabecada da funcionária, mas respondi-lhe que para a próxima lhe pedia a ela para trazer o carro.
Pedi desculpas pelo atraso e fiz o que tinha a fazer. Almocei num restaurantezinho da Foz e fui para o Hotel. A cama tinha o meu nome, de modo que adormeci. Acordei com a televisão a berrar a inquirição de um administrador da TVI na Comissão de Inquérito do Parlamento sobre o negócio com a PT. Pesadelo do caraças.
Tomei um duche frio e pus-me na rua. Calor brutal.
Depois de ter passado grande parte da tarde a divagar pela cidade feito perdido, fui a Serralves onde me pus remansado a beber um café e a fumar um cigarro. Ah, vida boa !, pensei.
Um salto na livraria do Museu para ver as novidades artísticas: fotografia, cinema, pintura e pop design.
Saí já eram oito.
Agarrei no carro e fui novamente sem destino. Pela Marginal onde, àquela hora, se vêem os namorados e malta a fazer jogging. Atrás, o mar. Aos saltos.
Cheguei à Baixa. Como estava quase tudo fechado, subi a 31 de Janeiro e, pela Rua de Santa Catarina, fui dar ao único sítio possível: a Fnac. Óbvio. Entretive-me a ver uns discos alternativos e comprei um livrito com mensagens curtas e apelativas: "Whatever you think, think the Opposite". Bom título.
A noite estava violenta de calor. Não sabia onde é que havia de acabar o dia.
Telefonei. Do outro lado disseram-me: "Vai ao Carteiro!"
Fui.
O melhor momento do dia !
Fica num larguinho muito simpático e sossegado. Só o conhece quem o conhece. Mas é um largo com nome de rua, uma rua com um nome bestial: Rua do Senhor da Boa Morte, nº 55.
Entrei numa casinha. "O Carteiro" é uma casinha.
Lá dentro, uma mesa num canto. Escolhi a que ficava à beira da janela. O Nuno, que é o dono do restaurante, veio logo trazer umas entradas. Queijo fresco apimentado e no azeite. Broa de Avintes, acho. Levantou o outro prato que estava na mesa, mas deixou a cadeira vazia em frente à minha.
Pedi o folhado de caça com queijo derretido e bacon. Especialidade. Veio com migas, uma mãozinha de grelos e castanhas. A minha boca completamente acordada ! Um copo de vinho da casa.
E fiquei ali, com o olhar perdido na noite, a apanhar o arzinho fresco da rua e a fazer uns esquiços no caderno que levava comigo.
E fiquei ali, com o olhar perdido na noite, a apanhar o arzinho fresco da rua e a fazer uns esquiços no caderno que levava comigo.
O Nuno trouxe mais um copo. Viu que gostei. Pedi a sobremesa e fui para o alpendre fumar um cigarro.
Vendo-me ali descontraído e sozinho, o Nuno veio fazer-me companhia. Bate papo formidável. A vida dele (já tinha trabalhado em Lisboa), a vida no Porto, o Benfica quase campeão ("este ano o título fica bem entregue!"), a vida em Portugal, a vida.
Só não percebi bem o alinhamento musical. Em geral tocava um som calmo, bossa nova, cenas tipo Feist, mas, de repente, no meio daquilo, dois momentos sublimes: New Order e, quando estava para me ir embora, "Love will tear us apart" dos Joy Division.
Fiquei mais um bocado.
Fiquei mais um bocado.
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quinta-feira, 22 de abril de 2010
Show me, show me, show me how you do that trick...
Não conheço os Cure desde sempre. Surgiram nos anos 80 e, nessa altura, os sons ainda demoravam um tempinho a chegar cá.
Os Cure não eram nada alinhadinhos. Robert Smith era uma personagem meia estranha, amaneirada, quase andrógino. Música que só era ouvida em certos locais. Não eram os Smiths, os Cock Robin, os Tears for Fears ou Lloyd Cole. Não tinham nada com os Duran Duran, os Spandau Ballet ou os A-Ha, Housemartins ou INXS. Muito menos com os Dire Straits.
Quando, em Outubro de 1987, foi lançado "Just like Heaven", do álbum "Kiss me, Kiss me, Kiss me" eu tinha 9 anos, quase 10. Começava a descobrir a música. Ouvia o que passava na rádio e lambia os vinis dos meus pais. Não tinham Cure. Óbvio.
Até que em 1992 um primo que tenho no Porto, oito anos mais velho que eu, ofereceu-me o "Wish" dos Cure. Foi um dos meus primeiros CD's e uma novidade total. Lembro-me que fiquei a olhar para a capa do disco um bom par de horas. Feito parvo. Espantado por ter tido a honra de receber um disco de uma banda que os meus amigos não ouviam. Claro que, nessa altura, já os conhecia, mas a partir daí fui recuperar os sons para trás.
Hoje, no Porto, lembrei-me destes tipos. No "Café Candelabro", uma miúda (para aí de 18 anos), parecia saída da London 80's. Penteado e roupa. Provavelmente a estudar Belas-Artes.
Embora no Café tocasse um gigantesco blues, guitarras a apertar acordes e solos tremendos, este foi o som que pairou na minha cabeça. Um grande som.
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sábado, 10 de abril de 2010
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