Sempre os houve. Não é de agora. Se há coisa irritante (vá, irritantezinha) é ver certa malta a apregoar cultura como se fosse um concurso de misses. Agora em twitts, nos faces e nos instas, ou em posts doutras galáx.... sociais. É aquela espécie de intelectualidade fascistazinha do eu-é-que-sei, cheios de uma moral e autoridade de que o bom percebem eles. Então no que toca à música é todo um universo de arrogância. E quando, na maior parte dos casos, nunca pegaram num instrumento. Não há saco. Quando chegam as bandas ao nosso país, é vê-los destilarem sobre os concertos nuns debochantes "Já não vou ver. Vi-o(s) no auge. Em 90 e troca o passo. Está(estão) decrépito(s). Tragam-lhe(s) um caixão. O quê ?? Tu ainda gastas o dinheiro nisso ??!? Poupavas.", etc, etc. e tal, seguidos de afirmações petulantíssimas das suas bandas ou músicos do momento, que acabam de descobrir, e que até podem ser antigos (o que interessa é que têm o aval dos snobistas), com os inevitáveis "Eu agora oiço é isto. Evoluí.", rematando os outros de "atrasados". Como se fosse feio ou de mau tom ouvir João Gilberto, tocando as mesmas canções com as mesmas notas de sempre, ou Leonard Cohen, em rouca recta final, ou os U2 com Bono a falhar-lhe a voz, enfim, todos os rockers, ou não rockers, que já vieram e voltaram, e voltaram, e voltaram. E estão cá, e são de quem os ouve e vai ver. Houve uma altura em que chamei a esta maltinha os "bonifácios". O problema é que continuam a esquecer muita coisa: 1. que houve um tempo em que ninguém (ou quase ninguém) vinha a Portugal e, portanto, é óptimo tê-los cá !; 2. que os músicos são (muitas vezes) como o vinho e melhoram com o tempo, a prática e a experiência de vida; 3. que o fundamental é se ainda tocam, cantam e mexem bem, e se dão tudo (o que só quem os não descarta.... porque... sim, pode saber); 4. que não cabe a Suas Excelências os caudilhozinhos decretar o fim de vida de um artista; 5. e que é (pode ser) uma bênção escutá-los 15, 20, 30 ou mais anos depois da sua estreia. O que ignoram no seu pedantismo opiniárquico (incapazes de apreciar a estrutura de um bom "vinho" velho ou uma travessa de acordes felizes) é que o que conta é se a noite foi boa, como me disse um dia o Jorge Palma. Epá ! (com amor) cresçam !
Às vezes é preciso lembrar que à beira do século XXI houve uma guerra em plena Europa que quase acabou com um povo e uma nação. Uma guerra onde morreram centenas de milhar de pessoas. Civis. Pessoas como nós. Crianças, muitas, alvos predilectos dos snipers genocidas que ganhavam por cabeça.
"Faz de Sarajevo" descreve a história de Ervin Rustemagić e da sua família durante o cerco que, entre 92 e 96, as tropas militares e para-militares sérvias de Milosevic, o carniceiro dos Balcãs, fizeram à cidade. Limpeza étnica.
Isolado e sem quase poder sair à rua, Ervin (amigo do autor Joe Kubert) dispunha apenas de um fax para contactar com o exterior e relatar as atrocidades que todos os dias eram cometidas naquele pedaço de Bósnia, por entre o rebentamento de obuses, tiros e granadas, e enquanto o resto do mundo assistia pela televisãoa mais uma tentativa de extermínio.
Três anos depois da guerra estive em Sarajevo. Já aqui contei. De como encontrámos a cidade. Semi-destruída. De olharmos para o edifício do Parlamento estilhaçado e rebentado pelos morteiros. E do "Holiday Inn", onde Ervin, a mulher e os filhos acabaram por conseguir se refugiar, quando perderam a casa. De como tropeçávamos em parques convertidos em cemitérios. E da estação de comboios, deserta e a abandonada.
Às vezes é preciso lembrar que à beirinha do século XXI houve uma guerra em plena Europa.
Em Derry, Irlanda do Norte, uma manifestação pacífica da Associação dos Direitos Civis da Irlanda do Norte. Catorze pessoas, sete dos quais adolescentes, caíram mortas pelos tiros das tropas inglesas que investiram contra manifestantes desarmados.
Hoje, 38 anos volvidos, terminou o inquérito judicial a esta barbárie com conclusões devastadoras para o governo inglês.
David Cameron, o recém-empossado Primeiro-Ministro, declarou que o domingo sangrento foi injustificado e injustificável e pediu perdão em nome do governo e em nome da Grã-Bretanha.
Hoje lembrei-me de Belfast.
Dos seus murais, do mártir Bobby Sands e de entrar na temível Loyalist Zone.
Estive na Irlanda faz cinco anos. Dei a volta à ilha.
Conheci Belfast. Vi a separação de um país. De uma cidade. Dividida pela religião. Separada pelo sangue. Pela morte. Pelo ódio. De gentes que vivem na mesma terra, que pertencem ao mesmo país, e que são todos irlandeses.