terça-feira, 18 de novembro de 2014

Billy the Kid


Não estávamos em Nashville, não há calor na rua.
Não palmilhámos o Kentucky nem nos demorámos a tragar um bourbon, o que é pena, porque durante duas horas foi isso mesmo que aconteceu. Exilar-me de Lisboa (no espírito ninguém manda) e acordar na Virginia.
A beleza das coisas eternas. O território ZDB.
A goela morna deste trovador dos subterrâneos no teatro mais bonito da cidade !
As guitarras únicas com os acordes em slide, o som, o contrabaixo, grave, ritmado, como passos a calcarem o soalho e a mandar bem no resto.
O folk, o country, a mistura poética das letras, as raízes e o sotaque genuíno do mais puro sul dos E.U.A. ensopados numas barbas que cantam e dizem I see a Darkness.
Se estivesse na primeira fila, Johnny Cash teria ficado orgulhoso. 
Que p #%$# de concerto !



segunda-feira, 17 de novembro de 2014

'Amadeu', de António Lobo Antunes



"Tomou o pequeno-almoço, uma chávena de café e umas bolachas, três ou quatro, as últimas da lata, molhou a ponta do indicador na língua a apanhar as migalhas do fundo, que comeu também e depois arrumou a lata na prateleira e colocou a chávena no lava-loiças, tudo isto sem pressa, nos gestos do costume. Limpou as gengivas com a língua até o gosto das migalhas lhe desaparecer da boca. Encheu a chávena de água para a lavar depois. Era uma chávena branca, com uma paisagem impressa: árvores, animais que pastavam, uma casa ao longe, e o contacto dos dedos com a loiça, tão lisa, era-lhe sempre agradável. A seguir foi para a casa de banho, lavou os dentes, fez a barba

(teve de mudar a lâmina, que já cortava mal)

abriu a torneira da água quente do duche, abriu um bocadinho a torneira da água fria, experimentou a temperatura com a palma, abriu mais um bocadinho a torneira da água fria, despiu o pijama e meteu-se no chuveiro depois de vedar bem a entrada com a cortina de plástico azul, que corria, em argolas transparentes, ao longo do varão, a fim de não molhar a toalha que servia de tapete. Lavou a cabeça com cuidado, de forma ao champô não lhe incomodar as pálpebras, sentindo o cabelo que começava a rarear. Ao princípio detestou estar a ficar careca

(até comprou umas ampolas que não serviram de nada)

depois foi-se habituando a pouco e pouco

 - Sou careca

embora não lhe agradasse muito a pele da cabeça nua nas fotografias que, na sua opinião, o faziam parecer mais velho do que era. A risca do cabelo que sobrava, agora perto da orelha, já não cobria grande coisa mas as mulheres não se importavam, ou fingiam não se importar, com isso, o que, apesar de tudo, sempre lhe dava algum consolo. Fechou as torneiras ao mesmo tempo, afastou a cortina de plástico, apanhou a toalha da barra cromada em frente e sentou-se no bidé, a fumar um cigarro, enquanto o corpo ia secando sozinho. Detestava esfregar-se, lembrava-lhe a mãe, que o magoava com o seu excesso de energia

- A ver se consigo tirar-te como deve ser o sabão das orelhas

voltou ao espelho para se pentear, descobriu um pêlo enorme a sair-lhe do nariz, apanhou uma tesoura pequena da gaveta e, à terceira tentativa, lá conseguiu cortá-lo

( - Como é que eu não dei por isto antes?)

e fazê-lo seguir, lavatório abaixo, até às profundezas do inferno. Aproveitou para verificar, de esguelha, se pêlos nas orelhas, não deu por nenhum, guardou a tesoura, no género daquela com que lhe cortavam as unhas em criança

(a mãe, sentada no sofá

- Chega-te aqui à luz e está quieto)

e ele com medo que, por distração, lhe amputassem a ponta do mindinho.

(Os óculos da mãe, enormes, pareciam engoli-lo. Faleceu de repente, um aneurisma, três anos antes, pelo menos a autópsia garantiu que um aneurisma e certamente quase não sofreu. Valha-nos isso: não era má pessoa, a mãe.)

De toalha amarrada à cintura e chinelos felpudos passou ao armário da roupa. Puxou umas cuecas quase ao acaso

(não tinha previsto nenhum encontro galante)

cujo elástico começava a perder força mas ainda aguentava, um par de meias pretas, que têm a vantagem de dar com tudo, uma camisa branca que teve de desabotoar para a abotoar de novo, começando pelo colarinho e vindo por aí adiante até ao fim da barriga, que ia aumentando devagar, mais cuidado com as sobremesas, rapaz, sentindo-se uma espécie de clarinetista a treinar escalas. A seguir um do dois fatos azuis, encostando o ombro à parede a fim de não se desequilibrar ao entrar nas calças, um cinto preto, sapatos pretos, sem atacadores, que têm a vantagem de poderem calçar-se de pé e lhe pareciam um número acima do seu dado que às vezes os calcanhares dançavam um bocadinho lá dentro, voltou ao quarto de banho a fim de aperfeiçoar o nó da gravata, de colarinhos ao alto, baixou os colarinhos, certificou-se que a gravata na exacta bissectriz deles, uma gravata de um amarelo discreto que, na sua opinião, lhe aumentava a dignidade, sobretudo com o casaco já posto, surpreendeu-se com um pedaço de linha vermelha, incompreensível, na lapela, que enrolou entre o indicador e o polegar e depositou num cinzeiro de vidro, procedeu a uma verificação final, acamou as madeixas das têmporas, perfumou um tudo nada o pescoço

(nunca perfumava mais do que o pescoço)

ainda se mirou, de perfil, no espelho, e achou-se bem, apagou as luzes atrás de si, espreitou as horas no relógio de pulso

(vinte minutos para chegar ao emprego, não demorava mais do que dez, sobrava-lhe algum tempo)

e sentou-se, de perna cruzada, tomando cuidado com os vincos, na poltrona onde costumava ler o jornal à noite, a seguir ao jantar, com a televisão ligada numa novela qualquer, a fazer-lhe companhia. Trinta e oito segundos depois levantou-se e foi à janela observar a rua. Um par de homens lá em baixo consertavam um cano, não estava frio porque as mulheres usavam manga curta, com excepção de uma velhota de xaile: os ossos dos idosos não aquecem, coitados, a mãe, por exemplo, mesmo em agosto, dormia de botija e casaquinho de lã, queixosa da temperatura. Abriu a janela e confirmou que nenhum frio, como nenhum vento também, as folhas das árvores quietas, pombos a rondarem a esplanada. No cabeleireiro, quase em frente, começavam a tirar os taipais, duas raparigas loiras, uma gorda e uma magra, de bata cor-de-rosa, a conversarem entre si, sem olharem para cima. Se olhassem para cima viam-no, empoleirado num banco, a colocar uma das pernas fora da janela e a inclinar-se para a frente, como veriam que, do quinto andar ao passeio, um sujeito de setenta e sete quilos demora 3,4 segundos a chegar."

in ‘Visão’

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

The Doctor

Nós nunca somos só nós. 
Antes de Eusébio, houve José Águas. E antes de Maradona, houve Cruyff.
Como sem Faulkner talvez não houvesse Lobo Antunes, e como Tatti provavelmente não seria ele sem Charlot ou Buster Keaton.
Assim no resto. 
Antes de Michael "Air" Jordan, houve um homem que já voava para os cestos de garra esticada e que ficou conhecido para sempre como Doctor J.. 
Senhoras e Senhores (às vezes a televisão presta), o Sr. Julius Erving.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Em Carne Viva





Que sangue dos demónios ! 
Espanhola, de Maiorca, já que todos temos que ter um sítio para nascer, porque esta mulher vem de uma África bem funda. De espanta-espíritos. De uma raça muito antiga. Mesmo que depois traga sensualidade nas saias e o charme todo do Caribe no corpo.
É assim como uma mistura de rum despejado num caldeirão onde se preparam já galinhas pretas para o candomblé. Tudo abençoado com a água que vai entornando em palco e projectado na voz, com as tripas bem de fora. De pé descalço com ligação ao centro da terra.
Concha Buika merecia era outra sala. O CCB não é homem para ela. Cabrón !

domingo, 9 de novembro de 2014

os favelados tropa de elite



'Lixo', de Stephen Daldry

There's a riot goin' on


Sly and the Family Stone -1971

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

'Amor', de António Mega Ferreira


"Algum dia eu haveria de entrar na normalidade dos que te amam. Amo-te. E dói escrevê-lo (que é pior, meu amor, do que dizê-lo). Amo-te, absoluta, impossível e fatalmente. E ouço, adolescente, uma música adolescente, para me lembrar de ti, porque lembrar-me de ti é lembrar-me que não consigo esquecer-te. E ouço música porque ouvimos música quando amamos, e tudo, no amor, é música, acústica da alma... que se quer ser devorada, e, neste caso, dor (tão deliciosamente insuportável) de amar sem sequência nem expectativa de contrapartida, amar unicamente o puro objecto que desgraçadamente amamos. Isto é uma carta de amor, e é possivelmente ridícula (prova maior de que é, realmente uma carta de amor), ou porque perdi o hábito de as escrever, ou porque nunca tive a coragem de as enviar.
 Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas – que queres? -, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.

E depois, afastamo-nos. Beijo-te a correr, não sei se já reparaste, e quase fujo, porque sair do pé de ti é regressar ao que não és tu, o teu olhar e as tuas mãos, a tua alma e a tua voz, e isso, meu amor, transformou-se no insuportável intervalo entre dois encontros.

Esta carta de amor é um excesso (e isso prova superiormente que é uma carta de amor): eu amo não a ideia de amar-te (durante muito tempo, eu julguei que era apenas isso), mas a ideia de perder-me no meu amor por ti. E mesmo amar-te é um excesso, porque tudo aconselharia que eu me limitasse a mitificar-te, que é a melhor forma de evitarmos enfrentar a realidade. Porque a realidade, aqui, é como uma dor difusa, tu sabes como é, um incómodo ainda não localizado, que progressivamente se vai definindo e acertando, até que, insuportavelmente nítida, a sua imagem se nos impõe como uma evidência. A minha dor é que eu comecei a amar-te, sem o saber, durante aquele breve período de tempo em que sair de casa era a promessa reconfortante de ver-te e falar contigo. Eu não sabia, repito, mas o tempo ajudou-me a definir essa pequena dor, tão secretamente pavorosa: cada vez que estou contigo (cada vez mais, meu amor, cada vez mais) é como se a minha vida se virasse do avesso. E é verdade, é cada vez mais verdade, que, quando penso nas coisas que ainda me falta fazer na vida, é em ti que penso. E tenho medo, como um animal que instintivamente foge do que sabe não poder atingir.

Eu penso em ti, ainda mais do que te digo, e tu estás em tudo, mesmo quando não te penso, tu és a grande razão, o horizonte sem nome que constantemente se desenha na minha imaginação de mim.

Há uns anos, este seria o momento de desmontar o discurso desta carta, de te mostrar os subtis mecanismos da alma e da máscara, de desdizer ironicamente o que já disse, de insinuar que, afinal, as-coisas-talvez-não-sejam-exactamente-assim. Mas as coisas são exactamente assim, e a carta, que poderia transformar-se num confortável exercício paródico, é, inevitavelmente, uma agonia e um embaraço. Esta carta é um acto de puro egoísmo, que eu até talvez nem tivesse o direito de praticar.
É-te incómoda, necessariamente, e isso bastaria para que eu me abstivesse de a enviar, dentro de um envelope azul. Mas o azul fica-te tão bem, e as cores todas ficam em ti como tu ficas no mundo: exactamente.

Mas, repito: esta carta é um acto de puro egoísmo, é como se não tivesse destinatário. E, no entanto,
é preciso enviá-la, para que seja uma carta de amor, para que faça sentido como carta. Para que seja amor. Mas podemos imaginar uma saída elegante: para que possas conservá-la como pura carta de amor, quero eu dizer, sem o embaraço de saberes que ela te foi escrita por alguém que não amas, não a assino. Dou-te tudo: até a hipótese de esta carta não ter sido escrita por mim.

«(E não, esta carta não pode ter sido escrita por mim. És tu – em mim – que me faz escrever o que eu não escrevo. E isso é – de novo – o melhor de mim.)»"

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Alphabet Aerobics

Daniel Radcliffe, o puto do Harry Potter, foi ontem à noite ao programa do Jimmy Fallon.
A entrevista foi pouco mais que desinteressante, até ao momento em que revelou uma obsessão: memorizar intrincados jogos de palavras cantados em ritmo frenético.
E é então que, com os The Roots no backbeat, nos saca este rap da cartola. 
Obrigatório ver a partir do minuto 1:00.


Absolutely brilliant !

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

"La pelota no se mancha !" *



* A lenda continua. E hoje, canchas do mundo inteiro !, é dia de aniversário. Celebremos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Crème de la Crème



Jack Bruce (1943 - 2014)

Em 1965, Eric Capton abandonava os Yardbirds que acusava de se estarem a tornar demasiado comerciais. Clapton, o purista virtuoso, não aceitava o caminho pop da banda e decide juntar-se a John Mayall e aos seus Bluesbreakers para trilhar o caminho honesto do blues rock. Não duraria muito, porque um ano depois, em '66 pega na sua guitarra e resolve criar talvez um dos mais célebres trios da história, tão influente como efémero, como tantas vezes acontece na vida.
Com o louco e frenético Ginger Baker na bateria e o feroz Jack Bruce, no baixo, voz e harmónica, senhor de técnicas nunca vistas, aparecem os Cream, uma banda poderosa, agressiva e ensopada no psicadelismo da época. Não foi preciso muito tempo para se tornarem responsáveis por um novo fenómeno na cena musical, de que os próprios Led Zeppelin foram uma das maiores living proof. Três ou quatros álbuns de originais depois, com 'Disraeli Gears' à cabeça, e outros tantos ao vivo e terminam.
Eric Clapton seguiu a carreira a solo até se tornar em monstro mais que sagrado. Ginger Baker meteu-se no jazz e Jack Bruce apostou em vários projectos que nunca alcançaram o estatuto-referência dos Cream.
So what ? Só por este legado já valeu a pena !



sábado, 25 de outubro de 2014

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Curtis Mayfield and The Impressions


Now I'm just a regular fellow
I don't need much
I don't need a Cadillac car
Or diamonds and such

But the woman that I hold
She's got to have soul
And then I'm richer than the richest gold
If the woman's got soul

'
Woman's Got Soul'

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

sábado, 18 de outubro de 2014

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

domingo, 12 de outubro de 2014

The Key of Life II

 
Malala Yousafzai - Prémio Nobel da Paz 2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Haverá pior do que Totti ?

Nunca este imperador tinha marcado em Inglaterra. Mas nunca também é tarde demais para se mudarem as coisas. Um golo que não é só golo, mas Super-Arte, como se ouviu num relato.
E quem é que diz que o terceiro filho da Loba do Capitólio tem quase 40 ?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"Haverá pior do que Nero ?" *

(Hubert Robert, 1770-1790)

«Têm sido realizados muitos filmes sobre Nero, mas nunca resistem a transformá-lo numa caricatura. Não há qualquer necessidade de o fazer; ele próprio já era caricatural. Essa depravação pitoresca atrai os biógrafos. Eu nunca seria capaz de escrever uma biografia de São Francisco ! E de certeza preferia jantar com Nero do que com Adriano.
(...) Ele era um monstro. Mas era mais do que isso. E aqueles que o precederam e lhe sucederam não foram melhores. Os monstros verdadeiros, como Hitler e Estaline, não tinham imaginação [como a de Nero]. Mesmo hoje, estaria à frente do seu tempo. Escrevi o meu livro há 35 anos, precisamente porque queria reabilitá-lo.»
Roberto Gervaso, sobre "Nerone"

"Haverá sempre dificuldade em 'reabilitar' um homem que, segundo testemunhos históricos, encomendou o assassínio da sua primeira mulher, Octávia; pontapeou até à morte a segunda mulher, Poppaea, quando ela estava grávida; ordenou o assassínio da própria mãe, Agripina, a Jovem (possivelmente depois de ter relações sexuais com ela); talvez assassinasse também o seu irmão adoptivo, Britannicus; deu instruções ao seu mentor, Séneca, para que cometesse suicídio (o que ele fez, com solenidade); castrou um jovem adolescente, casando-se de seguida com ele; supervisionou o incêndio de Roma, em 64 d.C. e atribuiu as culpas a um grupo de cristãos (incluindo São Pedro e São Paulo), que foram presos e decapitados, ou crucificados e atirados às chamas para iluminarem uma festividade imperial. As provas contra Nero parecem ser definitivas. E no entanto... "

in National Geographic - Setembro de 2014

* poeta Marcial.

sábado, 4 de outubro de 2014

Soul Man


The revolution will not be televised.

The revolution will not be brought to you by Xerox

In 4 parts without commercial interruptions.

The revolution will not show you pictures of Nixon

blowing a bugle and leading a charge by John

Mitchell, General Abrams and Spiro Agnew to eat

hog maws confiscated from a Harlem sanctuary.

The revolution will not be televised.
('Pieces of a Man', de Gil Scott-Heron, 1971)

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Being John Malkovich




Ou being everybody else.
Por Sandro Miller na Catherine Edelman Gallery (Chicago).

quarta-feira, 1 de outubro de 2014