terça-feira, 15 de março de 2016

O 4-4

Dizem que os filhos nos fazem mais velhos.
A mim são os jogos do Benfica. Os grandes jogos. Lembro-me deles como se os tivesse parido.
E hoje o calendário já conta 22 anos desde que o Benfica, num dos anos mais duros da sua existência (o do "verão quente"), foi disputar a segunda mão dos ¼ de final da Taça das Taças com o Bayer Leverkusen. De Lisboa levava um empate milagroso a 1-1. Fui à Luz ver esse jogo e recordo bem o alívio que foi ver o golo do Isaías entrar já depois dos 90'.
Enfim, o Benfica ia jogar na Alemanha contra um Bayer que tinha Schuster, Thon e Ulf Kirsten, um avançado baixinho e danado, que tive vontade de esganar duas vezes nessa noite.
Estava em casa a ver o jogo e devo ter tido uns 4 ataques cardíacos. Sabia os jogadores que tínhamos, a qualidade de Rui Costa, João Pinto, Schwartz, Paneira, Isaías, Iuran, Kulkov, e a raça de Mozer e Veloso. 
Mas não sabia o que o grande Toni tinha dito aos jogadores ainda na cabina: «Era preciso não ter medo de um povo arrogante como o alemão.»
E depois ainda me perguntam porque é que eu gosto tanto deste Capitão…..
Bem, o jogo não podia estar a correr pior. Apesar de muitas oportunidades para o Benfica, quem marcava era o Bayer, o que adivinhava drama. O primeiro golo ainda na 1ª parte, pelo tal Kirsten, e o 2º pelo mítico Schuster pouco depois do intervalo.
2-0 para eles.
Não estávamos eliminados. Estávamos eliminadíssimos !
Mas logo no minuto seguinte, depois de descermos aos infernos, quando só as forças da esperança e da insensatez nos agarram à vida, quando a razão nos manda ir para a cama ou fazer alguma coisa de útil, há isto:

«'Tou, Rui, 'tou !»
Era o Abel Xavier a reclamar a bola ao Rui Costa, que atrasa de calcanhar.


Estoiro monumental !
Estávamos nós (e falo agora no plural porque - posso jurar ! - a sala de casa dos meus pais tinha enchido com todos os milhões que seguiam o jogo), a começar a perceber a força daquele remate de ferrar as redes, aquilo que ele já trazia com ele, quando um minuto depois, catrapumba !
Canto marcado pelo Maestro e João Pinto, no meio dos centrais, a entrar ao primeiro poste de cabeça para fazer o 2-2.

 
Afinal era mesmo possível !, ensinavam-me outra vez.
Foi quando a loucura tomou conta de tudo, com os alemães a bombardearem a nossa baliza como insanos. Não me lembro dos remates ou das jogadas, mas não esqueço a aflição, porque eram eles agora os eliminados. 
A partir desse momento deixou de haver tácticas ou lógica. Só um 2-2 no marcador que era preciso defender com a faca nos dentes.
Com os alemães a abrirem a defesa na procura do golo, o nosso Maestro conduz um contra-ataque pela esquerda com a batuta nas chuteiras. No momento em que devia entrar o violino, coloca a redondinha no Kulkov, e este, depois de uma cavalgada (se lhe perguntassem diria que eram as "Valquírias"), aguenta o comboio expresso dos defesas que lhe apareciam nas costas, e zás ! 2-3. Toma lá a cambalhota.
O sonho comanda a vida. E Rui Costa o Benfica. 

A imagem do abraço dos russos no meio do chão ficou para sempre embalsamada na minha cabeça. Escultura pura.

 
Nesta altura liguei para o meu amigo Diogo, com quem costumava ir à bola, que me dizia estar à beira do enfarte.
Parecia tudo dito. A sinfonia encerrada.
Mas a noite ainda era jovem e o pior - nem o Toni podia prever - ainda estava para chegar.
Poucos minutos depois, o Bayer empata. Outra vez o anão do Kirsten. Sacaninha desgraçado! Enfim, era sofrer até ao fim. Como ainda estávamos em vantagem, só precisávamos segurar, ok ?
Não ok.
Esquecera-me, obviamente, que este não era só um jogo. Se me tivesse lembrado disso, talvez pudesse ter antecipado que um minuto depois o Bayer fazia o 4-3, e Portugal ficava à beira de passar a falar alemão.
Não era já um jogo. Guerra, evidentemente.
Acontece que já tínhamos ido ao inferno, e, portanto, faltava a redenção.

A televisão concentra-se no banco deles, onde o treinador já aponta para o relógio, fazendo sinal aos jogadores de que só faltavam 5 minutos. O Toni esbraceja, mas já nem ele diz nada.
DEusébio agarra-se à toalha mágica.
Eu em casa provavelmente em prece, tentando com os olhos empurrar a bola para a frente.
Anos mais tarde o Rui Costa recordou o seguinte: «Há uma frase que resume esse jogo. O treinador do Bayer disse que se eles tivessem marcado sete golos nós marcaríamos outros sete, e é verdade.»

E foi mesmo verdade.
Aos 85 minutos, Kulkov faz o 4-4. A jogada é magia e classe, porque o Menino d'Ouro finta dois jogadores e evita um "pau" à entrada da área, que outro teria aproveitado para ganhar o livre directo.
Mas não, o João Pinto tinha recebido a batuta. Rasgou nas costas do defesa para Kulkov bisar com a biqueira.

Guerra, evidentemente. Guerra e Paz.
No final do jogo, Eusébio teve que ser assistido devido à sua condição cardíaca.
Eu não pude, mas estava incrédulo com o que tinha assistido. Liguei novamente para o velho amigo, que mal balbuciava palavra. Desliguei o telefone.
O Benfica nas meias-finais.
Se não fosse heresia dizê-lo, confessava que não trocava a taça por este jogo.

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