quarta-feira, 31 de julho de 2013

Poem to be



You were there, my love.
There, you know. I too.
The other side of the road
The train line, see.
There, you know.

With eyes blindfolded
and hands,
and lungs and heart so tied
                        that cried.
Everything's calling.
Sending notes to the stars.
As the river flows [It's the shelter.]
and that tower, oh to climb it like a castle.

"Say Hello To The Angels"


óleo em linho, 2010

Nem tudo o que parece (sabemo-lo bem), é. Mas Damian Loeb explica isso com um pincel. 
Mais aqui.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Mãe

Parabéns, minha Querida !


quinta-feira, 25 de julho de 2013

A hell of a place to make a country *



Lisboa. Já passa um bocado da meia noite e a Vespa talvez ziguezagueie um pouco mais do que devia. E não é só para fugir aos carris dos eléctricos ou não tropeçar nos vestidos que passam na rua.
Descemos a Madalena para aterrar no Martim Moniz onde os pirilampos da polícia já mandam encostar.
- Boa noite, Senhor Condutor.
                                           (enquanto bate a Continência)

O Condutor não fica sem voz, não perde a calma e também faz a Continência. Será louco ?!?
- Venho a cumprir a lei, Sr. Agente.
- Isso é o que vamos ver. Documentos, por favor.
- Tome.
- Está-me a dar só o registo. Carta e Seguro ?
- Certo, aqui os tem.
- Bebeu ?
- Sim, acabámos de jantar. Bebi um vinho, claro.
- Já alguma vez soprou no balão ?
- Sim.
- Então já sabe como é. Sopre aqui até eu dizer para parar.
- (...)
À primeira não sopra bem. O instinto funciona assim.
À segunda. 
- Ui. 0,87.

A degustação dos vinhos, bem acamadinhos, tinha feito os primeiros estragos. As papilas estavam todas acordadas e não davam mostras de cansaço ou timidez. 
O Pedro tinha-nos dito que a prova podia ser muito boa ou excelente. 6 vinhos para acompanhar cada prato. E cada prato decide o dono da cozinha. Gosto. Cada vez com menos paciência para escolher o que comer. Devia ser sempre assim. 
"O objectivo não é embriagar-vos, embora possam."
Um Bruto para limpar, depois os brancos. Para começar um Casal Santa Maria, de Lisboa, os Douros, um verde Alvarinho, um tinto para a carne. Acabamos com um Madeira doce, quando já nos entregámos completamente à nossa sorte. Toda a noite os vinhos a tentarem bater o prato que vinha para a mesa. A conseguirem.
Do São Pedro de Alcântara adora-se Lisboa.

- Ui. 0,87.
Mas é aí que o homem salva o homem, e nos são dadas provas da compaixão de que os portugueses são felizmente vítimas abençoadas. Porque esta merda não é a puta da Alemanha, diz o irmão de sangue.
A verdade é que ainda estou para perceber, mas...
- Ó Sr. Condutor, porque é que não vai ali dar uma volta, beber um café, e depois regressa para soprar novamente ?
O Sr. Condutor vai. E a compaixão humana também o segue. Hoje deve ter saído com alguma espécie de auréola e ainda não percebeu. Ou então são os olhos de cordeiro manso. Ou a continência que fez quando chegou ao polícia. Ou a mamma atrás a pedir clemência, que tem 3 filhos.
Num dos botecos da praça (que matam a sede com o que for preciso), aparece-nos um tipo que estava a olhar para a cena. Parece berbére e só lhe falta o turbante. De calções e dois brincos a reluzir, pergunta-nos: "Então, quanto é que acusou ?", e logo a seguir: "Eh, pá ! Venham cá. Sou dono disto. Bebe esta limãozada e um café e esta água."
Quero pagar e ele não aceita. "Ouve, já me apanharam várias vezes. E tenho a mota toda quitada, por isso não posso sair agora, senão estou fodido. Ficamos agora aqui. Não sou português." E põe-me o braço por cima.
Confirmo que a mota dele está toda a cair e com fita gomada a segurar os bocados. Confirmo que só diz que não é português porque agora ninguém quer ser deste país. Como o tipo que nos prepara o remédio. Filho de pai suiço, mas nascido em Loures de mãe portuguesa.
"Também não sou português. Da última vez que me apanharam, tinha 2,21, e já tinha ido a casa e dormido !"
Afinal, não é um boteco. É um clube.
Acabo as zurrapas miseráveis que me arruinam o jantar e assassinam as papilas. Mas salvam a humanidade e regresso à fiel. Olhei para ela com pena. Parecia só. A Vespa esperou 5 anos pelo nome mas sai daqui baptizada: a Fiel.
- Vá-se lá embora, Sr. Condutor. Esta polícia nunca o mandou parar. Vão para onde ?
- É já para ali.
Ele acredita. Todos merecemos uma oportunidade.
Olhamos à volta. A massa de turistas já percorre o Rossio e todas as avenidas.


* também se podia chamar as minhas aventuras na república portuguesa, mas depois era plágio.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Snatched



Dennis Farina (1944 - 2013)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Saem de todos os lados


Tenho a certeza que o Chiado no Verão só existe para nos atormentar.
E quem diz Chiado, diz o resto.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Este país não é para meninos


Death Valley.
Temperaturas que ultrapassam os 50º C. (!)
Uma Ultra-Maratona que se chama "Badwater" (!). Que começa abaixo do nível do mar e termina aos 4.421 metros de altitude (!)
Mais de 24 horas a correr (!) para fazer
217 quilómetros (!)
E é logo um português que chega em primeiro !
Este homem deve ter um coração (e pulmão, e pernas, e pés) do outro mundo ! E deve ser completamente louco.

E à chegada ainda nos dá outra lição:
"Nós portugueses vivemos num clima quase depressivo. Temos de ter objetivos muito fortes no nosso dia a dia. É esta mensagem que quero deixar aos portugueses, que acreditem, que lutem, porque sem trabalho, sem sacrifício, nunca vamos conseguir mudar este país".
Assina Carlos Sá.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Cadastrados


Depois do caso Snowden, a palavra que o Facebook (em português) usa para convidar as pessoas a pertencerem a esse maravilhoso mundo virtual de amigos e desamigos, ganha todo um novo e admirável significado. 
De uma coisa pelo menos não o podem acusar: falta de transparência.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

terça-feira, 9 de julho de 2013

O nº 9 do FutSábado


O Advogado levanta-se cedo. Culpa do calor africano que arrasa a cidade. 
O Advogado responde ao calor nas noitadas que faz à varanda e que o obrigam a dormir ainda menos. Mas é justo. A vida é chupar os melhores bocados. 
Levanta-se cedo e despe a toga. Entrega os filhos mais velhos à mãe para a natação e a mais novinha à Avó, que hoje é dia de bola.
Agora é de novo puto. Bebe um copo de água e vai com a fome toda para o jogo. Hoje é dia para ganhar. Sai cedinho e pega na Vespa para ir mais fresco e leve. Leva uma garrafa de meio litro de água da torneira para o "brasileirão" que é como fica o campo do Rainha Dª. Amélia no pico do Verão. 
O jogo começa. Raspa, como é tratado pelos amigos (em homenagem às histórias do Pratt), olha para a equipa e só vê avançados. E do outro lado é só vedetas. Isto hoje vai ser complicado. Olha para o céu: "Onde estás João Tiago ? Onde estás Captain Mir. ?" 
Humilde como nunca, decide que hoje irá jogar a defesa direito, com sorte subirá no terreno para médio direito, mas avançado, hoje não. Deixo para os outros. 
Raspa cruza-se com o miúdo de 20 anos que é a nova coqueluche da equipa, e que entra vagarosamente em campo e com as meias em baixo. Lembra-se então das palavras sábias de JT. "Tens de os acarinhar. Não grites com eles." Nunca é tarde para mudarmos e seguir os bons conselhos que nos dão. 
“Aqui está o melhor jogador do torneio !”, digo. E os lábios do puto rasgam-se de lado a lado. 1-0. Raspa promete também que hoje não se vai chatear com o outro avançado que nunca dá a bola. 
E vai logo para o seu lugar. Jogar atrás é coisa nova, vamos ver é no que dá. O importante é o joelho aguentar. 
A bola começa a rodar. Do outro lado, o atraso de 15 minutos do Calhas (encarregue de levar a mais velha ao ballet !), permite que a equipa de Raspa comece o jogo a vencer por 4-1. Culpa do Hortelão, da coqueluche e do avançado que só vê baliza. Calhas entra e começa a acontecer futebol. O jogo entra num ritmo louco de parada-resposta. Raspa faz o que pode e até faz razoavelmente bem, numa de não comprometer. Com o Manuel velho a comandar, centralão e homem experiente, a pôr-lhe sempre a bola nos pés, Raspa já manda no corredor direito. Raspa agradece e coloca a bola em profundidade para um golo fácil de Hortelão. Mas a equipa das vedetas começa a bailar. Calhas atrás, Gil "Iniesta" no meio, combinações perfeitas com o Tiago Tom Cruise. Todos que é só classe. Na baliza vamos rodando. É a vez de Raspa. Ui. De repente, só ouve à sua frente Calhas a berrar: “TIAGO, PASSA A BOLA !” Completamente isolado, Calhas fuzila Raspa, e mete a bola lá onde a coruja faz o ninho. Raspa cumprimenta Calhas. Logo a seguir é Gil a fazer o golo do jogo. Parece o Gaitán no jogo com o Estoril. Entra ao primeiro poste e de calcanhar todo no ar, mete o esférico nas redes, bem rentinho. 
O jogo está empatado. 6-6. O calor é dos demónios. Raspa já refrescou a cabeça duas vezes (com a bendita garrafa). 
A boa moral diz que não devemos alegrar-nos com o mal dos outros, mas é depois de uma arrancada descompensada do avançado que não dá a bola, e que acaba lesionado, que a equipa de Raspa começa finalmente a brilhar. Raspa compadece-se do parceiro e diz-lhe para ir para a baliza, que obedece agradecido. Raspa vai para médio ala direito, onde se vai sentir dramaticamente confortável, e sacode para Calhas: “Podes começar a tirar notas !” Raspa surpreendentemente fresco, começa a trocar a bola com um Miguel que se ajeita com Raspa. Raspa faz uma assistência digna de Pablo Aimar e Miguel marca. A seguir, a bola já está em Raspa, que cavalga toda a linha direita, e remata cruzado para a baliza, mas vai ao poste. Logo depois, Raspa produz mais uma assistência, depois de tirar a bola da defesa, que vai para a coqueluche e que termina a jogada com um golo do outro mundo, de fora da área. Vem agradecer a Raspa duplamente os votos de confiança. Já vai em 8-6. 
Do lado direito, continua o show Raspa. Desta vez remate brutal após passe do puto mais novo, e defesa impossível do Redes dos outros. Para a próxima entra, pensa Raspa. Calhas também percebe. Começa a dar pau sem bola em Raspa quando se vai chutar de canto. Não lhe consegue arrancar o sorriso. A bola sobra para o médio centro. Raspa percebe onde ele vai colocar a bola, levanta a mão, e o cruzamento sai belo e largo ao segundo poste, onde aparece Raspa, bem atrás das costas do Bruno Gigante, a cabecear para o fundo da baliza !!!!!! Estava feito o primeiro da conta de Raspa, o nº 9 do FutSábado. Tarde mas a tempo. E 9-6 no marcador. 
Do outro lado, o sol faz mossa. Raspa molha mais a cabeça e continua a jogar em ritmo samba. Manuel velho mete-lhe a bola, sempre para a direita. Raspa tira um da frente, faz tabelinha com o Miguel, sempre ele, recebe e devolve. E golo. 10-6. Raspa atira para a geral: “Aqui há já dois tipos que estão a jogar de olhos fechados.” 
Ainda tempo para mais um. O avançado centro toca de calcanhar para Raspa, que lhe devolve à entrada da área. Tem três defesa mais o Redes à sua frente, recebe a bola com jeitinho e pára. Sente o mundo. Todos param também para ver como Raspa vai resolver. Raspa olha para a baliza e coloca a bola, pelo meio das pernas do primeiro, para se encaixar bem no cantinho. 11-6. 
Com o resultado feito, Calhas ainda reduz para o 11-7 final, num remate bem colocado. Acaba o jogo quando o calor é quase sobre-humano. De joelho remendado, Raspa volta a ser pretendido pelos colossos do bairro.



sexta-feira, 5 de julho de 2013

Alegações Finais

Together



"Não serão muitos, mas haverá certamente alguns bons motivos para acordarmos com alegria no Inverno de Janeiro às oito horas da manhã. Um julgamento, sobretudo se nele formos arguidos, não é um deles. Mas é esse o motivo que nos fará acordar amanhã. Daqui a umas horas estaremos a entrar num tribunal para perdermos a nossa virgindade jurídica. E, de alguma forma, a nossa ingenuidade. Somos acusados de difamação, processo crime. Se não conseguirmos provar a nossa inocência lá teremos que puxar os cordões à bolsa: 25 mil euros de indemnização. Podia ser pior? Temos dúvidas.

Um sujeito acorda um dia de manhã com os pés de fora, desconhece-se se às oito horas, se a hora mais lúcida, e decide criar um canal de televisão. Malta do Norte, ciosa do seu território, cidade Invicta, os sonhos todos postos no sotaque que, acreditam, um dia há-de fazer ver a Lisboa quem é que afinal trabalha e cria neste país. Dá-lhe nome, dá-lhe forma, compra material, aluga espaço, contrata equipas, técnicos, jornalistas, comentadores da praça. Tudo em grande. Mas esquece-se que um dia, cedo ou tarde, haveria de pagar o sonho. Óooooo....
Chegam os primeiros cheques sem cobertura, as reclamações dos fornecedores, a suspensão do material, a equipa toda a debandar dali para fora. Investigamos o assunto, narramos os factos e damos-lhe um nome: Burla. [Dicionário: ludíbrio, dolo, trapaça, intrujice, trampolinice, logro, tratantada, fraude, tratantice.] O sujeito do canal burlou as pessoas que contratou porque as enganou. Porque lhes passou cheques sem ter dinheiro, porque protelou ad nauseum o pagamento e as explicações, porque desapareceu do telemóvel, porque já ganhou dinheiro com o material que entretanto vendeu a terceiros sem nunca o ter chegado a pagar. Porque assegurou aos funcionários que seriam ressarcidos pelo seu trabalho e até hoje nunca o fez. Porque os fez acreditar que aquele projecto teria sustentabilidade financeira, o que não era verdade. Sequer em sonhos.

Parece tão fácil provar a nossa inocência, a nossa boa fé, a nossa isenção e rigor, que o assunto parece ser feio e feito de favas contadas. E, no entanto, não é. A lei diz que dever dinheiro - cem euros ou cem milhões - não é crime. Cheques sem cobertura também não. E, aparentemente, falhar à palavra dada, e em alguns casos dada por escrito, muito menos. Crime é dizer que alguém deve dinheiro. E à dívida colar um rótulo: Burla. Claro que nem toda a gente que deve dinheiro é criminosa, sequer desonesta ou pessoa má. Mas que raio se chama afinal a um sujeito que há mais de dez anos anda a criar e a afundar projectos sem ter um tostão furado, arrastando para o seu lamaçal quem quer e precisa trabalhar e ser pago por isso?"

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Os Silly Guys


Nada de novo. 
Geração Morangos no poder só podia dar nisto.
O espectáculo é quase cómico, não fosse demasiado triste, e, hoje, tremendamente comentado. No Parlamento, nos jornais, nas televisões, nos cafés, nas estações de comboio, nos tribunais. Em casa. Tudo de boca aberta. Mas quem é esta gente ?
Previsível.
Previsível porque todos conhecíamos quem era Passos (um Jotinha nunca deixa de o ser  apenas porque lhe põem um fato e anda de Mercedes), quem era Portas (a natureza do escorpião é muito mais forte do que ele) e, finalmente, o inenarrável Presidente da República que temos (alguém que veio atrás da reforma tranquila das suas pantufas e de recato pelos seus anos de BPN, e que a única atitude que teve em 7 anos de mandato foi a de, sem jeito sequer, tentar sabotar um governo legítimo em pleno exercício de funções).
O que é grave é que, de pirraça em pirraça, chegámos ao ponto em que um diz que se demite e o outro não aceita. Realmente, a dignidade é uma coisa muito bonita e não se compra na loja.
O país ficou de boca aberta. Ninguém, ninguém mesmo, queria acreditar. Mas o resultado está à mostra. E é deplorável.
Mas o pior no meio disto tudo é que se olha para o lado e vemos mais do mesmo. Não nos iludamos. E assim iremos viver em ciclos de dois anos, que é o máximo que estas crianças aguentam.
A Geração Morangos é assim. Vive como se não houvesse amanhã. Sem consequências. Entretiveram-se durante dois anos a brincar aos políticos e a brincar com o país. 
O problema é que há sempre amanhã e, na vida, os actos têm consequências. E como são da Geração Morangos, vão agora a correr para os papás para pagarmos a factura, quando já se estamparam com o carro.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Surrealistic Pill


[Magritte]

«O surrealismo assentou hoje arraiais em Belém e São Bento.

Em Belém, o Presidente da República fez de conta que deu posse a uma ministra das Finanças e aos seus secretários de Estado de um Governo que, na prática, já não existe.
Em São Bento, o primeiro-ministro, que tinha escolhido a tal ministra das Finanças sem nada dizer ao líder do seu parceiro de coligação, recebeu uma carta desse mesmo líder antes da ministra tomar posse a apresentar-lhe também a sua demissão.
Portanto, eles fazem que tomam posse dos cargos, eles fazem que governam, eles fazem que estão a trabalhar para o bem do país, eles fazem que estão coligados e nós fazemos que acreditamos. Mas entretanto vamos já preparar-nos para eleições.
E assim de faz de conta em faz de conta, estamos a caminho de ser uma nova Grécia. Uma coisa que jurámos e trejurámos que nunca seríamos.»

"Surrealismo em Belém e São Bento", por Nicolau Santos no 'Expresso'

A Escolinha de Lomba


«Quem se interessa pelos problemas sérios desta sociedade terá ignorado a novidade: os briefing (a tradução literal deste termo inglês é "instruções") que todos os dias úteis, às 12 horas, serão dados aos jornalistas pelo Governo. Ontem foi o primeiro.

Às 10 da manhã os jornalistas credenciados foram avisados: o tema a tratar duas horas depois seria o dos swaps (tradução literal: "trocas") e estaria lá a secretária de Estado Maria Luís Albuquerque.

Pedro Lomba, o mestre de cerimónias destes eventos, graduado em secretário de Estado, recebeu os antigos colegas de profissão e explicou as regras: uma delas era que poderia acontecer haver momentos em que as declarações feitas aos 30 ou 40 jornalistas presentes seriam em on (que mania têm pelo inglês!) e poderiam ser publicadas identificando a fonte da informação ou, em alternativa, em off (irra!), situação em que as ditas declarações passariam a ser citáveis sem atribuição de fonte.
Acontece que à hora em que Maria Luís Albuquerque comunicou aos jornalistas as suas "instruções" sobre o problema das "trocas" financeiras tóxicas em empresas públicas juntou, em on, a declaração de que não recebera de Vítor Gaspar informação sobre a matéria, passada antes pelo ministro das Finanças de José Sócrates, Teixeira dos Santos.
Três horas depois a TSF noticiava que Vítor Gaspar se demitira. Quatro horas depois o Governo comunicava que esta senhora era a nova ministra das Finanças.
Talvez hoje o mestre de cerimónias, na nova sessão de colocação de notícias, diga, em off, qualquer coisa que esclareça esta questão: sabendo, certamente, o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, à hora do briefing, que a doutora Maria Luís Albuquerque já era ministra das Finanças, porque a deixou fazer exercício tão hipócrita, ainda por cima para "enterrar" o seu antecessor? Que feio!
Talvez hoje ou, quiçá, amanhã o mestre de cerimónias nos apresente a ministra que ontem era secretária de Estado para esta, então, explicar porque aceitou fazer tal figurinha. Porque não se adiou a cena?
Sempre que oiço um governo prometer melhorar a comunicação penso que estão a enganar-me. Este Governo, no entanto, não engana. Porquê? Porque o problema deste Governo não é, a sério, um problema de comunicação.
O problema deste Governo é de conteúdo, carácter, competência, ideologia e política. Esta nova ministra, vê-se, comunga de todo este projeto global e, portanto, nada de essencial mudará no Governo com a saída de Vítor Gaspar. O briefing de ontem foi, portanto, muito útil porque comunicou esta mensagem muito bem. Venham mais.»


Pedro Tadeu, in DN, “O briefing de Maria Luís Albuquerque"