terça-feira, 29 de junho de 2010

Película

Som

Literatura


Leio o que tu escreves. Tu. Outros. Tu. Teus. Bocados de ti.
Para mim, para outros. Para mim.
Repetida repetidamente.
Demorada demoradamente. Leio-te. Respiradamente. Para ver e escutar.
Leio uma e outra vez, em busca desses bocados, de tudo o que eles são, de tudo o que dizem e do silêncio em que se escondem.
Leio para chegar ao que não está. Ao silêncio da cortina que me tapa sempre a cara.
Não falta. Há um resto muito. Digo, claro que digo. Hã? Porque digo.
Leio, enfim, num tempo novo, desconhecido, que não era meu, com grande liberdade, para ver que estás aqui e aí e existes e respiras. Como para saber que existo, estou aqui e respiro...
e que se podem juntar versos.

Pintura


"Danae", de Klimt

sexta-feira, 25 de junho de 2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

"Sit here on the stairs"

Nunca tive nenhuma paixão pelo hard rock.
Duas bandas, porém, habitualmente catalogadas nesta secção, entravam nas minhas aparelhagens sempre que queriam:
Os Led Zeppelin (estes ainda hoje), nome maior da música, do Jimmy Page (um dos cinco melhores guitarristas de todos os tempos) e do Robert Plant (dono de uma voz poderosíssima, eleita há uns tempos a melhor voz de rock de sempre),
e os Guns N' Roses, também eles construídos pela voz infinitamente potente de Axl Rose e pela guitarra estridente de Slash.
Os Guns são uma história curiosa na música.
Acho que a primeira vez que os ouvi foi em casa de um amigo velho que tinha sempre os discos primeiro que todos. Depois pedia-lhe que mos gravasse numas cassetes audio de fita magnética, o que ele fazia com desvelo.
Um grupo que surge em '87 e atinge o auge em '91. Fundamentais quando apareceram, abrindo o caminho para o click Nirvana e para aquilo que a partir daí queríamos dizer aos professores, à polícia e a quem gostava de nos dizer mais qualquer coisa com o dedo em riste.
De cabelos compridos, vinham para fazer barulho e traziam camisas aos quadrados à cintura, muito couro, correntes e mau feitio. Lançaram quatro álbuns históricos - 'Appetite for Destruction', 'Lies', e o duplo 'Use Your Illusion' I e II -, e depois acabaram, mergulhados em álcool e muita droga num sombrio desfiar de ausente inspiração. Ultrapassados para sempre.  
Mas uma coisa souberam fazer. Criaram os sons revoltados de Civil War, Get in the Ring, Paradise City, Welcome to the Jungle e, por exemplo, de um perturbante Coma, e grandes baladas que ficam para a história do rock: Yesterdays, Used to Lover HerNovember Rain, Don't Cry ou Sweet Child of Mine e uma outra canção magnífica que agora não me sai da cabeça. Esta.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Justiça Divina

A França foi eliminada do Mundial.
Duas derrotas, um empate, um golo marcado. Sem honra.

Deviam ter deixado Deus fora disto.


Ainda para mais à custa da minha adorada Irlanda...

Nota ao jornal "L'Équipe": nunca comparar a gloriosa mão do Deus Maradona

que 
meteu a bola na baliza,
teve arte,
tentou disfarçar,
era numa meia-final de um Mundial,
veio antes de um dos melhores golos de sempre,
foi marcado à Inglaterra,
pela linda e poética Argentina,

com

uma mão reles,
que ajeitou para outro,
numa Qualificação,
a um minuto do fim,
à verde e guerreira Irlanda,
por franceses que jogavam em casa e
... perdiam.

Sabia que este dia chegaria cedo. Foi bonito.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Cadernos Marroquinos - 8º e 9º Dias


Levantámo-nos bem cedo para aproveitar até à última o ar da alegre confusão. Sofregamente. Como quem respira o último ar da sua vida. Da varanda do hotel os meus olhos deitavam já saudades para a Jemaa el-Fna, como quando se olha para trás para uma rapariga que parte. Senti-os húmidos. Quando é que a voltaria a ver ?

Demorámos talvez uma hora a arrumar a bagagem na velha 505. As mochilas estavam carregadas com as roupas mal dobradas, com as botas, com os livros e com tudo o que tinhamos junto apaixonadamente naqueles dias, e era preciso arranjar espaço para o artesanto que cada um ainda quis trazer. O mais difícil, verdadeiro quebra-cabeças, foi enfiar uns enormes abat-jours de ferro fundido que o João tinha comprado para oferecer às irmãs. Tinham casa há pouco tempo e os tectos pediam luz. Todos de volta da carrinha, a empurrar tudo lá para dentro, à força, mas com o jeito necessário para não dar cabo dos ditos cujos. Eu e o João Tiago tivemos ainda tempo para preguiçar num último cigarro enquanto folheávamos as páginas do “Le Matin du Sahara” no café em frente.
Arrancámos, então.
Não nos iríamos deitar mais até chegar a casa. Passámos o dia na estrada. Primeiro para Casablanca, a cidade mais infeliz de Marrocos. Uma cidade coberta do mais moderno e urbano betão. Prédios sobre prédios que quase faziam esquecer o Mahgreb daqueles dias. Num cartaz alguém viu anunciar um jogo de futebol, Marrocos-Gâmbia. Decidimos fazer a experiência de ir ao estádio. Ganhou Marrocos por 2-0. Festa rija e a mesma eterna desordem por todo o lado, com muitas escaramuças e estaladas pelo meio... entre os adeptos... marroquinos. Um estado permanente de euforia e trapalhada emocional. Miúdos (e menos miúdos) a galgar para cima e para baixo as bancadas de dois em dois degraus. Confusão.
Comemos qualquer coisa e partimos para Rabat, a atlântica Rabat, onde chegámos às onze e meia da noite. Apenas para admirar a lindíssima Mesquita Real e desentorpecer um bocado as pernas numa volta pela praia. Pensava naquela miúda em Lisboa e no que lhe queria dizer quando chegasse. Pensava em Marrakesh.
Rodámos para Ceuta. Às dez da manhã passámos a fronteira, sem problemas, mas debaixo da habitual e demorada burocracia.
Algeciras, Sevilha, Portugal.
Em Vila Verde Ficalho parámos para almoçar. Um bitoque e uma imperial. Clássico.

Anoitecia quando vimos Lisboa outra vez. A viagem terminava. Tinhamos feito 4.000 kms completos. Estávamos todos cansados e a pedir uma cama de dois dias.
Vinha apaixonado. Foram nove dias de um obsidiante fascínio e, se eu fosse o John Lennon, dizia “chegámos um dia mais velhos”.

domingo, 20 de junho de 2010

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Casaco Verde

[Pandora em "A Balada do Mar Salgado",
de Hugo Pratt]
Conheceram-se em Janeiro. Ele sabia porque foi num dia frio e o fim do ano antigo tinha sido há pouco tempo.
Ela vinha metida dentro de um casaco verde comprido. Comprado talvez numa loja romântica de Berlim ou Nova Iorque. Enfiada nuns óculos escuros para não se lhe tocar. Por se ter levantado cedo. Foi então que se viram. Os olhos bateram-se e ele estremeceu. Num choque. Violento e sem explicação. Inesperado para os dois. Não se esperavam assim. Não se esperavam sequer.
Ele afundou os olhos no chão, nos papéis, para onde pudesse fugir. Melhor assim. Espreitava. 
Estava zangado. Tinha que estar. Estava assustado. Com o que não percebia. Como podia alguém flanar tão inocente sobre o real. Como podia alguém parecer pairar indiferente sobre aquele mundo. Da chatice. Do problema. Como ? Zangou-se. Falou-lhe mal. Apertou-a. Censurou. Talvez tenha abanado a cabeça. Zangou-se. Ela não respondeu. Sorriu de leve.
Depois disse-lhe que tinha que fazer uma coisa. Que ia fazer uma coisa. Ela não queria. Ele explicou. Deu-lhe várias razões. Todas possíveis, todas válidas. Nenhuma verdadeira. Como podia aquela honesta doçura, a verdade das palavras, a franqueza da verdade, a crua realidade entrar no mundo dúbio dos homens ? Num ringue torto e falso  ? Como podia aquela vida em estado puro, aquela aparente loucura ir para o meio de uma rua suja ? Não podia. Ele não queria. Só se não o pudesse mesmo evitar. E mesmo que só lhe apetecesse morder em quem lhe queria fazer mal. Ele, que fora feito para a luta, que se pelava sempre por uma, que não virava a cara, que por dentro só pensava em desfazer o sacana, assustou-se. Por ela. Lembrou-se que atacar era também não estar lá. E convenceu-a. Não convenceu. Mas fê-lo na mesma.

Nunca mais falaram. E o tempo passou. Muito. Imenso. Sem custar.
Um dia toca o telefone. Várias vezes. Nunca estava. Ela finalmente atende. Tratam-se por você. Ele não aguenta. Pergunta-lhe se pode por tu. Ela pede "Por favor!". Encontraram-se então. De novo o casaco verde comprido. Uma, duas, várias vezes. Coisa nova. Amor. Amor é amor. Escrevem-se. Algumas vezes. Depois deixam. Voltam. Mas pouco. Encontravam-se. Quando se viam havia tudo. Como se sempre se soubessem. Nem que fosse só num beijo roubado ao pescoço.
Mas havia um tempo. Cruel, feroz e assassino. A ele revoltava a vertigem do tempo. Não tinha tempo. Nunca. Para dizer o que queria. Para meter cá fora o que lhe rebentava por dentro. Confuso e sem jeito ele fazia qualquer coisa. Confundia. Não sabia como. Parecia outro. E por estarem longe, pareciam outros. Que não se conheciam. 
Se ele visse o tempo, agarrava-o. Como um miúdo. Como um homem, pelos colarinhos. Contra a parede. Com força. Olhava para dentro e ouvia o Jeff Buckley dizer que era "too young to hold on, and much too old to break free and run".
Ela também queria o tempo. Com tempo. Pairando. Flanando. Sem pressa de o matar. Haviam de se reencontrar.

Ele sabia que podia-se encontrar com a dor. Que dor, se é vida ? Que a vida só vale a pena se vier toda. Cheia. Dos bons e dos maus cheiros, e daqueles que se demoram a perceber.
Queria partir todos os relógios. Rasgar os calendários e dormir com o cheiro dela.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Bloody Sunday

Domingo, 30 de Janeiro de 1972.
Em Derry, Irlanda do Norte, uma manifestação pacífica da Associação dos Direitos Civis da Irlanda do Norte. Catorze pessoas, sete dos quais adolescentes, caíram mortas pelos tiros das tropas inglesas que investiram contra manifestantes desarmados.
Hoje, 38 anos volvidos, terminou o inquérito judicial a esta barbárie com conclusões devastadoras para o governo inglês.
David Cameron, o recém-empossado Primeiro-Ministro, declarou que o domingo sangrento foi injustificado e injustificável e pediu perdão em nome do governo e em nome da Grã-Bretanha.

Hoje lembrei-me de Belfast.
Dos seus murais, do mártir Bobby Sands e de entrar na temível Loyalist Zone.
Estive na Irlanda faz cinco anos. Dei a volta à ilha.
Conheci Belfast. Vi a separação de um país. De uma cidade. Dividida pela religião. Separada pelo sangue. Pela morte. Pelo ódio. De gentes que vivem na mesma terra, que pertencem ao mesmo país, e que são todos irlandeses.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Saravá !


"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.



O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."


Vinicius de Moraes

sábado, 12 de junho de 2010

O Campeonato do Mundo

Começou hoje. Sem apetite, com empates, mas Campeonato do Mundo. A mais importante competição de futebol.
A História do Campeonato do Mundo está cheia de momentos de glória, paixão e alegria.
A mim, contudo, sempre me atraiu mais o lado dramático do jogo. O lado trágico. A beleza das vítimas do cruel. As lágrimas do Eusébio, a bola que vai à trave, não entra, mas o árbitro diz que sim na final de Wembley de '66 e a Inglaterra a ganhar à Alemanha. A formidável máquina do futebol total, mais bonito, mais espectáculo, que era a "Laranja Mecânica" e que em duas finais consecutivas, perdeu ambas. O Brasil de sonho, de Sócrates, Zico, Falcão, Junior, Toninho Cerezo, a ser eliminado em '82 por uma Itália que nunca foi tão cínica. A revolta dos ingleses quando viram o árbitro assinalar o golo com a mão do Deus Maradona em '86. As lágrimas amargas do mesmo Diego Maradona na final de '90, ele que tinha carregado a equipa até à final, contra uma Alemanha que marcou de penalty... um penalty que não existiu. O mago Roberto Baggio (nesse ano talvez o melhor do Mundo) que atira por cima da barra e falha o seu penalty na final de '94. Um soberbo Ronaldo que na final de '98 se deixou engolir pela ansiedade e já não jogou. Zidane a fechar a carreira, expulso na final de 2006, por espetar uma cabeçada no peito de Materazzi depois de este ter dito coisas da mãe ou da irmã de Zizou. Em suma, o lado inumano ou demasiado humano do futebol.
Mas nunca, como há 60 anos, a final de um Campeonato do Mundo terá sido tão fatalista, tão terrível. No Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro, defrontavam-se Brasil e Uruguay. 200.000 pessoas nas bancadas. Um país inteiro a sonhar ser campeão. E que país! Começou o Brasil na frente, mas na segunda parte o Uruguay deu a volta ao marcador, meteu dois golos e venceu a partida.
Contam os relatos da época que logo ali houve quem não aguentasse aquela dor e pusesse termo à vida, lançando-se do alto das arquibancadas do maior estádio do Mundo.
Um trauma que só oito longos anos depois os brasileiros conseguiram ultrapassar, levados pelos pézinhos de génio de um menino chamado Pelé e pelos joelhos trocados de Mané Garrincha.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Ar

Há coisas assim. Que surgem parece do nada. Momentos que não nos esperam. Apanham-TE.
Não o tipo de coisas que não contamos. Essas muitas, centenas, milhares, infinitas e tremendas de treta. A que não ligamos mais do que a um caracol. Coitado do caracol.
Falo de Coisas. As Coisas. Das verdadeiras coisas. Que não empurram, mas acordam e perguntam e mexem na alma. Que esventram apenas. Sem penas. Que fazem sermos nós. Que mudam. Tudo. Que dizem gosto de ti. Não digo, não posso. Não acredito. Mas gosto. E assim eu já acredito.
Não tenho medo. É o melhor da vida.
Coisas que não pedimos. Que não escolhemos. Acontecem e acordam. Que perguntam saltas ou não. Ficas-te? Não não fico. Não me sabes? Se ficasse não ia.

No outro dia caiu-me no colo saltar de um pára-quedas, de um avião a 4.000 metros de altitude. Não disse logo que sim. Que me atirava assim para o vazio. Dei-lhe uma semana. Há medo, afinal há medo, quem tem cu tem medo. Vou. E agora só recuo para tomar balanço. Agora vou. Não sou de ficar. Ficar por ficar. O vazio afinal não é vazio. É chão.
A vida tem destas coisas. Mas não tem que ser salto. Pode ser voo. Perguntam é se vens ou não. Saltas ou não. Salto. Salto sempre. Se acredito. Desde que (acredite). Não gosto de engasgo. Das palavras que se esquecem entupidas. Que se apagam. Que não digo porque morrem na boca. Nunca Ave presa num voo desistido. Tímida. Acanhada. Saltas ou não. Salto. Mas mando-me em voo. Não é coragem nem fé. É um voo. Vivo. É Ar.
Saltas ou não. Sim. Já disse. E num segundo, acreditas? Não penses.
[Lago Naivasha, 5h35m, um Marabou]

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Did I


b y r u s k a  

Cadernos Marroquinos - 7º Dia

Acordei ao som da desordem, a enorme e alegre desordem de Marrakesh. De lá de fora brotavam milhares de sons. Diferentes daqueles que conhecemos. Vozes imperceptíveis, alaúdes, flautas berbéres, os crótalos, um instrumento musical feito com uns pratinhos de latão, guinchos disto ou daquilo, o corropio das pessoas, bicicletas, o chiar das carroças, o roncar velho das motoretas, algumas buzinadelas também.
Quis ir logo para o terraço para ver a impressionante Kutubia, a magnífica mesquita de Marrakesh. A Kutubia parece que nasceu ali. Como uma palmeira. Saiu do chão e ergueu-se até dizer “Daqui vejo tudo!”.
Inspirado por aquele deslumbre e tomado por uma estranha fé, decidi ir até ela. Não me deixaram entrar. “Ocidental.” Devo ter protestado qualquer coisa. Nunca gostei que não me deixassem passar. Talvez tenha dito que estranhava não ser convidado. Regressei ao Hotel onde a malta ainda dormia. Pelo caminho, parei numa das muitas barraquinhas da Jemaa el-Fna carregadas de tabuleiros com deliciosas e sumarentas laranjas que vêm das praias de Essaoira. Moeram-me duas ou três e bebi um sumo. Ah!
Perguntei à rapaziada quem é que queria enfiar-se comigo nos souks. Ainda não eram onze da manhã e o cheiro intenso a borrego já invadia a medina. Peles a curtirem-se ao sol, homens a fazerem tintas que espremem de dragoeiros criando coloridas misturas. Cheiros depois diversos, de ervas e especiarias, das buganvílias que crescem nos terraços e descem pelas paredes, de óleos extraídos de plantas que nunca vi.
É verdadeiramente uma cidade de emboscada. Pressinto que me vai custar deixar esta terra dos diabos! Facilmente se fica refém, perdido num maravilhoso dédalo de sentidos.
Chegados a este dia era impossível não estar rendido à simpatia destes fulanos de trato fácil e espírito aberto. Resolvi mandar os primeiros postais para Lisboa.

A meio da tarde, a medina está em êxtase. Por todo o lado se ouve negócio. Fomos ver o artesanato. Há quem compre candeeiros. Uns só pelo gozo entretêm-se a discutir o preço de uns tapetes. Eu viro-me para um prato em cerâmica. “Quanto custa?” “Ohhh, não! Para quem é?” Digo que é para oferecer aos meus pais. Pede muito. Regateio. Explico-lhe que não sou americano, nem alemão. Pergunta-me quanto é que dou por ele. Ofereço-lhe um quarto do que ele pede. Ele parece ficar ofendido. Faz-se. Diz que nunca foi tão insultado na vida. Mas como simpatiza comigo, diz que me baixa o preço. Pouco. Digo-lhe que ainda não trabalho, que sou estudante. “Pas d’argent!”. Ele coça o bigode. Pede menos agora. Ameaço que me vou embora. Pergunto-lhe se está a brincar comigo. Se é assim que trata toda a gente. E ele diz que o quero levar à ruína. Que tem cinco filhos para alimentar em casa e uma sogra. Respondo-lhe que não tenho culpa disso. E que não sou eu que lhe vou pagar a reforma. Mas subo um bocadinho, avisando-o de que é o meu último preço. Agora, parece mais interessado. Já diz que compreende. Que somos capazes de nos entendermos. “Afinal, somos homens...” Elogia a qualidade das peças que vende. “Pintadas à mão!” Digo-lhe que já vi muitas assim. Até em Portugal. “Impossível! O Ahmed não manda nada para fora.” Pergunta-me se quero levar o prato por 400 dirhams, metade do que pedia no princípio. Apertamos as mãos e fechamos negócio. Ele sorri e eu também.

O Índio

Rafael Nadal é impossível.

O índio da terra batida voltou a ganhar o torneio de Roland Garros. Apenas o segundo jogador na história do ténis que o venceu por cinco vezes na sua carreira. A seguir ao mítico Bjorn Börg.
Explosivo este jogador, que não perdoa. Disputa todas as bolas, luta por todas as bolas, come (quase) todas as bolas e, durante uma partida, nunca dá uma bola por perdida até o ser finalmente declarada pelo árbitro, depois de discutida um pouco mais.
Hoje viu-se um Rafa impressionante. Desde o princípio se sabia que não daria hipóteses a Soderling que cometeu erros atrás de erros. Alguns forçados, outros não, mas erros que Nadal não perdoa.
Nadal precisou apenas dos três sets iniciais para dizer quem manda em Roland Garros, torneio que Soderling tinha vencido na época passada, tendo eliminado pelo caminho o mesmíssimo Rafael.
Ninguém fica indiferente a este jogador. Uma fera de dentes afiados e estilo pouco ortodoxo, fita verde fluorescente na cabeça, calções compridos, camisa muitas vezes com manga de “basket”, a antítese do clássico jogador que é, por exemplo, Federer, um cavalheiro suiço que perde com a mesma elegância com que ganha. E depois acerta o relógio.
Quando aos 11 anos comecei a jogar ténis, o meu professor insistia para que jogasse “com estilo”, tinha de saber bater as bolas em profundidade, fazer um pass-in-shot puxando a raquete atrás, as cruzadas tinham que ser elegantes, os amorties suaves, o serviço como se cortasse uma laranja, a esquerda tão boa como a direita. Mas como sempre tive a mania de contestar à primeira o que me diziam, procurava fotografias dos "Prós" em revistas da especialidade a jogarem com o “pulso” (proibitivo e sem estilo) e depois lá as levava todo contente ao professor para ganhar na discussão. E ele respondia que eu tinha era que pôr os olhos no Stefan Edberg ou no Boris Becker que faziam apenas uma “bola de recurso” por jogo. E eu calava-me e tentava aprender o que via.
Rafael Nadal é um índio. Parece que só sabe jogar assim, com o pulso. Um pulso violentíssimo, como se desse machadadas brutais nas bolas amarelas do jogo. Parece tudo menos bonito. Mas, no final, acabamos por nos render também a esse estilo de jogo que é de rebentar com todas as formalidades do ténis.
Com 24 anos este índio dos courts já ganhou mais do que muitos antes dele, mas tem ainda uma longa carreira pela frente. E vai continuar a saborear vitórias, porque quer bater todos os recordes da modalidade. Não lhe chega ser segundo em Roland Garros. Quer ser o primeiro. Em todos os pisos e torneios.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Never dream awake

(Dennis Stock)

Never dream awake

Foi o que ela lhe disse. E ela sabia. É um inferno. Vais-te tramar. Mas como? Quem é que está a sonhar ? Acordado sim porque é preciso para ver. Mas sonho, não. O sonho não existe. Não sente. É sonho. Não vive. Não acorda. É névoa. Não mexe. Sonha.
Mas foi o que ela lhe disse.
Naquela altura podia ser Nova Iorque, Paris ou Roma, mas era o Porto. Estranho para um sonho.
Para ele o Porto, naquela altura, não era uma cidade-sombra. Nem névoa. Não era a espuma das ondas a desaparecer na areia. Era o Norte. Tinha que lá chegar, que é duro, mas meiga. Tinha um Sol. Muito sol. Estranho para um sonho.
Ou Lua. E um frio, dor de quem ama. Frio, não. Ou sim. Já não percebia nada.
Tinha sotaque. E um trejeito do lado esquerdo. Era fogo! Era longe perto. Linda. Aquele Porto gosta. E para ele o Porto envolvia, agarrava. Entrava, entrava.
Naquela altura o Porto era a Foz. Era o mar. Enorme, enorme. Envolvia e agarrava. Mas despedia.
Para ele o Porto tinha mãos, e lábios, e olhos, de mel. Torrado.
Era um peito. Uma menina. Para ele o Porto brilhava. Era um poema que pegava nele. O Porto era um corpo que beijava. Um pescoço. Lindo. Que dava o jeito.
O Porto beijava. Era língua.
Aquele Porto seduz, feliz. Chama, chama. Mas também cala. Um silêncio que fala, pensava ele. É música. É Cure ou “Green is the colour”. Um candelabro. É muito.
Estranho para um sonho.
Protegia-o e abraçava-o. Abrigava-o.
Era noite, madrugada. O Porto escrevia saudades. Dizia estamos juntos. Tocava.
O Porto estava lá e… ele cá.
Era magia. Incrível ! Cinema. Mistério. Sombra. Tinha frio, e ele um casaco. Estranho para um sonho. O Porto é bonita.

Mas ele calava. Também. Não queria ser coincidência. Impulso. Fantasia. Delírio. Mas achava que lhe lembrava dor, insuportável. Queria pegar-lhe na mão. Ouvi-la muito. E acreditar. Para não morrer na expectativa do que poderia ter sido e não foi. Acreditar que podiam ganhar ao tempo e à distância, que podiam ganhar ao terror de perder tudo o que tinham até ali, para ganhar ainda mais.
Mas ela dizia-lhe Never dream awake. Só quero ser salva.

Perfeita e Linda

Triumph Bonneville 790 ccm