sexta-feira, 17 de maio de 2013

que orgulho ENORME em ser do Benfica ! - III



Às 3h46m da madrugada recebo uma mensagem no telemóvel que me interrompe o sono que teimava em não acontecer. Completamente estremunhado, leio: "A CAMINHO DA GLÓRIA! CARREGA!"
Era o Renato. Já vai para o aeroporto.
Verifico se os dois despertadores que marquei para as seis da manhã estão Ok. Estão. 
Viro-me para o lado, mas às cinco não dá mais. É como quando nasce um filho. É impossível dormir quando sabemos que dentro de poucas horas há história para fazer. Estamos quase a embarcar para acompanhar o Benfica na final. Esperámos 23 anos por isto, caralho !
Às 6 e meia, tenho o João Tiago, compadre velho, parceiro querido e irmão de sangue, a telefonar-me. "Era só para ver se não adormeceste." Digo que lhe ia fazer o mesmo e que já vou dentro do táxi.
Com a camisola do Glorioso (anos 60, também final Amesterdão) vestida, aviso logo o chefe do táxi que obviamente não lhe vou dizer para onde vou. Ele ri-se. 
No aeroporto começamos a encontrar a Família. Primeiro as glórias: Simões, Toni, Veloso, Abel Xavier, Schwartz, o RAP e os amigos fedorentos... Encontramos o Pedro Rodrigues da faculdade, que já não víamos há uns bons 15 anos. Vem no nosso avião. O Benfica é assim. Reúne. Reencontra.
O voo é feito com uma ansiedade que não conheço. Detesto cada vez mais andar de avião, mas ir ver o Benfica no estrangeiro (experiência virgem, guardada religiosamente para a altura certa) pelos vistos ainda me põe mais nervoso. Tranquilizo-me quando reparo que o Valdo, o nosso antigo camisola 10, vem connosco. Está mesmo na fila da frente. Um amigo pede-lhe um autógrafo e eu também, que é para o puto. Vou falar com ele e pergunto-lhe como é que vamos jogar. "Com calma.", responde o sacana com o sorriso apaziguador que têm os negros.
Quando aterramos, oiço o Rafael: "André, dá lá o tom." E começa o Piçarra que tenho no telemóvel, «Sou do Benficaaa, e isso me envaidece...» . O avião põe-se num coro que me comove. O Rafael trouxe a Margarida. É a mulher e faz anos. É preciso que isto se diga.
Chegamos a Amesterdão. Que puta de cidade para ver o Benfica jogar !
Vamos logo para a Praça Damm. Já está cheia. Metade, metade. Anoto um pormenor delicioso: no lado da sombra estão os adeptos do Chelsea; ao Sol, a cantar como nunca, estão os nossos !

Hoje é dia de reunião magna da Luz: o Benfica vai jogar uma final europeia e, por isso, começamos a encontrar a nossa malta. Sem ter combinado, aparece-nos o Rojão, o Bairrada, o "Benfica", o Vasco e os amigos do escritório do gajo, o Pedro Mendes. Falamos com todos, damos um abraço e gritamos Viva o Benfica !. Esta merda é linda !
Depois, enfiamo-nos numa rua que sai da Damm em direcção ao "Red Light Dtct." para ir comer um bife e engolir umas canecas que a fome é muita e a sede é mais. 
O Renato ainda não tem bilhete para o jogo, mas está sentado com uma calma impressionante à mesa de um argentino, com o "Bebes" (da Católica), o João Leite e outros tipos com as camisolas mais bonitas que há no mundo. O "Bebes" tropeça numa cadeira, cai desamparado de costas, mas não entorna a cerveja que segura como se fosse a Taça.
Regressamos à rua onde a malta continua a pagar bejecas. Escutam-se os hinos. Cantamos. O Barbas e o Máximo fazem o seu número, mas falta cá o Torgal, amigo de sempre.
Malta, está na hora de ir para o Estádio. Agarramos os cachecóis, e há bandeiras que nos abraçam. Brindamos para dar força. Fazemos juras de amor eterno, que é disso que afinal se trata, e é aí que eu arranco: «Sou do Benficaaa...» Na rua, todos param e juntam-se a nós. Família !
Elegemos a frase do dia. Do João Leite: "Vamos resgatar a puta da taça que nos roubaram há 30 anos !" É isto mesmo.
Já em frente ao Arena, continua a reunião magna. Metemo-nos com todos, que a alma é enorme. Com o grande Pedro Ribeiro da 'Comercial', e a vez que jogou na Luz com o Aimar, com o Pedro Pinto da TVi (a quem falamos do Luisinho), com o Martim Avillez. Falamos com holandeses, com ingleses, e toca p'rá fila que 'tá na hora.
Ao meu lado, de repente, dizem-me que está o pai do "Bebes". Tem 70 e poucos anos e está ali no meio dos empurrões. Desejamo-nos sorte.
O Estádio está maravilhoso. Os ingleses são mais, mas ouvem-se menos. Começo a receber mensagens de Portugal: "André, tu és o ponta de lança !", escreve o Miguel; a Cristina manda-me fotos dos miúdos. Peço-lhe mais uma. Digo que preciso de várias.

O jogo começa. Jogamos bem. Anularam um golo ao Tacuara. Parece que o ombro estava fora de jogo.
Ao intervalo 0-0. Damos de caras com o Pacheco, que foi extremo no Benfica. O que é que fazemos, Pacheco ?: "Fica tudo igual para ver a reacção deles. Estou nervosíssimo.", comenta connosco.
Recomeça a partida. Eles marcam. Sempre o filho da puta do Torres. Como odeio, o cabrão ! Mas há penalty. O nosso 7 empata. O sonho renasce. A seguir estoira para a baliza, mas o redes deles é bom, está atento e desvia. Lampard devolve a graça e abana o poste do Artur. 
Já não aguento mais. O relógio marca 90+3. É canto. Cabeçada, e bola nas redes. Gelo. Silêncio monumental. Tenho o cachecol na cabeça.
Acaba. Jogadores caídos. Uns choram. Ao meu lado, também vejo lágrimas e pessoas incrédulas. É um resultado que dói de cruel. A vida não é tão trágica assim. Engulo em seco.... mas estou em paz. Somos uma raça do camandro ! 
A saída do Estádio pesa. Quero vir rapidamente para casa, meter-me na cama. No autocarro, o João Tiago ouve o Seara, o de Sintra, com histórias intermináveis, e pergunta e ouve, e pergunta e ouve, "Não percebe ?", "O Senhor Professor é que sabe.", enquanto eu já durmo de boca aberta. É irreal ! 
Apanhamos o avião num silêncio que diz tudo. Portela: 3 da manhã.


3 comentários:

  1. Brilhante, ,muito obrigado. Escondi-me por detrás do muro da Escusa que começa e acaba na diferença horária. Vivo em Macau, e tremia. Enquanto me lembrar deste seu texto, Primo - Família! - nem que a vaca tussa fusos de 8,10 ou 12 horas. O melhor texto que já li de um adepto. E como eu papo textos!!! Muito obrigado!
    (Alfredo Maria Vaz)

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  2. Bem esgalhado.
    Que pena este clubismo de gema não marcar golos!
    Se marcasse, tinham sido vários.
    E o Renato, conseguiu bilhete ou fizeram-no entrar à sucapa?
    Vulpes

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