sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sevilha



Paco, o grande Paco de Lucía a receber-nos na cidade mais flamenca que existe.

Que 'ganda' título !


"O FREEPORT
NUNCA EXISTIU ?"

NB: Com MP, sem ele, ou fora dele, JÁ NÃO HÁ SACO PARA TANTO FORROBODÓ.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Julie

É um nome bonito.

É também o nome de uma actriz que faz música e canta. Bem.
Acho que me apaixonei logo por ela quando a vi em “Antes do Amanhecer”.
A culpa foi do comboio. Parecia que estava outra vez num inter-rail a caminho da Europa.


Depois vi-a casada e a divorciar-se no “Branco”, da trilogia do polaco Kieslowski. Uma mulher bela e quase angelical. Como uma miragem daquilo que acontece entre ela e o marido.
Julie sempre foi um nome bonito. Julicioso. E cantado. Os Beatles tiveram uma ‘Julia’ no mítico “White Album” e os Pink Floyd cantaram um ‘Julia Dream’.
Mais tarde voltei a encontrar a Julie no “Before Sunset”, o amor depois da maioridade, filme da livraria e de canções como esta.


No INDEX

Quando a Inquisição governava o mundo (e depois ainda), a Igreja foi seleccionando aquelas obras cuja leitura devia ficar vedada aos olhos dos mortais. Chamou-lhe “O Index”.


Não sei o que leva alguém a escrever (e publicar) que a música em Portugal é um “fenómeno sazonal”, que “com o calor, os portugueses lembram-se de que afinal gostam de música”, que a Amália Rodrigues é a “única referência musical portuguesa”. E que, portanto, com o Verão, vêm os festivais de música “ou a euforia de Verão” e “que quando as árvores começarem a perder as primeiras folhas, o sound of silence vai voltar a ser a música de fundo do país”.

Como disse, não sei o que leva alguém a escrever coisas como estas.
Talvez que a pessoa em causa não se levante muito do sofá ou viva numa Redacção emboscado em informações mais ou menos jornalísticas de números de vendas e estatísticas. Talvez veja o mundo no pretérito passado ou, simplesmente, não goste de música. Também pode ser por não ter mais assunto.
Não sei se esse é o caso de João Godinho que pôs uma crónica no “index”, revista que sai ao fim-de-semana com o ‘i’. Mas apetece-me dizer-lhe que faria bem em ir a um desses eufóricos festivais de verão para perceber como tantos portugueses se encontram repletos da música que vão ver tocar e conhecem de cor. Basta um acorde, porque só precisam de um bom pretexto.
Talvez devesse juntar-me com uns amigos e oferecer-lhe um bilhete para a temporada de Outubro a Maio numa, ou mais, salas de espectáculos do país, ou numa pequena sala de música como a “Galeria ZDB” ou a “Santiago Alquimista”. Talvez assim ele reparasse como estão cheias de entusiasmo e vibrações ao longo do ano. Como o país tem produzido bandas e músicos que tocam e apresentam sons novos e bons.

O público português anda sequioso de oferta cultural (toda) e a música norteia essa busca, cada vez maior. E cada vez mais artistas do mundo inteiro (batidos ou em começo de carreira) escolhem Portugal como rota das suas tournées para oferecer aquilo que vão fazendo. E nós recebemo-los. E bem. Com as canções todas no ouvido e as letras na língua. Talvez que a malta nova não compre os discos, como JG reclama, mas saca a música da net e organiza-a à sua maneira. Mas, sobretudo, ouve-a.
Por isso é que sei que quando vier o Outono, as salas vão continuar a encher. Porque não são mesmo quaisquer bares de praia.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O meu pequeno índio

('Fort Wheeling', Hugo Pratt)

Se os teus pais fossem índios, terias nascido índio, serias um menino índio, a correr na pradaria. Atrás de um cão ou de um gato. Terias nome de índio. Serias o Todo-Sorrisos.
Porque tu, rapaz, tu és todo alegria. Não há dia que não te apanhe de manhã sem te ver logo feliz. Com os teus olhinhos negros. Com esses caracolinhos levados que foste buscar talvez ao Avô Luís. Com tudo. Ou quando chego a casa e te me vens agarrar, todo brilho. Radiante. Puto: és tramado. Um mistério ainda para mim.
Não és índio. Mas és.
Um pequeno patife incapaz de parar, um pirata que só sossega quando o cansaço é já demais. Um rapazinho fascinado pelos discos do pai que insiste em tirar do sítio. Pelos livros espalhados pela casa que só estão bem quando os pões no chão. Um malandro que já chutas na bola e adoras tomadas... e os brinquedos que apanhas da mana, e as folhas das plantas, que arrancas à bruta, e as portas dos armários que tens de abrir (150 vezes) e tirar tudo o que vês lá dentro. E trepar a tudo o que é alto. E abanar e fazer barulho. E as cordas da minha guitarra eléctrica.
Apanhei-te, meu pequeno guerreiro, a dar cabeçadas na porta de vidro que dá para a varanda. Como te rias ! Até doer. Mas que diabo fazias tu, miúdo ? E quando reparaste que tinhas a plateia da tua irmã, repetias a brincadeira. Tive que te pegar e tirar dali, para não ficares com um alto na testa.
Não enganas ninguém, rapaz com feitio. Brigas se as meninas mais velhas da casa se metem à toa contigo. E reclamas, e protestas e elas vêem que é a sério. E já não te tiram o que guardas na mão.
Tu que és o Todo-Sorrisos, com nome do último rei dos Visigodos.

sábado, 24 de julho de 2010

no Campo Base do Everest - 5.360 mts. de alt.

E agora, Pai, é isto que vês ?

STOP !

e fait attention

Ouvi-os outro dia no Late Night do Jimmy Fallon.
Os 'Broken Social Scene'.
Tocam como se ouve.

E vêm cá. Em Lisboa (Aula Magna), 7/11, e no Porto (Casa da Música), 8/11.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Domingo foi dia de missa

... mas não tem que se ficar até ao fim, nem é preciso chegar à hora.

Domingo era dia de missa e tinha que se passar cedo para el otro lado del rio (como a canção dos diários do Che). Vá, não foi muito cedo.
Passou-se. A ponte. Sem stress. Fácil até.
Depois chegar ao corte para Sesimbra/Azeitão. Sair. Apanhar a nacional e atravessar a desgraçada Fernão Ferro, dos cães de louça e das casotas em alvenaria à beira da estrada. Feito.
Agora, seguir para o Meco. Estradita bonita. A Lagoa de Albufeira assinalada para a direita, Alfarim e, pronto, já está. Qual é o drama ? 30 minutos normais.
Pelo caminho, vestígios das vésperas marcadas no pó de duas camadas que cobria grande parte dos carros. Estes estiveram lá. O recinto da Herdade Cabeça da Flauta (que nome óptimo!) e um parque de campismo semi improvisado numa encosta do sítio. Repleto de tendas. 500 ? 1000 ? Mais ? Muitas. Tudo dorme ainda. Quase meio-dia. Achei piada.
Liga à Susana. Acorda-a. Uma amiga querida que abre a porta. De fato de banho. Oiço o soul a sair de dentro. Sharon Jones. Espreito. Duas ou três raparigas estendidas na relva que dava a volta à piscina. Um tipo de óculos escuros numa cadeira de lona e folhear a Rolling Stone. Casa-design.
Primeiro praia. Difícil pelo meio das arribas. Mar lindo (ui!, já parece aquelas pensões da zona Oeste). Mar bom. A dar chapadas. Na cara. Carregado de sal. Estico-me todo na areia. Mais uns mergulhos. Ah!
A seguir, uma mariscada. No 'Gula do MeKo'. Sítio novo. Até chupo os dedos. Bate papo porreiríssimo com grupinho bem bacano. A preparar a noite.
De volta à casa da Susana. Saltos para a piscina e o i-pod do tipo de óculos escuros a destilar música na aparelhagem. Agora é assim. Ninguém se levanta e não se muda o disco. Mas toca bem. Muito bem.
As horas passam. Tão devagar como eu a virar-me ao sol. A Cristina mais.

São seis da tarde. Convém sair. O Palma toca daqui a 20 minutos com o gangue.
Não. Deixa-te estar. Mais um bocado. Está-se bem aqui.
São sete da tarde. Agora é que tem de ser.
Tchiii, uma fila de carros. E ainda é só o princípio. Virámos agora do cruzamento para a Aldeia do Meco. Bonito. Põe-se música. Começa o pára-arranca e abre-se o vidro. Não me irrito. Ainda anestesiado pela calma toda do dia. E de resto não tinha alternativa. Embora é que não ia. Bilhetes há um mês e um concerto para ouvir.
Duas horas depois, carro chutado para o meio de um espaço gigante escolhido como parque. Depressa que daqui a 15 minutos tocam os The National. 
À partida um festival de Verão, com muita areia por perto, não lhes vestia o fato. A ver.
Afinam-se instrumentos, checa-se o som. Revêem-se os amplificadores. Tudo ligado.
Os dois pares de irmãos sobem ao palco acompanhados de Newsome (tipo das teclas, do violino e outras sonoridades). Engravatado e soturno, Matt Berninger é o último. Agarra-se ao microfone. Como a uma mulher. Como quem faz amor.
Fecha os olhos e o concerto começa. Indie rock.
"Afraid of Everyone", "Blooduzz Ohio", "Apartment Story", "Slow Show", "Sorrow", "Terrible Love", "Fake Empire".
Estão lá todos, 'Alligator', 'Boxer', 'High Violet'. Desce do palco, mete-se com o público. E volta, tropeçando, cambaleando. Esgotado. Despedem-se pouco depois, ao fim de uma hora e tal e 16 canções, dizem os jornais. Thanks, guys ! Não nos esquecemos. De nada nessa noite.



O cartaz apontava agora para o John Butler Trio. Mas a barriga falava há horas. E já o tinhamos visto há dois anos noutro Alive. Ganha a fome.
Regresso para ver o Prince.
"We are all here to make love", "We love God", a guitarra que ele soberba e virtuosamente esfola, quase como um deus, quase como um Hendrix. Mesmo essa. Tocasse só.
Quase até ao fim. Abandona-se o pó. Do carro escuta-se ainda o 'Purple Rain', por entre milhares de ecos. E da guitarra. Saímos e parece que sou o único que parte. Como se deixasse um Woodstock (vá comparação!) de helicóptero antes do tempo. Sem pena. De papo cheio. E só 30 minutos até Lisboa.
Domingo foi dia de missa
... mas não tem que se ficar até ao fim, nem é preciso chegar à hora.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Jornalismo

A Visão on line de hoje traz o eco de uma notícia em que se dá conta de como uma baleia assaltou um iate que navegava nos mares do Sul.
Não percebo este jornalismo, confesso. 
Diz que o passeio era familiar, que estava a ser tranquilo, identifica pelo nome e idade os ocupantes do veleiro e refere o tamanho do dito cujo.
Também informa que, apesar da destruição, foi possível ao casal regressar a terra porque o motor não foi danificado,

quando o relevante era saber quem é que estava ali para registar o acontecimento.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Perseguir o Mundo

"Human beings travel for many reasons. Nomads travel because they have to. The curious travel because they think they need to. Traders travel because money temps them to. Imperialists and their soldiers travel because great powers order them to. Religious zealots travel because they believe a deity requires them to. The imprisoned travel because the idea of escape motivates them to.
But I travel - as do many around the world, and quite probably most of you who are reading this - for a much less obvious set of reasons. I travel to satisfy two elemental and compelling yearnings, both of which were in my case, and are in the case of many, conceived in youth - and in a time of life which, in my own case at least, was long before I in fact ever travelled anywhere at all.
(...)
I can sum it up this way: In the very early years my notion of travel was guided, quite simply, by romance, by fantasy, and by dreams. And by the time I had become a student, this sense had been transmuted, moderated, and mediated by a new need, the second element: the entirely practical need I felt to have adventure, to suffer experiences, and to enjoy and endure memorable happenings.
And I would suggest that this twin-track approach, if I can call it that, is what should perhaps underpin everybody's longing for travel. I would like to hope that the dual yearnings for romance on the one hand and adventure on the other should be the prime motivating forces that drive all of us, at least once in a while, to get away from the comfort of our living rooms and into the wild outdoors."

Simon Winchester

Como é o Tibete, pai ?

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Mad as Hell

Às vezes quando leio notícias como esta

"Comparisons to the Great Depression keep popping up"

ou quando oiço que o oráculo chamado Moody's resolveu baixar o 'rating' da economia de mais um país qualquer que lhe passou por baixo do nariz,

lembro-me de filmes como este


quinta-feira, 15 de julho de 2010

Domingo é dia de missa


Palma's Gang 18h00-18h50

The National 21h30-22h45

John Butler Trio 23h05-00h05

Prince 23h45-01h15



(e ainda vai dar para furar umas ondas e esticar-me na areia)




terça-feira, 13 de julho de 2010

Alive !


Dizer que a noite de sábado no passeio marítimo de Algés vai ser a melhor noite de Verão do ano porque foi o melhor concerto da temporada - e estamos apenas no princípio - não é o exagero das palavras ou a hipérbole habitual de quem sofre o último impacto, de quem gosta muito de uma banda e cresceu a ouvir os seus discos. Não é sequer correr um grande risco.
Numa noite de pó, os Pearl Jam recusaram o espectáculo artificial da luz excessiva que corta o olhar e parte o ouvido. No palco aparece Eddie Vedder. Blusão de pele, guitarra ao ombro e botifarras de estivador. Tranquilo e reconciliado com as revoltas do passado, Vedder parece, como li algures, o Dude de "The Big Lebowvski" que, entre canções, diz ao público que vai ter tempo para apanhar umas ondas e «aqueles que também forem para o mar pensem em nós e digam "Esta é para ti, Ed !"».
Sem pedir licença, o concerto começa com um brutal "Release", logo seguido do enorme "Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town". "Animal" e "Given To Fly" completam uma intro perfeita para o alinhamento.
Já tem o público com ele. Mas não lhe chega, e porque nos conhece bem demais, agradece-nos por os termos convidado «para a vossa festa, por nos deixarem pôr música por cima de vocês, à vossa volta».
Quando o cabelo escorre e o blusão já foi para algum lado tocam "Nothingman", "Daughter" e "Even Flow". Temas que construiram a banda. 
Na acústica surgem depois os magníficos "Just Breathe" e "The End" (do Backspacer) a querer colocar tudo no sítio próprio. Na noite amena.
Por esta altura a fusão com o público completou-se e parecemos membros privilegiados de uma seita que olha para os anos '90 com a saudade do que não apetece que volte.
No lado esquerdo do palco começa a brilhar Mike McCready que pega na sua Fender Stratocaster e começa a sacar acordes e solos apertadíssimos. Toca por trás da cabeça, deita-se, senta-se no chão, com a guitarra entre as pernas ou de lado e vai-se perdendo como se rezasse a Jimi Hendrix.
No final, já Vedder se entregou, e a garrafa de vinho tinto, que pega como se fosse um poeta numa récita, percebe-se que o ajudou a aguentar a garganta. Para terminar o concerto com "Betterman" e, claro, com o mais que mítico "Alive".
Eddie Vedder deixa o palco carregando a bandeira nacional aos ombros. Embrulhado nela.
Sentimos que foi uma noite boa. Até porque nos tinha avisado que este último concerto da digressão não seria o último de sempre, mas o último em muito tempo. O que era uma coisa boa, porque como não sabem quando irão voltar, «mais vale divertirmo-nos». Percebo isto.

sábado, 10 de julho de 2010

Sufjan Stevens

Soube da existência de Sufjan Stevens há mais ou menos um ano. Ouvi uma canção dele na Radar(provavelmente num sábado de manhã) e ficou-me logo no ouvido. Não percebi imediatamente o nome do artista quando o locutor o anunciou. Como era estranho, pareceu-me "Sophie and Stevens".
Fixei a ideia. E assim que pude fui a uma loja atrás do bendito "Sophie and Stevens". Não havia. E ninguém conhecia. Valeu a internet que, além de ter tudo, corrige aquilo que nós não sabemos bem. Quando googlei o nome que julgava ser o dele, perguntou-me se não queria dizer Sufjan Stevens.
E queria.
Depois aconteceu-me uma coisa não muito vulgar. Como tenho boa memória musical, fui novamente a uma loja de discos com a canção no ouvido à procura da música dele. Desastre. O Sufjan fazia música desde 2000 e já tinha uma série de discos editados. Como é que eu iria encontrar aquela de que tinha gostado ?
Peguei em 4 ou 5 discos e comecei a audição. Desastre outra vez. Cada disco tinha para aí umas 20 canções. Ao fim de meia hora a minha cabeça vivia na confusão. Nunca iria encontrar aquela. E então decidi levar o disco que me soubesse melhor. Escolhi "Seven Swans". E andei a ouvi-lo cá por casa sossegado.
Mas o que é raro acontecer-me é que, afinal, a dita canção estava no disco que trouxe e eu não sabia. Não soube durante este tempo todo, até que novamente a apanhei num sítio qualquer, fui atrás do disco e... já o tinha.
Era esta.
Entretanto, Sufjan Stevens não tem andado propriamente quieto. As últimas do rapaz foram as suas participações nos back vocals do "High Violet" dos The National. Vale a pena em especial ouvi-lo, com Matt Berninger no "Afraid of Everyone".

sexta-feira, 9 de julho de 2010

quinta-feira, 8 de julho de 2010

quarta-feira, 7 de julho de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Últimas do Governo

José Sócrates anunciou recentemente que independentemente da decisão que o Tribunal Constitucional venha a tomar sobre a questão da legalidade do aumento dos impostos com efeitos retroactivos, o Estado não irá devolver qualquer dinheiro aos contribuintes.

E em entrevista ao 'El País' manda a Telefónica pentear macacos e avisa o BES e a Ongoing que não podem violar a vontade do Estado.

Não é nenhuma novidade que este Governo gosta especialmente de mandar.
Cheira-me cada vez mais a cavacão.
Só faltam os manifestantes, numa ponte ou numa universidade, e a polícia começar a brandir os seus cacetetes. Tudo para o nosso bem, claro.


Estou cada vez mais anarca.

sábado, 3 de julho de 2010

Os telhados de Lisboa

(rasputine)

Há uma esplanada em Lisboa para onde eu gosto de vir nas sextas-feiras ao fim da tarde. Mais do que para qualquer outra. E são tantas.
Pego na mota, e vou. Desço a avenida até ao Rossio, meto-me pela rua do Ouro quase até ao fim e viro na rua da Madalena. Corto para a Sé e subo, subo, subo. Como se só houvesse um caminho possível. Fica na Graça.
Sento-me e peço um gin tónico ao empregado e um maço de Luckies. Ponha na conta. Fumo um.
Às sete e meia da tarde ainda não chegaram os grupos de rapazes e raparigas que enchem a noite e que depois descem para as discotecas. Os turistas a essa hora também estão normalmente a jantar.
Um velho pede-me dinheiro com os dedos. Balbucia qualquer coisa que não percebo. Dou-lhe uns trocos para a mão. Balbucia um pouco mais.
Olho para o busto de Sophia, bem junto ao varandim, que contempla alheia o horizonte do rio Tejo. De queixo levantado como quem respira. Só reparo na igreja quando os sinos dobram. Graves.
Corre uma leve brisa que abranda o calor que o sol ainda deita e que borra tudo de um dourado que não existe. Uma rapariga apanha o cabelo. Ao meu lado outra fala castelhano. Um dia hei-de dizer ao puto para trazer aqui a miúda que ele ame.
Pago e vou-me embora.
Lisboa não é Buenos Aires, nem Roma ou Paris, mas tem uma esplanada, a esplanada da Graça.

O primeiro momento trágico do mundial

é do Gana.
Minuto 120. Resultado em 1-1.
No último minuto do jogo, num ultimíssimo segundo do prolongamento, livre contra o Uruguai. O árbitro apita para a marcação, sai um remate, há uma primeira defesa em cima da linha por Suarez já com o joelho, a bola ressalta para um ganês que joga de cabeça em direcção à baliza e Suarez (outra vez ele), em puro desespero, acto alucinante, poético e lindo, mete as duas mãos à bola para impedir num reflexo heróico e louco a vitória do Gana. Expulso e penalty contra o Uruguai. Sai em lágrimas agarrado à camisola. Na cabeça já via o seu Uruguai eliminado.
Mas não. O trágico, aquele momento trágico de que falava aqui no outro dia, acontece com o remate à trave de Gyan na conversão do penalty. Quando podia ter levado o Gana a ser o primeiro país africano numa meia-final de um campeoanto do Mundo, a bola não entra.


E o Gana acaba eliminado, humilhado com um penalty à Panenka, marcado por um jogador a quem chamam "El Loco".
Impossível não comover a tragédia destes momentos, quando os pés traem estes homens e a pressão lhes troca as voltas. Há quem se entregue a Deus por muito menos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Escritos no céu

Chego a casa. Estoirado. Jogo bom de bola. Noite quente.
Empate 3-3 com a equipa que vai em primeiro lugar no campeonato.
Logo no início do jogo, oportunidade. Liberto-me de dois ou três defesas adversários, cara-a-cara com o redes, mas não meto o golo que era certo. O keeper estava fresco, no sítio próprio, aguentou o nervos, e esticou o braço. A equipa apoia-me.
Não quero saber. Lixado comigo, resolvi jogar para a equipa. Deu para três assistências. Todas terminadas em golo. Feliz. Como se fossem meus. Escritos no céu.

Tomo um duche e apanho isto.

Graffiti

by Banksy