sábado, 29 de março de 2014

Ushuaia - 9º dia




Miguel Angel Casalinuovo.
Há pessoas que podem valer uma viagem. Tipos que foram feitos para os conhecermos, e tudo até parece preparado para nos levar até eles.
Um italiano e uma argentina em lua-de-mel tinham-nos falado em El Calafate deste homem. Contaram que fazia expedições às montanhas sozinho. Que só levava com ele quem ele escolhesse e passasse pelo seu crivo particular. Disseram-nos que estava desenquadrado do espírito comercial, rotineiro, previsível e limitado das agências de turismo. Isso agradou-nos logo. Era o que procurávamos no fim do mundo: um lobo solitário.
Encontrámo-nos com ele e em uma hora e meia explicou-nos como trabalhava e que tipo de coisas podíamos esperar dele e ver com ele. Olhava para nós e fazia-nos perguntas. Não evitou que depressa eu sentisse que ele é que nos examinava e avaliava a nossa resistência. Gostou das nossas botas e aprovou a expedição.
Combinámos que nos levaria da montanha nevada do Cerro Bonete até à Lagoa Esmeralda, do nome encantador !
Miguelangelo Casalinuovo foi o grande encontro desta viagem. Um homem cheio de vida e ideias revolucionárias sobre o mundo. Filho de um italiano que tinha vindo para a Argentina com doze anos nos anos 40, o Miguel era um biólogo que se tinha vindo refugiar de tudo o que Buenos Aires lhe tinha feito. Tinha trabalhado, em tempos, para a embaixada dos Estados Unidos da América e podia ter ido viver para os E.U.A., fazer um mestrado e seguir a carreira diplomática que lhe prometeram. Em vez disso, o Miguel vivia agora em Ushuaia, aliás numa estância chamada Cotorras, há cerca de 8 anos. Tinha cortado com o sistema e fez-se professor e depois sindicalista, para "luchar contra el gobierno"
No princípio, estava calado, reservado, quase desconfiado, dos turistas que vinham de longe. Aos poucos, foi-se revelando, estimulado pela conversa (muita dela política) que nós íamos puxando.
Pôs-nos umas raquettes nos pés e começámos a nossa longa caminhada pela neve até à Lagoa Esmeralda, que fica no topo do Cerro Bonete. Pelo caminho, ia-nos apontando a vegetação, o tipo de árvores que ali cresciam, as madrigueiras (que são os diques dos castores) e os pássaros que íamos vendo. 
"Tirem os casacos e as camisolas. Quando chegarmos lá acima vão estar quentes e suados e vão arrefecer depressa. Nessa altura, sim, voltam a vesti-los.", avisou-nos.
O tempo foi muito e deu para falar de quase tudo, mas sobretudo sobre a situação socio-económica da Argentina, ali e no passado, o ladrão do Ménem e dos outros todos, sobre Bush filho e política internacional, sobre a história comum dos nossos povos e sobre a vida em geral. Enfim, oxigenados pelo ar mais puro que há no mundo, sabia-nos bem estar vivos, sermos homens e sermos livres. Ali, ninguém podia controlar o que pensávamos. Três pessoas a conhecerem-se e que se compreendiam inteiramente, apenas comungando daquele espaço e unindo-se no consolo de seres humanos.
Lá em cima, tomámos um chá e comemos umas sanduiches de frango. Preparámos a descida e, já cá em baixo, bebemos outro chá numa cabana de madeira de Alex, mais um refugiado, este europeu, das Astúrias que, como nos disse, "só ia à Europa para fazer plata".
Chegámos estoirados e moídos e fomo-nos deitar.

terça-feira, 25 de março de 2014

Adolfo Suárez (1932 - 2014)


"No es una decisión fácil. Pero hay encrucijadas tanto en nuestra propia vida personal como en la historia de los pueblos en las que uno debe preguntarse, serena y objetivamente, si presta un mejor servicio a la colectividad permaneciendo en su puesto o renunciando a él.
He llegado al convencimiento de que hoy, y, en las actuales cirscunstancias, mi marcha es más beneficiosa para España que mi permanencia en la Presidencia.

(…)

como frecuentemente ocurre en la historia, la continuidad de una obra exige un cambio de personas y yo no quiero que el sistema democrático de convivencia sea, una vez más, un paréntesis en la historia de España."
(1981, excerto do discurso de demissão do cargo de Primeiro Ministro)

segunda-feira, 24 de março de 2014

sábado, 22 de março de 2014

Yamaha P142

Bom, garota, tens 8 anos e já um piano em casa. Foi caro, mas é bom.
Agora, atira-te a ele !

sexta-feira, 21 de março de 2014

quarta-feira, 19 de março de 2014

Fado Maior


(foto: Nuno Fontinha)

Aquilo a que assistimos ontem no Coliseu de Lisboa não foi um concerto. É amor puro em formato de canção. São as entranhas todas, as tripas, o coração, os pulmões, a cabeça, as goelas a mexerem connosco. É fado-morna, fado-bossa, fado-alfama. É fado com calor d'Alentejo. É o vozeirão de um mulheraço embalada numa guitarra portuguesa, e uma vozinha que tremelica ao ritmo do contra-baixo, do filiscorne e do sax contrabaixo. Foi bateria, órgão e cavaquinho. Foi Fausto e 11 músicos em palco.
Separados eram uma coisa. Já tínhamos visto ambos. À Ana Moura até com os Stones e Tim Ries numa noite de jazz. Mas ontem ? ontem foi fusão pura.
O grande João Gilberto dizia que "quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé." Ou - acrescento eu - doente da alma quando o tema é o nosso novo Fado. 
Com Zambujo e Ana Moura estamos entregues aos deuses. 

segunda-feira, 17 de março de 2014

Le mal de vivre



On peut le mettre en bandoulière
Ou comme un bijou à la main
Comme une fleur en boutonnière
Ou juste à la pointe du sein
C´est pas forcément la misère
C´est pas Valmy, c´est pas Verdun
Mais c´est des larmes aux paupières
Au jour qui meurt, au jour qui vient


Le mal de vivre
Le mal de vivre
Qu'il faut bien vivre
Vaille que vivre

Qu'on soit de Rome ou d'Amérique
Qu'on soit de Londres ou de Pékin
Qu'on soit d'Egypte ou bien d'Afrique
Ou de la porte Saint-Martin
On fait tous la même prière
On fait tous le même chemin
Qu'il est long lorsqu'il faut le faire
Avec son mal au creux des reins.

[Barbara, 1965]

sexta-feira, 14 de março de 2014

A tournée


O Advogado levanta-se cedo. De madrugada. Hoje é Porto, cidade colo, alma gémea, do Carteiro e do Candelabro, rojões, o berço do avô querido que ele deixou para nunca mais.
Despacha o serviço. O resto é entregar-se de bandeja ao turismo gratuito de ver tudo e olhar para tudo como se fosse a primeira vez. Ao prazer hedonista que não evita. Que busca. Vivia assim. Vivendo. Entregue ao mundo. Sempre a chupar tudo. A querer tudo. E uma senhora velhota de lindos olhos azuis e sotaque apertado interrompe a conversa para vender uns fumeiros de Lamego que não há melhor !
- Sra. Juíza, não posso demorar que amanhã tenho que estar nas ilhas, em Ponta Delgada.
E lá, como ontem, acaba a apanhar o Sol que cura o inverno e sara as feridas, vai ao mercado, infiltra-se do ar cristal das ilhas desconhecidas do Raúl Brandão, virado pró mar que bate nos pontões, enquanto fecha os olhos e deixa uma Melo Abreu deslizar na boca.
É sempre assim. Ah, dolce vita
Lá vem o queijo de S. Miguel e as queijadas de Vila Franca do Campo, e o chá preto da Gorreana (que estava a acabar) e na origem sabe melhor porque fala como a gente do sotaque insular.
Nunca se repete, porque é tudo sempre diferente e os olhos nunca vêem duas vezes. Na outra semana foi o Funchal, 30 anos depois !
- Sr. Juiz, não chegámos a acordo e tenho um avião para apanhar.
Mas antes há um café que espera na praça central. O Advogado sente-se mandatado para um verão húmido e colonial. Trópicos.
Na varanda do Café Central que dá para a praça, lê as gordas do jornal (e só ! porque o resto aborrece) e fuma um cigarro demorado, para a espetada do almoço (que pingava o sangue da vaca) não acordar mal disposta. E traz coisas para os miúdos que nunca vieram. E um Madeira para beber com o Pai quando puder.
Em Janeiro foi a Chaves, quando o Marão está nevado, e traz-me lá uns pastéis. Sim, mas primeiro esta costoleta barrosã (por Deus !).
Ou Braga, Mangualde e Arganil. Ou Guarda, Castelo Branco e Covilhã. Mirandela é no fim do mês. Mas tem que ser rápido se há jogo europeu na Luz.
Na volta a Portugal, o Advogado dá tudo de si, transpira palavras e argumentos que brotam às vezes nem ele sabe bem de onde e que são tudo o que ele tem e acredita. Tenta fazer a diferença, deixar a sua marca, mas oferece também o peito todo despido para voltar ferrado. Amor com amor se paga, é o que pensa.
O Advogado em tournée sofre porque vive sozinho. No Alentejo ou mais a Sul, fica molhado do suor ainda antes de chegar à barra. 
E mói o corpo e as costas com tantos milhares de quilómetros de estrada ou de comboio ou quando perde o chão e vai a voar e isso é que é pior.
E, por isso, é que busca a companhia de todos com quem se cruza. E ama isso e chupa tudo o que consegue. Todo o tutano para ganhar o dia, que é aquilo que leva deste mundo quando partir de vez.



segunda-feira, 10 de março de 2014

No Distance Left to Run



Não é motivo de orgulho passar uma hora e quarenta e um minutos em frente ao computador a ver um documentário, mas, à falta de melhor, foi o que se arranjou.

domingo, 9 de março de 2014

"La Solitude"



Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
(...)
Je voudrais m'insérer dans le vide absolu et devenir le non-dit, le non-avenu, le non-vierge par manque de lucidité. La lucidité se tient dans mon froc.

[Léo Ferré, 1971]

sexta-feira, 7 de março de 2014

Parabéns, campeões !

 
Reparei agora num cartaz da rua que anuncia os dois concertos que os Xutos dão hoje e amanhã para celebrarem 35 anos de carreira.
35 é obra !

quinta-feira, 6 de março de 2014

'La Grande Belezza', de Paolo Sorrentino


 
Mamma Roma !
 
(e Sorrentino num bonito discurso dos óscares agradecendo o prémio a Fellini, Diego Armando Maradona, Roma e Napoli)

terça-feira, 4 de março de 2014