quinta-feira, 22 de agosto de 2019

terça-feira, 20 de agosto de 2019

coisa de amigo *

«N'golo era a palavra congolesa para força, força vital. Também se aplicava a ego, posição social, força ou líbido. Era indiscutível que Ali se sentia desapossado da parcela a que tinha direito. Nos últimos dez anos, a imprensa tinha vindo a roubar-lhe n'golo. Não lhe importava se tinha tanto como qualquer outra pessoa na América, queria mais. Não é o n'golo que temos, mas sim o n'golo que nos é negado, que provoca as mais violentas histerias da alma. Por isso Ali não podia querer perder aquele combate. Se o perdesse, os jornalistas escreveriam os epitáfios da sua carreira, e os mortos não têm n'golo. Os mortos estão a morrer de sede, reza um velho ditado africano. Os mortos não podem desfrutar do n'golo que chega com o primeiro gole de vinho de palma, de uísque ou de cerveja.
(...)
Assim começou o terceiro ato do combate. Não era muitas vezes que se via um final de segundo ato melhor do que a tentativa falhada de Foreman de destruir Ali nas cordas. Mas as últimas cenas levantariam um problema. Como iria terminar a peça? Porque, se Foreman estava exausto, Ali estava desgastado. Tinha batido em Foreman com mais força do que em qualquer outro adversário. Tinha-lhe batido muitas vezes. A cabeça de Foreman devia estar como um pedaço de borracha vulcanizada. Até era possível que nada mais acontecesse mesmo que continuassem a bater-lhe durante toda a noite. Há um limiar para o KO. Quando esse limiar não é ultrapassado, ainda que se esteja perto, um homem pode cambalear indefinidamente pelo ringue. Foreman recebeu a sua terrível mensagem e continua de pé. Aplicar-lhe uma dose maior do mesmo sofrimento não o destrói. É como a vítima de um casamento catastrófico a que ninguém sabe como pôr termo. Por isso Ali tinha de inventar uma surpresa. Caso contrário, enfrentaria a mais infeliz das ameaças, que era os dois, ele e Foreman, passarem os restantes combates aos tropeções. A estética do boxe é muito difícil de explicar, ainda que superficialmente. Para um artista como Ali seria um desperdício insuportável perder a perfeição deste combate arrastando-se durante trinta monótonos minutos até uma desconsoladora decisão unânime.
Um belo desfecho do combate ficaria como uma lenda, ao passo que uma vitória sem brilho, conseguida num anticlímax, faria dele uma lenda pela metade - com uma reputação exagerada pelos amigos e contestada pelos inimigos - exatamente o estado que atormentava a maioria dos heróis. Ali estava a combater com outros objetivos. Pelo menos, assim dizia. Por isso tinha de despachar Foreman em poucos assaltos e fazê-lo bem, um problema gigantesco. Era como um toureiro que no fim de uma excelente faena ainda tem de enfrentar a possibilidade preocupante de uma estocada final morosa e dececionante. Como não existe prazer maior para um atleta do que superar o estilo do seu adversário, Ali iria tentar roubar a Foreman o seu último motivo de orgulho. George era um carrasco. Ali seria um carrasco melhor. Mas como se pode executar um carrasco?
(...)
A vinte segundos do final do assalto, Ali atacou. Pelos seus cálculos, pelos cálculos aperfeiçoados em vinte anos de pugilismo, com o saber acumulado de tudo o que podia ou não fazer a cada momento no ringue, escolheu aquele momento e, encostado às cordas, atingiu Foreman com uma direita e uma esquerda e saiu das cordas para o atingir com uma esquerda e uma direita. Nesta última direia voltou a aplicar a luva e o antebraço, num soco fragoroso que projetou Foreman para cima das cordas. Quando ele ia a passar, Ali atingiu-o lateralmente com um golpe de direita na maxilar e afastou-se rapidamente das cordas para que fosse Foreman a ficar perto delas. Pela primeira vez em todo o combate, tinha cortado espaço ao adversário. Então descarregou sobre ele uma combinação de de socos, rápidos como os do primeiro assalto, mas mais fortes e mais consecutivos, três direitas demolidoras seguidas e depois uma esquerda, e por um momento perpassou pela expressão facial de Foreman a noção de que estava em perigo e tinha de procurar a última proteção que lhe restava. Estava a ser atacado, e não havia cordas atrás do seu adversário. Que coisa estranha: os eixos da sua existência tinham-se invertido! Agora era ele quem estava encostado às cordas! Foi então que um grande projétil com a medida exata de uma luva de boxe acertou em cheio na mente de Foreman, o melhor soco daquela noite desconcertante, o golpe que Ali guardou durante toda a carreira. Os braços de Foreman afastaram-se do corpo como os de um homem que salta de um avião em paraquedas, e nessa posição dobrada tentou regressar ao centro do ringue. Entretanto mantinha o olhar fixo em Ali, sem ódio, como se Ali fosse de facto o homem que melhor conhecia no mundo e aquele que estaria presente no dia da sua morte. A vertigem apoderou-se de George Foreman e revolveu-o por dentro. Ainda dobrado pela cintura naquela posição de incredulidade, sempre de olhos postos em Ali, começou a cambalear e a tropeçar e a cair, apesar de não querer ir ao tapete. A sua mente segurava-o com um íman alto como o seu título de campeão, mas o seu corpo procurava o chão. Soçobrou como um mordomo de um metro e oitenta de altura e sessenta anos de idade que acaba de receber uma notícia terrível, sim, caiu para a frente durante dois longos segundos, o campeão desmoronou-se por etapas e Ali andou à sua volta num círculo fechado, punho pronto a bater-lhe mais uma vez, mas não foi preciso, limitou-se a fazer-lhe uma escolta íntima ao tapete.»


* como se não bastasse a maionese de garoupa no Tia Matilde de sempre.

sábado, 17 de agosto de 2019

Easy Rider



Peter Fonda
(1940 - 2019)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Atravessando


Para ele a Travessa era o Rio. O 572 da Visconde de Pirajá, quando se vai da Vieira Souto e se atravessa Ipanema para desaguar na Rodrigo de Freitas com chinelo no pé. Era aquele chão de cozinha em ladrilho velho aos quadrados verdes e brancos e os livros que arrebatámos com a velocidade de cinco minutos porque estava fechando. Era o português do outro lado e as letras com sotaque a bossa e alegria. Cheirava a suco de tangerina e açaí e sabia a água de coco que a gente chupa pra matar o calor de Novembro e a humidade que se cola aos corpos melados de açúcar. Era o Globo na mesa do pequeno-almoço e era olhar para as ruas de árvores gordas e muito verdes, e sentir o ar denso e doce pesando nos ombros, que sacudimos quando mergulhamos de asa delta na praia de São Conrado, mal acreditando que estamos a voar e que vemos o Dois Irmãos bem de cima, como se fosse nosso, e tudo o que ele tem à volta até ao Vidigal. Mas primeiro uma moqueca no Jobi ou um chopinho no Bar do Gomes já que subimos à Santa Teresa. É... o rock do Amarante, do Camelo e dos Hermanos no meio da maluqueira de uma chuvada descarregada a trópicos na marina da Glória ali bem perto do aterro do Flamengo, e ter amigos irmãos, que não nos deixam perder o concerto do dia seguinte só porque tínhamos querido jantar no Botafogo. Era isso tudo. As ruas chiques do Leblon, os prédios velhos e os arcos da Lapa, e mais um pastelinho num boteco da Urca, antes de apanhar o barco para Niterói pra ver o disco voador. E o teatro municipal e a igreja da Candelária, ou a Casa Villarino "onde tudo começou". O deixa andar no Quase 9 e os brancos, negros e mulatos que se divertem nas praias jogando à bola e praticando futevolei. Era o fimzinho no Arpoador, mas antes devolver o livro do João Gilberto ao Carlos Alberto, "objecto pessoal, cara". Era o Rio todo, até os calções de banho comprados na loja da Maria Quitéria, às cores. O Rio eram cores.




Mas agora. 
Agora era também o Príncipe Real. A rua da Escola Politécnica, aquela de que gostamos tanto. E como tudo o que é bom e é inesperado, foi perceber que ela tinha aberto as portas na véspera e então entrámos e começámos logo a falar com o "Vascainho" que nos atendeu enquanto ainda arrumavam os livros chegados do Brasil, desculpando-se por muitos não terem preço marcado. E então trazer logo uma data deles porque não dá para entrar e sair sem ao menos um Conceição Evaristo. E depois voltar. Uma, duas, muitas vezes. Para regressar ao Rio.

Best Team Ever

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Taberna


Na rua dos Caminhos de Ferro, Santa Apolónia, terra de gente que passa. Com idioma de Sud-Express e que encarrila amigos a caminho do inter-rail. Uma terra que parte. Que se afasta das pessoas que aterram em Lisboa.
Albricoque que é um fruto do sul que é árabe. Tártaro de carapau, um parzinho de ostras e rissóis de berbigão. Sobremesa de figo e alfarroba. Algaraviada devia ser isto. Algarvezinho com carinho.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

domingo, 4 de agosto de 2019

Super-Classic *



Presente.

* P.S.: eu disse que ia ser super. Mas 5-0 é barrigada.

sábado, 3 de agosto de 2019

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Os Frade


Cantinhos de Alentejo num balcão em U da Calçada da Ajuda.
Alentejo com jeitinho. Petiscos com sabor a amigos, tratados com cuidado e com calminha. Gostinhos que mexem com a boca e o coração.
E uns primos com um sorriso que se vê cá de fora.

segunda-feira, 29 de julho de 2019

Escobar, por Juan Pablo


«O meu pai foi um homem responsável pelo seu destino, pelos seus actos, pelas suas opções de vida como pai, como indivíduo e - ao mesmo tempo - pelo bandido que infligiu à Colômbia e ao mundo umas feridas que não se esquecem.»

quinta-feira, 25 de julho de 2019

quarta-feira, 24 de julho de 2019

number Ten

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God Save the People

terça-feira, 23 de julho de 2019

Stra


(av. da Índia, Lisboa)

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Com amor

Sempre os houve. Não é de agora.
Se há coisa irritante (vá, irritantezinha) é ver certa malta a apregoar cultura como se fosse um concurso de misses. Agora em twitts, nos faces e nos instas, ou em posts doutras galáx.... sociais. É aquela espécie de intelectualidade fascistazinha do eu-é-que-sei, cheios de uma moral e autoridade de que o bom percebem eles.
Então no que toca à música é todo um universo de arrogância. E quando, na maior parte dos casos, nunca pegaram num instrumento. Não há saco.
Quando chegam as bandas ao nosso país, é vê-los destilarem sobre os concertos nuns debochantes "Já não vou ver. Vi-o(s) no auge. Em 90 e troca o passo. Está(estão) decrépito(s). Tragam-lhe(s) um caixão. O quê ?? Tu ainda gastas o dinheiro nisso ??!? Poupavas.",  etc, etc. e tal, seguidos de afirmações petulantíssimas das suas bandas ou músicos do momento, que acabam de descobrir, e que até podem ser antigos (o que interessa é que têm o aval dos snobistas), com os inevitáveis "Eu agora oiço é isto. Evoluí.", rematando os outros de "atrasados". Como se fosse feio ou de mau tom ouvir João Gilberto, tocando as mesmas canções com as mesmas notas de sempre, ou Leonard Cohen, em rouca recta final, ou os U2 com Bono a falhar-lhe a voz, enfim, todos os rockers, ou não rockers, que já vieram e voltaram, e voltaram, e voltaram. E estão cá, e são de quem os ouve e vai ver.
Houve uma altura em que chamei a esta maltinha os "bonifácios".

O problema é que continuam a esquecer muita coisa:

1. que houve um tempo em que ninguém (ou quase ninguém) vinha a Portugal e, portanto, é óptimo tê-los cá !;
2. que os músicos são (muitas vezes) como o vinho e melhoram com o tempo, a prática e a experiência de vida;
3. que o fundamental é se ainda tocam, cantam e mexem bem, e se dão tudo (o que só quem os não descarta.... porque... sim, pode saber);
4. que não cabe a Suas Excelências os caudilhozinhos decretar o fim de vida de um artista;
5. e que é (pode ser) uma bênção escutá-los 15, 20, 30 ou mais anos depois da sua estreia.

O que ignoram no seu pedantismo opiniárquico (incapazes de apreciar a estrutura de um bom "vinho" velho ou uma travessa de acordes felizes) é que o que conta é se a noite foi boa, como me disse um dia o Jorge Palma.
Epá ! (com amor) cresçam !

Dublin 2018

quinta-feira, 18 de julho de 2019

quem não ?

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Pavarotti


Um dos maiores de sempre, com Domingo (que assisti em concerto como "lanterninha" no Estádio do Belenenses) e Carreras. Mas aquele de quem me lembro primeiro e há mais tempo. Um grande que a geração pop dos anos 80 viu glorioso em todo o seu tamanho. Com a riqueza, não só da voz, não só da música, mas daquilo que quis fazer fora de palcos e teatros. Tocante.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Born a Crime


«Cresci na África do Sul durante o apartheid, um facto algo inconveniente porque fui criado numa família mista, sendo que o mestiço era eu. A minha mãe, Patricia Nombuyiselo Noah, é negra. O meu pai, Robert, é branco. Suíço-alemão, para ser mais exacto, e estes são invariavelmente brancos. Durante o apartheid, um dos piores crimes que se podia cometer era ter relações sexuais com uma pessoa de outra raça. Escusado será dizer: os meus pais cometeram esse crime.
Em qualquer sociedade baseada no racismo institucionalizado, a miscigenação desafia o sistema, apontando-o como injusto, insustentável e incoerente. A miscigenação prova que as raças podem misturar-se (e, em muitos casos, querem misturar-se). Visto que um mestiço personifica essa falha na lógica do sistema, a mistura de raças torna-se um crime pior do que a traição.
Só que, como os humanos são humanos e o sexo é o sexo, a proibição nunca impediu ninguém de contorná-la. Já havia miúdos mestiços na África do Sul nove meses depois de os primeiros barcos holandeses terem chegado à baía da Mesa. Os colonos na África do Sul aproveitaram-se das mulheres indígenas, como é, aliás, costume dos colonos. Mas ao contrário do que aconteceu na América, onde qualquer pessoa com uma gota de sangue negro se tornava automaticamente negra, na África do Sul as pessoas mestiças foram classificadas num grupo à parte, nem negro, nem branco, mas "de cor". As pessoas de cor, os negros, os brancos e os indianos eram obrigados a registar oficialmente a respectiva raça. Com base nessas classificações, milhões de pessoas foram desenraizadas e deslocadas. As áreas indianas foram segregadas das áreas de cor, que, por sua vez, foram segregadas das áreas negras; e todas elas foram segregadas das zonas brancas e separadas umas das outras por zonas-tampão de terra desocupada. Foram aprovadas leis que proibiam o sexo entre europeus e nativos, leis essas que, mais tarde, foram emendadas para proibir relações sexuais entre brancos e todos os não-brancos. (…) Os infractores arriscavam uma pena de prisão de cinco anos. Havia esquadrões policiais cuja tarefa era espreitar por janelas (…) E se um casal inter-racial fosse apanhado, Deus o acudisse. A polícia arrombava a porta ao pontapé, arrastava os criminosos para a rua, espancava-os e prendia-os. Era, pelo menos, o que faziam ao negro. Ao branco era mais: "Bom, eu digo que estava embriagado, mas não volte a fazer isto, sim ?».

domingo, 14 de julho de 2019

sexta-feira, 12 de julho de 2019

pequena e balada sem jeito de saudade e despedida a um verdadeiro artista que deixa os relvados


Saíste ao minuto 10 do dia 10, mas já tinhas começado a sair com o Santa Clara, quando as lágrimas teimavam em adivinhar o adeus que não queríamos. Levas a Luz contigo e o paixão do adepto a quem outorgaste golos e mais golos, bandeirando futebol musicado com carinho. O melhor de ti que foi o melhor que nos podias dar. Como a beleza de um simples toque ou de um passe que sonhaste segundos antes. Como a doçura de uma finta ou no engodo de uma desmarcação. Magicada com a certeza de repetires o momento único e irrepetível. 
De tanto foste tudo. 
Chuto infinito, a quem jurámos sempre 
o golo do título.

 (Estádio dos Arcos - Maio 2017)

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Reigning Champs


2 horas num ringue a enxertar uppercuts nos queixos da multidão. Jabs e ganchos cuspidos à velocidade de rimas. Versos debitados com a força de um Tyson e o swing de Ali. E quem swinga somos nós. 
The Roots no Cascais foi um punch de história negra. Foi rap, hip-hop, funk, soul, R&B, you name it. Até ao KO final. 
Philadelphia, PA.

terça-feira, 9 de julho de 2019

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Samba de muitas notas sim

(foto: Tom Copi/Getty Images)


O Mestre. 
Uma mágoa: não o ter "ouvisto" em concerto. E com bilhete comprado ! Cancelado à última da hora. Suponho que o ar condicionado da sala não estivesse à temperatura certa. Capaz de desafinar o violão. E essa não.
Um abraço no Carlos Alberto, da 'Toca do Vinicius', em Ipanema, RJ, que me emprestou aquele livro do João Gilberto (1931 - 2019).  

sábado, 6 de julho de 2019

sábados de manhã