domingo, 21 de janeiro de 2018

'Patience', por Daniel Clowes



«And the more I saw - the further my embers drifted into the everlasting endlessness - the more it all seemed to matter: every moment, every choice, every cell division as hospitable to scrutiny as the last inning of a tied world series or the hair fibers from an unsolved kidnapping, all affirming forever the one unassailable truth.»

sábado, 20 de janeiro de 2018

"Eu acredito em Woody Allen", de Alexandra Lucas Coelho


«Imaginem quem começa agora a ver cinema e é apresentado a Woody Allen como molestador: nunca será apresentado a Woody Allen. Boa altura para lhe mostrar os filmes, e explicar duas ou três coisas sobre Hollywood. Sobre as pessoas, em geral.
1. Como incontáveis milhões de pessoas, cresci com Woody Allen. Não há nenhum cineasta, vivo ou morto, de quem tenha visto tantos filmes. E ouvi bandas sonoras, li peças, contos. Woody Allen é, em si, um cinema, uma cidade, uma escrita, um humor. Não sei se existe mais algum judeu nova-iorquino como ele, aliás, de certeza que não, mas todos os judeus nova-iorquinos receberam esse presente genial de passarem a ser ele, tal como o mundo tem muito mais graça por causa dele.
Isto dito, não é por isto que acredito em Woody Allen. É porque os factos que conheço, as investigações e peripécias desta tragédia greco-americana que é a acusação de abuso sexual contra ele, tudo isso ponderado me faz acreditar em Woody Allen, e não acreditar em Mia Farrow.
Acreditar/não acreditar são convicções, falo por mim, por isso o título está na primeira pessoa, e não é “Woody Allen está inocente”. Não posso afirmar que Woody Allen esteja inocente, claro, é possível que não. Mas a minha convicção é a oposta. Não apesar dos factos, como a convicção de outras figuras deste caso. Mas, repito, por causa dos factos.
Quando comecei a ler os relatos do caso para esta crónica não sabia onde iria dar. Não decidi escrevê-la para defender Woody Allen, mas para perceber o que se pudesse perceber com algum tempo de pesquisa online. Não tinha ideia do que concluiria, muito menos de qual seria o título. O que sabia à partida era o que ao longo dos anos fui retendo, sempre que o alegado abuso voltava às notícias, e do que fui retendo havia algo destrambelhado em Mia Farrow. Talvez a diferença entre um neurótico inofensivo (Allen) e alguém eventualmente perigoso (Farrow). Mas eu estava longe de ter a dimensão épica, grega da coisa. E agora, aqui chegada, qualquer outro título seria um rodeio. (...)» 
Continuar a ler

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Wild, com Reese Witherspoon

"If your nerve deny you, go above your nerve.”
Emily Dickinson (and Cheryl Strayed)

sábado, 13 de janeiro de 2018

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Belle Toujours


(Patrick Swirc)

« Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle »

Tribune. Le viol est un crime. Mais la drague insistante ou maladroite n’est pas un délit, ni la galanterie une agression machiste.
A la suite de l’affaire Weinstein a eu lieu une légitime prise de conscience des violences sexuelles exercées sur les femmes, notamment dans le cadre professionnel, où certains hommes abusent de leur pouvoir. Elle était nécessaire. Mais cette libération de la parole se retourne aujourd’hui en son contraire : on nous intime de parler comme il faut, de taire ce qui fâche, et celles qui refusent de se plier à de telles injonctions sont regardées comme des traîtresses, des complices !
Or c’est là le propre du puritanisme que d’emprunter, au nom d’un prétendu bien général, les arguments de la protection des femmes et de leur émancipation pour mieux les enchaîner à un statut d’éternelles victimes, de pauvres petites choses sous l’emprise de phallocrates démons, comme au bon vieux temps de la sorcellerie.
Délations et mises en accusation
De fait, #metoo a entraîné dans la presse et sur les réseaux sociaux une campagne de délations et de mises en accusation publiques d’individus qui, sans qu’on leur laisse la possibilité ni de répondre ni de se défendre, ont été mis exactement sur le même plan que des agresseurs sexuels. Cette justice expéditive a déjà ses victimes, des hommes sanctionnés dans l’exercice de leur métier, contraints à la démission, etc., alors qu’ils n’ont eu pour seul tort que d’avoir touché un genou, tenté de voler un baiser, parlé de choses « intimes » lors d’un dîner professionnel ou d’avoir envoyé des messages à connotation sexuelle à une femme chez qui l’attirance n’était pas réciproque.
Cette fièvre à envoyer les « porcs » à l’abattoir, loin d’aider les femmes à s’autonomiser, sert en réalité les intérêts des ennemis de la liberté sexuelle, des extrémistes religieux, des pires réactionnaires et de ceux qui estiment, au nom d’une conception substantielle du bien et de la morale...


"Le Monde", 9.01.2018, por Catherine Deneuve e 100 outras mulheres

para o resto procurar aqui

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"Caldas apura-se pela primeira vez para as meias-finais da Taça de Portugal"



O Avô Fontinha (antigo presidente) estaria orgulhoso.

Shigeru Mizuki


Shigeru Mizuki só tem um braço, perdido para um estilhaço na IIª Guerra Mundial. Mas não foi isso que impediu que este, agora nonagenário, se tornasse num dos mais virtuosos artistas de Manga, a banda desenhada japonesa. 
'Onward Towards Our Noble Deaths' é a história, com incrível humor e acidez, da sua própria experiência como soldado. De como as coisas são diferentes quando vistas do outro lado da trincheira. 
E ler um livro que abre ao contrário, de trás para a frente, e da direita para a esquerda, é uma forma linda de o perceber.

Saying it's for the good of your country
Fool volunteering
For that rotten army
Leaving sweet Sue behind in tears

Forced awake at the crack of dawn
Swabbing and sweeping
Pushed around by fools above him
Long days spent in tears

"Kawaii Su-Chan" 

sábado, 6 de janeiro de 2018

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

the Big Bang

(Roy Lichenstein)

Reconheceria sempre aquela voz.
No outro lado do balcão da livraria: a voz. 
Estava já na caixa e preparava-se para pagar o livro, mas abandonou tudo no momento em que escutou aquela voz. Nasal e rouca. Curtida um pouco mais pelo tabaco. Levantou o queixo e olhou demoradamente, como se tivesse despertado de um sono longo. Com o cuidado com que se tratam os sonâmbulos. E observou o dono da voz. A dona. Comentava qualquer coisa com a funcionária da livraria. Tinha passado para o outro lado do balcão onde já reunira uma pilha de livros que ia levar com ela. Seria possível ? O cabelo todo branco agora. Puxado bem atrás e apanhado num rabo de cavalo volumoso. Os óculos tombando no nariz, talvez com mais graduação. Que a encolhiam no tamanho. Ou era ele que se sentia mais alto. Tinham passado 23 anos.

Do 10º ao 12º ano tive o professor mais difícil que se pode ter. A Professora. 

Ainda a revolução estava no princípio - a do 9º ano, dos Nirvana, contra os professores e contra a escola, ou contra quem mandava em geral -, e tinha agora pela frente uma professora nova. Uma disciplina nova. Filosofia. A curiosidade mandava pôr tudo on hold.
Alguém espalhou nos corredores que era uma professora universitária (o que só por si impunha respeito) que agora tinha vindo dar aulas ao Secundário. 
Fama já tinha. Mistério também. 
Mal a encarámos na aula nº 1, e levámos logo com um enunciado na cara: 2 + 2 = 4. E uma série de linhas em branco. Agora dissertem sobre isto.
Pela primeira vez na minha vida escolar recebi um shot de adrenalina diferente dos outros. Este não era por me porem à prova. Uma adrenalina virgem. Percebi mais tarde que era a liberdade a mergulhar em êxtase. Podia pensar e dizer tudo o que eu quisesse. Aprender a pensar e a dizer. Em livre. Foi aí que tive a certeza de que não podia haver respostas erradas e que não havia castigo ou nota baixa. Só precisava de deixar a caneta falar. 
Obviamente que contestei o enunciado e libertei-me. 
O problema agora era outro: como é que podia revoltar-me contra uma professora que nos deixava pensar? Que nos incitava a isso ? Que nos puxava para fora da infância intelectual? A revolução parecia condenada.
O que eu não sabia é que a revolução agora era outra e que a partir daí eu nunca mais seria igual. Que de cada vez que eu entrasse na sala de aula devia estar preparado para uma luta de esgrima. Porque foi o que aconteceu. Durante aqueles três anos, a aula de Filosofia era um duelo. Com debate até ao fim. Sem limite (excepto o das horas). Com pontos de interrogação a romperem-nos no meio da testa, fazendo ruir todas as certezas do nosso pequeno edifício pessoal. Interpelados a duvidarmos até de nós próprios. Até ao ponto de, chamado ao quadro, e quando já só pensava em fechar uma discussão, ainda ter que a ouvir: "Não, André, contra factos, há ARGUMENTOS !" E eu a desmoronar-me todo por dentro. 
A construção passaria a ser feita à luz da secretária. Com os autores que passámos a ler. Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Hegel, Feuerbach, Kierkegaard. E com os livros que me recomendava. 'Assim falava Zaratustra' (no comboio para Oeiras), 'Fundamentação da Metafísica dos Costumes' (onde quer que tenha sido), ou outros de Bertrand Russell e de Ortega y Gasset. Com os textos complicados e que demoravam a entender. Prateleiras carregadas de frases e conceitos que exumávamos mas que só agora tenho maturidade para compreender na totalidade. Que eram ondas gigantes em que mergulhávamos. À procura de mais oxigénio. 
2 + 2 não eram 4. Nunca mais seriam.

E tudo porque naquele dia tinha feito um desvio até à livraria do CCB para ir comprar o último do Lobo Antunes.

Tinha de lhe contar isto tudo, Professora Gamelas. Posso cumprimentá-la ? 

sábado, 23 de dezembro de 2017

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

domingo, 17 de dezembro de 2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Paddington 2



Um dos milagres da paternidade: ficarmos fãs de um ursinho de peluche que vemos no cinema e que faz tudo por doce de laranja.

sábado, 9 de dezembro de 2017

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Depois venham-me falar de pressão


«Aquele é o Jim Brown, sussurra o meu pai. O maior jogador de futebol americano de todos os tempos.
É um bloco de músculos enorme, com roupa de tenista e meias brancas caneladas. Já o tinha visto em Cambridge. Quando não está a jogar ténis a dinheiro, está a jogar gamão ou dados - também a dinheiro. Tal como o meu pai, o Sr. Brown fala muito de dinheiro. Naquele momento, estava a queixar-se ao sr. Fong de uma partida a dinheiro que fora cancelada. Era suposto jogar com um tipo e o tipo não apareceu. O Sr. Brown está a descarregar as suas frustrações no sr. Fong.
Vim para jogar, diz o Sr. Brown, e quero jogar.
O meu pai aproxima-se.
Quer jogar uma partida?
Sim.
O meu filho Andre joga consigo.
O Sr. Brown olha para mim e depois para o meu pai.
Não vou jogar com um miúdo de oito anos!
Nove.
Nove? Ah, bom, não tinha reparado.
O Sr. Brown ri. Alguns homens que ouviram também se riem. É óbvio que o sr. Brown não leva o meu pai a sério. Grande erro. Basta perguntar ao motorista de camião que ficou estendido na estrada. Fecho os olhos e vejo-o, a chuva a bater-lhe no rosto.
Olhe, diz o sr. Brown, eu não jogo para me divertir, está bem? Jogo por dinheiro!
O meu filho pode jogar consigo por dinheiro.
Senti uma gota de suor a começar a descer pela axila.
Ah, é? Quanto?
O meu pai ri e diz: Aposto a merda da minha casa.
Não preciso da sua casa, responde o sr. Brown. Já tenho uma. Digamos dez mil dólares.
Feito, diz o meu pai.
Avanço para o court.
Calma, diz o sr. Brown. Primeiro quero ver o dinheiro.
Vou a casa buscá-lo, responde o meu pai. Volto já.
O meu pai corre porta fora. Sento-me numa cadeira e imagino-o a abrir o cofre e a pegar num monte de dinheiro. Todas aquelas gorjetas que o vi contar ao longo dos anos de trabalho, em todas aquelas noites de trabalho árduo. Agora vai apostar tudo em mim. Sinto um peso no meio do peito. Estou orgulhoso, claro, por pensar que o meu pai tem tanta confiança em mim. Mas, acima de tudo, estou apavorado. O que é que vai acontecer comigo, com meu pai, com a minha mãe e com os meus irmãos, já para não falar na avó e no tio Isar, se eu perder?
Já joguei sob este tipo de pressão antes, quando o meu pai, sem me avisar, escolhe um adversário e me ordena que o derrote. Mas é sempre outro rapaz e nunca há dinheiro envolvido.
(...) Esta coisa com o sr. Brown, todavia, é diferente, e não é só porque as economias da família estão em jogo. O sr. Brown desrespeitou o meu pai e o meu pai não pode pô-lo a dormir. Precisa que seja eu a fazê-lo. Por isso, esta partida é mais do que uma questão de dinheiro. É uma questão de respeito, virilidade e honra – contra o maior jogador de futebol americano de todos os tempos. Preferia estar a  disputar a final em Wimbledon.
(...)
O meu pai regressa. Traz uma mão cheia de notas de cem dólares. Sacode-as no ar. De repente, o sr. Brown muda de ideias.
Eis o que vamos fazer, propõe o Sr. Brown ao meu pai. Vamos jogar dois sets e depois decidimos quanto vamos apostar no terceiro.
Como queira.
Jogamos no court 7, logo à entrada. Juntou-se uma multidão, que aplaude quando ganho o primeiro set por 6-3. O sr. Brown abana a cabeça. Fala sozinho. Bate com a raquete no chão. Não está feliz, já somos dois. Não só estou a pensar, o que é uma violação da regra mais básica do meu pai, como a minha cabeça começa a andar à roda. Tenho a sensação de que vou ter de parar de jogar a qualquer instante porque preciso de vomitar.
Ainda assim, venço o segundo set por 6-3.
Agora o Sr. Brown está furioso. Baixa-se sobre um joelho, ata os ténis.
O meu pai aproxima-se dele.
E então? Dez mil?
Nem pensar, responde o Sr. Brown. Por que não apostamos só quinhentos dólares.»

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

"a vida é sempre a perder"


Zé Pedro
(1956 - 2017)

Tenho a sensação que hoje houve uma parte da minha infância e juventude que também morreu.
X

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Cold Facts


«Rodriguez has lived in the same modest Detroit house for over 40 years. He has no car, computer or even a television. 
(...)
"He once told me there's three basic needs – food, clothing and shelter."»

Rolling Stone, Março de 2013

sábado, 25 de novembro de 2017

os putos a devorarem Tim Burton


'Charlie e a Fábrica de Chocolate'

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Ballad of the Living Man

[foto: andré]

Somos um bicho engraçado.
Acho que evoluímos.
Camadas e camadas de novos eus. Como a casca de uma árvore ou uma cama sempre por fazer. Com memória e lençóis velhos a lembrar que ainda aquecem.
Evoluímos. Com erros e contradições. Aos solavancos. Ou quando ganhamos qualquer coisa. Mas aí bastante menos. Embora bom.
E mudamos, na construção incoerente e sobreposta do que fazemos e do que fazem connosco. Escolhendo direcções. E assumindo tudo isso. E como gosto que seja assim. Contaminando-nos com a beleza do que é dos outros e aperfeiçoando todos os dias o nosso bocado de madeira.
Também Josh Tillman.
Foi no que pensei enquanto ouvia Father John Misty a tocar no Coliseu.

Ballad of the Dying Man