quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Evaporar *



Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar
Foi o que ganhei

E ando ainda atrás
Desse tempo ter
Pude não correr
Dele me encontrar

Ahh não se mexeu
Beija-flor no ar

O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!

* no passamento da minha amiga Catarina Cristóvão,
das escadinhas de Sto. Espírito da Pedreira.
38 anos para sempre.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Father and Son


- Puto, hoje estamos por nossa conta. Vamos deixar a mãe e as manas irem para o almoço delas e vamos divertir-nos !
Primeiro, preparo-te umas batatas fritas às rodelas na frigideira. Tu é que lhes pões o sal. Os secretos de porco preto já estão na grelha. Como adoras. Também vou fazer um arroz soltinho para acompanhar.
- Pai, hoje até os bróculos sabem bem !
- Fixe. E queres uma groselha, não é ?
E nem é preciso dizer para te despachares a comer, porque hoje já lambes os beiços.

- Pai, vamos agora jogar um bocado de FIFA '14 ?
- Ok, aquele jogador que estamos a construir está-se a dar bem e, depois de vencer a Taça da Liga inglesa, já é pretendido pelo Estoril e pela Académica. Estás um pro ! Vamos para a primeira divisão portuguesa ou continuamos no Sheffield Wednesday ?

- Tchii, miúdo, o relógio hoje está uma máquina. Temos de ir para a Luz. O Benfica joga com o Rio Ave daqui a meia hora. Pega nos cachecóis e veste a camisola.
E o Jonas faz balançar as redes. Na nossa baliza !

domingo, 27 de dezembro de 2015

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

FutSábado: «Come rain, shine, birth, divorce, even death, we show up and play»


«We cremated James yesterday. 
For the last few decades he’s organised our regular Wednesday night and Sunday morning football games. Amateur football is a strange brotherhood – whether, as in our case, it’s midweek indoor five-a-side or outdoor Sunday nine-a-side. Artificial surfaces, artificial dreams. Grown men (and now women) still imagining they’re playing for their childhood teams.  
I’ve rarely seen the men alongside me at the Crematorium in non-football clothes before, never mind funeral black. We normally wear a mixed bag of old club shirts (Derby County, Arsenal, Spurs, Chelsea, Charlton) and thinning, well-washed T-shirts that are unfaithful to their original colours.

I don’t know many of the men's surnames. Instead, they’re known by a series of poor tags that aren’t even nicknames - Sunderland Graham, Beardy Dave, Tall Ben, Little Ben. I’ve only been to two of their houses and I don’t know what half of them do for a living or what their wives are called. I know some of their children - but only because we’ve been playing long enough for nippers who occasionally watched from the sidelines ten years ago to turn into young men who play regularly and bring some youth and ability to an ageing game. 
The thing that binds everyone who plays five-a-side is the same thing that made us, as kids in the 60s, 70s, 80s, kick a ball in the playground at school, in the streets as it got dark, and in the park at weekends. It's the overwhelming desire to stay true to that feeling you get when you score or tackle or pass and it gets a round of applause and you feel, just for a moment, like Allan Clarke or Thierry Henry or whoever your childhood hero was. It’s not televised so there’s only word of mouth proof, but even crap amateur players can score world class goals.

Five-a-side (and it’s called that even if there are seven, eight, or nine men per team) runs as an unusual parallel to the rest of our lives. Come rain, shine, birth, divorce, even death, we show up and play. 
When news came that James had died, I tried to explain our bond to my girlfriend, who met him maybe twice in a decade, a passer-by on the street.  He wasn’t a close friend but he was a good friend.
(...)
None of my words did our friendship justice. How do you approximate the familiarity that comes with seeing someone twice a week at football for 17 years?
These regular fixtures have lasted much longer than all my jobs and almost twice as long as my longest relationships. Despite occasional on-pitch flare ups, they’ve remained more good natured, more consistent and less painful than following the teams we support. 

They offer windows into the personalities of the people you share the playing field with. The angry player who’s calm off the pitch; the lazy selfish player who won't go in goal; the person that runs round and round in circles not hearing the pleas for passes from others around him; the grown man who will kick a 14-year old; the player who thinks he’s still as good as he was 10 years before; the generous, hard working, selfless player; and the player who’s a long way from a natural but turns up and does their best.

(...) 
Importantly, James was the man who booked the pitches, collected the money and, in his own statistically fascinated way, took charge of a long running series of annual tables, awarding individual players points for victories or losses. This tended to create more competitive tension than is necessary in a friendly game – but it felt fantastic the year I came top.

(...)
It was only in James’s passing that I realised what a strange, open ended family exists on these small astroturf and wood panelled pitches. It’s the same the country over. 
The Sunday after he died, we gathered around the centre circle and stood for what seemed like five minutes silence.  No-one arranged it. Just amateur footballers honouring one of our own.»





domingo, 20 de dezembro de 2015

'Desert Raven', de Jonathan Wilson



(para amenizar facturas.... disse-me ela com carinho)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O ladrão de bicicletas


O golo para mim é mais do que uma coisa só bela. É sagrado. Quando bem executado, é um pequeno miracolo. Como o deste rapaz do sul de Itália, vai para 10 anos.
Com uma equipa no mínimo estranha, o Benfica até já tinha eliminado o Manchester United (de Sir Alex, Van der Sar, Rio Ferdinand, Giggs, Scholes, Rooney e do nervoso Ronaldo). E tão pouco tempo depois do passamento de George Best... Parecia bênção.
À Luz voltavam as míticas quartas-feiras europeias e há anos sem chegar tão longe na maior competição do planeta, numa espécie de oblivion desportivo.
Agora, era o Liverpool pela frente, com números dourados nas costas por ser campeão europeu em título.
Mas foi assim que o Benfica chegou aos quartos de final. Primeiro 1-0 em casa, eu e o mano e uma cabeçada do Luisão. Depois, melhor ainda. 2-0 em Anfield Road, e um amigo a captar no telemóvel o momento final e o eco de "Mi, Mi, Miccoli".
Simão até já tinha feito um golo de bancada para nos pôr na rota do Barcelona, mas a bicicleta ou moinho de Fabrizio, esse é que era o tal. Um golo que não era suposto, porque a bola vinha gelada dos pés tortos do Beto, e teve que ser Miccoli a corrigi-la para o lugar merecido. Picou a bola para a acalmar, levantou a jeito e fez um quadro. Num remate que acaba o jogo em grande beleza. E que faz do golo dádiva e verdadeiro cinema. 

Miccoli terminou hoje a carreira. Mas é já eterno.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Desenha-me uma ovelha !



 Com os filhos no 'Ideal', só para nós. 
E depois os pastéis de nata da Manteigaria União.

domingo, 13 de dezembro de 2015

his Master's Voice



Imortais são aqueles que não precisam de fazer 100 anos para viver 100 anos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Whiplash

  

"There’s a kind of numbness, a sameness, a lack of motivation in ‘good job’ culture. We’re raising a generation of kids who are being overly praised for incredibly minor accomplishments. I think it’s counter-productive."
JK Simmons

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Emblema de Prata


Há 25 anos sócio do clube mais antigo de Lisboa. E com os filhos a assistir à cerimónia.

amigos, amigos, Benfica à parte

sábado, 5 de dezembro de 2015

5 de Dezembro

É sábado de manhã, a gente joga à bola.


 
5.12.1976

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

numa estante


(Prado)

Guardou-o como um livro de que já se conhece o final. O marcador não passou do 3º capítulo.

sábado, 28 de novembro de 2015

Best


Aos sábados de manhã, no alto de Sto. Amaro, jogamos futebol.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

efeito Paris 13.11

- ir a um concerto em Lx. e sermos revistados (duas vezes);

- ver Bruxelas deserta e com tanques na rua;

- as polícias nas fronteiras a revistar carros, malas e passageiros.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

He's an Outlaw

 

«(...) Ao longo de cerca de hora e meia, Kurt Vile, que este ano lançou o sexto álbum, B'lieve I'm Going Down , ofereceu um espetáculo palpitante, assente na força das canções que, de disco para disco, vai colecionando, mas também na qualidade da sua banda, os Violators, e no seu próprio carisma improvável.

Aos 35 anos, o guitarrista de Filadélfia, nos Estados Unidos, continua a usar o cabelo à frente da cara e a suscitar os comentários mais curiosos: à nossa volta, houve quem notasse o seu ar perpetuamente deslocado, como "um daqueles miúdos pouco populares no liceu", e quem confessasse que Vile lhe fazia lembrar, tão só, uma década inteira: a dos anos 90, como se a mesma "fosse palpável", completavam.

Algo no autor de "Peeping Tom" está, concordaremos, ao lado ("I'm an Outlaw", do novo álbum, apresentada no banjo, é afinal a segunda canção do concerto). Mas é nesta margem que um dos fundadores dos War on Drugs prospera: entre canções, ao invés de se ocupar de conversas de circunstâncias, trata dos pedais de efeitos, afina as várias guitarras que lhe vão passando pelas mãos, afasta (apenas um pouco...) o cabelo dos olhos. E não há, na plateia, par de olhos que largue aquela figura curvada e estranhamente magnética.

Depois, claro, há as canções e o incrível talento de Kurt Vile para lhes dar vida em palco. (...) depois desta noite ficámos convencidos que é no contexto, próximo e intimista, de um clube rock que a sua música, quer a mais elétrica quer a acústica, melhor respira e é absorvida pelo público. E, apesar do som nem sempre brilhante, o Armazém F foi hoje esse clube rock de que já sentíamos falta. (...)»
 
Lia Pereira, in 'Blitz'

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

domingo, 22 de novembro de 2015

o Sopro épico que nunca acontece


"Nos filmes de Salaviza os rapazes partem à conquista da luz e da cidade. Mas em Montanha David transporta a sua escuridão. É esse o habitat de um jovem em busca do sopro épico que nunca lhe acontece."

Vasco Câmara, 'Público'

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Rio Joy



Valeu, Tomás !

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Chêgando *




* Há livros que nos mandam mesmo para outro lado.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

The Force is with Us


O fim e o início.
Agora sim, para o regresso dos Jedi preparados estamos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Los Pumas


No último fim de semana mandaram para casa a minha adorada Irlanda. Este domingo, com a Austrália, menos que isso considero traição.
Não se deve pedir para escolher entre o pai e a mãe.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Commedia dell'Arte




Se a derrota foi o tributo a pagar para assistir a mais esta obra prima do nosso Nico Gaitán, então valeu a pena. O desgosto é o resto do jogo ter corrido em modo de anti-clímax.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Johnny Deep



'Black Mass', de Scott Cooper

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Culto é isto.

Sabem quando resistimos a ir dormir ou não temos sono sequer, é uma da manhã, o comando é só zapping e ficamos a ver um filme que já vimos umas dez vezes ?
Domingo para segunda aconteceu outra vez.

Impossível não ficar pregado às proezas deste grande bando de artistas.



'Snatch, Porcos e Diamantes'

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

(Wild) Horses


Lisboa, 21 de Setembro de 2015. 21h35m. Nova Iorque continua à mesma distância de sempre. 5.400 kms em linha recta, por causa da latitude, e menos cinco horas de fuso. Cidades tão diferentes. Uma a desaguar de luz virgem, a outra explodindo na escuridão. Uma parece que só dia, a outra espreme noite e néons. E se uma nasce do rio, doce e antigo, a outra brota a raiva das ruas sujas, todos os dias travesti. Pedra da calçada vs alcatrão.
Continuam à mesma distância, mas é possível, em não mais que duas horas, sermos cuspidos para o 176 da Bowery, em NYC, onde morreu a velha CBGB, meca do punk dos anos 70.
E a culpa é desta velhota.
Patti Smith mantém intactas todas as qualidades que fizeram dela o pistão máximo da cena artística-rock. E 'tá-se a cagar.  «Jesus died for somebody's sins but not mine».
O Coliseu transborda. Sua de cheio, e o motivo não é para menos. Passam 40 anos sobre o 'Horses' e viemos à celebração. Está a rebentar e a energia sexual que dele pulsa podia talvez derrubar um governo. Mas isto já é sonhar alto.
Vemo-la de perto e Patti Smith escarra para todas as convenções que possa haver sobre o que uma mulher da idade dela é suposto estar a fazer. Como escarra no palco quando precisa de libertar a garganta para os versos de 'Gloria' ou 'Pissing in a River'. Toca o lado A, vira o disco, pega no braço e coloca a agulha para o lado B. 
A certa altura pede a companhia do anjo de Jim Morrison que quer libertar como os escravos do Michelangelo do mármore em bruto. Chama por Jimi Hendrix e por todos os que se foram antes do tempo, Janis Joplin, Brian Jones, Lou Reed, Fred Sonic Smith, o seu eterno Robert (Mapplethorpe), os Ramones, um a um, Kurt Cobain, Amy Winehouse, a quem oferece canções, como flores que lhes derrama para as campas, lindas e tristes. Do público, ouve-se um grito por William Burroughs.
Atira folhas com versos inteiros pelo ar, convocando sempre a poesia, a mãe de tudo o que faz. A casa de Pessoa. Os livros que ele lia. Os mesmos que nós. Oscar Wilde, William Blake, Whitman ou Rimbaud. Ginnsberg se não tivesse vindo depois. 

Esta mulher não desiste. Com o seu longo cabelo branco, continua sem dono e quer a mesma revolta para nós. Contra as empresas, governos e todos os exércitos do mundo.
"C'mon Motherfuckers !", 'People Have the Power' com o punho bem erguido e a força expulsa das suas entranhas. E essa parece a grande utopia. Olhem para os gregos.
Mas ao mesmo tempo, mamma, com um amor imenso por nós. Ternura nos braços, entre canções e carradas de cabedal.
De orgasmo em orgasmo, e quando o corpo já não pode mais, mete o som de velhos rebeldes nos microfones. Velvet Underground e The Who pingando em suor e no meio de muito fumo.
Para fechar a Performance esfolando a guitarra e rebentando, uma por uma, as cordas da sua Fender, a quem depois beija com gratidão a despedida, numa muralha de feed-back.
I am You. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

The Goodfella



(com um mês de atraso e um sentido obrigado à box cá de casa que guardou o último Daily Show com o Jon Stewart este tempo todo. Serviço público.)

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

U.S. King


Não é segredo nenhum. Aqui somos Djoko.
Porque o ténis é sofrimento. É muito trabalho. Porque a vida é trabalho e sofrimento. E pelo meio, rimos um pouco. E olhamos para as coisas belas.
Novak venceu mais um U.S. Open e o 10º grand slam da carreira. E com o Arthur Ashe todo contra ele. 
Sofreu, claro, para ganhar ao Senhor Federer. Mas that's life.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Buenos Aires - último dia

[desenho de Eduardo Salavisa, roubado daqui]
 
 
(…) Faltava, porém, fazer uma última coisa em Buenos Aires.


É o nosso último dia na cidade porteña. O sol está lindo, mas do rio de La Plata vem aquele fresco de início de Primavera. Como adoro. Sair logo de manhã e sentir esse friozinho que lava duas vezes.
Os minutos começam a fugir como areia numa ampulheta. Não queremos deixar Buenos Aires. Queremo-la para sempre. Como à mulher amada.
Apanhamos a calle de S. Martin e paramos numa sapataria onde compro um par de sapatos de camurça por 200 pesos que estavam na montra. De uma loja em frente a Cristina traz um par de jeans argentinos.

Faltava fazer uma última coisa em Buenos Aires. Há vários dias que pensava nisso. Quase desde o princípio da viagem. Mas só agora a adrenalina é que mandava. Agora quando o tempo escasseava.

Numa espécie de última prova de fogo, resolvo tomar o caminho mais longo que era possível para chegar ao sítio premeditado. É uma volta enorme pela cidade, das maiores. A maior pelo menos que iríamos dar em toda a viagem. Estamos na calle Florida e eu quero é ir para Rivadavia, onde mora o que vi num livro. De táxi teria feito sentido. Talvez demorássemos meia-hora. Nem tanto. As avenidas de B.A. têm mil números. São eternas. Mas talvez fosse o meu sub-consciente a pedir a última prova. De sangue.
É uma volta enorme, para lhe guardar o gosto. É sábado e as ruas estão cheias de gente.

A Cristina está farta de andar e começa a implorar um café. Digo-lhe que falta pouco, que é já na próxima esquina, que está quase. Tanta premeditação não podia morrer pelo caminho.
Com os pés já em dor, depois de quase três horas a andar, chegamos.

“Las Violetas”, lemos. Em Rivadavia.

A Cristina está furiosa comigo. Nem olha bem à volta. Diz-me para lhe pedir uma água gelada e vai à casa de banho. E eu fico na mesa. A ganhar coragem. Não há forma menos fatela de o dizer. Olha, que se foda ! Quando regressar, pergunto-lhe se casa comigo. Assim, como se a convidasse.
Recebi uma gargalhada monumental. É mesmo fatela pedir alguém em casamento. Mas já está e não se volta atrás. Ainda pensei que tinha feito merda. Que talvez me tivesse atirado do alto do Obelisco da 9 de Julho sem pára-quedas. Ou então era por não estar de joelhos, como nos filmes, ou por não ter anel, nem nada para lhe pôr no dedo, na orelha ou no pescoço. Mas não tinha, e não ia inventar ou comprar qualquer coisa a correr. A correr só o que tinha para lhe dizer e que já queimava na língua. Estava feito, estávamos num Café e havia gente perto, e ela não parava de rir. “Fazes-me andar meia cidade para me dizer isto ?” E eu com cara de parvo, provavelmente. Talvez para o ano, continuei. Não há pressa nenhuma. É só para pensarmos nisso. Deu-me um longo beijo, e, finalmente, disse o sim que eu já duvidava.
Apanhámos um táxi (era importante agora não abusar) para a Recoleta, onde almoçámos e fizemos pela última vez a Arenales. No “Richmond” o último café e adeus Buenos Aires !, cidade linda, perfumada por Gardel e Perón, trágica como Piazolla e suja de tanto sonhar como Maradona, cheia de luz e da melhor gente que já encontrei, dos Cafés antigos e das livrarias com sabor ao antes.

Sou teu e tu és minha.

"I sing the songs that people need to hear"


"The ferocity of her voice documents a neglected child, a woman constantly entering into bad relationships and an artist raging against an industry and a society that had routinely discriminated against her."
'The Guardian'

A enorme Etta James se encontra no panteão da minha discografia pessoal. E de pleno direito.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O pirata das Caraíbas




«É uma rotina que te ocupa o tempo todo. Acordava de manhã e a primeira coisa que fazia era dar um chuto na casa de banho. Lavar os dentes ? Esquece. "Foda-se, tenho de ir à cozinha buscar a colher." Rituais estúpidos. "Merda, porque é que ontem à noite não me lembrei de trazer a colher da cozinha ? Lá tenho eu de descer outra vez as escadas." Cada dia se tornava mais difícil largar a droga, ou maior era o desejo de voltar a ela, se o conseguisses fazer. "Só mais uma vez, agora que já estou limpo." É essa vez, em jeito de festejo, que é fatal. Para piorar, tu até podes estar limpo, mas todos os teus amigos são agarrados. Quem se cura sai do círculo. Podem adorar-te ou detestar-te, não importa: a primeira coisa que vão fazer é querer trazer-te de volta. "Tenho aqui uma merda mesmo boa." Se alguém fica limpo e limpo se aguenta, passa a ser visto pela irmandade dos agarrados como um falhado. Falhado em quê, não faço ideia. Quantas crises de privação serás tu capaz de aguentar ? É ridículo, mas quando estás viciado nem te pões essa pergunta. Várias vezes, durante uma ressaca, me convenci de que por detrás da parede havia um cofre cheio de droga, já com colher e tudo o que era preciso. Depois adormecia. Quando acordava, dava com a parede arranhada e cheia de sangue - tinha mesmo tentado chegar ao cofre. Valerá a pena passar por uma coisa destas ? Na altura, decidi que sim.
Por natureza, posso ser tão presunçoso e frívolo como o Mick, mas quando és agarrado isso está fora de questão. Não o podes ser, mesmo que queiras. Há forças em jogo que te mantêm os pés assentes, já nem digo na terra: na sarjeta. Muito mais baixo do que seria preciso. É óbvio que nesse período eu e o Mick seguimos caminhos absolutamente opostos. Ele não tinha paciência para mim, para a minha suposta estupidez. Lembro-me de estar numa discoteca à espera de um dealer, num estado lastimável. À minha volta, as pessoas dançavam como bolinhas cintilantes, e eu debaixo dos bancos, a esconder-me para que não me vissem vomitar, e o cabrão do gajo nunca mais chegava. Quando ao mesmo tempo, me perguntava: "Será que ele, aqui, me vai encontrar ? Ou será que chega, não me vê e baza?" Digamos que me encontrava num estado de grande perturbação mental. Felizmente, deu comigo. Um guitarrista mundialmente famoso a sujeitar-se àquilo - percebias a que ponto tinhas descido. Descer a um ponto destes faz-te sentir nojo de ti mesmo, um sentimento que demora algum tempo a desaparecer. "Meu grande filho-da-puta, és capaz de fazer qualquer coisa por uma dose, não és ?" Ainda assim, continuava a julgar-me senhor de mim mesmo. Ai de quem me dissesse o que devia fazer. Mas chegar ao ponto em que estás totalmente dependente de um dealer é uma coisa nojenta. À espera de um filho-da-mãe daqueles, e pronto a suplicar-lhe ? É aí que entra o nojo de si mesmo. De todos os pontos de vista e mais algum, um agarrado é um tipo à espera do dealer. Todo o teu mundo se reduz à droga.
Quase todos os agarrados se tornam imbecis. Foi isso que realmente me fez abrir os olhos. Só tínhamos uma coisa na cabeça: a droga. Não seria eu um pouco mais inteligente do que isso ? O que é que eu ando a fazer na companhia destes desgraçados ? São simplesmente pessoas chatíssimas. Pior: muitas delas até são brilhantes, e sabemos que, no fundo, nos deixámos enganar, mas também... porque não ? Toda a gente se deixa enganar por alguma coisa; nós ao menos sabemos que nos enganamos a nós próprios. Ninguém é um herói só por se drogar; podes ser um herói é se conseguires deixar a droga. Por mais que eu adorasse aquela merda, tinha chegado o momento de dizer basta. Além disso, o cavalo estreita-te os horizontes e a uma certa altura só conheces agarrados. Eu precisava de horizontes mais largos. Claro que, tudo isto, só o percebes depois de sair do inferno. Tem esse poder, a droga. É a puta mais sedutora do mundo.»

Keith Richards, 'Life', ed. Cavalo de Ferro

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"It's only Rock 'n' Roll"

  
É por estas e por outras que eu acho que a minha grande vocação (frustrada, obviamente) era ter sido um guitarrista de uma banda de rock, adorado por milhares de almas e oferecendo-lhes o melhor de mim. Até fui ver de um estúdio, mas não tinha tipos à altura com excepção de um gajo que lhe dava na bateria, e depois - culpa minha - também não procurei mais.
King Keef Richards.

«Ali estás tu muito bem a tocar com uns tipos, quando te sai um Oh, yeah! Essa sensação vale por tudo. Por um instante, sentes que deixaste o planeta, que ninguém te pode tocar. Estás noutra esfera, com gajos que partilham exactamente o mesmo objectivo. Quando isso acontece, meu amigo, ganhas asas. Depois voltas, mas sabes que estiveste num sítio onde a maioria das pessoas nunca há-de pôr o pé, um sítio único. Só queres voltar a descolar, voltar a aterrar; mas quando aterras, tens a bófia à coca. Andaste a voar sem autorização.
(...)
A oportunidade surgiu, e quem é que seria capaz de as deter? Encharcadas de desejo sexual, apesar de não saberem muito bem o que fazer com ele. Como toiros enraivecidos, e nós o pano vermelho! Foi o delírio. Uma força incrível. Nadar num rio cheio de piranhas era mais seguro. Ganhavam balanço a mais e perdiam o controlo. Miúdas que se vinham, que sangravam, que rasgavam as roupas, se mijavam nas cuecas. Era o pão nosso de cada dia. O concerto era isso. Pouca diferença fazia, quem estivesse a tocar. Estavam-se bem marimbando para o facto de eu querer ser um músico de blues.»

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O "realismo sórdido" de Jafar Panahi


"Taxi" é um quase-documentário que nasce sob o signo do humor étnico e cultural, mas que vai ganhando um corpo político e moral até à cena final (devastadora) quando nos deixa sem genérico, que afinal tudo explica.
Com "Taxi", Jafar Panahi venceu o Urso de Ouro do festival de cinema de Berlim. A sua sobrinha, Hana Saeidi, que deslumbra no filme, recebeu o prémio em seu lugar.
Panahi esteve preso e está impedido de sair da República Islâmica do Irão, onde foi proibido de fazer filmes por 20 anos.
Acontece que a liberdade está mesmo dentro de nós.

"Nothing can prevent me from making films since when being pushed to the ultimate corners I connect with my inner-self and, in such private spaces, despite all limitations, the necessity to create becomes even more of an urge."