terça-feira, 20 de novembro de 2012

Uma mulher



Era por momentos assim. Como este.
Aquela mulher tinha perdido tudo. Uma mulher a quem tudo se tinha tirado. E tudo era realmente tudo. Se pudéssemos olhar para dentro da alma, teríamos visto uma minúscula formiga metida no canto de um caixote do lixo.
Saíra de casa para deixar um homem que de marido era nada. E o próprio filho, dor que ninguém explica, ainda pequeno. 
Farta das violações, das agressões e da droga. Que isto não é só coisa dos pobres.
Cansada também da família rica do Norte, dona de farmácias. Cansada de gente horrível que não cura nada e a queria acorrentada ao casamento como se isto fosse algum castigo.
E assim, vazia, esta pequena mulher metida no canto do lixo, veio procurar Advogado que lhe resolvesse o problema da vida. Vestida com a única réstia de dignidade que lhe sobrava: contar-lhe tudo e gritar socorro.
Enganando a fome com umas bolachas. Às vezes isto acontece. Parece que pode ser pior com as famílias que têm dinheiro. Que tudo recusam para melhor coagir. Que preferem a pior das relações, a não ter uma sequer.
E aquela tortura de marido que não aceitava que se podiam divorciar, jurava que a mulher nada veria para si. Nada teria para ela. Negando-lhe alimentos, pensão, partilha, as jóias, as roupas e cuecas que tinha deixado para trás. Negando-lhe o filho.
Aquela mulher fugiu. Para cinco anos de um processo. Para a revolta, as lágrimas e mentiras que só um processo de família conhece. 
Naquele dia, esta mulher olhou para o seu Advogado e só não o beijou porque o pudor o recomenda. 
"Estou divorciada ? É mesmo verdade ? Ai, Senhor Dr., sou a mulher mais feliz que há no mundo !"

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