quarta-feira, 12 de abril de 2017

Istambul já não é Istambul.

15 anos não é muito tempo. Não é sequer uma geração.
Há 15 anos fui a Istambul e depois a uma parte do interior turco. O Bósforo, a ponte, as colinas, os edifícios que se engalfinham desde o mar lembravam-me Lisboa com odor a narguilé. Algumas ruas, os bairros de Alfama e da Mouraria. Até uma certa Luz na cidade. 
Mas depois tudo era diferente. As mesquitas, o eco dos muezzins cinco vezes ao dia, as especiarias e a feira no Grande Bazar, a língua, os rostos.
Apesar da parte ocidental, de Ortaköy, aquele pedaço de terra ancorado à Europa, dos vestígios do antigo Império Otomano e Bizâncio, estávamos - e sentíamos que estávamos - num país onde mandava o Islão.
Hoje, não me apanhavam na Turquia. Não é a mesma. E já não quer a União Europeia para nada. Mas aí nem os podemos culpar. Ao ritmo a que isto vai.
A fronteira com a Síria e com o Iraque, e com o resto do mundo árabe, bem como o papel geo-político que assumiu no confronto que há mais de cinco anos arrasa aquele país, tornam a Turquia um alvo-escola para os terroristas. A Turquia ?
É todo o mundo que está assim, pendurado por um... califado. Que invenção do demónio !
Até pode ser o estertor do estado islâmico, mas desde o início do ano já explodiram cinco atentados.
Em Istambul ainda batiam as doze horas do 1º de Janeiro.
Depois Londres, São Petersburgo e já Estocolmo. * E agora o Cairo. A uma semana da Páscoa. Que é para nem falar nos outros continentes.  
Ah, pois, sempre houve atentados terroristas na Europa: ETA, IRA, Brigadas Vermelhas, Baader Meinhof. So what ? É suposto ficar indiferente ?
"Os europeus vão ter que se habituar.", é a nova ordem internacional.
Repetir até habituar. Para abandonar a capa dos jornais e passar tudo ao rodapé. Acabar com o choque surpresa e agora quem é que reza ou pensa em quem partiu assim ? Sem um minuto de silêncio ? Sem uma flor ou uma vela. Sem posts virais no facebook. Até Berlim parece que já foi há um ano.
"Os europeus vão ter que se habituar.". Impossível. Ficar refém também é isto.
Impossível ignorar quem morre só porque está ali. 
Impossível entrar na rotina de ataques como o do new year's day, enquanto brindam os flutes e estoiram foguetes, ou se beija quem se ama. Sem sentir um frémito. 
Impossível desviar o rosto como se faz a mais um acidente na estrada, ou porque é longe e não é connosco, pelo menos para já, ou agora. Uff !.....


* e Manchester (actualizado a 23.05.17).
** e Londres, again (actualizado a 3.06.17).

1 comentário:

Are You talkin' to Me ?