quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Buenos Aires - último dia

[desenho de Eduardo Salavisa, roubado daqui]
 
 
(…) Faltava, porém, fazer uma última coisa em Buenos Aires.


É o nosso último dia na cidade porteña. O sol está lindo, mas do rio de La Plata vem aquele fresco de início de Primavera. Como adoro. Sair logo de manhã e sentir esse friozinho que lava duas vezes.
Os minutos começam a fugir como areia numa ampulheta. Não queremos deixar Buenos Aires. Queremo-la para sempre. Como à mulher amada.
Apanhamos a calle de S. Martin e paramos numa sapataria onde compro um par de sapatos de camurça por 200 pesos que estavam na montra. De uma loja em frente a Cristina traz um par de jeans argentinos.

Faltava fazer uma última coisa em Buenos Aires. Há vários dias que pensava nisso. Quase desde o princípio da viagem. Mas só agora a adrenalina é que mandava. Agora quando o tempo escasseava.

Numa espécie de última prova de fogo, resolvo tomar o caminho mais longo que era possível para chegar ao sítio premeditado. É uma volta enorme pela cidade, das maiores. A maior pelo menos que iríamos dar em toda a viagem. Estamos na calle Florida e eu quero é ir para Rivadavia, onde mora o que vi num livro. De táxi teria feito sentido. Talvez demorássemos meia-hora. Nem tanto. As avenidas de B.A. têm mil números. São eternas. Mas talvez fosse o meu sub-consciente a pedir a última prova. De sangue.
É uma volta enorme, para lhe guardar o gosto. É sábado e as ruas estão cheias de gente.

A Cristina está farta de andar e começa a implorar um café. Digo-lhe que falta pouco, que é já na próxima esquina, que está quase. Tanta premeditação não podia morrer pelo caminho.
Com os pés já em dor, depois de quase três horas a andar, chegamos.

“Las Violetas”, lemos. Em Rivadavia.

A Cristina está furiosa comigo. Nem olha bem à volta. Diz-me para lhe pedir uma água gelada e vai à casa de banho. E eu fico na mesa. A ganhar coragem. Não há forma menos fatela de o dizer. Olha, que se foda ! Quando regressar, pergunto-lhe se casa comigo. Assim, como se a convidasse.
Recebi uma gargalhada monumental. É mesmo fatela pedir alguém em casamento. Mas já está e não se volta atrás. Ainda pensei que tinha feito merda. Que talvez me tivesse atirado do alto do Obelisco da 9 de Julho sem pára-quedas. Ou então era por não estar de joelhos, como nos filmes, ou por não ter anel, nem nada para lhe pôr no dedo, na orelha ou no pescoço. Mas não tinha, e não ia inventar ou comprar qualquer coisa a correr. A correr só o que tinha para lhe dizer e que já queimava na língua. Estava feito, estávamos num Café e havia gente perto, e ela não parava de rir. “Fazes-me andar meia cidade para me dizer isto ?” E eu com cara de parvo, provavelmente. Talvez para o ano, continuei. Não há pressa nenhuma. É só para pensarmos nisso. Deu-me um longo beijo, e, finalmente, disse o sim que eu já duvidava.
Apanhámos um táxi (era importante agora não abusar) para a Recoleta, onde almoçámos e fizemos pela última vez a Arenales. No “Richmond” o último café e adeus Buenos Aires !, cidade linda, perfumada por Gardel e Perón, trágica como Piazolla e suja de tanto sonhar como Maradona, cheia de luz e da melhor gente que já encontrei, dos Cafés antigos e das livrarias com sabor ao antes.

Sou teu e tu és minha.

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