quinta-feira, 7 de abril de 2016

Choose Life

A ocasião é para celebrar. Não sei se com um remake como está prometido - Mark Renton ia preferir um chuto e é sempre complicado regressar a um sítio onde se foi feliz -, mas é não menos que irresistível voltar 20 anos atrás para a estreia do Trainspotting. 
 
Chamar-lhe o filme de uma geração é cliché. Mas então como é que tratamos o primo que não conhecíamos e nos trouxe aquela pilha de discos incrível ? Como é que se descreve uma marca que nos fica agarrada tanto tempo ? Ok, pode ser tatuagem, Sr. Iggy Pop.
Tínhamos 18 anos e estávamos na universidade, o que só por si já é encruzilhada suficiente. O objectivo era encontrar o caminho mais curto para fora da adolescência, quando, Bang !, toma lá, disse o Danny Boyle, e boa sorte ! Só para te dar o cheirinho agridoce de outro horizonte. A vida não é só o bairro limpo onde vives, boy. E como não era, toca de sentar duas vezes no cinema só para perceber bem o que era aquilo.
Nota mental: depois repetir sempre que possas.
 
Trainspotting é um filme ácido, com sentido de humor. Os diálogos são dessa carne. Também metafísica. De como a vida pode ser lixada. De como há vidas completamente lixadas. E não é da droga (ou só da droga), mesmo que ela nasça sempre na ponta de uma agulha, servida numa bandeja da "Madre Superiora" ou em supositórios de ópio quando não há mais nada em Edimburgo e arredores, e é preciso mergulhar na worst toilet do país.
Trainspotting, sempre achei, é sobre procurar um caminho para fora daquilo. E aquilo tanto pode ser a heroína, como o hooliganismo de um amigo, a sacanice de outro ou a própria antecâmara da morte, ao som de Lou Reed.
Nunca foi um convite à dependência. É exactamente o contrário. Achar uma forma. Experimentem. Fugir ao império escrito dos mais velhos, à rotina trilhada por outros com demasiado medo de arriscar. Ao colesterol, à televisão panorâmica, às máquinas de lavar, ao seguro dentário, à hipoteca da tua casa, e por aí fora. Sobreviver. Sonhar. The end.
E depois, embrulhadinho numa banda sonora que é um "best of" de um brutal festival da época, e escolhida a dedo por gajos da nossa idade ! Ou que a tinham tido. E só por isso já valia a pena gastar todos os escudos rançosos dos nossos bolsos.
A caminho da faculdade de Direito, três gajos num velho Talbot, cor de creme, a apodrecer, e com garrafas de vodka a boiar da noite anterior, enquanto tocava no aparelho o "Born Slippy" dos Underworld.
 
A faculdade ia passar. Nós íamos continuar a sair à noite, conhecer outras miúdas, com sorte, a mulher da nossa vida. E sobretudo viajar. Todos os anos, com os melhores amigos, nos comboios da Europa.



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