quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Gratidão é pouco



Mário Soares (1924 - 2017)

Quando acompanhou o pai a um Rossio a deitar por fora de gente para assistir ao comício de encerramento das Presidenciais de 1986, ele já sabia quem era o Mário Soares. Tinha quase 9 anos e as conversas, por vezes acesas, nos jantares de sábado em casa dos Avós, sempre lhe tinham chamado a atenção para aquele nome sonoro, curto e térreo. Mário Soares, que o pai defendia sempre, quando um tio ou tia mais inflamados o acusavam disto ou daquilo. Mário Soares, o homem da Liberdade – isso era certo ! -, do lado certo da vida, como Olof Palme, Willy Brandt ou Mitterrand. Mário Soares, o nosso Marocas.
Já sabia quem ele era, embora pudesse saber ainda pouco do que ele tinha feito. De certeza que o pai já lhe tinha contado dos tempos da ditadura, do 25 de Abril, da chegada a Santa Apolónia, do discurso na Fonte Luminosa, talvez até já tivesse ouvido um bocado do debate com o Cunhal que o pai gravara numa velha cassete audio da BASF que lá andava por casa. Mas isso eram tudo histórias. O que ele sabia mesmo é que ele era “fixe”, e que o ia ver. Por isso, quando o Rui Veloso deixou o palco nesse último comício de 1986 depois de cantar a música da campanha, pediu ao pai para lhe subir para os ombros, enquanto levantava a bandeira com a rosa e as cores de Portugal que levara com a mana.
Depois ele falou. Não se lembrava do que ele tinha dito, mas do que se lembrava era da palavra vitória. Do que se lembrava era da emoção. Mário Soares para ele era emoção. Que seria maior quando, dois dias mais tarde, depois de ir com os pais à escola ver como se votava, e quando, já noite, tinham chegado alguns amigos a casa para seguir os resultados das eleições, todos se abraçavam que o Soares tinha ganho ! Esperaram os discursos, primeiro o de Freitas, a seguir o dele. Saíram então à rua, provavelmente no Renault 5, para se juntarem à enorme caravana, como só voltou a ver quando Portugal foi campeão europeu.

Continuou sempre a ouvi-lo. E a aprender. Como adorou aqueles anos em que só ele acusava o que mais ninguém atrevia ao primeiro-ministro ceroso e hirto que nesses anos governava Portugal....
E continuou a lê-lo e a admirá-lo. Na coragem e energia que imprimia ao que dizia. Um dia até se encontrou com ele. Nos anos da Católica, com Sampaio presidente, uma conferência. Bebeu-lhe as palavras. Mas o que lhe interessava mesmo era falar-lhe um pouco e mostrar-lhe o livro que andava a ler: “O Futuro será o Socialismo Democrático” (1979).
«Esse livro é muito antigo.... », comentou Soares. «Mas actual !», não pôde deixar de lhe retorquir. Pegou nele com um sorriso e dedicou-lho “com um abraço do Mário Soares”.
Continuou a segui-lo, sempre que intervinha, ora ao vivo, numa “réplica” do debate com Álvaro Cunhal, ou enquanto candidato ao Parlamento Europeu, para, finalmente, poder votar nele. Como votaria depois quando se voltou a candidatar à Presidência da República. Quando se acredita é assim.

Agora, que já recebeu a notícia que todos esperávamos mas que não queria que chegasse, foi a casa dos pais. Na rádio acabava de escutar a declaração de Mário Soares após as cenas da Marinha Grande. Emocionou-se. A força toda ali !
O pai já estava na rua, preparando-se para comprar cravos. Deu-lhe um abraço. Não sabendo se o confortava, se procurava consolo. Sentiu-lhe um soluço.
A mãe, querida, entrevistada para o site do JN em frente aos Jerónimos. Comovida.
É, mãe, «todos os portugueses devem sentir gratidão por ele» e «devem sentir uma grande falta».

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