sexta-feira, 20 de agosto de 2010

命名日 (Feliz Dia do Nome)

(When you're sixty-four)


Começaste a ir à China há dois anos e tal quando enfiaste na cabeça que ias aprender a língua dos códigos de barras. Tipo empreitada. Tipo aposta. Tipo fatal.
Porquê chinês, Pai ? Porque não russo ? "Se é para tortura, que seja total !", foi o que disseste. Pegaste nuns cadernos e no computador.
Mas como não te chegava saber como se diz tudo nessa língua de trapos, pegaste também na História do Império do Meio, da civilização antiga, das dinastias, das etnias, dos segredos, do padre Jesuíta que partiu para o Oriente e lá descobriu uma forma de os traduzir pela primeira vez.
Num instante tudo era China lá por casa. Dicionários, livros, de fotografia, de História, Filosofia, guias de viagem, romances.
E a cada novo caractere que aprendias lá vinhas tu com a história toda do bicho. Origem e evolução. E eu trouxe-te aquele livro de Paris...
E mostravas-me como os caracteres se compunham e se desconstruíam, e o que cada minúsculo tracinho significava e como tudo mudava como o vento se fosse mal executado. Como tudo muda quando é dito, mesmo quando é dito no tom certo, porque tudo muda conforme o sítio onde é dito. Conforme a província de quem ouve e o sotaque de quem diz. Que horror horrível !
Milhares de caracteres que me trocam os olhos só de tos ver estudar. Tantos quanto as longas horas que te vi sentado na secretária que já foi minha, ao computador. Até de madrugada, no Monte de Santiago, a aprender novos programas informáticos para escreveres o mandarim. E o entusiasmo que te levou quase a dar aulas conjuntas com o teu professor, ansioso para  saberes mais e também ensinar aos outros. Outros que foram também os chineses com nomes impronunciáveis que levaste ao Monte para ajudarem na apanha da azeitona.
E como resolveste ensaiar a canção do "Molihuá" à tua neta mais velha que tinha três anos. Como bastaram dois meses e um bom ouvido, sentada no colo do teu amor, para a saber de cor, mesmo que apenas soubesse que era a canção do Jasmim. Lá foi a miúda depois para o palco da tua Faculdade na sessão de encerramento do 1º ano. De microfone na mão, contente e atrevida, atrás de um órgão que ela nunca tinha ouvido, cantar numa língua de sons.
Bolas, Pai ! Que lonjura. Que viagem bem feita. E agora para Xangai. Depois de Xian.
E a Mãe diz que já te vais safando bem no meio deles. E eu só acredito porque te conheço.

Feliz dia do nome, não é ? Parabéns. Dá também um beijo à Mãe.

P.S. Não leste isto porque o longo braço da censura não o permite. Como é que se diz cortina de ferro ?

1 comentário:

  1. Lindo André! É uma beleza ler o teu conto daquilo a que também eu fui assistindo. Um beijinho

    Mile

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