sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

"Mulheres", de Charles Bukowski


«Nessa noite, ela bebeu meia garrafa de vinho tinto, um bom vinho tinto, e ficou triste e calada. Eu percebi que estava a associar-me às pessoas do hipódromo e à malta do boxe, e era verdade, eu estava com eles, eu era um deles. A Katherine sabia que havia algo em mim que não era salutar, no sentido em que é salutar aquilo que faz bem. Eu sentia uma atracção por todas as coisas erradas: gostava de beber, era preguiçoso, não tinha um deus, política, ideias, ideais. Estava instalado no nada; uma espécie de não-ser, e aceitava-o. O que não configurava uma pessoa interessante. Eu não queria ser interessante, era demasiado difícil. Aquilo que eu realmente queria era apenas um espaço ameno e enevoado onde viver, e que me deixassem em paz. Por outro lado, quando me embebedava punha-me aos gritos, enlouquecia, passava-me dos carretos. Um comportamento não batia certo com o outro. Pouco me importava.
Mandámos uma valente queca nessa noite, mas foi a noite em que a perdi. Não havia nada a fazer. Rebolei para o lado e limpei-me ao lençol enquanto ela foi à casa de banho. Lá no alto, um helicóptero da Polícia rondava os céus de Hollywood.»

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