segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Oslo (último dia)

No último dia o despertador não toca. Não o liguei, apesar de querer. O sub-consciente trabalha de uma forma curiosa. Como se fosse para ficarmos cá.
Com pouco tempo, vamos directos a uma "travel bookshop" que tinha visto na véspera, a 'Nomaden'. Têm os guias todos do mundo, mapas pendurados, globos terrestres de vários tipos e tamanhos, equipamentos de viagem, tudo para todo o lado. Dá vontade de partir já para outro sítio. Compro um livro sobre a Noruega e vêm também um par de binóculos para o Rodrigo, uma bússola para a Matilde, e para a Carmo um ursinho polar.
Olho para tudo pela última vez. Olho. Oslo. Olho. Oslo. Olho.
Está.


Pois estes noruegueses têm qualidades. Ainda o Estado Social. A organização da sociedade. O civismo e o zelo pelo bem comum, pelo interesse colectivo, pela propriedade. O respeito máximo pela igualdade. A calma e naturalidade desse assunto, nos direitos e em tudo.
O design. O traço claro, o pragmatismo das linhas e do raciocínio. A competência e seriedade no trabalho. Um povo que horroriza com ilógicas perdas de tempo, com o desperdício e com a corrupção, que nem compreendem bem. Para quê ter mais para mim se todos ganhamos mais somando tudo?
A ordem para eles é segurança, e, por isso, é quem os faz rígidos e inflexíveis ao que sai da regra e do hábito. Por medo até. Que é onde entra a frieza, uma certa reserva no trato ao estrangeiro. Porque olham para o sol dos latinos como horizonte.
Esse lado, afinal humano, para mim muito interessante, quando os notei procurando compreender-nos. Onde nós entramos. Explicando-lhes o barroco, o tempero da linha arredondada, que não acaba o mundo se adaptarmos a norma ao dia, e que a vida não é uma ciência exacta. Que há virtude e graça no improviso e muito mais para além do lado certo da estrada. Que ser sanguíneo não é ódio. Apenas impulso. E excesso. E como dá saúde ter até momentos de perdão inesperados. Que é o que a boa moral oferece à lei.
Mas sem que nada substitua o gosto olfactivo das coisas. O perfume que invade tudo o que é Sul, e que aqui jaz longe, enterrado, levado entre o ar frio e seco, que espanca mesmo uma pessoa com mau nariz como eu. 
E no meio disto tudo, a Noruega é um país tremendo de talento natural a que só um morto pode ficar indiferente. Escandaloso de contrastes e bruto de força. Esmagador de belo. Só que admirando (de uma certa maneira) a forma como vivem e vêem o mundo, regresso não norueguês. Como voltei não islandês. Porque não me raptaram como Irlanda ou Argentina, ainda hoje duas pátrias no meu coração.

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