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domingo, 28 de outubro de 2018

Roma eterna


«Na primeira visita à Questura na Via Genova, junto à Via Nazionale, saímos de mãos vazias, porque chegámos às oito da manhã e já não havia senhas. No dia seguinte, estávamos na bicha antes das seis e conseguimos entrar, rodeados por uma maré humana heterogénea, no pátio do edifício. Ao fundo, havia um postigo a que tínhamos de ir, um a um, com o passaporte e o contrato de trabalho. Com centenas de pessoas à espera, o postigo abria e fechava a espaços: agora atende-se, agora não. Aproximei-me para verificar o que se passava lá dentro e vi um cavalheiro com uns 30 anos e uns enormes óculos de sol a folhear La Gazzetta dello Sport. Quando encontrava uma notícia interessante, ou se aproximava dele um colega de trabalho para fazer algum comentário importante sobre o joelho do Totti ou o esquema táctico da Roma, o cavalheiro dos óculos escuros fechava o postigo; passada a emergência retomava o contacto com os cidadãos. Vão pensar que estou a inventar isto. Quem me dera.
(…)
Certa tarde, a caminho do meu escritório no La Repubblica, vi um miúdo a arrombar a porta de um carro no parque da estação Termini. Dois carabinieri aproximaram-se por detrás, agarraram-no pelos braços e algemaram-lhe as mãos atrás das costas. Nada de especial, uma simples cena quotidiana. Mas eu sou daquelas pessoas que, só para não irem trabalhar, estão dispostas a entreter-se com qualquer coisa, e fiquei a ver.
Um dos agentes foi-se embora e o outro ficou com o detido e encaminhou-se para a esquadra da estação. Lá iam eles, quando tocou um telemóvel, o do carabinieri. Levou-o ao ouvido e disse "ah, sí, mamma", ao mesmo tempo que dirigia um gesto de desculpa ao ladrão de carros. O miúdo assentiu, compreensivo, e ficou à espera, olhando ora para o céu ora para os sapatos, enquanto o carabinieri ouvia da mãe o que, a julgar pela cara dele, deduzi ser um reprimenda.
A fim de uns minutos, desligou e pediu desculpa ao detido: 
- Scusami, lo sai come sonno le mamme…
- Lo so, lo so, signor carabinieri, per carità… - respondeu o preso, com um gesto de compreensão infinita.»

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Roma Roma Roma

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Roma 3 - Barcelona 0

terça-feira, 30 de maio de 2017

O terceiro filho da Loba



Amo Roma. Desde que lá comecei a ir, tinha 13 anos. Depois voltei. Uma, duas, três vezes. Na última nem podia andar, mas fomos felizes numa Vespa à Nanni Moretti que tornou o mapa mais fácil e permitiu a viagem, desenhando esses e mais esses por todas as ruelas e avenidas. De que saltávamos para um gelato e um café. 
De Roma guardei sempre o prazer pela vida. A alegria e o apetite pelas coisas boas e lindas que ela nos pode dar. Fosse num beco da via Margutta, na 'Fabriano', onde se compram lápis e cadernos, ou numa igreja onde nunca entrámos antes e cujos tectos nos comovem, e que nos salva do calor ocre e húmido antes de nos mandar para uma esplanada no Campo dei Fiori. A Grande Beleza. 
Amo Roma.
E Totti é tutta la Roma. Não precisou de vencer muitos títulos pela nossa amada cidade, mas é. Um campeonato, duas Taças de Itália e duas Supertaças. E essa história acaba aqui.
Não é, então, por isso qu'il Capitano ganhou o respeito da história. Nem sequer por ter sido campeão do mundo, quatro meses depois de uma fractura do perónio de que recuperou contra médicos e prognósticos, só porque queria. Como se antecipasse o destino que o faria desempatar um 0-0 horrível no prolongamento dos oitavos de final contra a Austrália com um penalty marcado ao ângulo. Não. Não é por isso.
É que no mundo-cão do futebol é coisa rara tanta devoção por um só clube e pela cidade que nos criou. No meio de tanto mercenário, de centenas que só vêem fama, instagram, prémios e dinheiro, este príncipe fez diferente e escolheu o amor puro. Que só se tem quando se é menino. Pela terra e pela família. 
E, mesmo que o tivessem dado tantas vezes como acabado, sempre com a alegria de quem ainda brinca no bairro. Sempre com um bocadinho mais de Arte para oferecer... bem, a... todos. 
Agora, com 40 anos (olha outro desta geração), fez o último jogo pelos giallorossi e diz que tem medo. Vai deixar a loba do Capitólio e eu não sei quem fica mais órfão: se ela, se nós, que amamos o futebol e o eterno regresso a Casa.

sábado, 19 de março de 2016

"Alegria de Viver", por Clara Ferreira Alves

Roma, Outubro de 2010
(foto: andré raposo)


"Há uma razão para não deixar a Alemanha tomar conta da Europa. Chama-se alegria de viver.

Já estiveram dentro de uma estação de caminho de ferro na Alemanha? A famosa Hauptbahnhof? Olharam para a comida? Desceram às catacumbas e encontraram os despojos do brigadismo alemão e os despojos do movimento punk cobertos de piercings, tachas e botas com esporas? Despojos a que se juntam os junkies e os bêbados e vagabundos crepusculares? Ou o nazi errático com a suástica a sair do músculo? Uma hauptbahnhof só é bem apreciada ao anoitecer e nos recantos subterrâneos. Nunca se viu gente mais infeliz do que esta. E basta olhar para a cara da pobre senhora Merkel, acossada pela extrema-direita, para perceber que a felicidade não reina ali. Agora, olhem para a bem mais modesta estação de caminho de ferro de Bolonha. A Stagione Centrale. Nada a assinalar, pessoas com ar decente, viajantes velhos e novos. Gente composta. No modesto bar da estação, Santa Margherita, encontramos uma variedade gastronómica digna do Fauchon em Paris ou do Dean and DeLuca em Nova Iorque. Sem exagero. E muito mais barata. Numa mesa com cadeiras de plástico de design italiano, uma velhota beberica um copo de vinho tinto, um pequeno copo de vinho tinto, com uma sanduíche de presunto de Parma cor de rosa e transparente. Isto é o cúmulo da civilização. O expresso é perfeito, fazendo morrer o Nespresso num segundo. Não se vê um bêbado. Aliás, com tantos vinhos e tão generosamente bons, é raro encontrar-se um bêbado italiano aos uivos nas ruas. Em compensação, sobram os bêbados da Europa do Norte. Uma viagem em Itália chega para perceber que deviam ser os italianos a mandar na Europa. Eu sei, a trapalhada, as berlusconices e tudo mais, mas não são cínicos como os franceses, nem snobs, têm da melhor paisagem e cultura disponíveis, do mais apurado sentido estético, e uma infinita alegria de viver. Têm livrarias e bibliotecas maravilhosas. E a herança do Umberto Eco, o último intelectual europeu bem encarado. Os italianos são um povo feliz. Na Emilia Romagna, de que Bolonha é a capital, os habitantes têm índices de felicidade comparáveis aos do Butão. Agora, experimentem passar um tempinho em Essen ou em Frankfurt e digam se gostaram. A Itália e a Grécia têm apanhado com a crise dos refugiados em cima e têm tido um comportamento exemplar. Não existe uma rua de Florença, Nápoles, Roma, Bolonha, Milão ou Veneza sem a suprema abundância de africanos a vender malas Prada chinesas. Não existe um beco mal-afamado onde não vagueiem migrantes e refugiados das guerras do Médio Oriente, do Afeganistão e Paquistão, do Norte de África. Nos esconsos da estação central de Roma, a Termini, as máfias de contrabandistas resolveram apadrinhar o tráfico humano e usar os refugiados menores como correios de droga e prostitutos. Existe um grupo constituído apenas por egípcios, quase crianças, que os pais enfiaram nas galeras do Mediterrâneo depois de terem gasto todas as poupanças para os entregar aos contrabandistas. Acham que a Europa os salvará.

E nem vale a pena falar dos líbios e dos sírios.

A Polícia italiana vai desbandando mas no dia seguinte eles reaparecem, e o tráfico continua. Dentro da estação, no bar, calmamente, o cidadão italiano bebe o seu expresso ou o seu Chianti e come o seu tramezzino ou cornetto, lê o seu jornal sem um sobressalto. Lá fora, desde os atentados de Paris, carros militares e soldados com metralhadoras vigiam as estações e os monumentos, as praças e as catedrais, e nem por isso a paisagem se deprime. Existem manifestações pela abertura das fronteiras dos Balcãs aos refugiados. Não existem manifestações noturnas de nazis, não existe uma Aurora Dourada ou uma Marine Le Pen. Existe uma extrema-direita sem expressão eleitoral perigosa. A Itália, que não é rica como a Alemanha, tinha todas as razões para ter a sua Frauke Petra. Os seus “patrióticos” Pegidas. Que não se dariam bem com os seus Corleones.

A alegria de viver ajuda muito. Num país onde a beleza é uma coisa natural, a comida é gostosa, o sol brilha, as pessoas têm menos tendência para o azedume. E ninguém, em Itália, acompanha carne com um litro de cerveja ou bebe uma malga de café com leite por cima do peixe. Há que dizê-lo com frontalidade: os alemães são uns tristes. E já que estamos na sociologia de bolso e no empirismo filosófico, com quem preferia beber um belo Barolo? Comer uma massa tartufata? Com a Frau Merkel, ou com a Frau Frauke, ou com Renzi? Um país que deu à luz a Monica Vitti e o Antonioni não se pode comparar com o país que deu à luz o Rainer Werner Fassbinder e a Dietrich. Olhem para as caras.

A Europa está condenada. A tristeza da Alemanha vai continuar a mandar em todos nós e só pode acabar mal. Estamos tristes e acabaremos tristes. E, quem sabe, nas mãos de gente que não gosta de gente estranha. Nem de viver."
in 'Expresso', 19.03.2016

terça-feira, 28 de abril de 2015

Ciclo Rossellini no Nimas



«17 de Novembro de 1973 foi a noite da mais memorável sessão de cinema do meu filme da vida. Nunca tive outra igual e duvido que venha a ter. Passou-se, ou fixou-se, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian e o filme projectado na tela chama-se Roma Città Aperta. [...]
Quando Rossellini chegou à Gulbenkian, não cabia na sala um alfinete. (...) Não se ouviu uma mosca durante os 100 minutos de projecção do filme (...) Quando apareceu na tela a palavra "fim", a sala levantou-se em peso para a maior ovação de que me recordo em sessões de cinema. No palco, Rossellini "com uma emoção que não disfarçava, mas também não exibia" como escreveu Helena Vaz da Silva no dia seguinte, esperou 10 minutos (não exagero) antes de conseguir agradecer. 10 minutos em que os "bravos" deram lugar a distintíssimos brados do género: "Abaixo o fascismo" ou "Liberdade, liberdade". [...] à saída as pessoas abraçavam-se e muitas choravam. Quem não esteve lá nunca imaginará. [...] Rossellini estava espantadissimo. O filme tinha tido acolhimentos desses, mas em 45 ou 46, no fim da guerra e do fascismo em Itália. Vinte e oito anos depois que "aquilo" ainda funcionasse assim, parecia-lhe da ordem do inexplicável. "Que país era este?" Lá lhe expliquei como pude. Foi então que Langlois, mais frio, me disse que o país podia ser assim ou assado, mas dentro de bem pouco tempo muitas coisas se iriam passar aqui.
Habituado, há vinte anos, a frases dessas, respondi-lhe com enorme cepticismo. Alguns meses depois, a seguir ao 25 de Abril, lembrei-me desse comentário e perguntei-lhe porque é que ele tinha dito aquilo, como é que tinha adivinhado, "Sabe"- ripostou-me - "o cinema mudo ensinou-me a ver muito". Não foi a algazarra  que me impressionou, mas as caras das pessoas. As caras dos maus e as caras dos bons." E repetiu, a rir-se: "Le cinéma muet, le cinéma muet"

João Bénard da Costa, Os Filmes da Minha Vida, Os Meus Filmes da Vida,
Assirio & Alvim


NB: Não estive na Gulbenkian em 1973. Não era vivo sequer. Todas as memórias que tenho do 25 de Abril derivam do que os Pais sempre me contaram, do antes e depois, do que li nos livros de História e das imagens que vi em documentários ao longo de 37 anos, tudo se sobrepondo num enorme cabaz heróico que é o meu próprio imaginário. Não vivi, por isso, este momento mágico que Bénard da Costa relatou.
Mas fui hoje ao Nimas, recuperar a versão restaurada de uma história contada por um Mestre contador que é bem de ir às lágrimas. A grande Anna Magnani, no papel dessa mulher latina e honrada que tudo sacrifica pela família, pelo amor e pela pátria. O padre Don Pietro, homem da Resistência à ocupação nazi, pedindo a Deus que amaldiçoe os verdugos que torturam até à morte Giorgio Manfredi. As crianças e o futuro da cidade eterna.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Haverá pior do que Totti ?

Nunca este imperador tinha marcado em Inglaterra. Mas nunca também é tarde demais para se mudarem as coisas. Um golo que não é só golo, mas Super-Arte, como se ouviu num relato.
E quem é que diz que o terceiro filho da Loba do Capitólio tem quase 40 ?

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

"Haverá pior do que Nero ?" *

(Hubert Robert, 1770-1790)

«Têm sido realizados muitos filmes sobre Nero, mas nunca resistem a transformá-lo numa caricatura. Não há qualquer necessidade de o fazer; ele próprio já era caricatural. Essa depravação pitoresca atrai os biógrafos. Eu nunca seria capaz de escrever uma biografia de São Francisco ! E de certeza preferia jantar com Nero do que com Adriano.
(...) Ele era um monstro. Mas era mais do que isso. E aqueles que o precederam e lhe sucederam não foram melhores. Os monstros verdadeiros, como Hitler e Estaline, não tinham imaginação [como a de Nero]. Mesmo hoje, estaria à frente do seu tempo. Escrevi o meu livro há 35 anos, precisamente porque queria reabilitá-lo.»
Roberto Gervaso, sobre "Nerone"

"Haverá sempre dificuldade em 'reabilitar' um homem que, segundo testemunhos históricos, encomendou o assassínio da sua primeira mulher, Octávia; pontapeou até à morte a segunda mulher, Poppaea, quando ela estava grávida; ordenou o assassínio da própria mãe, Agripina, a Jovem (possivelmente depois de ter relações sexuais com ela); talvez assassinasse também o seu irmão adoptivo, Britannicus; deu instruções ao seu mentor, Séneca, para que cometesse suicídio (o que ele fez, com solenidade); castrou um jovem adolescente, casando-se de seguida com ele; supervisionou o incêndio de Roma, em 64 d.C. e atribuiu as culpas a um grupo de cristãos (incluindo São Pedro e São Paulo), que foram presos e decapitados, ou crucificados e atirados às chamas para iluminarem uma festividade imperial. As provas contra Nero parecem ser definitivas. E no entanto... "

in National Geographic - Setembro de 2014

* poeta Marcial.

quinta-feira, 6 de março de 2014

'La Grande Belezza', de Paolo Sorrentino


Mamma Roma !
(e Sorrentino num bonito discurso dos óscares agradecendo o prémio a Fellini, Diego Armando Maradona, Roma e Napoli)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

"Commedia dell’arte"


Só em Itália. 
É que não arranjo melhor título para adjectivar os fellinianos manifestantes que se reuniram ontem na Piazza Farnese, em Roma, para protestar contra a condenação de Silvio Berlusconi a sete anos de cadeia e à inabilitação perpétua para o exercício de cargos públicos por incitamento à prostituição de menores e abuso de poder no chamado caso Ruby.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Francisco I: "Os Cardeais foram buscar-me ao fim do mundo."



Jesuíta e porteño, qualidades inspiradoras. 

(Impossível não emocionar. Em Roma, ao princípio da noite, debaixo de chuva, uma multidão em espera.)

segunda-feira, 4 de março de 2013

A origem das espécies (continuação)

«(...)
Os alemães simplesmente, não têm jeito para viver. A dolce vita dá cabo deles. Não troco a noite de Nápoles por um serão em Munique. Não troco um penne por um bratwurst. Nem os telhados de Siena pelo castelo de Würzburg. 
Entra-se numa igreja alemã (a Baviera é católica, terra do pobre Bento XVI, um alemão vencido pela decadência romana), e percebe-se o sofrimento, a expiação, o sacrifício como templo de vida. Os apóstolos andam armados. Entra-se numa igreja italiana e vê-se o deboche como suprema representação de vida na arte.
Os alemães pensam que a dolce vita é um nome de um cocktail esquisito. O pior é que temos de viver todos juntos na Europa.
Ou a Alemanha se habitua ao sul onde tanto gosta de se banhar ou desiste. Nunca seremos alemães. Somos uns trapalhões.
Uns palhaços (pobres). Uns ladrões.
Scientifico, no ?

                                                                  Clara Ferreira Alves
                                                                  'Expresso', 2.03.13


- Roma, Outubro de 2010 -
(foto andré)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A origem das espécies

« (...)
- É essa a raiz da realidade europeia, hoje, onde certas elites falam nos "preguiçosos do Sul" face aos "competentes do Norte" ?

- A raiz histórica está mais atrás, no luteranismo. O ódio do Norte ao Sul vem da inveja. Eles não suportam o nosso sol, a boa comida, certa moderação nos costumes, na maneira de viver e de trabalhar. Os povos do Norte foram sempre organizados, como queria Lutero - um bandido do pior. No Sul também havia grandes bandidos, alguns papas, como Alexandre VI. Essa divisão entre luteranismo e catolicismo atravessa, hoje, a Europa. Antes de os países do Norte falarem de Portugal, que desprezam, e da Grécia, que ignoram, passaram séculos a falar da Itália. Mas é uma das maiores economias da Europa e funciona tão bem como o Norte - e este não perdoa isso. "Tanta criatividade, come-se tão bem, levámos séculos a fazer coisas e não construímos nada [tão único] como Roma..."»

entrevista a António Mega Ferreira, 'Visão', 31 de Janeiro de 2013




Roma, in vespa, Outubro de 2010
(foto: andré)

domingo, 21 de outubro de 2012

Lamento, mas Woody é Woody

Depois dos europeus se terem apropriado dele, uma nata de gente autorizada (que colecciona filmes como se fossem cromos), caiu no pior dos vícios: comparam agora vinho novo com os Vintage de antigamente, e nem se apercebem que perdem a oportunidade de saborear os taninos que ele nos oferece.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Os telhados de Lisboa III



Adorava, mas não podia. No estrangeiro. 
Respondia quando lhe perguntavam se era capaz de viver fora de Lisboa.
Às vezes até bebia o perfume venenoso das outras. De Nova Iorque que não se cala, ou de Paris que é sempre linda. Também Roma por parecer tanto connosco ou (sonho !) Buenos Aires se pudesse viver sempre apaixonado.
E por isso adorava, mas não podia.
Não podia deixar Lisboa, renegar a única cidade que era sua. A sua. Porque só pensava na falta que lhe fazia só a ideia. Nesse quase terror de ficar sem ela.
Deitar junto ao rio. Na rua que à noite sobe ao Chiado, e que desce durante o dia para o Cais do Sodré. A rua de arbusto. De hotel. Do Alecrim. Não a podia perder.

Acordar nos telhados de Lisboa. Ao lado dela. Ficar sem os telhados. Sem os bocados que conhecia, estes bocados que trepam uns pelos outros. Onde gosta de trepar. Que sempre trepou. Aliás, adorava telhados. Desde pequeno. Mas só os telhados que vêem luas, que sabem cantar e dizer poemas. Que bebem e também choram. Não podia. Que fazia depois ?
Onde escorregava depois ? Onde é que depois deslizava nas ruas enoveladas da Mouraria ?, que metem para a Graça que avista tudo e é da Sophia, e dão no Chapitô. Que desaguam depois para os lados, para baixo, para a Baixa, e sobem outra vez pela Nova do Almada, das livrarias, do velho Tribunal da Boa Hora, das lojas néons, de hotel com vista para a cidade, para parar e beber ali ao final da tarde, no Largo Camões.
Perder o calor quando é verão e a luz que ela expulsa, que ela expulsa. Que despeja. Que vem da limpeza respirada do oceano. 
E perder a torta Calçada do Combro onde à esquerda repousa um Adamastor cheio de barbas.
Lisboa. Belém tão boa de manhã. E a Marginal ? dos comboios sempre ao lado, a chegarem sempre primeiro, onde ficava depois ?
Isto é amor. E, por isso, embora às vezes sofresse do mal de todos os viajantes quando regressam a casa, a saudade do charme (impulso de partir) que o exotismo viperino do novo todavia nos lança, não podia. Gostava demasiado dela.


domingo, 1 de maio de 2011

fim-de-semana de 716 páginas

"Cassino, Italia 1944. La Collina del Monastero si erge sul campo di battaglia insanguinato. Fortificato dai tedeschi, costellato di posti di osservazione, mitragliatrici e mortai, è una immobile ma costante minaccia per gli uomini al riparo dietro le trincee: la manovra di sondamento che tentano di eseguire spianerà loro la strada per Roma. Ma la nostra storia parla di uomini e non di montagne..."

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Mamma Roma

(rasputine)

A única forma de um coxo (meio louco) percorrer Roma é de Vespa. Não é que não haja outras maneiras, mas a única forma de um coxo (meio louco) percorrer Roma é de Vespa. Oiço o médico, você é louco ! neste estado ? a Roma ? de Vespa ? você é louco.
Não adio outra vez e como não dá para andar, alugo uma bengala a motor. A partir de uma certa idade um homem tem o dever de zelar pela sua integridade física, lá diz o médico outra vez. A Roma, de Vespa, neste estado ? você é louco.
Pois. E continuar provavelmente a dar chutos na bola, e um dia mandar-me de pára-quedas e pegar nos miúdos às costas e levá-los ao Pico, e rebentarem-me os joelhos, e estalarem as vértebras, só para eles verem aquele bocadinho de céu, aquele bocadinho de Deus.
Pois, Grande Chefe, vai ter que ser, mas esteja tranquilo que a cicatriz que fez com o canivete será bem tratada, não se preocupe e vou chegar melhor do que fui.

Pego na 125, muito mal tratada, amolgada, direcção torta e pesada, espelhos que não servem, travões que só muito apertados. Parece a minha perna. Mas não derrapa, nem quando caem umas gotas que ensaboam os paralelepípedos que se espalham nas ruas. Aqui não me querem mandar ao chão. Os carros. E ela aguenta-se bem. É responsável.
Percebo Roma ao lungotevere e daí entramos onde queremos. Café no "Rosati", café no "Greco", ou num qualquer do Campo dei Fiori. Ao lado do Cinema Farnese que exibe "O Segredo dos Seus Olhos". Só não entro porque deve estar dobrado. Café e um cigarro aceso no fósforo do restaurante do outro dia. 
Trastevere, o bairro alto aqui é baixo, dizia o Mega Ferreira. É a quarta vez que venho e só agora a começo a conhecer. A bengala a motor é que faz isso tudo. Obrigado, garota.
Dói-me o negro da barriga da perna. Faz com que durma não sei como. Se estivesse aqui o tipo que me espetou a chuteira dizia-lhe duas. Aguenta, senão o médico é que tem razão. O buraco está menos buraco. Da perna, porque nas ruas são tantos que é um milagre não ir ao chão. Mas aqui não é Lisboa. Roma em Lisboa é que era, oiço dizer. E as romanas estão lindíssimas.
O dia cinzou e entro na livraria Fanucci. Há um livro do Pratt na prateleira. Tantos prats. Caro. Mas não vou pensar nisso quando estiver-lhe a ler as páginas e desenhos a preto e branco. E um dia dou-o aos meus filhos. Em Portugal nunca o editaram - "WWII, Storie di Guerra". Vem comigo italiano.
Os monumentos cá continuam, mas já não me interessa nenhum, embora lhes sentisse a falta a todos. Só me apetece as ruas. Sujas. E os Cafés. E almoçar, outras vezes jantar. Conversar. Cláudio, o taxista. Da Lazio. Michele, o recepcionista. Cristina, a cozinheira. Ver livros. E livrarias. De cinema. E trazer coisas para os putos. Está calor e ando de t-shirt na bengala a motor. Porque sabe bem. Não ter só a perna a chatear. E aqui não me querem mandar ao chão. Aqui não pode ser, que aqui ainda tenho o médico na cabeça.
E aqui nem buzinam. Só querem passar.


Roma é uma cidade decadente, diz-me o senhor de 50 anos que me ajuda a puxar a mala. Respondo que foi sempre assim. Por isso é que é eterna.
E Berlusconi, o caimão, ainda manda.

(rasputine)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

no bolso


"Mas também é verdade que, no sentido mais comum, a corrupção não existe em Roma, como disse Pasolini, «porque para haver corrupção é preciso que tenha havido pureza a corromper - e Roma nunca foi uma cidade pura»."

António Mega Ferreira

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Vacanze Romane"

Um filme um bocado ridiculo, do tipo conto de fadas, naquele estilo hollywoodesco romântico de quem vem conhecer a Europa antiga. Ela é uma princesa (e não é metafora) e ele jornalista. Paparazzo. Mas ele não sabe que ela é. Ela decide fugir dos claustros onde a submetiam. E vai aventurar-se. Encontram-se sem se saberem.
Ela, como toda a princesa, não tem dinheiro; e ele, como todo o paparazzo, persegue a princesa, que nao é ela. Não pode ser. Uma plebeia, sem cheta, que encontra perdida na cidade ? Sozinha ? Naaa...
Mas dá-lhe boleia que é bonita. Quase bela. Uma amorosa Audrey Hepburn agarrada (de olhos fechados de medo, vejam bem !) na cintura do bem falante Gregory Peck. Deslizando  em redor do Coliseu. 

domingo, 3 de outubro de 2010