sábado, 24 de abril de 2010

Cadernos Marroquinos - 3º Dia

Levantámo-nos cedo no International Youth Hostel de Fés. Retemperados e ansiosos. Dois pães pequenos e um café com leite para a rota de Erfoud.
O calor começou cedo a apertar. Abril ia desaparecendo para nos mostrar Marrocos.
Foi um dia longo.
As pistas de asfalto em Marrocos levam o dobro (ou triplo) do tempo a fazer. Como só dão para carro e meio, sempre que nos cruzávamos com alguém em sentido contrário, tínhamos de meter os pneus do lado direito para a berma. Inicialmente, éramos nós que nos esquivávamos. À medida que fomos ganhando confiança, deixámos de o fazer. Os outros que se enfiassem na terra batida. Eram duelos da estrada. Ganhava quem tivesse mais sangue frio.
Por isso mesmo, são caminhos que têm de ser trabalhados, merecidos. Os escassos 472 kms desse dia foram o tributo para quem quis atravessar os montes e vales que levam a Erfoud.
Só noite feita lá chegámos, depois de passarmos pelo Midelt, Er Rachidia e pelo fabuloso Oásis do Ziz. Ziz que é rio .
O Oásis do Ziz... Nunca tinha visto nada assim. Deixei a vista perder-se naquele denso palmeiral que se estende imenso num tapete pelo desfiladeiro do Ziz abaixo.
Nunca um rio fez tanto sentido ! Como na aridez e secura supremas pode nascer, milagre do Alto Atlas, um fiozinho de uma água tão pura e doce que abençoa tâmaras e faces refrescadas.
E uma menina, que acompanhava o irmãozinho já pastor, deixou-se fotografar.


Mesmo quem não quer, nesse momento, acredita em Deus !

Seguimos viagem.

Rashid e Mustafa
Um de turbante azul, o outro com um branco.
Apareceram feitos do nada, feitos de pó. Parecem brotar do chão. Mustafa fazia o jantar. Rashid, depois, levar-nos-ia para o deserto de Merzouga. Tudo entre amigos.
Fomos com eles. O Mustafa preparou uma kalia apuradíssima (carne de borrego cozinhada com especiarias e azeite), um kebab apimentado e ovos escalfados, acompanhados, como é de lei, de um thè a la menthe. No final, um melãozinho doce.
Para retribuir, fomos buscar umas garrafas de “Borba” ao porta-bagagens. Os olhos deles brilharam. Mustafa, como não tinha um saca-rolhas, aqueceu o gargalo, encostou uma das garrafas à parede e sacudiu-a em movimentos secos para a rolha saltar. Custou ver o vinho ser agitado, mas resultou. A seguir, sentados, o copo ia rodando por todos. Eles bebiam de “penalty”. Chorávamos o desperdício. Mas fossemos lá explicar-lhes isso ! Em vez de o deixarem escorrer pelas papilas, engoliam-no. Como o álcool é crime e pecado deve rapidamente ser despejado no estômago, longe de olhares inoportunos. E conversámos toda a noite.


A seguir viria a história. Acho que foi o Jack London quem primeiro desconfiou da moral daqueles homens.
Queriam à viva força levar-nos dali para o deserto. Não chegámos a perceber se estavam apenas com fito no negócio e nuns cobres a mais, ou se pretendiam outra coisa.
Diziam que já tínhamos feito um trato. Como ninguém tinha dito que sim, estranhámos a pressa. Para eles, porém, já era certo. Tinham-nos dado de comer. Agora era o resto. Tínhamos que ir para o deserto. Dois ou três de nós até queriam alinhar. Ao verem desacordo no grupo, tentaram jogar-nos uns contra os outros, dizendo que quem não quisesse que não viesse, que não era bem-vindo.
Nessa altura, parámos todos. Sem cerimónias, dispensámos qualquer serviço. Enfiámo-nos na Peugeot e fomos embora. Ainda sentimos um pontapé na porta da 505. Alguém viu um punhal.


Partimos madrugada fora rumo a Ouarzazate. Sempre a rodar ao volante para irmos, ainda que aos soluços, descansando um pouco.
Entretanto, parávamos sempre que víamos algum movimento. Encostámos junto a uma mesquita erguida no vazio. Ao longe, parecia haver festa.
Fiz então o meu primeiro negócio nesta terra de berbéres, beduínos, tuaregues e nómadas. Só eles é que se distinguem. Pelo credo ou local de nascimento.
Meti conversa com um sujeito chamado Barí Benaissa, dono de um balcãozinho de Fantas e Coca-Colas na estrada para Ouarzazate. Conhecia bem os portugueses do seu tempo de emigrante em França. Sugeri-lhe que trocasse a cassete que estavam a ouvir, de vozes vibrantes e alaúdes islâmicos, por uma dos “Resistência”. Aceitou, por entre gargalhadas. Daí em diante só a música alegre do Benaissa se ouviria no velho rádio da Peugeot.

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